Fiquei extremamente feliz por encontrar esta imagem rara, um quase baldio, ocupado como campo de futebol pela miudagem, quer continua a adorar o "futebol de rua".
(Fotografia de Luís Eme - Seixal)
Fiquei extremamente feliz por encontrar esta imagem rara, um quase baldio, ocupado como campo de futebol pela miudagem, quer continua a adorar o "futebol de rua".
(Fotografia de Luís Eme - Seixal)
Sei que gosto do Seixal, provavelmente, por nunca lá ter morado. Mas mesmo assim, noto, aqui e ali, pequenas diferenças que acabam por fazer toda a diferença...
Há um cuidado pelo património, que não existe, por exemplo, em Almada. As ruas estão mais limpas e as casas, mesmo as antigas, aparentemente melhor cuidadas. As Colectividades mantêm as suas instalações de cara lavada e com ar de quem se "faz à vida", para servir os seus associados e restante população.
Mas não é só isso. Acho que é toda a envolvência desta cidade, que não renega as suas origens e consegue separar o trigo do joio (sim, também há um Seixal novo que floresce, lá para os lados do Benfica, mas essa parte não me entusiasma por aí além...).
Foi por isso que hoje, por estar perto, não resisti a mais uma visita, mesmo que fosse "quase de médico"...
Mas volto a dizer, provavelmente este meu gosto pelo Seixal, é mesmo de ser apenas visitante...
(Fotografia de Luís Eme - Seixal)
É por isso que vai subindo os preços, quase diariamente, como se tudo fosse "gasolina". Aumenta tudo, dos produtos mais insignificantes aos chamados bens de primeira necessidade, mesmo que não sofram qualquer interferência dos "ventos" tristes de leste.
Talvez agora sejamos todos pobres (a meia-dúzia do costume não conta...). Quem não se rala muito com isso são os governantes do "faz de conta" do costume, que se passeiam por aí de mãos nos bolsos, como se não fosse nada com eles. A culpa é toda do "nazi" da Rússia...
(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)
Mesmo assim, quando escutei a frase, «a normalidade é uma coisa quase abstracta», não deixei de ficar surpreendido. Até porque me parecia que a normalidade era tudo menos isso... sempre a olhei como algo mais "realista" que qualquer outra "anormalidade".
Ou seja, parecia aberto o caminho para uma conversa de loucos. Mas não. O que a Vera quis dizer foi, que, embora cada um de nós andasse com a sua normalidade colada ao corpo, esta está longe de ser uma coisa comum. Até foi capaz de acrescentar que muitas vezes a nossa normalidade vem acompanhada de alguma ficção e até de mentiras. Sim, algumas pessoas só conseguem levar uma vida normal se lhe misturarem algumas coisas que "não existem".
Mas onde ela quase que me convenceu, foi quando falou da existência das leis e regras que nos são impostas, para que "sejamos todos quase normais". E algumas delas até são contrariadas, sempre que nos é possível.
Depois de me despedir da Vera, continuei a pensar que o termo abstracto era demasiado forte na frase que me ofereceu (só podia partir de uma pintora...). Mas também senti que a normalidade, afinal de contas, não era uma coisa assim tão normal quanto isso...
(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)
Nunca me cruzei com nenhum deles, nem mesmo quando fazia jornalismo nos jornais. Não calhou, mas eu também não fiz nada para que isso acontecesse, mesmo sabendo que o Pacheco viveu (miseravelmente, diga-se de passagem...), na minha Cidade Natal, durante a minha infância.
Nunca morri de amores pelas suas singularidades, em especial pela forma "chupista" com que viviam. O João César Monteiro ainda me dizia menos, embora fosse mais "fino" (até mesmo, literalmente...) que o escritor e editor "maldito".
Um dos meus amigos adorava o João César. Ainda hoje me conta histórias dele, que parecem pertencer ao domínio da ficção. Ele era sobretudo um provocador. Dizia o que lhe apetecia, sem guardar nenhuma palavra no bolso. Humor negro, cinzento ou castanho, era com ele.
Se tanto um como outro conseguirem "espreitar", de vez enquanto, cá para baixo, vão sentir que valeu a pena viver quase aos "trambolhões". Se bem que continuam a ser mais recordados pelas suas histórias de vida que pelo seu talento como criadores...
(Fotografia de Luís Eme - Tavira)
Mas não é bem disso que eu quero falar. Às vezes estou um mês sem ver pessoas de quem gosto (quando não as procuro e o "acaso" não nos faz cruzar a mesma rua...) e depois acontecem dias como o de ontem, em que encontramos um amigo logo pela manhã, a quem oferecemos uma hora do nosso tempo, para matar saudades e ouvir meia dúzia de histórias deliciosas. Depois do almoço reparamos numa mulher de cabeleira ruiva e corpo esguio, que não nos é estranha. Mesmo a quase 100 metros de distância conseguimos "descobrir-nos". Eu desço a rua e ela fica à espera na esquina do café onde vai beber a bica. Depois ocupamos uma mesa da esplanada e mais uma conversa inesperada, agradável, sobre livros, pinturas, exposições e gentes que nos são queridas.
O "dia" para ser bom, podia acabar logo de manhã, mas não, prolongou-se para depois do almoço e guardou-me a melhor surpresa para o fim da tarde. Encontrei um poeta que não é poeta (diz ele, claro), quando ia ver o rio e desentorpecer as pernas, depois de ter passado uma boa parte da tarde a arquivar papeis, de pé, de cócoras, sentado e já sem posição.
Fez-me companhia e foi uma maravilha "convocarmos" tantos amigos, conhecidos e até desconhecidos (pelo menos para mim), para nos animarem pelo Ginjal fora...
(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)
Mas depois de voltar ao "planeta terra", descobri o advogado de ricos e famosos (António Champalimaud, Leonor Beleza, José Sócrates, Dias Loureiro, Ricardo Salgado, etc), que foi ministro da Comunicação Social, presidente da RTP, accionista de vários órgãos da comunicação social, e voltando à advocacia, o sócio de uma das sociedades mais importantes de advogados...
Claro que num país como o nosso, com tantos problemas para resolver, na justiça, na saúde ou na economia, é fácil ter um discurso "politicamente correcto", que tanto pode saltar para o lado direito como para o lado esquerdo da sociedade.
E fica sempre bem a um advogado "saltar para cima" da justiça. E se for através de um livro de "branquear", ainda melhor...
(Fotografia de Luís Eme)
No meio destes papeis tenho descoberto muitas colaborações avulsas em boletins, poezines e afins, algumas das quais já nem sequer me lembrava... Mesmo sem me envergonhar das coisas que escrevo, sei que podia ter "evitado" a publicação de alguns textos e poemas, mas o apelo insistente de alguns amigos era mais forte: «Vá lá, escreve qualquer coisa e manda...» e fazia com que se fosse à procura do que se escreveu "ontem" e se enviasse em anexo, sem pensar muito na qualidade (como eram colaborações "pro bono" e sem grande "futuro", enviei duas ou três coisas que podia ter ficado esquecidas na gaveta...) e na posteridade.
Claro que não vem mal nenhum ao mundo por isso (é apenas um pequeno desabafo...), até por serem publicações de tiragens reduzidas, cuja existência já caiu no esquecimento... Mas alguns continuam a ter o seu quê de especial, como o "Sabor das Palavras" (título "inventado" pela Nia... que até foi premiada como o meu primeiro e único romance...), quando pegamos neles...
O "Sabor das Palavras" era o fanzine do "Café com Letras", dirigido pela Ermelinda. Café de tão boa memória e curta existência, em Cacilhas, no começo do milénio...
(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)
Sei que estes tempos são muito diferentes, dos da "outra guerra", em que Lisboa era sobretudo ponto de passagem, para o outro lado do Atlântico. Por aqui nem se nota a chegada de refugiados. O facto de serem acolhidos sobretudo por amigos e familiares, deve fazer com que prefiram a descrição.
Ou seja, quem chega para passear no Tejo, vem de paragens mais pacíficas.
No Ginjal ouço mais o francês e o italiano que o inglês, apesar da sua universalidade. Só o velho pescador da fotografia é que foi capaz de soltar umas graçolas em bom português, dedicadas às jovens mulheres, sentadas quase à proa do veleiro que passava frente ao cais.
(Fotografia de Luís Eme - Tejo)
Embora seja indesmentível o peso da cultura norte-americana, especialmente a que nos chega dentro dos filmes, não penso que seja uma coisa boa e formativa.
Não vou cair na patetice de dizer que nós, portugueses, somos mais medíocres, cínicos e hipócritas por causa dos americanos. Apenas penso que perdemos alguma da autenticidade (e até ingenuidade...) que nos caracterizava, porque fomos percebendo que "o mundo é dos espertos".
Mas não vou deixar de transcrever o que o realizador Samuel Fuller disse, há 30 anos, ao "Público", sobre os norte-americanos:
«A origem da verdadeira censura reside na mentalidade medíocre. Embora não exista na América nenhuma lei que censure isto ou aquilo, existe essa mediocridade, que é muito mais forte do que Deus ou Washington...»
(Fotografia de Luís Eme - Almada)
Curiosamente "bati de frente" com um pequeno recorte de uma das suas colunas do "Diário de Notícias" (Faz de Conta), datada de 5 de Setembro de 1999. Ou seja, uma coisa ainda do século passado, onde ele "tem razão antes de tempo". Tem como título "Uma Receita para o Desastre" e explica um pouco o porquê da tentativa da invasão Russa e destruição da Ucrânia, que todos assistimos, diariamente. Vamos lá à transcrição:
«A entrada na NATO da Hungria, da Polónia e da República Checa e sobretudo o próximo alargamento da UE a leste transformarão fatalmente a Alemanha na potência hegemónica da "Europa do Meio" /definida, reconheço, sem grande rigor). De qualquer maneira, do Adriático às fronteira da Ucrânia, mandará Berlim. O objectivo histórico do II Reich e do nazismo ressurgiu assim sob os nossos olhos e, prodigiosa coisa, em nome dos direitos do homem. Só falta (mas já se fala nisso) que a Estónia, a Letónia e a Lituânia entrem na NATO - e a Rússia ficará "cercada". Claro que a Alemanha avançou, e avança, no vácuo deixado pelo abjecto fim da URSS e pela actual impotência de Moscovo. Sucede que esta situação não vai durara sempre e que, uma vez arrumada a casa, nenhum governo russo aceitará perder por completo a sua influência na "Europa do Meio". Os perigos da política expansionista (que hoje surpreendentemente ninguém contesta) são mais do que óbvios. Levam em linha recta a uma Rússia humilhada e revanchista, que ainda é a segunda potência militar do mundo e que deverá o "Ocidente" (a Alemanha e a América) como o seu inimigo principal. Uma receita para o desastre.»
Os russos só esperaram vinte e dois anos e alguns meses, para "responder" ao Ocidente e dar razão a Vasco Pulido Valente. E a Alemanha, por muito que disfarce, não está longe do "olho do furação".
(Fotografia de Luís Eme - Almada)
Para quem não saiba, além de crítico e ensaísta, Gaspar Simões, escreveu em 1950 a primeira grande biografia de Fernando Pessoa, com quem ainda conviveu ("Vida e Obra de Fernando Pessoa"), que foi durante muitos anos o melhor trabalho biográfico realizado sobre o grande poeta português.
Nesta minha pesquisa registei a sua grande longevidade como crítico literário. Sem ter a noção do tempo que viveu, fiquei a pensar que tinha vivido quase um século (depois de consultar a biografia verifiquei que morreu com 84 anos). Ou seja, pode-se dizer que foi crítico literário "toda a vida".
Sei que João Gaspar Simões estava longe de ser um "bem amado" nos meios literários, porque gostava de dizer exactamente o que pensava dos livros que lia, sem procurar ser simpático para os seus autores (mesmo os de que era próximo). Ou seja, funcionava exactamente ao contrário do que se passa hoje (ler o "Jornal de Letras" é quase uma coisa aberrante, em que meia-dúzia de pessoas escreve sobre os livros dos amigos, amigos esses que depois retribuem a respectiva "crítica abonatória", quando lhes é possível...).
Já li mais que uma vez, que João Gaspar Simões foi último grande crítico literário português. Embora possa existir algum exagero nesta frase, pelo menos, na actualidade, não existe ninguém, que lhe chegue sequer aos calcanhares. E mais importante ainda, cultive a independência, escrevendo sobre os livros, não se limitando a oferecer palavras bonitas aos amigos, escritores ou poetas.
(Fotografia de Luís Eme - Fonte da Pipa)