O Tomás é um rapazola demasiado inteligente para se ficar e lembrou-nos da esperança média de vida desses tempos, em que ultrapassar os setenta anos era quase como hoje vencer-se a barreira dos noventa. Respondi-lhe que havia muitos outros factores para que isso acontecesse, como a alimentação muito mais pobre e uma assistência médica quase inexistente, em especial nos lugares onde hoje se continua a sentir mais o abandono...
Mas depois fomos ainda mais longe, falámos da ausência do saneamento básico em quase todo o país, antes de Abril. Dos muitos prédios, mesmo nas cidades, sem a existência de casas de banho. A única coisa que existia era uma pia colectiva, onde se despejavam os penicos, que iam directamente para uma "fossa" (um buraco subterrâneo apenas com paredes laterais, para que as porcarias fossem transformadas em "substrato" e absorvidas pela terra...).
O Tomás, com os seus quinze anos, olhou-nos com alguma incredulidade, até perceber que estávamos mesmo a falar a sério.
Nem me lembrei de lhe falar dos "bairros de lata" que vão crescendo à volta dos grandes centros urbanos, como aconteceu nos anos sessenta e setenta do século passado, onde se vive com os mesmos problemas. Falei-lhe sim da Palestina, da ausência de condições mínimas para aquela gente viver, a todos os níveis...
Depois houve alguém que mudou de assunto e ainda bem. Até porque aquela conversa não era para se ter à mesa, mesmo que já estivéssemos à espera dos cafés...
(Fotografoa de Luís Eme - Cacilhas)
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