sábado, janeiro 16, 2016

Passeio Agradável ao Fim da Tarde no Ginjal

O Sol já se preparava para partir quando decidi fazer uma caminhada. Como arrefeceu pensei que poderia estar desagradável rente ao Tejo. Mesmo assim lá fui, bem agasalhado, até ao Ginjal...

Acabei por ficar surpreendido com toda a serenidade que se sentia à beira rio, tornando o passeio bastante agradável.

Fui-me cruzando com alguns jovens. Muitos usavam o telemóvel como máquina fotográfica à procura de "bons bonecos", piscando o olho ao Tejo como cenário.

Normalmente a maior parte das pessoas com quem me cruzo são forasteiros ou pescadores (hoje não encontrei nenhum, talvez não fosse dia de peixe no Tejo...). Há sempre mais estrangeiros que portugueses entre os turistas, provavelmente por o Ginjal estar presente nos pequenos roteiros que trazem nos bolsos.

Raramente troco alguma palavra com as pessoas com quem me cruzo. Os pescadores estão quase sempre metidos consigo mesmo e limitam-se a olhar de lado para quem passa, como se não passássemos de intrusos.  E os turistas estão ali sobretudo para contemplar a paisagem ribeirinha.

(Fotografia de Luís Eme)

quinta-feira, janeiro 14, 2016

Os Livros e a Escrita


Comecei a ler hoje  "Cemitério dos Desejos", um romance do filósofo José Gil, publicado em 1990. A descoberta deste livro na Biblioteca da Incrível foi um mero acaso, até porque eu nem sequer sabia que José Gil escrevia ficção...

O mais curioso foi a vontade que senti de escrever, logo nas primeiras páginas. As ideias surgiram quase de rompante e até um título (para pelo menos um conto...), preso à grande aventura que é entrarmos numa cidade gigante, de carro, sem a conhecermos minimamente. Lembrei-me das ruas de Lisboa de sentido único, que tantas vezes nos afastam dos lugares para onde queremos ir...

E lá enchi duas páginas de um dos meus "cadernos de ideias".

É sempre bom encontrar livros que querem falar connosco e são capazes de nos encher a cabeça de ideias. Ideias que na maior parte das vezes nem têm nada a ver com a sua história (com alguns filmes passa-se a mesma coisa...). Outro aspecto não menos curioso, é este elo de ligação não estar necessariamente ligado com a sua qualidade literária...

(Óleo de Marcel Duchamp)

quarta-feira, janeiro 13, 2016

Vanderlei Paris, Vendedor de Pesadelos


O Gui contou-nos uma história que poderia dar um conto, sobre um empresário incapaz de falar verdade ou de ser honesto, que se salvava às primeiras por ter um sorriso irresistível e por nunca ninguém saber se estava a falar a sério ou a brincar. O problema era quando se descobria quem era o verdadeiro Vanderlei Paris, vendedor de pesadelos...

A Rita disse que já conhecera alguns vanderleis por aí, acrescentando: «À medida que vou caminhando para a meia idade, suporto cada vez menos a gente muito simpática ou bonzinha. Quando lidamos com eles a sério, descobrimos quase sempre que não passam de uns bons filhos da puta.»

O Carlos com o seu humor característico apoiou-a: «Não sei se posso utilizar como feminino de Vanderlei Vanda. Acho que elas são ainda mais vendedoras de pesadelos que eles, tem muito mais arte para a música, para nos aplicarem o velho "golpe do baú" e levarem-nos à certa.»

«Mas isso também acontece porque vocês não podem ver uma burra de saias.» Brincou a Rita.

«O que eu tenho ouvido dizer é que não podemos ver um rabo de saias. Mas podes ser criativa à vontade», disse o Carlos.

«Deixa lá, que a mensagem é igual. Aliás para vocês convém ser mais mini-saia.» Continuou a Rita.

«É por isso que andas sempre de calças?» Perguntou o Carlos, imparável.

«Até podia ser, para não distrair os homens. Mas não, é apenas uma questão de conforto, sinto-me mais confortável de calças.» Respondeu a Rita sem perder o sorriso.

Foram as horas que nos salvaram da conversa sobre o Vanderlei Paris, uma personagem que já nos estava a levar por caminhos erráticos, graças ao nosso Gui, que está a queimar os últimos cartuchos das férias natalícias.

(Fotografia de Pierre Boulat) 

terça-feira, janeiro 12, 2016

Um Artista Muito Maior que a Banalidade dos Nossos Tempos

Como disse ontem, não tinha pensado escrever nada de mais sobre David Bowie, apesar de o admirar como  extraordinário músico e artista que foi e será (a sua obra é de uma resistência pouco comum nestes dias ricos em banalizações e esquecimentos).

Felizmente a "excessiva" exposição de David Bowie na blogosfera em vez de me afastar fez com que recordasse muitas músicas que já esquecera. Foi bom voltar a ouvir temas do álbum, "Hours..." (1999) - o que mais me tocou e que mais ouvi  da sua vasta obra -, e tantas outras músicas que são o exemplo da sua versatilidade e qualidade "camaleónica", que irá fazer com que seja alvo da atenção de gente mais jovem. 

Não digo que irá atingir a unanimidade, mas o facto de possuir um talento fora do comum, vai fazer com que ultrapasse com grande sucesso estes dias excessivos de exposição, que em vez de "secar" a sua discografia, vão fazer com que ganhe mais admiradores.

E para terminar, não posso deixar de realçar o seu último álbum, "Blackstar", uma despedida (provavelmente voluntária...) que tem tanto de fulgurante como de belo. As suas músicas enchem-nos a alma...

segunda-feira, janeiro 11, 2016

A Memória do Largo

Não tenho dado tanta atenção a efemérides como dava noutros tempos no "Largo". Acho que isso tem acontecido de uma forma natural, nós  vamos mudando, às vezes quase sem darmos por isso. Embora sejamos "animais de hábitos", cansamos-nos com alguma facilidade das coisas. É por isso que há peças de roupas que deixamos de usar, quando ainda estão em bom estado.

Eu sei que um blogue não é uma camisa ou umas calças, mas quando tem uma vida diária, é necessário tentar escapar à banalidade e à repetição (o que nem sempre se consegue...).

Foi por isso que ontem não assinalei a passagem do nonagésimo aniversário do mestre Júlio Pomar, um dos nossos grandes artistas plásticos. E é também por isso que não vou dar um destaque especial a David Bowie, que nos deixou ontem, mesmo reconhecendo que foi um extraordinário artista pop. Para falar dele, também devia dizer alguma coisa sobre o Vasco Malpique, que nos deixou no sábado e que faz parte de uma família de desportistas almadenses, que tanto honrou o andebol almadense.

Claro que também sei que muitas vezes registamos estas efemeridades, por nesse dia não termos nada de especial para dizer. Mesmo que sintamos admiração pelas pessoas que enaltecemos. 

Isso acontece porque a blogosfera cria-nos o bom vício de "comunicar" com os outros (que muitas vezes não fazemos ideia de quem sejam...). 

(Óleo de Linda Pochesci)

domingo, janeiro 10, 2016

O Sabor e o Cheiro da Tangerina, um Cartaz e um Filme


Gosto muito do sabor e do cheiro da tangerina. Foi por isso que estranhei que a aproximação da minha mão, perfumada com este fruto, provocasse algumas caretas.

Sei que não gostamos das mesmas coisas (e ainda bem) e quando falei com gosto desta delícia, até prometeram oferecer-me um perfume de tangerina. E só podia responder que ficava à espera...

Não publicaria este pequeno "fair-diver", se não encontrasse casualmente o cartaz de um filme do cinema independente americano, com o título, "Tangerine". Posteriormente quis saber mais coisas sobre este filme de Sean Baker, filmado apenas com um iphone 5 (bem dita tecnologia...).

O filme aborda um caso de infidelidade do companheiro de uma prostituta transexual, que esteve presa durante 28 dias e as mil e uma peripécias  da personagem principal e de uma amiga que viajam por Los Angeles à sua procura, mostrando uma outra cidade, povoada de subculturas, destacando o comércio do sexo. 

Apesar de ter sido bem recebido em vários festivais de cinema (teve estreia mundial no Festival de Sundance há sensivelmente um ano) americanos e europeus, só nos deverá chegar através do dvd, já que está fora dos circuitos de distribuição do "cartel" americano da sétima arte...

sábado, janeiro 09, 2016

Olhar a Cidade


Ao olhar esta fotografia já com alguns anos das obras da construção do Metro de superfície de Almada, reparei que ela estava em sintonia com um dos temas de conversas que tive de manhã no café e no passeio que dei pelas ruas de Almada com um dos meus bons amigos da Cidade.

Ambos pensávamos que não era necessário terem "esventrado" o eixo principal de Almada para construir praticamente um comboio (as linhas da minha fotografia são um bom exemplo...), em vez de optarem por uma estrutura muito mais ligeira, do género dos novos eléctricos de Lisboa.

Nem quero imaginar os milhões que se teriam poupado, que até poderiam permitir a construção de uma outra linha menos central ou de se ir mais longe. E também falámos da estupidez do transporte sobre carris não ter passado perto do Hospital Garcia de Orta, o que teria facilitado a vida a milhares de utentes...

É uma pena que uma boa parte dos políticos tenha tanta dificuldade em ouvir os outros - então se forem opositores... -  e pensem que estão sempre certos. 

(Fotografia de Luís Eme)

sexta-feira, janeiro 08, 2016

A Luta Diária pela Sobrevivência


Ontem era para escrever sobre Paris, sobre a Liberdade, sobre o jornalismo... ou seja, iria dizer meia-dúzia de lugares comuns, afastando-me do essencial: a desumanização, cada vez mais evidente, da sociedade.

Podia falar dos casos diários de violência doméstica, mas fico-me pela mãe madeirense que se suicidou, depois de ter envenenado o filho, de apenas onze anos. Depois de ler a notícia sobre este caso descobri que tudo isto aconteceu três semanas após o suicídio do seu companheiro, também por envenenamento.

Quando o caso foi motivo de conversa fiquei em silêncio. Em vez de dizer qualquer banalidade, fiquei a pensar na alteração do estado psicológico da senhora, ao ponto de a levar a fazer o que fez. E o seu quadro social não era para menos. Desempregada, doente com um cancro e depressiva, devia ter a sensação de que era cada vez mais um estorvo para todos. E provavelmente sentiu que o filho mais novo também estava a ser um "peso" para a filha e o genro, que lhe tinham dado abrigo.

Sou incapaz de a culpar do que quer que seja. Aliás, o que me preocupa mesmo é a distracção de toda a gente que vivia à sua volta...

(Óleo de Renato Gattuso)

quarta-feira, janeiro 06, 2016

A Senhora que Queria Mais que uma Caixa de Comprimidos da Farmácia...






Uma senhora de idade falava, falava, sem vontade nenhuma de abandonar o balcão da farmácia. Em vez de me incomodar olhei com a cumplicidade possível a farmacêutica, por perceber que a cultura do mundo dos medicamentos era insuficiente para o bom exercício daquela profissão. Exigia-se cada vez mais uma grande capacidade de dialogo, para que os clientes nunca sentissem que estavam a ser empurrados pela porta fora. 

Sei que eles (mais elas...) não se contentam com os comprimidos para a tensão ou a pomada para o reumático, querem um tempo para contar pedaços das suas vidas, partilhar dores, e se possível, receber ainda um parecer clínico. Porque nas visitas aos hospitais e centros de saúde, com as mudanças operadas nos últimos anos, não são tão bem tratados como na farmácia, que é quase a mercearia do bairro...

Ela sorriu com os olhos cansados, como se me quisesse dizer que não podia "despachar" a senhora, que precisava tanto de trocar umas ideias sobre as suas doenças. 

Embora tivesse a senha seguinte, fiz de conta que tinha todo o tempo do mundo.

E pensei: maldita solidão... Eu sei que falar com as paredes é muito diferente de conversar com pessoas...

(Óleo de Irena Jovic)

terça-feira, janeiro 05, 2016

Olhares e Pensamentos Rente ao Tejo

Apesar da instabilidade do tempo, resolvi dar o primeiro passeio do ano pelo Ginjal.

Estava a precisar de andar e também de me encontrar com todas aquelas coisas boas que gostam de aparecer do nada.

O vento soprava forte e foi amigo ao empurrar as nuvens mais cinzentas para outras bandas. Só quando já estava no coração de Almada é que começou a chuviscar. E nada que pedisse chapéu.

Não só me senti bem com a caminhada solitária, como estive mais produtivo no resto do dia. 

O Tejo tem destas coisas...

(Fotografia de Luís Eme, da esplanada do restaurante "Ponto Final")

domingo, janeiro 03, 2016

«A chuva é quase uma prisão.»


Quando ela disse, «A chuva é quase uma prisão», a primeira imagem que me surgiu foi a minha filha divertida na rua a meter os pés nas poças de água, nestes dias molhados.

Eu e quase todos nós enquanto crianças fomos assim. Eu e o meu irmão tínhamos um "desporto" de inverno terrível, que era ver quem é que conseguia salpicar mais o outro nas poças que nos apareciam no caminho... Algo que a mãe detestava, não só por ficarmos molhados, mas também por ficarmos sujos de lama. Normalmente isto acontecia a caminho do bairro da nossa meninice, que só conheceu o alcatrão quase no começo da nossa adolescência...

Comecei a sorrir graças às minhas memórias, algo que a deixou intrigada.

Claro que a chuva está longe de simbolizar a liberdade, não é por acaso que se vêm menos pessoas nas ruas, mas se estivermos bem calçados e de chapéu de chuva, até nem é mau de todo ver e saborear a água a cair...

(Fotografia de André Kertész)

sexta-feira, janeiro 01, 2016

Algumas Mudanças, Ligeiras...

Tinha pensado criar um blogue novo em 2016, que teria como título "Cem por Cento", no qual todos os textos e imagens publicados seriam da minha autoria.

Mas depois comecei a pensar e cheguei à conclusão que quer o "Largo" o "Casario"  e as "Viagens" ainda não tinham esgotado o seu tempo de vida.

Foi  por isso que resolvi fazer apenas alguns pequenos ajustes na imagem dos dois blogues principais cá de casa (no "Largo" mal se nota...).

O "Casario" irá tornar-se ainda mais o meu blogue de fotografias (vou tentar "postar" apenas fotos da minha autoria), sem descurar alguma informação local. Irei também estrear uma série semanal amanhã que irá homenagear alguns amigos especiais.

O "Largo" continuará a ser um espaço de liberdade, atento a tudo o que me rodeia, com uma incidência especial pelas coisas da Cultura, por ser o meio onde estou inserido, como criador e também como "fabricante de acontecimentos".

(Fotografia de Luís Eme, rente ao Cristo Rei)