quinta-feira, fevereiro 29, 2024

Talvez...


Lá fora gritam.

É algo no mínimo estranho, a rua é calma. Por vezes até acaba por ser calma demais.

Espreitei à janela e percebi que era uma confusão familiar de um dos prédios da frente. Nem sequer faltou a cena "agarrem-me se não vou-me a ele". 

Parecia um "arrufo de namorados", com pais metidos ao barulho.

Felizmente, um minuto depois regressou o silêncio.

A rua voltou a ser uma das "mais calmas do mundo"...

Talvez se tivessem sentido intimidados com a curiosidade alheia, com a quantidade de pessoas que vieram à janela...

Talvez tenham decidido continuar a contenda familiar dentro das quatro paredes. 

Talvez...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


terça-feira, fevereiro 27, 2024

Ter a mesma "ideologia cultural"...


Estou a preparar uma intervenção, de homenagem a um amigo. Quero fazer algo diferente, quero conseguir transmitir a imagem de alguém para quem a cultura era o motor de quase tudo na vida. E por conhecer as nossas muitas limitações, foi sempre um "farol cultural".

Ele acreditava no que Vergílio Ferreira escrevera um dia (e antes dele outros...), que "A Cultura só se aprecia, depois de se ser culto". Foi por isso que deu muitas "aulas" de cultura, nas muitas colectividades que passou durante a sua longa vida, com pequenos ensinamentos e exemplos retirados no nosso dia-a-dia, oferecendo pequenas pistas de livros que se deviam ler. 

Tinha uma grande bagagem cultural porque gostava de tudo, de literatura (de ler, escrever e contar...), de teatro (de ver, de escrever e de fazer...), de cinema (aqui era mais ver...), de música (mesmo sem ser um afinadinho gostava de cantar - fez parte de um grupo de canto coral - e de tocar a sua harmónica), e de fotografia (chegou a ser premiado em salões de fotografia...).

E tinha uma coisa muito importante, fugia da "cultura chata", aquela que podia dar sono ou fazer com que as pessoas estivessem nos sítios sem lá estar. Tinha a percepção de que que o começo de tudo devia ser agradável, desde os livros até ao teatro ou cinema. Não se podia começar pelas obras mais difíceis de entender, que mais nos obrigavam a pensar. Essas ficavam para depois de se gostar...

Acho que fomos grandes amigos por partilharmos a mesma "ideologia" cultural e gostarmos de espalhar e partilhar as coisas boas de que gostávamos...

(Fotografia de Elsa Carvalho - Cacilhas)


segunda-feira, fevereiro 26, 2024

Mentiras, descontentamentos e dúvidas...


Não sei muito bem bem onde começa a realidade e acaba a ficção, nos números que nos são oferecidos diariamente como o "retrato eleitoral" do partido da extrema-direita.

Isso acontece por todo este movimento - tal como o seu líder - usarem como principal fundamento a mentira. Não há um facto que não seja manobrado e tenha uma leitura muito própria, quase sempre distante do que realmente aconteceu (os "rateres" transformados em tiros são apenas uma pequena amostra...). Até foram capazes de inventar uma sondagem cujo resultado lhes oferecia um "empates técnico" com as duas maiores forças políticas portuguesas...

É por isso que me faz alguma confusão que possam existir pessoas tão "parvas" no nosso país, ao ponto de andarem atrás de um "vendedor de banha da cobra", que é capaz de dizer uma coisa de manhã e o seu contrário da parte da tarde. 

Se o que está em causa é o descontentamento político, existem forças políticas democráticas mais que suficientes (tanto à esquerda, ao centro como à direita) para receberem todas as pessoas insatisfeitas, em vez de se virarem para uma "mentira partidária e política". 

Embora saiba que basta mais um voto, para quem cantem vitória, gostava muito que esta gente desonesta recebesse uma lição de democracia, no dia 10 de Março. 

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


domingo, fevereiro 25, 2024

Tantos dias que têm cem anos (felizmente há a vontade e a determinação de continuar por mais dias)...


Hoje estive na festa de aniversário da única pessoa da minha família que vi chegar aos 100 anos.

É uma pessoa especial, que me acolheu na sua casa, quando vim para a Capital, com dezoito anos. Mas não me acolheu apenas, tratou-me sempre com grande ternura, a espaços, quase como o filho que não teve, tal como o primo Zé.

Ternura que devolvi, de uma forma natural, porque "amor com amor se paga", pelo menos no mundo das pessoas normais.

E como eu cresci nos meses que vivi na Cruz Quebrada...

As conversas que tínhamos (falava mais com a Elisete do que com o Zé...) eram extremamente enriquecedoras. Felizmente o bom ambiente familiar contrastava com a impessoalidade que encontrava nas ruas lisboetas. Embora nunca me tivesse sentido uma "cobaia", sei que a formação em psicologia da Elisete, abria portas e janelas da "minha ainda pequena casinha".

Sei também que me tornei um adulto mais responsável, graças à liberdade e aos bons exemplos que recebi deste casal especial. E também uma pessoa melhor (claro que os meus pais foram as pessoas mais importantes na minha formação e educação, mas este tempo que vivi com os primos Zé e Elisete foi diferente, deu-me outras coisas, muito mais mundo).

É também por isso, que, poder assistir ao centésimo aniversário desta Mulher especial - que continua a manter uma lucidez invejável, para esta idade grande -, deixa-me muito feliz e orgulhoso.

(Fotografia de Luís Eme - Algés)


sábado, fevereiro 24, 2024

O preto e branco, a fotografia e a memória...


Num tempo que já cheira a Abril, pelo menos na fotografia (há por aí grandes exposições, de Augusto Cabrita, Alfredo Cunha, Eduardo Gageiro, Júlio Diniz, Luís Pavão ou Maria Lamas), com a beleza que só é possível ser transmitida pelo preto e branco, fiquei a pensar que as memórias não precisam de cor, aliás, elas próprias nem sempre surgem com as várias tonalidades que pintam os nossos dias.

Talvez sejam elas próprias, que não sintam a necessidade da cor (a não ser que sejam memórias muito expressivas, que apareçam com o mar, a praia, a feira ou o circo...).

Acabei por ficar na dúvida, porque até as pessoas quando me surgem aparecem quase "dentro de uma nuvem", sem que se usem aguarelas.

Talvez seja o preto e branco que pareça ter mais sensibilidade, e até autenticidade, para tratar da memória...

Talvez...

(Fotografia de Luís Eme - Barreiro)


sexta-feira, fevereiro 23, 2024

"Um (Belo) Olhar Inédito" do Mestre Augusto Cabrita


Hoje passei pelo Auditório Augusto Cabrita para ver a exposição de fotografia do patrono desta Casa da Cultura do Barreiro.


Sabia ao que ia, mas ainda fiquei mais satisfeito do que pensava, ao olhar as belas fotografias de um dos grandes fotógrafos portugueses do século XX, o Mestre Augusto Cabrita, neste ano em que se comemora o seu centenário.


E trata-se de certa maneira, mesmo de "Um Olhar Inédito", com belas surpresas e uma excelente diversidade de imagens, que não se ficam pelas nossas fronteiras.

Que bom voltar ao Barreiro, por uma excelente razão.

(Fotografias de Luís Eme - Barreiro)


quarta-feira, fevereiro 21, 2024

É importante desmontar o "mito"...


Quando me preparava para ir para a cama, dei uma voltinha pelos canais e descobri que a RTP2 estava a passar um documentário, "As Memórias do Século XX" (era já o terceiro episódio), fiquei parado um ou dois minutos a ouvir as duas filhas de Cottinelli Telmo, que nos deixou precocemente em 1948 (enquanto pescava foi levado por uma vaga do mar, que se revelaria fatal...). 

Acabei por desligar a televisão, mas hoje, mal me levantei, enquanto preparava o pequeno-almoço, enchi a casa silenciosa com este episódio da nossa história.

Acabei por ficar ainda mais convicto da importância de homens como Duarte Pacheco, Cottinelli Telmo ou António Ferro, no começo da governação salazarista e também na criação do "mito" (pois é, ainda somos capazes de ouvir alguns ignorantes dizerem que "isto só lá ia com um novo Salazar"...). Principalmente o primeiro, que foi Presidente do Município de Lisboa e Ministro das Obras Públicas de Salazar e que morreria estupidamente num acidente de automóvel, em 1943...

Foi um homem de tal forma influente, que deu trabalho a vários democratas (Keil do Amaral, Almada Negreiros ou Pardal Monteiro), contrariando a vontade da própria polícia política e de ministros ultra-conservadores e deixou uma obra que fala por si (sei que já foi comparado ao Marquês Pombal, e esta comparação não é assim tão descabida quanto isso, pois foi capaz de ver mais longe que todos os outros...) e ainda se vê nos nossos dias (há vários exemplos, talvez a Mata de Monsanto seja o mais simbólico...).

Quem muitas vezes elogia o ditador não faz ideia que este homem foi contra muitas das coisas que foram feitas, inclusive a construção da Ponte Sobre o Tejo, que até acabou por ser baptizada com o sue nome. A própria Cidade Universítária, que continua a manter a sua imponência, teve de ser feita quase clandestinamente por Duarte Pacheco, porque Salazar não concordava com ela... 

Continuo convencido que este homem, fechado dentro de si, fez-nos muito mais mal que bem. Ele, que nunca se deu sequer ao trabalho - e ao prazer - de conhecer o que existia para lá do nosso Portugal, atrasado e esquecido...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, fevereiro 20, 2024

Nunca fui (nem quero ser) um purista


Nunca fui (nem quero ser) um purista.

Também tentei sempre fugir dessa coisa, de ser uma "maria vai com as outras". Desde muito pequeno, mesmo sem o saber...

A avó talvez tenha sido a principal vítima. Ao contrário do meu irmão, dizia ao que ia, não queria comer a comida de que não gostava, coisa impensável para quem durante os tempos de fome da Guerra (a segunda do mundo...) tenha três crias pequeninas a quem dar de comer...

Não fazia o que queria, mas dizia quase sempre do que não gostava.

E fui sempre assim.

Com as palavras, com as artes plásticas, com o teatro, com a fotografia.

Sempre quis gostar de coisas que me diziam alguma coisa, mesmo que fossem uma porcaria para os outros. Por outro lado, tinha (e continuo a ter...) dificuldade em perceber a arte que chamo "do nada", em que alguém - muitas vezes até artistas "famosos" - nos tenta passar por estúpidos e dizer que está lá, qualquer coisa que não se vê (nem verá...).

É sobretudo a olhar esta arte que me acho conservador.

Estou a escrever e vou lembrando-me de coisas (não era para escrever sobre a avó Henriqueta...) mas... 

Um dos lugares que faz parte da infância dos meus filhos, mesmo que eles hoje não pensem muito nisso, é a Casa da Cerca de Almada. Enquanto cresciam, andámos muito pelos jardins, passeámos pelas salas com exposições, olhámos Lisboa e o Tejo... E foi numa dessas mostras de arte, em que tivemos a companhia do meu sobrinho João, que ele disse que também era capaz de fazer "aquilo", que estava pendurado na parede: quadros pintados de brancos com saliências criadas por cimento, atirado às telas. E estava certo...

Estou com ele. Arte é muito mais que atirar cimento a uma tela e depois cobri-la de tinta branca, amarela ou azul, com uma trincha ou um rolo.

É também por isso que me faz confusão ouvir gente a dizer mal do Pessoa do Chiado (poderei ser suspeito, por o Lagoa Henriques ter sido um dos meus mestres...) ou até do Padrão dos Decobrimentos, enquanto objectos artísticos...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, fevereiro 19, 2024

A transformação de um debate num "Benfica-Sporting"...



Sem fugir do tema de ontem, hoje foi dia de "derby" (não há grandes hipóteses de escapar à "futebolização", graças às televisões e aos seus comentadores...). 

Foi um "Benfica-Sporting" (sei que Montenegro é portista, mas não há jogo que gere tantas paixões como este, entre os grandes de Lisboa...), com uma vitória clara do socialista, que me apetece "colar" ao Benfica, por razões pouco racionais.

Após o debate, nem mesmo os comentadores que usam mais a mão e o braço direito, foram capazes de "puxar" o líder da AD para cima, porque ele além de não responder a questões essenciais, quis "interromper", mais vezes do que devia o adversário político, usando a táctica (ainda que mais tímida...) do homem que já o apelidou de "prostituta"...

Não sei se este debate foi bom para os indecisos. Provavelmente ficaram ainda mais baralhados. Muitos estão fartos de saber que o PS não merece o seu voto (os últimos três anos deixaram muito a desejar), mas com a prestação do candidato da AD, as dúvidas em vez de diminuírem cresceram...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, fevereiro 18, 2024

Jornalistas-moderadores preferem o acessório e popularucho à verdade e aos factos nos debates


Tem sido demasiado pobre o espectáculo dado por alguns dos jornalistas que têm moderado os debates eleitorais nas televisões.

Já se percebeu que o tempo é demasiado curto, pelo que era evitável que passassem o tempo a interromper os candidatos, quando estão a tentar dizer algo de útil. Preferem fazer perguntas sobre o que é acessório, deixando o que é importante, para depois.

Uma moderadora da SIC até se deu ao luxo de começar um dos debates com a candidata do BE a falar da sua avó.... como se isso é que fosse realmente importante para as eleições (deve ser por força do hábito televisivo de fazer "telenovelas" com quase tudo...).

Também não percebo porque razão não desligam o microfone do candidato do Chega, deixando-o sistematicamente a tentar interromper os adversários políticos. Ou talvez se perceba. Talvez pensem que dá mais audiências e é melhor para o "espectáculo"...

Dos comentadores da "hora seguinte" nem falo, porque não há um único que não apareça armado "em júri de debates", vestido com as camisolas do "Benfica", do "Sporting" ou do "Porto"...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sábado, fevereiro 17, 2024

"Vagabundos" a mais no onze da equipa da Luz...


Embora fosse incapaz de assobiar o treinador do Benfica, sei que ele é o pior dos três grandes. Vou ainda mais longe, cada vez  se justifica menos a contratação de um técnico estrangeiro, quando nós temos os melhores treinadores do mundo, graças à excelente leitura de jogo e capacidade para alterar o que se passa no terreno, em poucos minutos.

Mas o problema maior do Benfica é ter "vagabundos" a mais no seu onze, jogadores que correm e defendem menos do que deviam. Têm sido pelo menos três nos últimos tempos: Di Maria, João Mário e Kokcü. O futebol moderno não se compadece com tantos jogadores, que além de não correrem muito, não defendem nem têm cuidado com o seu posicionamento no campo, deixando quase sempre os adversários demasiado à vontade.

Não tenho dúvidas que no onze benfiquista só existe espaço para um "vagabundo", e ele é o Di Maria, porque a qualquer momento, pode fazer a diferença.

Como também vimos na televisão, até um rapaz, com uns dez anitos, no máximo, sabe que Schmidt têm muito a aprender com Amorim ou  Conceição, na leitura do jogo e na capacidade de mudar o que é preciso dentro do relvado...

Escolhi esta fotografia, porque esta pequena oficina de sapateiro, faz parte do meu imaginário. Ficava a caminho das Praças da Fruta e do Peixe e sempre que ia de mão dada com a minha mãe às compras soltava a mão e ia espreitar as paredes, forradas com as grandes equipas e os grandes jogadores de futebol, num tempo em que os "vagabundos" abundavam nos relvados...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


sexta-feira, fevereiro 16, 2024

Era bom que fosse o principio do fim...


Escolhi este título, sobretudo por não gostar de ditadores. 

Normalmente eles fazem tudo para se manterem no poder, como é o caso de Vladimir Putin, que tem a singularidade de assistir à morte dos seus opositores ou inimigos políticos, de formas no mínimo estranhas. Tanto podem cair de escadas, atirarem-se de varandas altas como ingerirem substâncias nocivas ao organismo.

Acredito que Putin até possa não estar directamente ligado a este final de vida de Alexei Navalny (estranho para não variar...). Teoricamente Alexei era o seu grande opositor político e por essa razão estava preso num dos muitos  "campos de reeducação" russos, mais para "apodrecer" que para "desaparecer". Isso acontecia porque o ditador sabia do perigo, que é, a existência de mártires, em qualquer causa libertária.

E é por isso mesmo que eu gostava que Navalny se tornasse um factor de união entre todos os opositores de Putin, que a sua figura se fosse tornando cada vez mais mítica, ao ponto de começar a alimentar um outro género de nacionalismo, cada vez mais forte, contra um regime repressivo, arbitrário e mentiroso.

(Fotografia de Luís Eme - Marvila)