segunda-feira, setembro 30, 2024

«Qual é o problema de dizerem o nome, publicamente, de quem fez isto ou aquilo?»


Sei que a companhia dos "amargurados da vida", que passam o tempo a "lamber feridas", está longe de ser a melhor do mundo. Mas quando existe amizade e um passado comum, não faz qualquer sentido fingir que não podemos beber um café, por causa disto ou daquilo, de longe a longe.

Além disso, a sua lucidez continua a ser invejável. O  Jorge consegue ver sempre mais longe que eu, porque continua a percorrer caminhos dos quais fujo a sete pés. Não é propositado este meu sentido de abstração, capaz de me ajudar a empurrar os dramas para um canto qualquer e a seguir em frente, sem andar "a vida toda" a pensar em coisas pequeninas...

O homem que eu conheci há mais vinte anos no mundo das colectividades, além de ser um trabalhador incansável, tinha uma capacidade de invenção muito própria, capaz de nos poupar muitos cobres, pois como todos os artistas, era capaz de dar uma nova vida a qualquer pedaço de lixo.

Quando chegou a fase dos insultos, trouxe para a mesa meia dúzia de "figurões". Escutava-o em silêncio, com vontade de lhe dizer que ele estava a exagerar. Mas o problema é que não estava. Falava de todos aqueles que foram ocupando o poder, aqui e ali, que não tinham qualquer pudor em colher os louros do trabalho dos outros, por viverem "cheios deles mesmos". Sorri quando ele disse, que são sempre os outros a "enfrentar os cornos do touro", e que eles ficam sentadinhos, à espera do fim da "tourada".. 

Não estranhei quando ele me perguntou: «Qual é o problema de dizerem o nome, publicamente, de quem fez isto ou aquilo?» 

Ambos sabíamos a resposta. 

Este é o tempo deles...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


domingo, setembro 29, 2024

Mesmo quando crescemos e vivemos vidas diferentes, podemos não ser assim tão diferentes...


Estava a ouvi-la e a pensar, que, mesmo quando crescemos e vivemos vidas diferentes, podemos não ser assim tão diferentes...

As nossas geografias físicas e humanas saltaram para a mesa, eu que na infância e adolescência, só mudei de casa uma vez, quando passámos de uma casa de renda para casa própria. Se a mudança de casa foi boa, a de bairro nem por isso... Mesmo que nunca nos afastássemos muito dos nossos amigos que lá ficaram. Graças às nossas bicicletas, a viagem entre bairros tornava-se curta, mesmo que ficassem em pontos opostos da cidade.

Ela mudava de casa, quase ano sim ano não. O mais curioso era ela gostar disso... Falou-me de ainda pequenita, gostar de ser a primeira a entrar nas novas casas e percorrê-las lés a lés, ficando parada nas janelas, a ver o que se passava lá fora... O pai fora militar e isso levava-a a mudar de cidade com a tal frequência. 

Hoje vive na mesma casa há mais de vinte anos, mas apetece-lhe mudar, muitas vezes. É por isso que muda os móveis e os quadros de sítio, pelo menos uma vez por ano. E sente uma nostalgia boa quando se recorda das pessoas e dos lugares que conheceu, como se tivesse ficado com um bocadinho de cada um deles dentro de si...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)



sábado, setembro 28, 2024

«As estradas foram feitas ao contrário das pessoas e ainda bem»


Às vezes escutamos coisas, ditas por gente simples, que nem sempre entendemos, pelo menos às primeiras.

Foi o que sucedeu quando um dos amigos do tio, a propósito de uma "birra" de um terceiro amigo, disse: «As estradas foram feitas ao contrário das pessoas, e ainda bem.» 

Ao perceber que não tínhamos entendido a mensagem, o Armando traduziu-a quase por miúdos: «As estradas têm sempre mais quilómetros em rectas que em curvas. As pessoas, dentro delas é ao contrário, só têm curvas e contracurvas...»

Escutei estas palavras, simples e sábias, há uma boa dúzia de anos. Recordei-as, poucos minutos depois de dizer uma coisa com um sentido e ela ter sido entendida com outro...

(Fotografia de Luís Eme - Pragal)


sexta-feira, setembro 27, 2024

Dois espaços de eleição para "dar asas" à "estupidez humana"...


Por ter memória, quando faço comparações entre o ontem e o hoje, não valorizo muito a acção humana.

Oiço demasiadas vezes dizerem que "dantes não éramos assim". Claro que a história desmente todas estas teorias de que o passado "estava cheio de bons rapazes e boas raparigas". Sempre fomos (e continuamos a ser...) capazes de fazer coisas horríveis aos nossos semelhantes.

Durante anos e anos, o espaço privilegiado para a "estupidez humana" dar largas à sua revolta e raiva incontida, foram os estádios e campos de futebol (foram os "circos" romanos modernos...). Aquela gente depois de insultar árbitros, jogadores, treinadores e dirigentes, aos domingos à tarde, abandonava estes lugares, de "alma renovada", preparados para mais uma semana de trabalho, quase sempre difícil.

Com o tempo, o futebol foi-se tornando cada vez mais um espectáculo televisivo e menos um lugar de catarse humana.

Isso fez com que algumas pessoas necessitassem de descobrir novos espaços, para "dar asas" à "estupidez humana", para libertarem a "besta" que têm dentro de si. 

E quais foram os lugares escolhidos? nada mais nada menos, que as estradas e as redes sociais.

Quem conduz sabe que as vias, rápidas e lentas, estão cada vez mais perigosas, graças a quem está ao volante. Basta cometermos um pequeno erro, para soltarmos a "ira" de qualquer condutor, menos feliz com a sua vidinha. O mais curioso, é que a buzinadela do costume foi-se tornando insuficiente, dando cada vez mais espaço para insultos, provocações, e até ameaças de agressões físicas (quase sempre por insignificâncias...).

A virtualidade das redes sociais poderia relativizar a "estupidez humana", mas, infelizmente, isso acontece cada vez menos. Demonstram que ainda é possível ir mais longe e descer mais baixo, na escala humana. Porque não precisam de mostrar o rostos para "atacar tudo e todos" e facilmente metem nas suas cabecinhas, "tudo é possível"...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


quinta-feira, setembro 26, 2024

«Há maneiras diferentes das pessoas serem medíocres»


O tempo vai andando e se há uma coisa que nos vai levando, são as certezas.

E ainda bem que isso acontece. Pelo menos para mim. Gosto de ter dúvidas.

À medida que o "lençol"  se ia esticando, a língua dos presentes também se ia soltando. O que até parecia uma diversão, "versar" sobre a mediocridade e os medíocres, começou a tornar-se um drama. 

De repente parece que "acordámos" e descobrimos que eles não só estavam em todo o lado, como normalmente chefiavam qualquer coisa... 

Pois é, muitos deles mandam em nós (mal ou bem, pouco lhes interessa, gostam é de mandar), querem é que as coisas sejam parecidas com as suas vontades. 

Foi quando alguém "inventou" uma escala de medíocres. E estava certo. 

«Há maneiras diferentes das pessoas serem medíocres», acrescentou a Ana, oferecendo dois ou três exemplos.

Ninguém a contrariou, mesmo sabendo que o mundo seria uma coisa melhor sem a prevalência de tantos medíocres, um pouco por todo o lado, quase sempre com ar de "sabichões"...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


quarta-feira, setembro 25, 2024

O medo que as pessoas parecem ter, em serem "iguais aos outros"...


Não é um problema de agora, talvez até faça parte da essência humana. 

Talvez até seja eu que esteja errado (tal como o meu avô paterno parece que esteve a vida toda...). Mas como fui educado, entre outras coisas, com uma frase muito simples, de que não era mais nem menos que ninguém, esse foi um dos valores que procurei transmitir aos meus filhos.

Não é por alguém ganhar 100 vezes mais que eu, que têm mais direitos como cidadão, que eu. Tem sim, quanto muito, demasiados meios para combater a tal "igualdade" que faz parte da nossa Constituição...

Mas nem sequer vou falar destas pessoas. Vou sim, falar de quem vive pior que eu, ganha menos dinheiro que eu. E mesmo assim, tem medo da palavra "igualdade"... 

São estas contradições humanas que nunca irei perceber. Tal como o meu avô não percebia, muito menos o meu pai...

Esta é também uma das explicações para que um país demasiado desigual, em que a maior parte das pessoas recebem salários inferiores a mil e quinhentos euros, tenha colocado no poder um partido do centro-direita, que se puder, não têm qualquer problema em privatizar uma boa parte da saúde e da educação, privilegiando os seus filhos (é o que se passa com o IRS jovem...), que querem que sejam mais "iguais" que os outros...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


terça-feira, setembro 24, 2024

Quatro mulheres, quatro formas diferentes de exercer o poder


O actual governo PSD/ CDS, dá-nos um bom retrato de quatro mulheres diferentes, que também exercem o poder nos seus ministérios, de forma completamente diferente.

A primeira impressão com que fico, é que elas não divergem assim tanto dos homens, como muitas vezes se diz por aí, quando se fala, por exemplo, da tão desejada sensibilidade feminina, para resolver alguns problemas. Claro que isso poderá acontecer, por estarem em minoria no Conselho de Ministros e como forma de defesa.

Curiosamente, ou não, duas delas, parecem dois "elefantes numa sala", dando a sensação de que são melhores a criar, que a resolver problemas. Falo da ministra da Saúde, Ana Paula Martins, e da ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Maria do Rosário Ramalho. Começaram logo o seu ministério com aquilo que no futebol é apelidado de "entradas a pés juntos". A primeira a Fernando Araújo, a segunda a Ana Jorge, que foram tratados de uma forma ofensiva, algo que é pouco normal entre nós, pelo menos a este nível da magistratura do poder.

As outras duas, demonstram ser mais competentes, e também mais ponderadas. Falo da ministra da Justiça, Rita Júdice, e da ministra da Administração Interna, Margarida Blasco. Apesar de terem uma postura diferente, têm demonstrado estar à altura dos problemas graves que afectam as suas áreas de acção. 

Claro que se trata de uma opinião pessoal, de quem pensa que para a função ministerial (tanto feminina como masculina) o melhor mesmo, é não ser notícia, diariamente, e pelos piores motivos...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


segunda-feira, setembro 23, 2024

«É a primeira?»


Talvez ele me quisesse fazer aquela pergunta há mais tempo. Talvez.

Mas naquela tarde, perguntou mesmo, chamou-me e quis saber se aquela mulher era a minha esposa. Disse que sim. E ele, ainda curioso, foi mais longe: «É a primeira?»

E eu respondi com um sorriso: «É a primeira, e única. Faço parte do "clube" dos homens que só casam uma vez na vida.»

Ele devolveu-me o sorriso e despedimo-nos com um até já.

Os nossos cafés ficavam separados por menos de uma vintena de metros. Quando me sentei na esplanada, ao lado da minha companheira, fiquei a pensar na questão, colocada por aquele homem que conhecia há mais de trinta anos. Talvez eu soubesse mais coisas da vida dele que ele da minha. Talvez.  

Curiosamente, ou não, ele pertencia a um "clube" ainda mais restrito que o meu, o dos homens que nunca casaram. 

Havia várias explicações. Mas a única, com alguma lógica, era ele ser demasiado livre para se deixar prender por uma instituição, que fingia fazer as pessoas felizes. 

Quando o conheci, andava sempre bem vestido (ainda anda, continua a usar calça e casaco, mesmo que hoje apenas faça o caminho de casa até ao café...) e sei que tinha duas ou três namoradas, mulheres separadas ou viúvas. Não tinha problemas em afirmar que nunca se metia no meio de casamentos, quando o tentavam colar a algumas senhoras casadas, em algumas brincadeiras de mau gosto. Como homem livre que era, só procurava mulheres livres...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, setembro 21, 2024

As memórias, com o tempo, tanto podem "azedar" como tornarem-se mais "doces"...


Quem passa uma parte da vida a fazer perguntas sobre os "passados" às pessoas, sabe que as "memórias" têm muito que se lhes diga. Todas. Com o tempo, tornam-se selectivas.

Temos dentro de nós algo que as pode tornar mais "doces" ou mais "azedas", à medida que os anos passam. Muitas vezes isso também acontece devido ao facto de sermos mais ou menos pessimistas.

Pensei nisso ao escutar o "passado" de um senhor com idade para ser meu pai. O mais curioso, é que à medida que ele ia falando, o informador da PIDE da história que contava, ia-se humanizando, caminhava quase para o campo aberto dos "gajos porreiros"...

De repente afastei-me do mundo dos resistentes e pensei no café que a minha avó fazia e que perfumava a cozinha da entrada e as divisões mais próximas. Cada vez que me lembro deste "perfume", a bebida fortificante (mesmo que ainda não de falasse de cafeina...) vai-se tornando mais saborosa. De certeza que a avó comprava do café mais baratinho que havia no mercado. Até porque não existiam nesse tempo as variedades e sabores de hoje. 

Tudo coisas que não lhe retiram aquele gostinho, que ficou na minha memória: de "melhor café do mundo"...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sexta-feira, setembro 20, 2024

«Sou anarquista mas não sou parvo»


Estávamos a falar de comércios, da gente que além de passar o tempo a explorar os outros, ainda se dirige aos clientes como se lhes estivesse a fazer um favor. Normalmente acabam mal. Só conseguem subsistir se não existir concorrência nas proximidades. 

Estava a ouvir e a pensar, Foi o que se passou durante mais de vinte anos na aldeia dos meus avós, até aparecer o vivaço do Tio Zé David, quando abriu o seu "tasco"(naquele tempo estes espaços estavam divididos em duas partes, a mercearia de um lado e a taberna do outro...). Ele além de vender as coisas mais baratas, estava sempre de cara alegre, pronto para animar a festa. 

Eu adorava fazer recados à avó, só para ouvir as suas "graçolas"... 

O outro senhor não fechou a "loja" , apenas por orgulho, mas  foi tendo cada vez menos clientes...

Entretanto o Carlos trouxe para a mesa o exemplo do Fernando, que tinha um café, cuja esplanada abraçou várias tertúlias ao longo dos anos. Houve uma vez um cliente que, depois de mais um aumento da bica, chateado, disse-lhe que se ele fosse um verdadeiro anarquista, não vendia as coisas ao mesmo preço dos outros.

Fernando não era homem para perder tempo com discussões estéreis, por isso limitou-se a dizer-lhe: «Sou anarquista mas não sou parvo.»

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, setembro 19, 2024

Os "fora da lei", que são tão perigosos como os incendiários...


Vou falar pela última vez dos incêndios, pelo menos nos tempos mais próximos.

Incomoda-me bastante que se continue a falar das alterações climáticas, do abandono do interior ou da falta de ordenamento florestal, quando há culpados, gente com responsabilidade, que devia fazer cumprir a  lei, e não o faz.

Os incêndios só chegaram às povoações porque não foi feita a limpeza nos terrenos próximos, alguns dos quais nem sequer deviam existir, porque depois de 2017, foram aprovadas várias leis que delimitam as áreas de floresta ou matas, tanto junto às localidades como junto às estradas.

Infelizmente, o habitual facilitismo português faz com que não se cumpra a lei. A GNR fecha os olhos e não multa, nem obriga as pessoas a limparem os seus terrenos, os autarcas das Juntas de Freguesia, assobiam para o ar e fingem não perceber o risco em que colocam os habitantes de aldeias e vilas, que vivem no meio da natureza. 

Quando  surgem situações climáticas completamente anómalas, com temperatura a mais, humidade a menos e demasiado vento, o fogo transforma-se num verdadeiro pesadelo, quase sempre incontrolável. 

Mas isto não deve fazer com que se esqueçam os dramas humanos, que poderiam ter sido evitados. Para que tal acontecesse, bastava que se cumprisse a lei e se fizesse a prevenção tão necessária...

Embora pouca gente fale deles, estes "fora da lei", são tão perigosos como os incendiários.

(Fotografia de Luís Eme - Oeste)


quarta-feira, setembro 18, 2024

Portugal: o país onde a culpa normalmente "morre solteira"


Tenho lido e ouvido muitas críticas, que falam de "populismo" e de "demagogia", em relação ao discurso de ontem do primeiro-ministro.

Luís Montenegro disse que vão existir consequências sobre a catástrofe dos incêndios, que desta vão atrás dos culpados e dos muitos interesses instalados.

O "populismo" interessa-me pouco. Tenho medo é da "demagogia". Que o primeiro-ministro tenha dito todas estas coisas apenas para "inglês ver", e que amanhã ele e os outros governantes continuem a assobiar para o ar.

Quem está no terreno, sabe que mais de metade dos incêndios são provocados por "mão criminosa". Normalmente são ateados quase em simultâneo, e em zonas diferentes, onde há muito pouca probabilidade de surgirem devido a causas naturais.

E continua a existir muita incúria dos proprietários, que não limpam os seus terrenos, os seus pinhais e eucaliptais (inclusive o Estado...). Quando estes se localizam próximos de povoações ou de casas, têm de ser encarados como práticas criminosas, casos de policia. E nestes casos, também há responsabilidades públicas, tanto da parte das autoridades policiais como do poder local (Juntas de Freguesia e Câmaras Municipais).

Os "comentadores" televisivos agarram-se muito às alterações climáticas, como se elas fossem as grandes causadoras destes dramas, que vão destruindo o país. 

Continuo a pensar que somos nós, os grandes culpados da maior parte das tragédias. Sobretudo quando se trata de povoações. É notório que não fizemos o suficiente para as proteger (as imagens televisivas são o grande exemplo, mostrando-nos terrenos e matas por limpar, rente a casas e a aldeias...). Como escrevi anteriormente, muitos destes culpados têm rosto e nome.

Espero que o primeiro-ministro, (tal como as ministras da Justiça e da Administração Interna nas suas áreas de actuação...), não se fique pelos discursos, enfrente este problema, com seriedade e sem medo. 

Não podemos continuar a fingir que não se passa nada, com a culpa a "morrer solteira".

(Fotografia de Luís Eme - Beira Baixa)