sexta-feira, julho 31, 2020

Alves Redol e o "Comboio das Seis"...


Tenho tantos livros em casa que ainda não li, que as minhas escolhas para ler, são muito aleatórias. Quando "tropeço" num livro que me chama a atenção, pego nele e deixo-o na mesa de cabeceira.

Foi o que aconteceu com "Nasci com Passaporte de Turista e Outros Contos", de Alves Redol.

Devo confessar que, no começo não foi uma leitura muito entusiasmante (também é preciso preparar-nos para a leitura...). Mas quando as pessoas das vidas difíceis começaram a aparecer com as marcas do seu dia-a-dia sofrido, com a autenticidade e o humanismo que marcam todo o percurso literário de Redol, tudo se tornou mais intenso.

Gostei particularmente do "Comboio das Seis", por toda a magia que ele transporta (mesmo que o escritor ribatejano seja tudo menos um "mágico", no campo da literatura)...

(Fotografia de Luís Eme - Trafaria)

quinta-feira, julho 30, 2020

«Tentamos olhar sempre para o melhor lado do pano...»


Apesar de ter de andar sempre vestido com uma bata demasiado quente para este Verão (não tem nada a ver com a que usava, branca, quase de médico...), de luvas e de máscara, e de passar o tempo a desinfectar os instrumentos que usa e a cadeira, o meu barbeiro confidenciou-me que há algo que vai manter, quando os tempos mudarem: a marcação de cortes de cabelo.

As marcações permitem-lhe ser dono do seu tempo. Até pode fazer "gazeta", se lhe apetecer...

Um dos empregados do restaurante que frequentava mais em Almada, desabafou que é chato andar de máscara, mas nunca mais foi preciso andar a correr de mesa em mesa, quase a "toque de caixa", ao mesmo tempo que sentia "zunirem" rente aos ouvidos os gritos da clientela, quase em simultâneo, a pedir vinho, pão, sobremesa, um guardanapo ou a conta. O patrão não deve dizer o mesmo, pois não voltou a ver a "casa cheia"...

Pois é, as vontades da classe operária, raramente coincidem com o patronato...

O Manel da mercearia próxima da minha casa, nunca teve tantos clientes como desde a pandemia. E a multiplicação do dinheiro em caixa ajuda a ultrapassar todas as outras chatices...

E eu digo: «Tentamos olhar sempre para o melhor lado do pano, ou seja, o lado com menos "nódoas".»

(Fotografia de Luís Eme - Aveiro)

quarta-feira, julho 29, 2020

«Se soubesses o que custa mandar, preferias obedecer toda a vida»


Manuel António Pina, além de extraordinário poeta, era um dos melhores cronistas do quotidiano (para mim era o melhor...), e não precisava de usar muitas palavras para chegar ao "sítio certo", quase sempre com ironia.

Hoje, por um mero acaso, "encontrei-o", numa "Visão" de Outubro de 2004, onde andava à volta de "Um país de presidentes"...

Começou a crónica assim: «Às vezes, assistindo ao telejornal, pergunto-me sobre quantos presidentes por metro quadrado haverá no País (nos telejornais aparecem habitualmente quatro ou cinco por notícia quadrada...)»

E às tantas  recorda: «Nas paredes de escolas e liceus do antigamente avultava um sensato e presidencial conselho de Salazar: "Se soubesses o que custa mandar, preferias obedecer toda a vida". Surpreende por isso o espírito de sacrifício de tantos portugueses hoje dispostos a carregar o fardo de mandar, Há anos, um ministro dos Negócios Estrangeiros foi ao ponto de aceitar o cargo mesmo sabendo, conforme viria nos jornais, que o que ganhava no Governo mal lhe dava para pagar os charutos; e, apesar disso, ninguém lhe ergueu uma estátua ou lhe escreveu uma ode! E portugueses excepcionais como o major Valentim Loureiro ou o eng.º Mira Amaral, que exercem dúzias de presidências ao mesmo tempo, têm ainda que arrostar com a ingratidão e a incompreensão dos contemporâneos!»

E mais não digo (o bom do Pina disse quase tudo...).

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

terça-feira, julho 28, 2020

A Tal Linha Quase"Invisível"...


A atitude dos pais que proibiram os dois filhos de frequentarem as aulas de Cidadania, levantam a velha questão, quase sempre polémica, se a liberdade pessoal de cada um de nós se deve sobrepor aos interesses colectivos. 

Normalmente empurra-se a questão para o lado, com um "depende" (dá para tudo)...

O que eu sei é que não podemos, nem devemos, continuar a desvalorizar o ensino e a educação. Queixamos-nos de que os nossos filhos têm cada vezes menos conhecimentos elementares do que é a vida em sociedade, com a desvalorização de algo tão importante, que entendíamos como "cultura geral", que também está em desuso... e depois proibimos-os de frequentar uma disciplina importante, que procura de alguma forma, colmatar esta lacuna do ensino, com a sua ligação (de várias formas) à sociedade onde estamos inseridos...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)

segunda-feira, julho 27, 2020

«Não se preocupe, eles não sabem nada de história»


Um político local num dos seus discursos de circunstância, resolveu "roubar" quase 500 anos a um acontecimento histórico.

Quando um dos seus assessores, com conhecimentos sobre história local lhe chamou a atenção, ele em vez de pensar em corrigir o erro, disse: «Não se preocupe, eles não sabem nada de história.»

Infelizmente, é esta a ideia que muitos políticos têm das pessoas e do mundo que os cerca...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

domingo, julho 26, 2020

Somos Racistas e Cobardes


O que aconteceu ontem em Moscavide, não diz apenas que somos racistas. Diz algo que sei há muito tempo: somos uns cobardes.

Cobardia que se torna ainda mais nítida no calor do Verão, através da acção de dezenas e dezenas de incendiários, que destroem diariamente milhares e milhares de hectares das nossas zonas verdes...

(Fotografia de Luís Eme - Beira Baixa)

sábado, julho 25, 2020

Ter a Música Oceânica para Adormecer...


Nas últimas duas décadas passei sempre a segunda quinzena de Julho no Sul, por necessidade de mudar de ares e saber que ali tínhamos praia todos os dias, em águas normalmente calmas (ao contrário do meu Oeste, onde a frequência do nevoeiro pode ser agradável para quem está de passagem, mas é horrível para quem quer fazer praia, e do verdadeiro mar, cheio de ondas que encontro na "minha" Foz do Arelho...), o que era essencial para os meus filhos.

Este ano o "lay-off" fez com que a minha companheira não pudesse ter férias em Julho e ainda não sabemos muito bem como vai ser o resto do nosso Verão...

Toda esta prosa, porque esta noite, ao ouvir o vento a soprar na rua, recordei o quanto é delicioso, adormecer com o som das ondas do mar...

(Fotografia de Luís Eme - Foz do Arelho)

quinta-feira, julho 23, 2020

Saudades de Estar (e de me sentir livre)...


Nunca fui pessoa de telefonar a toda a hora, nem de estar todos os dias com os meus amigos.

Continuo a não telefonar muito (lembro-me muito mais do que telefono...), mas sinto falta de estar, de olhar, de sorrir, de entrar de corpo e alma nas "conversas distraídas" que tinha com os meus poucos amigos, em que o almoço era sempre o menos importante. 

Falávamos de tudo o que nos apetecia... Havia anedotas, boa e má língua, memórias das que valem a pena (tanta gente que se sentava connosco à mesa...), que ficavam à beira do mundo dos livros e dos filmes...

E tenho saudades de me sentir livre... de poder dar corda aos ténis e saber que se aparecesse em tal sítio à hora do costume, alguém me pagava o café ou eu pagava o café a alguém... com a troca de palavras e de sorrisos do costume.

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)

quarta-feira, julho 22, 2020

«Toda a gente que andou na escola sabe escrever»



Há verdades, que por terem tanto de absurdo" como de "lapalicianas", não nos merecem resposta. Provavelmente por não existir uma explicação simples para dar... e por se ser quase obrigatório a recorrer às monótonas discussões sobre "o sexo dos anjos"... 

O engraçado da questão é serem ditas por gente, a quem a falta de um neurónio (ou dois...) foi compensada por um quase orgulho, de terem tanto de ignorantes como de espertos.

O melhor mesmo é desmontar a frase logo de início, dizer que saber escrever letras não é a mesma coisa que escrever livros, mesmo que não percebam à primeira e à segunda. 

Segundo um meu amigo, quase filósofo, é esta nossa ausência de resposta que vai dando força a esta gentinha, que não têm nada de "pobres diabos" (apesar de algumas pessoas continuarem a insistir em lhe chamar coisas do género...). 

Eles vão experimentando tudo o que os possa fazer subir (de elevadores a teleféricos), até tiram "cursos de alpinismo", para conseguirem chegar ao alto da montanha, preparados para agarrar todas as oportunidades que "caiam do céu". 

E podem crer, se a oportunidade surgir eles estão lá, na primeira fila, mais que preparados para serem maus primeiros-ministros ou presidentes da república, como já acontece nas Américas...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

terça-feira, julho 21, 2020

Estes Dias Quase Amarelos...


Estes dias quase amarelos, com  o Sol a brincar às escondidas com umas nuvens esquisitas, que deixam passar o calor, só escondem a luz, são no mínimo estranhos...

E depois, o corpo é que paga... como cantava o António. A roupa cola-se ao corpo, o suor escorre pela testa, mesmo quando estamos quase parados...

Nem as trovoadas nocturnas nos dão descanso.  

Sem darmos por isso, estamos cada vez mais perto do Norte de África...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

segunda-feira, julho 20, 2020

(desabafo de um simples habitante de um dos muitos caixotes de cimento que enchem as cidades...)


Agora é que precisávamos todos de um jardim, de um quintal anexo à nossa casinha. Não, nem é preciso piscina, um alguidar grande pode servir para ir refrescando o corpo e a alma... para suportarmos este calor que já não chega apenas do Sul.

Importante mesmo é ter algum espaço extra, para não nos sentirmos "enjaulados" ou "engaiolados" entre as quatro ou cinco paredes do nosso apartamento.

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)

domingo, julho 19, 2020

"Um milhão para ti e uma sopita para mim..."


Por muito que me apeteça fingir que não, este é o meu país...

Nem é importante o facto de eu não ver a TVI, de não visitar os estádios de futebol ou não ser cliente da Sport TV ou Benfica TV.

Com vontade ou sem vontade, sei que também alimento este "país dos milhões" da Cristina Ferreira e do Jorge Jesus, mesmo que só me toque uma sopita ao jantar...

Deixou de existir um fosso entre ricos e pobres. É cada vez mais uma cratera...

Tudo o resto soa a "música de violino", com mais ou menos afinação. E também por isso já estou farto da aparente "sintonia de amor", que existe entre o primeiro-ministro e o presidente da república...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)