quinta-feira, setembro 11, 2025

Os bairros não são as aldeias que pensamos (e sonhamos)...


Os bairros não são as aldeias que pensamos.

O bom dia e boa tarde, muitas vezes são enganos. Cumprimentamo-nos mais por empatia e hábito, que por outra coisa. Se pensarmos um pouco, não sabemos quase nada (ou mesmo nada...), destas pessoas com quem nos cruzamos diariamente.

Quem sabe muitas coisas é o ainda jovem merceeiro do bairro, que de vez em quanto fala-me que fulano é filho de sicrano, por me ter cruzado com alguém que me olha como se me conhecesse, sem que saiba alguma coisa da sua vidinha.

Quando nos deixamos de cruzar com estas pessoas, se já tiverem alguma idade, percebemos que desapareceram de circulação. Aconteceu com uma das personagens mais divertidas da rua de baixo, um antigo canalizador que adorava contar anedotas, de todos os géneros. Vivia sozinho e depois de uma queda em casa, os filhos colocaram-no num lar. Esteve lá apenas um mês...

Soube disto na mercearia, que graças à simpatia do dono, vai resistindo ao tempo e às pequenas e médias superfícies que se instalam por todo o lado. 

Ela é quase uma "âncora", onde as pessoas ainda se encontram para falar e saber novidades da vizinhança, mesmo que apenas comprem um pacote de arroz ou o pão para o lanche. Felizmente faz-nos navegar no engano e pensar que os bairros ainda são as aldeias dos nossos imaginários...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, setembro 10, 2025

«Falamos tantas vezes das coisas que não sabemos. Quase sempre, estupidamente.»


Um homem muito delicado e com alguma idade parava diariamente na esplanada do café, quase escondido, onde a Rita toma o primeiro café do dia. 

Um dia qualquer reparei que deixara de aparecer e perguntei à Rita por ele. Ela disse-me que falecera, há menos de um mês.

Nesse momento, senti-me estranho, por o conhecer durante meia dúzia de anos e nunca ter trocado uma palavra com ele, muito menos conversado. As palavras dele eram todas para a Rita, como se me quisesse meter ciúmes. Às vezes referia-se a mim na terceira pessoa, do género "o seu amigo isto ou aquilo". Eram sempre coisas simples e agradáveis, que apanhava das nossas conversas e que faziam a Rita sorrir. 

Depois a minha amiga fez um ligeiro esboço biográfico do homem bem vestido que eu apenas sabia que gostava de ler o "Público", no começo da manhã. 

Publicitário e poeta como o grande O'Neill (trabalhou com ele no começo...), deixava viúva uma professora e também duas filhas e um neto, que nunca conhecera. Uma vez ele ofereceu-lhe um livro, com uma dedicatória deliciosa...

Não falámos da sua aparente ambivalência sexual. Não era necessário.

Foi quando a Rita disse: «Falamos tantas vezes de coisas que não sabemos. Quase sempre, estupidamente.»

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, setembro 09, 2025

«A "estação das chuvas" é igual às outras coisas, foi forçada a mudar, a adaptar-se...»


Costuma-se dizer que fala e escreve sobre o tempo, quem não tem mais nada para dizer.

É apenas um lugar-comum, que não tem de ser, nem é, tantas vezes verdadeiro.

Se estiveres sentado com uma pessoa que sabe mil e uma coisa que desconheces sobre aquilo que chamamos "tempo", que é quase sempre mais coisas que o uso que damos esta palavra simples. Sim, não fica presa apenas ao sol, à chuva,  ao vento, ao calor ou ao frio...

Alguém disse que amanhã ia chover. Ninguém estranhou. Talvez pensássemos que chovera de madrugada durante o fim de semana e que também não se estava à espera, Fingimos que não acreditamos nos meteorologistas, mesmo que estes tenham uma tarefa mais difícil e sejam muito mais fiáveis que há vinte ou trinta anos. de domingo na manhã de sábado que acordámos.

O que ficou desta visitante-surpresa, foi uma frase simples, tão definidora: «A "estação das chuvas" é igual às outras coisas, foi forçada a mudar, a adaptar-se...»

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, setembro 08, 2025

Pouco mudou na mentalidade do empresário português


O que se passou no Oeste na semana passada, com a descoberta de imigrantes ilegais acampados, junto às instalações de uma empresa que explora o cultivo e a apanha da pêra rocha, é um bom exemplo do que se passa no chamado trabalho sazonal agrícola, um pouco por todo o lado.

Se for possível fugir ao pagamento de impostos, mantendo apenas uma parte dos trabalhadores em situação legal, será essa a prática do empresário  português (e também de outras nacionalidades, porque as más práticas "copiam-se", cada vez mais...).

Infelizmente, longe vão os tempos em que o empresário estrangeiro instalava-se em Portugal e era um exemplo nas boas práticas e boas condições que ofereciam aos seus trabalhadores.

Se a entrada na Europa trouxe para o meio empresarial gente nova com uma outra mentalidade e cultura económica, acabando com muitas empresas quase de "vão de escada", passados alguns anos, com o avanço do chamado "capitalismo selvagem", as más práticas regressaram em força ao mundo fabril. Uma das piores consequências foi a normalização do trabalho precário, com os trabalhadores a passarem a ser meros colaboradores...

A aposta no "lucro fácil" encurta sempre a visão a médio e longo prazo dos nossos empresários, e explica em grande parte as dificuldades que o país tem em crescer e competir com a Europa e o Mundo.

(Fotografia de Luís Eme - Monte de Caparica)


domingo, setembro 07, 2025

Uma palavra curta e simples, que diz tanto de nós...


Ao ler o nome de um senhor, que ainda tive o prazer de conhecer, verifiquei que ele "apagou", desde cedo, a letra que fazia toda a diferença, socialmente. O DE desapareceu dos cartões de visita, dos seus escritos e até da assinatura  (deve ter ficado apenas no BI...), ao contrário dos irmãos. 

Fiquei a pensar que há pessoas que fazem exactamente o contrário, são capazes de "somar" um DE antes do apelido final, apenas por este lhe oferecer a ilusão de que descendem de "gente importante" e não das pessoas humildes que lhe deram o berço, mesmo que este não conste na cédula de nascimento.

E ainda fui mais longe. Fiquei a pensar como é que é possível, que uma palavra tão curta e tão simples, seja capaz de nos distinguir tanto, ideologicamente. Sim, traçar o lado que mais nos guia no dia a dia, o esquerdo ou o direito...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


sábado, setembro 06, 2025

As coisas que apanhamos no ar e as outras que "roubamos aos outros"...


Nunca foi tão fácil como hoje, apropriamo-nos das coisas que gostamos dos outros.

Trata-se de algo muito limitativo, aliás, todo este tempo que vivemos é demasiado limitativo. Nunca se seguiu tanto o outro, mesmo quando pensamos que estamos a ser originais.

Percebo que seja cada vez mais difícil pensarmos pela nossa cabeça. O mundo está organizado, para não termos tempo para isso, para "pensarmos pela cabeça dos outros", para sermos mais uma "maria que vai com as outras".

Há ainda "outra rua", onde se juntam para beber copos aqueles que preferem dizer que "já está tudo inventado". Só que o tudo, é sempre muito, em qualquer situação da nossa vida. 

O que importa é como as coisas nos aparecem na cabeça. Quando vêm ter connosco nos momentos que são só nossos, seja na varanda quando olhamos para rua ali ao lado ou para a outra cidade que se esconde quase na linha do horizonte e vemos coisas que mais ninguém vê, ou quando estamos deitados na cama, onde há todo o espaço do mundo para termos sonhos esquisitos. 

Nestas situações, as coisas são nossas, de certeza. Mesmo que sejam fruto de mil e uma influências, desde os livros que lemos às conversas que tivemos com os amigos, dentro de nós são nossas, até porque tiveram de passar pelo nosso "filtro", de gosto e de conhecimento...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


«Não te canses muito à procura da lógica das coisas...»


Há poetas que são mais de dizer e outros mais de escrever.

Conheço uns e outros, normalmente não moram em ruas parecidas nem vestem roupas feitas no mesmo alfaiate.

Os que dizem, misturam os seus poemas com os que mais gostam, dos outros, quase sempre gente com mais de dois metros de poesia.

Os que só escrevem, gostam de falar de outras coisas, ou então de permanecer em silêncio.

Já me devem ter dito mais de cinco vezes a frase que escolhi para dar título a estas palavras. Recordei-a dita pela boca de uma amiga que na passagem dos anos 80 para os 90, morava numa das casas mais pequeninas que conheci (se bem que na China ou no Japão pudesse passar por um apartamento familiar...).

Era uma mulher cheia de particularidades, que também gostava de me ler poesia. 

Curiosamente, a singularidade que mais recordo é o facto de termos dormido juntos também mais que cinco vezes e nunca a ter visto completamente nua. Só descobria a sua nudez através do tacto, era como se a luz tivesse algo de errado. Nunca levei isso para o seu corpo, que sabia que era bonito com e seu roupa...

Como costuma acontecer com os amores antigos, nunca mais nos encontrámos. O mais curioso, é que só penso nela por coisas muito singulares, diria mesmo, muito particulares.

E a frase que mais me aparece, misturada com o seu sorriso trocista e quase sem som, é esta: «Não te canses muito à procura da lógica das coisas...»

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


sexta-feira, setembro 05, 2025

E possível que exista uma explicação, mas...


Não me lembro de assistir a um qualquer campeonato da Europa ou do Mundo, em que uma equipa perde os três primeiros jogos e a seguir vai disputar o jogo dos quartos de final.

Curiosamente, ou não, estou a falar da Selecção Nacional de Hóquei em Patins, que perdeu os três primeiros jogos do Campeonato da Europa com a Itália, a França e a Espanha. Em vez de "ir para casa", depois de três derrotas, foi jogar com a Andorra o tal jogo dos quartos de final.

Devo ser muito estúpido, por não conseguir perceber a lógica deste campeonato. É como se já estivesse tudo combinado, antes do começo dos jogos. 

E também devo ser muito pouco "patrioteiro", por estar a falar deste assunto...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, setembro 04, 2025

Quando o "simbólico" parece ser a única coisa que nos resta...


Já todos percebemos que é muito difícil fazer alguma coisa contra o Israel, um estado militarizado há várias décadas, protegido pelos EUA, a principal potência do nosso planeta.

É por isso que a organização e participação na "Flotilha Humanitária", é um acto de grande coragem, generosidade e solidariedade (conta com a presença simbólica de três portugueses: Mariana Mortágua, Miguel Duarte e Sofia Aparício).

Lastimo a posição cobarde de Portugal e do ministro dos negócios estrangeiros (nem sei como não defendeu Trump depois do nosso Presidente da República lhe chamar um "activo russo"...), que além de não garantir a protecção diplomática dos três portugueses que participam nesta operação de paz, ainda acusou a coordenadora do BE de populista.

Espero que a grandeza da "Flotilha Humanitária" consiga deixar o Israel de mãos atadas, sem saber o que fazer com a situação...

Claro que sabemos que é apenas um acto simbólico, mas não devemos perder a esperança, até porque temos vários exemplos de que há ditadores e regimes que não começam a cair apenas pelo poder das balas, mas sim, por coisas bem mais simples, como uma banal queda de cadeira...

Nota: A única coisa que me apetece dizer sobre o acidente de ontem do Elevador da Glória, mesmo sem saber  ao certo o que aconteceu, é a dificuldade que temos em nos libertar dos facilitismos, que acabam por estar sempre ligados à maior parte das nossas tragédias.

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


quarta-feira, setembro 03, 2025

Esta coisa de termos um primeiro-ministro mentiroso (para felicidade de uns e tristeza de outros)


Desde que se tornou primeiro-ministro, Luís Montenegro tem sido apanhado a mentir, várias vezes. Ainda não chega aos calcanhares de Trump, mas para lá caminha, pelo menos nota-se que se esforça nos "treinos".

Os casos mais gritantes da sua fuga à verdade tem acontecido com o célebre "Spinunviva", que já nunca mais se descola da sua pele, mesmo que não use nem goste de tatuagens. Desde as mentiras iniciais (era uma empresa criada apenas para tratar dos seus "imóveis rústicos", que ficavam, salvo erro, em "Errabá-los" de cima e de baixo...), ao último caso, em que foi capaz de dizer uma coisa de manhã e o seu contrário à tarde (acesso às matrizes dos seus imóveis...).

Na saúde tem acontecido a mesma coisa. Mesmo que os dados estatísticos oficiais digam que há menos médicos de família e mais urgências fechadas, ele é capaz de dizer o contrário, com o seu inconfundível ar "falsamente sério".

Bem podem os meninos "huguinho", "pedrinho" ou "antoninho", aparecerem com as mãozinhas cheias de areia, para nos atirarem para os olhos, que já não resulta. Ganhámos reflexos suficientes para nos desviar das suas brincadeirinhas do jogo, "salva o chefe".

Pelo menos nesta coisa das "fugas à verdade", estamos bem alinhados com os grandes líderes mundiais, também temos um primeiro-ministro que gosta de dizer a sua mentirinha, com o ar mais sério do mundo, para felicidade de uns e tristeza de outros...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


terça-feira, setembro 02, 2025

As sociedades que se habituam a enganar-se a elas próprias...


Ainda não chegámos ao ponto de viver todos os dias como se estes fossem o primeiro dia de Abril, mas para lá caminhamos. É um facto. Nunca se conviveu tanto com a mentira como nos nossos dias.

E quando os exemplos "vêem de cima", das grandes lideranças mundiais, tudo se torna mais complicado...

Falámos nisso na nossa mesa onde a anarquia continua a gostar de reinar. O Carlos até foi capaz de dizer que «já ninguém organiza concursos de mentiras, porque é cada vez mais difícil ganhar a um Trump ou a um Ventura.» Sorrimos, porque continua a ser bom sorrir, principalmente quando se fala de assuntos sérios.

A Rita, acabadinha de chegar da Babilónia, disse que a mentira torna a vida mais fácil para toda a gente, desde o nosso primeiro-ministro, capaz de dizer com um ar sério, que a saúde está melhor no nosso país, ao drogado da esquina que pede sempre uma moedinha a quem passa, "para comer uma sandes e beber um copo de leite". 

Raramente chegamos a conclusões, do que quer que seja. Estávamos fartos de saber que uma vida demasiado certinha não é a coisa mais saudável do mundo, da mesma forma que viver todos os dias "uma vida que não é a nossa", se pode tornar algo cada vez mais problemático e perigoso (a chamada "bola de neve"...). 

E lá voltou o Carlos à carga: «É tudo uma questão de hábito. Somos todos freiras e frades, somos todos animais agarrados e vestidos de hábitos.» E lá veio mais uma risota colectiva. Muito gosta o nosso publicitário de nos fazer rir.

Vinha a caminhar pela Baixa no meio dos estrangeiros de pele branca e calções e vestidos às cores, quando pensei no quanto as pernocas da mentira tinham crescido e esta tinha deixado de ter a perna curta, nos últimos anos. E depois lá me agarrei à vidinha, que se tem tornado mais difícil para quase todos nós. 

Sim, é ela que dá resistência às sociedades que fingem que tudo vai bem, que se vão habituando a enganar-se a elas próprias, dia após dia...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, setembro 01, 2025

É tudo mais simples, até os "efeitos especiais"...


Os meus filhos espantam-se que eu seja capaz de parar o meu tempo e sentar-me no sofá a ver uma "coboiada", num dos canais do agora Star.

Nada daquilo lhes interessa, desde as histórias aos actores, passando pela simplicidade dos diálogos e dos planos de fundo (embora eu só veja os filmes bem realizados onde entram actores e actrizes que gosto. Não consigo ver,  por exemplo ,os westerns falados em italiano - têm demasiado "spaguetti"...).

Às vezes questiono-me, porque gosto destes filmes, alguns dos quais já vi mais de uma dúzia de vezes. Talvez esteja mais agarrado ao passado - ao que já não existe - do que penso. Ou então continuo a gostar das mensagens sociais que são passadas, bastante simples e directas. 

Mensagens que já quase ninguém liga (as guerras estúpidas que se estão a prolongar no tempo e a matar todos os dias inocentes são o melhor exemplo)...

Pegando nas minhas últimas palavras, isso nem devia fazer muito sentido, porque nestes filmes também se "mata por tudo e por nada". No entanto há qualquer coisa em bruto (e também brutal) nestas fitas, que nos ajuda a perceber a natureza humana, até onde vai a ambição e a maldade do homem, sem nos esconder nada, ao contrário dos muitos jogos de palavras da actualidade, onde ditadores como Putin ou Natanyahu, apesar de ser uns assassinos do piorio, são capazes de dizer com o ar mais sério do mundo, que "lutam pela paz"...

(Fotografia de Luís Eme - Óbidos)