domingo, fevereiro 28, 2016
sábado, fevereiro 27, 2016
«A si ainda posso pedir para falar mais baixo, agora ir para a rua mandar calar os carros, não dá muito jeito.»
As sessões de poesia têm algumas parecenças com as casas de fado, pedem ambas silêncio. Claro que nem sempre é possível.
Provavelmente a escolha do local para a "Poesia Vadia" não foi a melhor. De vez enquanto passavam carros e até o metro e autocarros na rua. Mas mesmo assim não eram tão incómodos como as duas vozes humanas que colocavam a escrita em dia à entrada da Oficina.
Quando me levantei e pedi para falarem mais baixinho, não estava à espera que o sujeito de cabeça barbeada, me questionasse sobre o barulho dos carros...
Ainda lhe respondi baixinho, antes de virar costas: «A si ainda posso pedir para falar mais baixo, agora ir para a rua mandar calar os carros, não dá muito jeito.»
Claro que não voltei a mandar calar mais ninguém, até por saber há muita gente que não morre de amores pela poesia...
(Fotografia de Luís Eme)
sexta-feira, fevereiro 26, 2016
Uma Bela Maneira de Chegar a Sexta-Feira
Os cabelos brancos são apenas um sintoma, de que já vivemos há algum tempo por aqui, de que já conhecemos os outros um bocado bom. Muitas vezes até mais do que queríamos...
Talvez seja por isso que começamos a sentir quase o mesmo prazer em dizer não e sim.
O mais curioso é nem sequer precisarmos de ser cínicos ou hipócritas, com a mesma medida de quem faz da vida um oficio de fingimento. Pena serem tão maus actores, caso contrário poderiam ter futuro na arte de talma...
Foi isso mesmo. Hoje gostei de dizer não. Seguido de um «não quero e não me apetece.» E gostei também do ar de espanto que provoquei...
Que bela maneira de chegar à sexta-feira.
(Óleo de Juan Carlos Liberti)
quinta-feira, fevereiro 25, 2016
Saudades de Outras Conversas...
Tenho saudades de ter conversas quase malucas, distantes do país dos "larápios" que têm como segunda profissão, políticos ou banqueiros. Conseguir fingir que uma música, um poema, um filme, um quadro ou uma fotografia, são mais importantes que tudo o resto que gira à nossa volta.
Mas o capitalismo é tão cabrão, que já nos espia em quase todas as esquinas da vida.
Se ele fosse o "adamastor" dos nossos tempos como o Adriano lhe chama, ainda havia alguma esperança de se virar este "cabo das tormentas". Mas é muito pior que isso.
Talvez a Rita tenha razão, quando diz que lhe andamos a facilitar a vida, diariamente. Tornámos tudo mais visível, mais fácil de espiar e espiolhar. É quase como se andássemos todos vestidos de roupas transparentes, oferecendo a possibilidade aos outros de descobrirem as cores da roupa interior (quem usa...).
E se até o jornalismo perdeu o respeito pela verdade e pela notícia, desde que ganhou o hábito de inventar, quando não sabe, não nos podemos admirar que ande tanta gente por aí a dar cambalhotas...
Mas o mais grave é não vermos fim à vista deste "pesadelo", cada vez mais próximo das ditaduras. Pesadelo alimentado por toda esta gente mentirosa, bem vestida e bem falante, que olha para o mundo e em vez de ver pessoas só vê a "merda" do dinheiro...
(Fotografia de Luís Eme)
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quarta-feira, fevereiro 24, 2016
A Dificuldade em Definir a Poesia...
Claro que a poesia não é tudo, como uma vez disse. Nem sequer é quase tudo.
Acho que pode, e deve ser, o melhor da literatura, pelo menos em beleza e magia.
Não é uma mulher bonita, nua, com saltos altos, a passear por aí, como gosta de dizer o Ferreira (isso é apenas um belo escândalo...).
Também não é a colagem crua de palavras que usamos em dias de festa ou a rima forçada.
Estive a pensar e talvez a poesia seja o encontro feliz das palavras, que além de ganharem magia, abraçam-se e conversam a pensar no hoje, no ontem e no amanhã.
E sim, mesmo que não seja apenas isso, deve ter a beleza da mulher...
(Fotografia de Joahan Van Keuken)
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terça-feira, fevereiro 23, 2016
«Então, sempre podemos fugir a fingir só por uma manhã?»
Ela fingia-se distraída, como medo de aceitar desafios que a deixavam a caminho da loucura.
Ele insistia: «Então, sempre podemos fugir a fingir só por uma manhã?»
Sem esperar por resposta continuou: «Até podes levar uma mala e fingir que o mundo abriu todas as portas para nós e que convidou o vento a dar-nos um empurrão dos bons. Queres?»
Ela sorriu. E voltou a sorrir. Ele não se fez desentendido.
«Eu sei, um sorriso como resposta é quase um não.»
Ela continuou a sorrir perigosamente e ele sem dar parte fraca disse-lhe:
«Está bem, ganhaste, vou sozinho. Mas vou fingir o tempo todo que estás no lado do pendura. Só preciso de gravar o teu sorriso, para me fazer companhia, enquanto finjo que vou fugir deste mundo cabrão...»
(Fotografia de Antanas Sutkus)
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segunda-feira, fevereiro 22, 2016
A Vagabundagem sem Mestre
Não sei se todos temos algo de vagabundo. Eu sei que tenho várias coisas.
Não gosto nada de andar demasiado "engomadinho", ou "penteadinho". Não sei se esta "alergia" tem alguma coisa que ver com o gosto que a minha mãe tinha em me vestir igual ao meu irmão, de alto a baixo, quando o domingo era um dia diferente dos outros. Onde ainda é possível recordar estas "toilettes" é nas fotos de casamentos, que nem sempre deviam ser guardadas...
Claro que esta vagabundagem de que falo, é "limpa", não tem nada contra a água, o sabonete ou o champô, é amiga do ambiente (meu e dos outros).
Estas coisas da vagabundagem são sobretudo estados de alma. O preferir as calças de ganga gastas às que brilham, é apenas um apêndice.
Não vou tão longe como um poeta amante da vagabundagem, que só a muito custo não começava a rebolar no chão como os cães, com e sem pulgas, mas que às vezes apetece dar um salto no escuro, lá isso apetece...
(Fotografia de Edouard Boubat)
sábado, fevereiro 20, 2016
Reler para Recordar...
Acabei de ler (mais uma vez...) a entrevista que a Anabela Mota Ribeiro fez ao Dinis Machado, para o bonito "DNA", em Março de 2000.
Fiquei a espaços com os olhos brilhantes, a pensar neste companheiro, com quem passei algumas tardes deliciosas, a falar de quase tudo, até do que está dentro dos livros e dos filmes...
Embora não saiba explicar muito bem porque razão volto a reler as palavras do "Dennis", talvez exista em mim uma vontade de estar novamente sentado na frente do homem simples, pouco palavroso, que além de ter sempre os bolsos cheios de coisas giras, partilhava comigo o fumo das suas cigarrilhas...
(Fotografia de Edouard Boubat)
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sexta-feira, fevereiro 19, 2016
quarta-feira, fevereiro 17, 2016
Dilemas Humanos...
Quando se nasce perto do mar ou de um rio largo como o Tejo, é quase incompreensível não se saber nadar, até por uma questão de sobrevivência.
Sim, sobrevivência. Sempre me pareceu estranha a versão de que muitos pescadores preferiam não saber nadar, para em caso de naufrágio, sofrerem menos. Podem sofrer menos, mas dificilmente sobrevivem, pelo menos quando se estabelece uma comparação com os seus companheiros que sabem nadar.
Mas quem nasce a centenas de quilómetros do mar e apenas com ribeiros por perto, pode mesmo chegar à idade adulta sem saber nadar. Com algum jeito, é possível esconder esta limitação, fingindo por exemplo não gostar dos banhos de mar, por causa das ondas e da temperatura da água.
Andar de bicicleta é quase a mesma coisa...
Estou a escrever porque houve alguém que me perguntou: «Se eu te dissesse que não sabia nadar nem andar de bicicleta, o que é que chamavas?»
Claro que a primeira palavra que me surgiu foi mentirosa...
Mesmo sabendo que se pode viver sem problemas de maior, pois nadar ou andar de bicicleta estão longe de ser coisas essenciais no nosso dia a dia citadino.
(Óleo de Pino)
terça-feira, fevereiro 16, 2016
O Monólogo de um Potencial Escritor de Policiais
«Não é nada imaginação minha, ela queria mesmo que eu enlouquecesse. Porquê? Porque o amor está mesmo a menos de um palmo do ódio.»
Olhámos uns para os outros, sem conseguir perceber onde estava a verdadeira loucura. Ele percebeu a nossa incapacidade de dizer o que quer que seja. E foi então que começou a fazer desenhos.
«O seu passatempo preferido nos últimos tempos era mudar as coisas dos sítios e depois perguntar-me se eu sabia onde estava isto e aquilo. Quando eu já estava a começar a duvidar do meu estado psíquico, ela cometeu um daqueles deslizes imperdoável, que vêm dos livros, a chamada "morte do artista", deitando tudo a perder. O que é que eu fiz? O que as mulheres gostam de nos fazer. Mudar a fechadura e colocar as suas coisas do lado de fora da porta das escadas. Sim a rua também é das cadelas.»
Foi então que soltou uma gargalhada sonora e com um grande "latão" perguntou-nos se tínhamos gostado do enredo do policial que estava a escrever...
(fotografia de Ernest Haas)
segunda-feira, fevereiro 15, 2016
O Homem do Cachimbo e os Intelectuais
Há pessoas que gostam de "decretar" o fim das coisas. Como devem calcular, não estou a falar da mercearia de esquina que nunca mais voltou a abrir. E muitas vezes quanto maior é a sapiência, maior costuma ser o trambolhão nestas "certezas"...
Por exemplo, já ouvi dezenas de vezes a frase de que já não existem intelectuais. Não sei até que ponto é verdade, por nunca ter percebido muito bem o que é isso de ser intelectual. E também não tenho a certeza que foi uma invenção dos comunistas, para catalogar os seus pensadores sem qualquer grau académico, mas com um conhecimento profundo de quase todas as teorias do mundo (graças à leitura...). talvez seja apenas um estado de alma...
Mas gostei do ar de surpresa da minha filha ao descobrir na rua um homem de meia idade a fumar cachimbo, algo que ela disse só conhecer das séries do século passado que eu gostava de ver na RTP Memória ("Poirot" e "Sherlock Holmes"). E acabámos os dois a sorrir.
Mas o mundo mudou um bocadinho. Por exemplo, as pessoas que escrevem são cada vez mais normais (só alguns artistas plásticos e músicos é que ainda gostam de se vestir como se estivessem ligados ao mundo da moda...), não usam "papillon" ou boina basca, nem fumam cachimbo. Três "retratos" que também faziam parte dos desfiles do Chiado (que ainda era possível encontrar antes do grande incêndio...), a par das senhoras bem vestidas que enchiam as casas de chá com sacos de compras.
(Fotografia de autor desconhecido)
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