quinta-feira, agosto 28, 2025

Há demasiadas percepções (e repetições) à nossa volta


Sei que é um problema global, mas incomoda-me o rumo que querem dar ao nosso país, com as percepções a sobreporem-se, cada vez mais, à realidade.

Começou com a imigração, seguiu-se a violência... e agora ficamos com a sensação, de que vai haver sempre alguma coisa que irá ser vista com uma lente de aumentar e de "enganar", usada pelos políticos e pelos editores de um jornalismo, que está cada vez mais virado para o espectáculo e menos para a transmissão nua e crua de factos.

Não quero de maneira nenhuma diminuir a área ardida de Portugal, que é trágica e assustadora, mas devo dizer que fiquei aliviado por neste fim de semana que prolonguei por mais dois dias, perceber que não ardeu "tudo" na Serra da Gardunha e nas suas proximidades. 

Durante a viagem entre Almada e Idanha-a-Nova, não encontrei áreas ardidas (tinha receio de me deparar com um país pintado de cinzento...). Só quando me desloquei para o concelho de Penamacor, a caminho de uma das minhas praias fluviais preferidas, vi com os próprios olhos a devastação provocada pelo fogo, mas a alguma distância das povoações. Depois, em conversa com um familiar, que estava na nossa aldeia quando os incêndios estiveram mais críticos e assustadores na Beira Baixa, ele falou-me da nuvem de fumo cinzenta que invadiu toda a região e deixou vestígios nas casas, nos carros, nos campos e até na nossa garganta (no nosso quintal havia pontos negros, que vistos de perto, se percebia que eram pedacinhos minúsculos de carvão...), que levou as pessoas a cobrirem parte do  rosto com as  máscaras que tinham sobrado da pandemia. Mas foi este mesmo familiar que também nos contou que nem todas as aldeias estiveram cercadas pelo fogo, como foi relatado pelas televisões, cada vez mais reféns da desgraça alheia. Assim que ouviu algumas notícias, ligou logo a um amigo, que o descansou e disse que a sua terra não estava cercada como diziam (e felizmente nunca esteve...), que as chamas aproximaram-se apenas de uma das pontas da aldeia e estiveram controladas. Os únicos problemas era o ar ser irrespirável e a temperatura estar acima dos cinquenta graus...

O que acho de mais estranho nisto tudo, foi vermos a RTP, a SIC e a TVI a funcionarem da mesma forma que o CMTV, aumentando, vezes demais os problemas (repetindo as mesmas imagens até  à exaustão...), em vez de os manterem na escala e no tempo real. 

Mas, a pouco e pouco, vamo-nos habituando a esta forma de governar e de dar notícias, em que as ilusões e desilusões que alimentam as "telenovelas", colam-se cada vez mais à realidade, com a cumplicidade de um moedas ou de um montenegro, que são cada vez mais iguais ao ventura. Só lhes falta fazerem os mesmos "números" ridículos que este faz nas redes sociais, ou passarem a vida a correr atrás das televisões (que também o seguem, "religiosamente"...), sempre prontos para tirar dividendos políticos de qualquer desgraça alheia.

(Fotografia de Luís Eme - Beira Baixa)


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