quarta-feira, fevereiro 15, 2023

«Perdi o hábito de ir ao café e de estar ali sentado a ver o mundo a passar»


O telefonema soava-me a "urgência". 

Embora soubesse que do outro lado estava uma pessoa complicada, que gostava mais de desenhar e pintar do que falar.

Mas o café era uma fonte de inspiração. Da mesma forma que eu às vezes escrevia em guardanapos de papel bíblia, ele desenhava, projectava... Foi por isso que estranhei.

Foi então que ele me disse que muitos dos amigos deixaram de ir aos dois ou três cafés que ele frequentava durante a pandemia e que nunca mais voltaram...

E foi ainda mais longe, quando disse que não se sentia bem sentado sozinho na esplanada. Viúvo há meia dúzia de anos, só agora é que sente o vazio que ficou em todo o lado.

Isso fez com que insistisse para bebermos um café depois do almoço. Ele disse que sim, mas lamentou-se: «Perdi o hábito de ir ao café e estar ali sentado a ver o mundo a passar.»

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


segunda-feira, fevereiro 13, 2023

Igualdade não é Sermos Iguais...


Continuamos a ter dificuldade em perceber alguns conceitos, por mais simples que sejam.

E é por isso que disciplinas como a "polémica" Cidadania (polémica apenas por sermos um país de burros que se julgam muito espertos e inteligentes...), podem e devem ser essenciais para ajudar os jovens a "ler" e a "entender" a sociedade onde estão inseridos. E depois até poderão ajudar em casa, para que a própria família viva em sociedade de uma forma mais saudável.

Digo isto porque tive alguma dificuldade em explicar a um sujeito com mais de quarenta anos, que igualdade não é a mesma coisa que sermos iguais. Aliás, se nascemos todos diferentes nunca poderemos ser iguais. Podemos e devemos, sim, lutar para que tenhamos os mesmos direitos, as mesmas oportunidades na sociedade...

(Fotografia de Luís Eme - Cova da Piedade)


domingo, fevereiro 12, 2023

"Uma boa conversa continua a ser a melhor maneira de dar e receber conhecimento" (será?)


Estávamos sentados, a conversar sobre a actualidade, quando fomos interrompidos, por uma daquelas mulheres que finge não perceber quando é inconveniente, e cuja única linguagem que conhece é a chamada conversa de circunstância (ou da treta...), que normalmente se fixa na nossa família, na saúde e se tiver espaço, acaba no boletim meteorológico...

Depois daquele interrogatório banal, ficámos a olhar um para o outro, com cara de caso. Para não voltarmos a ser interrompidos naquela casa que já foi de cultura, fomos até ao bar da Salete, que a meio da tarde está sempre calmo.

Entre muitas outras coisas, falámos da história e da identidade almadense, que está a ser empurrada para as traseiras de qualquer coisa, que ainda não se percebeu muito bem o que é. Percorremos o final das indústrias naval, corticeira e vinícola. E até o fim do "operariado", sim, parece que já não existem operários... os trabalhadores ganharam outros nomes nos últimos anos. E talvez eles próprios não querem ser conhecidos por operários... 

E depois fomos até ao associativismo, que também é outra coisa neste século XXI. E para o fim ficou o jornalismo, o nosso e o dos outros.

Depois de nos despedirmos, caminhei até ao centro de Almada, reconfortado pela partilha, por este dar e receber dentro de uma conversa de amigos. Sim, por sermos pessoas quase antigas, sabíamos que "uma boa conversa continua a ser a melhor maneira de dar e receber conhecimento"...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


sexta-feira, fevereiro 10, 2023

A Ilusão de Encontrar algo de Novo, Através da Fotografia...


Hoje à hora de almoço encontrei um amigo no restaurante que mais frequento em Almada.

Acabámos por falar de várias coisas, inclusive de fotografia. Elogiou as imagens que publico aqui no "Largo" e  meu olho para o pormenor.

Disse-lhe que à medida que vamos ficando reféns, desta coisa que é fotografar, temos sempre a ilusão de ir ao encontro de algo de novo, aqui e ali. Escolhemos novos ângulos, como se eles fossem a resposta para o que procuramos. E muitas vezes não é... 

Contei-lhe que na véspera o meu filho descobrira a minha velha "AE 1" e mostrou-se interessado em dar umas voltas com a máquina, depois de dizer que as analógicas estavam de novo da moda. Sorri-lhe e disse que podiam estar na moda, mas que era mais complicado tirar uma boa fotografia com elas, que não havia nada como o digital para se tirarem belas imagens, graças à possibilidade da repetição e da escolha. No mundo dos rolos fotográficos é tudo mais lento e complicado...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quarta-feira, fevereiro 08, 2023

"Milagres" no Meio dos Escombros...


O terramoto que ceifou milhares de vidas na Turquia e na Síria, deixa muitas questões no ar. 

Mas o mais curioso, é que, mesmo nas notícias televisivas que nos últimos anos têm apostado mais no "sangue" e na "morte" que na "vida" (não sei se por influência local, imagino que as primeiras imagens difundidas foram das televisões locais...), têm sido bem mais positivas do que estamos habituados. E ainda bem.

Até agora o maior destaque tem sido a vida humana, os quase "milagres" que têm acontecido, todos os dias, com o salvamento de dezenas de crianças (as imagens de um recém-nascido, que sobreviveu à própria mãe, deixam-nos sem palavras...), que têm sido o foco das notícias, deixando a esperança a pairar no meio dos escombros, muitas horas depois da terra tremer...

(Fotografia de Luís Eme - Arealva)


terça-feira, fevereiro 07, 2023

Doenças, Liberdades e a "Músicas das Mentiras"


Gostamos de tentar explicar as coisas de uma forma simples. Deve ser por isso que se usa e abusa da frase, "a sociedade está doente".

E tanto se diz isto a nível social como a nível político. Tudo o que fuja à norma, pode ser empurrado com a maior das facilidades, para o lado das "doenças".

Nos últimos anos usou-se a palavra "liberdade" para se ir aumentando a distância entre os extremos da sociedade, transformando-a numa estrada cada vez mais larga e diversa, onde se fica com a sensação de que se pode ser tudo e pode-se fazer tudo...

Posso dar dois exemplos: no nosso parlamento nunca fizeram e disseram coisas, como desde que por lá anda sentada a extrema-direita (esta semana até se ergueram cartazes com a fotografia de uma deputada e baterem os pés no soalho, como fazem alguns manifestantes nas galerias, que são prontamente convidados a sair pelas autoridades...). Na sociedade também se tem tentado fintar a dita "normalidade", ao ponto de se terem inventado nos últimos anos vários géneros sexuais, que não se limitam à nossa condição de homens ou mulheres, querem ir muito mais longe, é só escolher.

Continuo a pensar que isto não tem nada que ver com "doenças", tem mais a ver com a desregulação social, que está refém do mau uso da palavra "liberdade". 

Enquanto muitos de nós baixamos os olhos, fingimos virar as costas, metemos as mãos nos bolsos, o volume da "música das mentiras" vai aumentando à nossa volta, tal como o número de dançarinos, que quer é diversão, deixando-se se levar por uma falsa anarquia que os levará à repressão (a história diz-nos que é sempre o que se segue aos períodos onde se usa e abusa da liberdade...).

(Fotografia de Luís Eme - Alcochete)


segunda-feira, fevereiro 06, 2023

Ainda hoje tenta "descodificar a frase: "ser diferente e fazer a diferença"...


Passaram-se uns trinta anos, desde que ele era um promissor actor e houve alguém que lhe disse que só valia a pena continuar ali, se estivesse mesmo apostado "em ser diferente e fazer a diferença".

Foi a pior crítica e conselho que podiam fazer a um jovem, Ainda por cima veio de um encenador. Porque dizia tudo e não dizia nada. Ficou intrigado e ao mesmo tempo desgostoso. Na época pensou que o que o encenador lhe quis dizer, foi que estava na profissão errada, que nunca iria ser ninguém nos palcos.

A frase acabou por ser determinante para que seguisse o conselho (e a vontade...) dos pais e acabar o cursinho e ter uma vida igual a tantas outras, deixando para trás o sonho da representação. 

Finge que não se arrepende da opção tomada, quando vê que muitos dos companheiros com quem se iniciou no teatro também não conseguiram "ser diferentes nem fazer a diferença"...

Mas nos últimos tempos começou a pensar que aquela frase não se referia apenas ao talento, também queria entrar na sexualidade, no que somos e no que desejamos. Recordava-se dos avanços tímidos do encenador, com pequenos toques e olhares quase profundos. Mas ele não era isso. Sabia que era de raparigas que gostava...

O que ele estranhou foi só pensar nisso agora. Nunca antes pensar que o "ser diferente" pudesse estar ligado à sua opção sexual. E até podia não estar. Mas a dúvida estava ali, bem viva...

Quando me contou este episódio, não fui capaz de o ajudar, porque a frase era de facto bastante enigmática. Adiantei que aquelas palavras só deviam ter a ver com o teatro, sem certezas.

Mas mesmo que ele quisesse esclarecer o assunto, já era tarde demais, pois o encenador já não está entre nós...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, fevereiro 05, 2023

A Influência do "Populismo" na Forma como Pensamos e como nos Expressamos...


Penso que o que o populismo tem de mais perigoso, é a sua influência, quase massiva, nos pequenos e grandes problemas com que nos debatemos do nosso dia a dia. Consegue agarrar em qualquer ponta solta (cada vez existem mais...)  e fazer logo um juízo de valor letal. Não só deturpa os factos, como usa as meias mentiras e as meias verdades como melhor lhe convém.

Numa época em que quase todos somos vítimas de uma inflacção que parece imparável, e que tanto mexe com as nossas vidas, é fácil deixarmo-nos enredar pelos discursos populistas, na forma como pensamos e até como nos expressamos.

Mas o pior de tudo isto, é a sensação de que uma boa parte das pessoas, começa a ter preguiça de pensar. É muito importante termos um sentido crítico em relação ao mundo que nos cerca, tentarmos perceber o porquê das coisas. 

Por vezes. basta pensarmos um pouco, para perceber que este "bota abaixo" sobre tudo o que nos rodeia, não nos leva a lado nenhum. Não é por acaso que o que demora a construir em anos, pode ser destruído em segundos e minutos...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sábado, fevereiro 04, 2023

Tem Tudo para Dar Errado...


Li a notícia no site do "Record" e pensei logo que tinha tudo para dar errado...

Estou a falar da decisão tomada na assembleia geral do Clube Desportivo Cova da Piedade (aliás, tomada pelo presidente da Mesa da Assembleia Geral do Clube, através do seu voto de qualidade, após um empate entre 33 sins e de 33 nãos...), de acolher o clube "sem abrigo", cujo nome passou a designar-se por apenas uma letra a B, após ter sido "corrido" do Clube de Futebol "Os Belenenses", que apesar de ser um clube de primeira, não teve qualquer problema em voltar aos distritais.

Felizmente foi subindo todos os anos de divisão e hoje já está na Liga 3, que parece um campeonato de históricos, principalmente na sua zona, onde tem como adversários o Vitória de Setúbal, a Académica, o Caldas, o Alverca, o União de Leiria e o Amora, que já estiveram na Primeira Divisão.

Voltando ao Cova da Piedade, depois de ter tido uma SAD com capital chinês de triste memória, que depois de deixar um rasto de dívidas, decretou falência, volta a "navegar" no erro, ao juntar-se a outra sociedade que pelo exemplo que deixou em Belém, também não honra os seus compromissos. 

Percebe-se à légua que a lei sobre as sociedades desportivas devia ser mais transparente e também mais exigente. Contam-se os exemplos de mais de uma dúzia de clubes, que tiveram de mudar de nome para poderem continuar disputar os campeonatos de futebol. E outros, tiveram de fazer como o Belenenses, começar de novo nos distritais... 

Talvez o exemplo mais recente e mediático, seja o do Desportivo das Aves, que até teve a Taça de Portugal, que conquistou no jogo com o Sporting de triste memória (depois da invasão de Alcochete...), em leilão...

E é por tudo isto que digo, que esta união, tem tudo para dar errado.

E ainda há um aspecto não menos interessante: onde irá jogar esta SAD? Será que vai voltar ao Estádio Municipal da Cova da Piedade, apesar do rasto de incumprimentos que deixou atrás de si?

(Fotografia de Luís Eme - Cova da Piedade)


sexta-feira, fevereiro 03, 2023

«Isto está a ficar bonito está...»


Ela está tomar o pequeno-almoço a ver as notícias que lhe seleccionaram dentro do telemóvel.

Quando disse, «isto está ficar bonito está...», não falou apenas para mim, mas para todos os que a quiseram ouvir.

Depois descobriu que afinal aquele caso de violência era antigo, já tinha sido noticiado algum tempo antes. Não percebia porque estavam a voltar a dar aquela notícia...

Eu percebi mas fiquei ali no meu canto, em silêncio, a pensar até que ponto era real o aumento de violência no nosso país. Na minha experiência prática de andar por aqui e ali, notava mais a falta de respeito e a indiferença pelo próximo, que da violência em si. Mas eu não costumava caminhar por sítios problemáticos.

Mas claro que tinha aumentado, um pouco por todo o lado. Quanto mais não fosse pelo sentimento de impunidade que se sente ao ver e ler as notícias sobre os juízes e tribunais, onde se fica com a sensação de quase toda a gente sai em liberdade, com termo de identidade e residência. O pior é sentirmos que não é uma "justiça cega", tem alvos preferidos dentro de algumas minorias. Mas o mais grave é uma coisa que ainda não percebi muito bem o que é, que tem laivos de marialvismo e até de machismo: o deixar em liberdade, vezes de mais, os cobardes que perseguem, agridem as mulheres que fingem ser das suas vidas. Mulheres, que em alguns casos acabam mesmo por matar, devido à complacência desta justiça, que não deixa atrás das grades estes potenciais assassinos.

A minha dúvida era se o facto de termos uma televisão que se alimenta de "sangue", que transforma qualquer crime, pequeno ou grande numa telenovela, tinha, ou não, alguma influência no aumento da criminalidade no nosso país...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, fevereiro 02, 2023

Pode ser Feliz a "Boa Noite"...


Fico feliz por ter caído em desuso a mania de tornar femininos alguns nomes, notoriamente masculinos. Coitadas das Antónias. das Armindas, das Diamantinas, das Silvinas e das Serafinas, que só não morreram de tristeza com  estas preciosidades, porque preferiram ser "mindas", "vinas" ou "finas"...

Embora continue a haver alguma falta de imaginação na escolha de nomes de estabelecimentos comerciais, as coisas estão bem melhores, hoje que ontem.

Curiosamente o nome da casa de hóspedes que ilustra este texto, não é novo e é extremamente simples e feliz (para mim claro).

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, fevereiro 01, 2023

Voltar, ou Não, aos Lugares onde Fomos Felizes...


Há sítios que gostamos que não nos cansam, somos mesmo capazes de passar por lá quase todos os dias.

Depois há outros, que nos marcaram de tal forma, que temos medo de lá voltar... É como se tivéssemos medo de não encontrar as coisas que por lá deixámos, nos mesmos sítios.

Hoje voltei a um sítio onde fui feliz e não visitava há mais de quinze anos. De repente estava ali, mas era como se não estivesse. Parecia que estava a ver um filme onde só encontrava o agora, porque já havia poucos sinais do ontem...

Acabei por ficar a pensar que tal como há sítios que ficam quase intactos, se fingirmos não ver a sua decadência... Há outros que são completamente  virados de pernas para o ar, por aquela coisa que chamamos progresso...

(Fotografia de Luís Eme - Mar-Tejo)