domingo, janeiro 31, 2016

Reflexões Literárias...

Na próxima quarta-feira sou o convidado do Ciclo, "Escritores - Memórias Vivas de Almada", que começa às 18 horas, na Sala Pablo Neruda, do Forum Romeu Correia.

Hoje estive a escrever parte da minha intervenção, que acaba por ser o reflexo dos meus 20 anos de carreira literária. Transcrevo aqui uma pequena parte, em que falo da ficção:

«Com todas estas aventuras a ficção ficou para trás. Não que tenha deixado de escrever histórias. Tenho centenas de contos escondidos no computador, cuja maioria ficará por lá, eternamente, sem qualquer chatice. Também tenho uns três ou quatro romances incompletos...
Estão incompletos porque nunca me escaparam. Nunca ganharam vida própria.
Sei que para mim é impossível voltar a escrever um romance e ter uma vida normal. Para o fazer sei que teria de me isolar, me esconder em qualquer aldeia e ficar por lá refém do livro e das suas personagens, esquecido da minha família, pelo menos por alguns momentos…
Claro que todas estas aventuras se devem à minha facilidade em escrever, sem complexos, coisas grandes, pequenas, de valor literário ou apenas escritos de amizade.
Quem me conhece melhor às vezes diz que me devia levar mais a sério. E que é isso que faz com que não faça "voos mais altos". É provável que isso aconteça, mas gosto muito de ter os pés no chão, mesmo quando visito a Lua…»

(Fotografia de Gena Souza)

sexta-feira, janeiro 29, 2016

Talvez Sim, Talvez Não... Mas Acho que Sim...

Uma agência com a qual colaboro há já alguns anos mudou de chefia. 

A mulher que comandava a pequena, mas enérgica equipa de trabalho, era uma simpatia e proporcionou-me a possibilidade de a conhecer melhor e também de me sentir "em casa" naquele pequeno armazém de ideias (maioritariamente feminino). Mas a "concorrência" fez-lhe uma proposta mais aliciante e ela partiu...

Foi substituída por um homem. Pensava que não ia notar grandes diferenças. Mas nos primeiros contactos já notei muitas novidades, ao ponto de ter passado a viagem de cacilheiro a pensar que trabalho melhor com mulheres que com homens, apesar de ter muito mais amigos que amigas.

Ainda tentei "desenganar-me", dizendo para os meus botões que talvez não seja uma questão de género, mas apenas de conjugação (ou não) de feitios, aquilo que normalmente chamamos de empatia.

Mas não fiquei muito convencido. Ainda pensei que provavelmente sou mais permissivo com as mulheres, que têm muito mais jeito para nos levar à certa. 

Foi por isso que dei uma volta por outras relações de trabalho e fiquei quase convencido que normalmente o diálogo com o sexo feminino é mais calmo e enriquecedor, sendo também mais fácil chegar a consensos. 

(Óleo de Michael Bartholomew)

quinta-feira, janeiro 28, 2016

A "Alegria Breve" de Virgílio


Se Vergílio Ferreira fosse feito da mesma massa de um Manoel de Olveira (que tinha realmente algo de imortal...), estaria por cá a comemorar os seus cem anos de idade. Haveria certamente muita festa na "aldeia". 

Sei que hoje será recordado um pouco por todo o lado. Além dos blogues, os jornais também falarão dele nas páginas culturais, até a televisão é capaz de lhe dispensar um minuto (só espero que não andem por aí a perguntar como era o professor, em vez de recordarem o escritor)...

Mas o mais importante é que a sua obra sobreviveu-lhe. Sei que é um escritor lido e recordado com alguma normalidade (não se pode pedir mais, até porque nunca foi um escritor popular ou fácil...), numa época de grandes esquecimentos.

A primeira obra que li da sua autoria foi "Manhã Submersa", que gostei bastante de ler, por ter conhecido um mundo quase secreto, onde se educavam (com demasiada crueldade, diga-se de passagem...) os futuros "guardiões de Deus".

Como gosto muito de diários, autobiografias e afins, li com interesse redobrado uma boa parte dos volumes da sua "Conta-Corrente" (são nove no total), que são sempre olhares preciosos sobre a sociedade.

Mas a obra que mais gostei de ler (e curiosamente foi a última que li...) foi a sua "Alegria Breve". Não tanto pela história, mas pela excelência de escrita.

quarta-feira, janeiro 27, 2016

O Homem Renascido (Ou Seria um Irmão Gémeo?)


Embora não dissesse nada a ninguém, não conseguia disfarçar a grande pena que sentia de si próprio, por chegar à etapa final sem ninguém. Era por isso que se entretinha a despejar copos de bagaço. Ao quinto começava a chorar como uma "madalena arrependida" e dizia coisas a que já ninguém ligava, muito menos as pedras da calçada.

A primeira vez que reparei nele foi quando o ouvi gritar: «nem a merda de um filho fui capaz de fazer.» Ali mesmo ao lado vi os companheiros de copos a rirem-se e a contarem histórias sobre as mulheres que lhe foram enfeitando a testa. como se ele não estivesse ali presente. Pouco tempo depois ele começou a chorar. Nada que afectasse os outros, que não pararam de rir nem de contar as histórias dos seus desamores, como se estivessem habituados aquele teatro trágico...

Voltei a encontrá-lo mais vezes, sempre com o mesmo registo.

Entretanto deve ter passado um ano e...

Não sei o que aconteceu nem qual foi a cambalhota que deu. Só sei que gostei de o ver de barba desfeita, vestido com uma roupa sem manchas, a beber um café apenas com a companhia de uma garrafa de água...

Talvez fosse outra pessoa. Quase um irmão gémeo.

(Fotografia de Francesc Catalã-Roca)

terça-feira, janeiro 26, 2016

«As pessoas sem dignidade vendem-se por tostões.»


O pai de um amigo contou-nos uma história que lhe aconteceu na empresa onde trabalhou, que diz muito da pequenez das pessoas, capazes de cometer as maiores desonestidades por tão pouco. Ele até nos disse que é por isso que uma boa parte das pessoas nem se mostram muito escandalizadas com os "roubos" dos banqueiros. Alguns até têm o desplante de dizer que no lugar deles faziam o mesmo.

Mas vamos lá à história. Tudo começou quando lhe chamaram a atenção para as reclamações sobre a sessão de "perdidos e achados" da empresa de transportes onde trabalhava. 

Numa primeira abordagem disseram-lhe que estava tudo normal, que os objectos de valor normalmente eram levantados pelos legítimos proprietários, pouco tempo depois de ali serem entregues. Isso fez com que não percebessem  o porquê de tantas reclamações na sede da empresa. Acabaram por chamar alguns dos lesados, para se inteirarem da sua razão, ou não.

Depois fizeram uma visita ao local e estranharam que só lá se encontrassem objectos velhos e sem valor, que ninguém levantava, por razões óbvias. Consultaram os livros de entradas e saídas, atentos aos objectos "desaparecidos" dos reclamantes. Perceberam que as assinaturas de quem levantava os objectos não só eram falsas como demasiado parecidas. 

Concluíram que a melhor maneira de chegar a algum lugar era "armadilhar"  um objecto (um bom relógio de marca), que seria supostamente perdido, para depois lhe seguirem os passos...

Com a ajuda de um "infiltrado" souberam que relógio viajara até uma casa de penhores, logo na semana seguinte a ter sido dado como perdido. 

A suposta pessoa que o perdera entretanto passou por lá e o funcionário começou por lhe disser que não tinha sido entregue nenhum relógio na secção. Mas ela insistiu e disse ao homem que conhecia o motorista do autocarro e que este lhe tinha garantido que encontrara o relógio e o entregara a quem de direito. O homem dos perdidos e achados ficou um pouco engasgado, mas limitou-se a abanar os ombros, a dizer que devia haver algum mal entendido, mantendo a versão anterior, que ali não tinha chegado nada.

Posteriormente visitaram o dono da loja de penhores, pediram para ver o relógio e ameaçaram-no, caso não colaborasse, com a ameaça do encerramento do estabelecimento com a respectiva participação às entidades competentes. Este acobardou-se e chegou-se ao "líder" de toda aquela negociata e desmontando a "golpada".

Os funcionários envolvidos no estratagema foram despedidos e o dono da casa de penhores devolveu os objectos que ainda estavam na loja, embora alegasse sempre que não fazia ideia que se tratava de coisas entregues na sessão de "perdidos e achados".

Quando o senhor disse que, embora aquele exemplo fosse uma insignificância podia ser transposto para quase todos os sectores da nossa sociedade, acrescentando um lugar comum, «as pessoas sem dignidade vendem-se por tostões.», nós não podíamos fazer outra coisa, que não fosse concordar...

(Óleo de Frank Fleuren)

segunda-feira, janeiro 25, 2016

O Novo Presidente e Estas Sondagens (Irritantes)

Embora tenha acontecido o que se esperava, quem não pertence à área política de Marcelo Rebelo de Sousa alimentava a esperança de uma segunda volta, da possibilidade de um novo "tira-teimas", desta vez só a dois. E com o imaginário em Freitas e Soares, embora hoje tudo seja diferente, com uma esquerda mais desunida...

E o mais curioso é que as divisões não se verificam entre os partidos de esquerda, mas sim no interior do próprio PS. Não tenho grandes dúvidas que muitos dos "inimigos" do Costa e "amigos" da Maria de Belém, preferiam aclamar Marcelo como presidente a votar em Sampaio da Nóvoa.

E estas sondagens (tão certeiras...) continuam a irritar-me. Já nas eleições legislativas, nunca acreditei na vitória da coligação de direita. Pensava que os seus quatro anos de governação, em que colocaram o país num estado miserável, tinham sido suficientes para empurrarem as pessoas para outro tempo, mas não. E agora fiei-me um pouco de sermos um país maioritariamente de esquerda, esquecido que metade da nossa população prefere não escolher, entregar-se à vontade dos outros. São sobretudo estes que merecem os Passos, os Portas e os Cavacos...

E agora só espero que Marcelo seja o que disse no seu discurso de vitória, porque precisamos de um presidente responsável em Belém e não de um "catavento". Já nos chegaram os últimos dez anos, povoados de "cobardias" e "silêncios", bem escondidos nos roteiros cavaquistas "do nada".

(fotografia de Luís Eme)

domingo, janeiro 24, 2016

«Todos os grandes homens são comunistas.»


Ontem assisti em Almada a uma sessão de homenagem ao poeta Joaquim Namorado, na sala Pablo Neruda, do Forum Romeu Correia, organizada pela Associação Cultural Manuel da Fonseca.

Os quatro elementos da mesa de honra (Fernando Fitas, Henrique Dória, Alexandre Castanheira e António Pita) prestaram um belo serviço à memória deste homem, que foi muito mais que poeta. Foi professor, resistente comunista e até jornalista (principal responsável pela revista cultural "Vértice", quando esta era publicada em Coimbra...).

No final foi dada a possibilidade à plateia de fazer  perguntas sobre o homenageado à mesa. 

Por a sessão ter sido um pouco longa não foi levantada nenhuma questão, mas mesmo assim houve duas intervenções, uma delas com uma síntese do que se passara e a outra para enaltecer o ideário político do homenageado. Embora a pessoa em causa tenha começado por sublinhar a importância da cultura na sociedade, assim que teve oportunidade  "vendeu o seu peixe" - ao qual não faltou o tratamento a todos presentes por "camaradas", culminando com esta frase: «Todos os grandes homens são comunistas.»

Eu, que marxista me confesso, mas pouco dado a fundamentalismos, sejam eles religiosos, desportivos ou políticos, lembrei-me logo naquele momento de Miguel Torga, Sophia e Jorge de Sena. 

Claro que só houve uma pessoa que respondeu ao senhor, e com bonomia, para não "estragar" uma sessão tão importante para a preservação da memória.

É pena que muitas pessoas não percebam que existe mais mundo para lá dos seus "credos". E basta olharmos o "mundo" de frente para sentirmos os males desta "doença" que se chama fundamentalismo...

(Fotografia de Luís Eme)

sábado, janeiro 23, 2016

«Eu tinha-te avisado. Ela não era mulher para ti.»


Estava triste e revoltado, quase capaz de esmagar a mão contra a parede,  por não ter coragem para se travar de razões com o sujeito que se pavoneava no bar e que diziam ser amante da sua mulher. Embora fosse um homem cheio de dúvidas, não conseguia acreditar que ela o traísse.

O que não suportava mais eram os olhares de lado daquela gente, capazes de o catalogar como cornudo, nas suas costas, entre sorrisos trocistas.

Aquele que considerava amigo em vez de o ajudar disse-lhe: «Eu tinha-te avisado. Ela não era mulher para ti.»

Virou-lhe as costas sem lhe responder.

Sozinho, questionava-se, «porque razão se tinha apaixonado daquela maneira, que lhe fazia tanto doer?»

Quando chegou a casa começou a fazer as malas, decidido a afastar-se da mulher que amava loucamente, antes que fizesse alguma loucura.

Talvez ainda houvesse alguma esperança para o casamento. Bastava ele conseguir amar a esposa de uma forma normal.

(Óleo de Howard Chandler Christy)

quinta-feira, janeiro 21, 2016

O Adeus de Nuno Teotónio Pereira

Deixou-nos ontem o arquitecto Nuno Teotónio Pereira.

Não posso deixar de escrever algumas linhas sobre um excelente ser humano e um dos grandes arquitectos portugueses do século vinte. Ele e Nuno Portas tiveram um papel ímpar na renovação da arquitectura portuguesa e na atenção que dispensaram à habitação social.

Nuno Teotónio Pereira também está de alguma forma ligado à Margem Sul, a Almada, pois passou parte da sua meninice no Ginjal, na casa de família edificada nas traseiras dos armazéns de vinho e azeite Teotónio Pereira, num período em que o pai, Luís Teotónio Pereira, também foi presidente da Câmara Municipal de Almada.

Apesar de descender de uma família da chamada "aristocracia salazarista", Nuno conseguiu dar um passo em frente, juntando-se aos católicos progressistas no combate contra a injustiça e repressão do regime, rompendo com toda a hipocrisia reinante no meio onde estava inserido. 

Quando se deu o 25 de Abril Nuno estava na prisão de Caxias, depois de ter sido preso por participar na vigília da Capela do Rato a 30 de Dezembro de 1973.

Foi amigo pessoal dos primos Zé e Elisete. Era uma pessoa muito agradável e de trato fácil. Conversámos algumas vezes, inclusive na Casa da Cerca de Almada, onde era presença habitual nas exposições artísticas, antes de perder a visão.

(fotografia de autor desconhecido)

quarta-feira, janeiro 20, 2016

A Dor Que Antecede o Parto Criativo...


Na semana passada estive com um amigo poeta, com obra publicada, que me confessou estar a viver um dos maiores dramas da sua existência, pois há largos meses que não consegue escrever um poema, por mais pequeno que seja.

Para o cidadão comum isto até pode parecer quase anedótico e servir para dizer que os poetas não passam mesmo de uns fingidores...

Mas qualquer "criador" percebe bem o drama deste meu amigo.

António Lobo Antunes fala muito disso nas suas entrevistas. A transcrição que faço da revista "Visão" de Junho diz quase tudo sobre o acto de criar:

«Sinto-me como um cão à procura de um osso enterrado que não sabe onde está. Cavo aqui com as patas da frente, cavo acolá e nada. Se calhar acabaram-se os ossos, se calhar acabei. É sempre assim e o medo de não ser mais capaz é horrível. Um vazio, uma angústia. Não sei fazer mais nada, desde que me conheço não faço mais nada. Sento-me nesta cadeira, sento-me naquela. Eu só queria sentir qualquer coisa a inchar cá dentro, ainda não bem palavras, uma coisinha qualquer, mesmo mínima, que depois, pouco a pouco, se transforma, cresce, ganha sentido, vai aparecendo.»

(Óleo de Everett Shinn)

terça-feira, janeiro 19, 2016

«Que gente tão amarelinha.»


A mulher passou por mim e pediu-me um cigarro, disse que não tinha. Chamou-me mentiroso com um ar trocista, enquanto avançava e se metia com outro, com a mesma história.

Foi assim até ao fim da linha, sem conseguir cravar um cigarro.

Foi então que lamentou em voz alta: «Que gente tão amarelinha.»

Ninguém lhe respondeu mal, muito menos a mandaram calar. Vim a saber depois que não podiam. Isso era um convite para que ela usasse outro tipo de linguagem, quase pornográfica, que muitas vezes deixava de ser divertida e passava a ordinária.

Foi salva por alguém que tinha estado a fumar lá fora e assim que entrou, estendeu-lhe um cigarro daqueles que se dão sem palavras.

Ela agradeceu com uma vénia e saiu, decidida a fazer-se à vidinha. Reparei que deixou os espectadores quase em suspense, como se tivessem receio de que ela se arrependesse e voltasse atrás.

O João quebrou o silêncio e disse-me que ela não era de cá. Tinha uma tia na rua de cima com quem vinha almoçar de vez enquanto. Aproveitava quase sempre a viagem a Almada para ver se continuava tudo no mesmo sitio por ali, ao mesmo tempo que, se lhe dessem espaço, "agitava um pouco as águas".

(Óleo de Xia Junna)

segunda-feira, janeiro 18, 2016

Entre a Surpresa e o Desafio da Fúria de um Olhar

Era difícil enfrentar aquele olhar que quase me fustigava, mas não me desviei um milímetro. Acho que o fiz mais pela surpresa que por outra coisa qualquer. 

Não passava de um jovem  com idade para ser meu filho, completamente desconhecido. Provavelmente travava uma "batalha" contra ele próprio, como é próprio destas idades, e pelo caminho tentava envolver quem lhe surgia pela frente. Ainda o tentei desculpar, dizendo para os meus botões que ele estava a olhar para o "mundo", que se encontrava logo ali, atrás de nós.

Antes do metro aparecer ele resolveu "entrar noutro filme", Baixou a cabeça e escondeu o olhar de mau rapaz.

Enquanto esperava não fui capaz de ficar indiferente ao jovem que estava agora de costas. Pensei que a vida raramente é aquilo que sonhamos. Embora pouco ou nada nos valha tentar culpar os outros pelas ondas de fracasso que nos rodeiam. 

Ele, mesmo que não tivesse dado por isso, ainda tinha todo o tempo do mundo para dar a volta por cima e aproximar-se do território dos sonhos.

O que não resolve nada, mesmo nada, é olharmos para os outros como se nos devessem alguma coisa, enquanto continuamos a caminhar sós na direcção do vazio...

(Óleo de Guy Troughton)