quarta-feira, abril 12, 2017

O Homem que Nunca foi Preso...


O António nunca se sentiu diminuído pela ausência de anos de prisão no seu passado antifascista. Muito pelo contrário, sorri de contentamento quando recorda as muitas vezes que esteve "quase, quase", mas que sempre conseguiu escapar. Foram inúmeras as vezes que teve de se ausentar para parte incerta, durante algum tempo (a sua profissão ligada ao comércio ajudava nessas "fugas"), até que recebesse a informação de que as coisas tinham acalmado e já não havia ninguém a cirandar a sua rua.

Sente um orgulho secreto por ter escapado a mil e uma armadilhas, por ter sido quase sempre extremamente cuidadoso (ainda hoje há quem lhe chame picuinhas, esquecidos que foi isso que tantas vezes o salvou...).

Sorri quando se metem com ele e lhe dizem que é menos "herói" que outros, cujo passado conhece de fio a pavio, e por isso mesmo sabe, que a única coisa de relevante que fizeram foi andarem demasiado distraídos, ao ponto de serem feitos prisioneiros, colocando outros camaradas e o  próprio Partido em risco.

Tem mil e uma histórias rocambolescas, que ainda estão por contar, além de outras mais que batidas, como as da tipografia portátil que funcionou em vários lugares, onde imprimiu juntamente com outro companheiro milhares de "avantes" e de outros folhetos, que foram distribuídos nas fábricas e nas colectividades da então vila de Almada...

O António é o melhor exemplo que conheço de que é um erro analisar a capacidade de luta e de intervenção antifascista, pelos anos que se têm de prisão.

(Óleo de Leon Mathieu Cochereau)

terça-feira, abril 11, 2017

A Dúvida está Sempre em Crescimento...

Os anos passam e a dúvida cresce, ao ponto de colocar quase toda uma vida em causa...

Já lhes chamaram muita coisa, até egoístas. Podem ter sido tudo, menos isso... 

A mulher fica com os olhos húmidos quando revive o que sofreu na prisão, na clandestinidade, no exílio... mas sobretudo, por não ter visto o seu filho crescer. O homem afaga-lhe o cabelo, com o carinho de quem nunca deixou de amar.

Sabe que não foi a mãe que devia ter sido. É por isso que percebe a ausência do seu Carlos, que teve de abandonar com menos de um ano e deixar ao cuidado dos pais.

O homem tenta desculpá-los com as incidências da própria vida, com a dificuldade que sempre tiveram em conviver com a injustiça nos locais de trabalho, com as perseguições, o desemprego, e a luta colectiva, que alguém tinha de travar...

Mas a solidão passa o tempo todo a pregar-lhes partidas. Pensam demasiado na vida.

Olham para o país com desconsolo, porque já não sabem se tudo o que sofreram valeu a pena. Não sabem explicar as razões, mas a verdade é que os patrões continuaram, e continuam, a roubar o povo, cada vez com mais descaramento.

Olham para o filho com orgulho por ter conseguido ter uma vida melhor que eles, mas sentem muito, muito, a sua ausência...

(Fotografia de Sena da Silva)

segunda-feira, abril 10, 2017

A Procura dos Campos Abertos...

Era demasiado pequeno para perceber o porquê da procura de campos abertos, por parte dos tios e dos amigos que andavam quase sempre com as violas e as cantigas coladas ao corpo, naquele começo dos anos setenta do século passado...

Além de ser quase a "mascote" daquela juventude inquieta, já era livre por natureza. Foi por isso que só alguns anos depois, já no País de Abril, percebi aquela procura dos campos abertos, longe das árvores...

Eles não corriam riscos, era por isso que andavam quase sempre mais que a conta (enquanto eu saltitava de cavalitas em cavalitas) e falavam e cantavam, com a certeza que não havia qualquer "bufo" ou agente da PIDE nas imediações...

De vez em enquanto as conversas regressam  a esses tempos, onde também se ensaiaram algumas fugas, com cada um a escolher o seu caminho, porque qualquer estranho que aparecesse, era um potencial inimigo.

E eu confesso sempre, que pensava que tudo aquilo não passava de uma brincadeira, com miúdas e música...

(Óleo de Claude Monet)

Nota: Esta semana vai ser dedicada ao "Abril-Revolução", com pequenos relatos sobre o quotidiano de pessoas especiais, cuja simplicidade, por vezes, até faz doer...

domingo, abril 09, 2017

A Exposição do Romeu no Museu da Cidade


A exposição, "Um Homem Chamado Romeu Correia", inaugurada ontem no Museu da Cidade, rompe com os modelos tradicionais de qualquer mostra biográfica, porque os seus mentores e organizadores quiseram oferecer também um objecto artístico.

Durante a inauguração de ontem, toda a gente dizia maravilhas do que estava a ver, mas sei que os "velhos de Almada" não vão ficar calados, a partir de hoje... E isso vai acontecer sobretudo por ignorância, por incapacidade de perceber que uma exposição deve ter sempre uma componente artística e um toque de originalidade, mesmo que tenha de fugir aos parâmetros tidos como normais do que é uma mostra biográfica (se é que isso ainda existe hoje..).

Notei que além do mostrar, também há a preocupação do sentir... e é isso que faz com que o trabalho de encenação (com o dedo do cenógrafo José Manuel Castanheira), que gira à volta dos livros,  das peças de teatro, do percurso de vida de Romeu, e sobretudo, da palavra, do acto de criar, seja único.

(Fotografia de Luís Eme)

sábado, abril 08, 2017

A Tentativa de Reduçao do Espaço Público

Numa época em que somos controlados por muitas das máquinas que inventámos (computadores, telemóveis, caixas de multibanco, câmara de segurança, portagens, etc), é estranho verificar que há cada vez mais "limitações" no espaço público.

Como gosto de tirar fotografias, reparo que há cada vez mais sítios onde existe a tentação de nos proibirem de fotografar...  nem os cacilheiros e os respectivos cais de embarque escapam a esta "sanha" (felizmente os funcionários da Transtejo têm mais que se preocupar e nunca vi nenhum a chamar a atenção a um turista que fixava as vistas do Tejo...).

O simples gesto de se tirar uma fotografia ao exterior de um edifício público pode merecer reparos dos seguranças, que nos fazem-nos sinais de que não se pode tirar retratos... 

Como eu só gosto de fotografar pessoas distraídas ou de costas junto das paisagens, nunca levei nenhuma reprimenda de ninguém, mas com todas estas restrições, qualquer dia as máquinas só servem para fotografias de família. Ou então só se podem tirar retratos a lugares sem gente e sem instituições públicas por perto...

(Fotografia de Luís Eme)

sexta-feira, abril 07, 2017

Contar (ou não) Mais do que Se Deve...


Uma das pessoas que me lê todos os dias aqui no "Largo" disse-me em jeito de graça que me ficou a conhecer melhor nos últimos dias. Quando lhe perguntei porquê, disse-me o óbvio, porque tinha escrito mais sobre mim.

Ainda lhe disse para não acreditar em tudo o que lê... Mas ela abanou a cabeça e disse que não, que era eu que estava ali.

Já escrevi mais que uma vez que um blogue é sobretudo um diário. Podemos fazer desvios para os lados, escrever sobre livros, poemas, pessoas, lugares... mas nós estamos sempre lá, é impossível sairmos do interior das nossas palavras.

É como na ficção. Embora eu não vá muito na conversa que um escritor está sempre a escrever o mesmo livro (cada livro ganha uma identidade própria...), sei que estamos sempre a escrever sobre nós, mesmo que escrevamos sobre coisas que não vivemos. É a nossa opinião, são os nossos pensamentos e a nossa maneira de olhar o mundo que estão lá, por mais voltas que demos.

Voltando ao tema inicial (começo a fugir e é um problema...), às vezes precisamos de falar mais de nós, de desabafar, porque somos quase sempre mais frágeis do que aquilo deixamos transparecer. Embora esta seja a época das "máquinas inteligentes", nós continuamos a ser apenas humanos...

(Fotografia de Luís Eme)

quinta-feira, abril 06, 2017

O que Nos Dizem e o que Queremos Saber...


Um dos maiores desafios dos jornalistas é conseguirem que lhes digam o que eles querem saber e não apenas o que lhes querem dizer...

Isto tanto serve para a reportagem, o perfil, a entrevista ou para uma simples notícia.

Felizmente enquanto entrevistador nunca tive grandes problemas de obter as respostas que queria.

Ao longo de mais de três centenas de entrevistas que fiz, só enfrentei dois casos estranhos. Um deles aconteceu com o Álvaro Cunhal, que só dava entrevistas por escrito, não possibilitando a conversa directa, que quase sempre suscita mais questões. Acabei por aceitar as regras do jogo e depois recebi as respostas às minhas perguntas na Soeiro Pereira Gomes, pelas mãos de Álvaro Cunhal, com quem  tive o prazer de conversar durante alguns minutos.

O outro caso é que foi mesmo estranho. Não divulgo o nome da pessoa em questão por ainda estar vivo e ser um afamado professor universitário. Quando cheguei à sua casa, tinha uma entrevista feita, com perguntas e respostas dele... Lá consegui contornar a questão, fui-lhe fazendo as perguntas que já tinha planeado e a conversa acabou por correr relativamente bem. Mas nunca esqueci a "lata" (para não lhe chamar outra coisa...) do professor...

Mas é mesmo um desafio, conseguir que nos respondam ao que queremos saber... 

(Óleo de Renné Magritte)

quarta-feira, abril 05, 2017

O Nosso Sentido Prático das Coisas...


As pessoas de quem gostamos  fazem-nos falta sempre por mais que uma coisa. É por isso que quando partem não fica apenas um vazio, ficam vários vazios...

O mais curioso é não sentir a falta da Gena quando estou com o Américo. Talvez isso aconteça porque sempre fizemos coisas, apenas os dois, desde a montagem de exposições a pequenas reparações das instalações dos espaços onde fazíamos e fazemos cultura.

Penso nela por pequenas coisas. Por exemplo, quando olho para a nossa biblioteca, onde ela passou várias horas a fazer o seu registo informático e que agora corre o risco de não ter continuidade... Vejo-a a sorrir sentada ao computador (felizmente passou uma boa parte da vida a sorrir e é sempre assim que a maior parte das pessoas a recorda, mesmo quem apenas a conhecia de vista...).

Ontem foi inaugurada a minha exposição de fotografia, "Passeio dos Tristes" e aconteceu algo "insólito", não fiquei em nenhuma fotografia (fui o único que tirei fotografias). Pois foi, faltou ali a nossa "fotógrafa oficial do social", a nossa querida Gena...

Pensei nisto quando vinha para casa. O nosso sentido prático das coisas está sempre a funcionar...

(Fotografia da máquina da Gena, disparada por um amigo que registou o momento, durante a oferta de um dos trabalhos do Américo, quando fiz anos em Setembro...)

terça-feira, abril 04, 2017

Flores para a Isabel...


Esta fotografia faz parte da minha exposição, "Passeio dos Tristes", que será inaugurada logo à tarde, às 17 horas, na Galeria-Sede da SCALA, em Almada.

O título que escolhi para ela foi, "Primavera no Ginjal" e é a fotografia mais recente desta mostra.

As flores são para a Isabel, porque lembro-me dela ter dado pela falta das flores na bicicleta, num dos seus comentários aqui no "Largo". A malta do "Ponto Final" aceitou o repto e escolheu malmequeres...

(Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, abril 03, 2017

Um Livro (Pouco) Profético...


Embora esteja hoje mais fora, do que quando escrevi o meu primeiro romance (e único...), em que "matei um árbitro", penso que a violência no futebol não tem aumentado, como nos tentam fazer crer. O que tem aumentado, sim, é o sentimento de impunidade. Mas é algo que tem alastrado por todos os sectores da sociedade...

E acaba por ser esse "sentimento" que pode levar tudo a perder, tal como a ausência de policiamento em jogos regionais (algo completamente irresponsável e absurdo).

O caso do "Canelas" (nome mesmo apropriado para aqueles rapazes...) é sintomático, pois desde o começo da época que 12 clubes do distrital do Porto se recusaram jogar com esta equipa, por tudo o que rodeava este grupo de "gentalha", habituada a fazer as suas próprias leis, dentro e fora dos estádios e na noite portista. Como de costume, quem poderia (e deveria) fazer alguma coisa, limitou-se a olhar para o lado e a assobiar para o ar.

E é provável que não existam responsáveis (para além do agressor), apesar da gravidade da situação. Talvez ainda sejam capazes de culpar os árbitros por não escreverem o que viam nos campos onde apitavam, nem as ameaças de que eram vítimas. Eles que continuam a ser os "parentes pobres" deste negócio, se esquecermos as "prima-donas" que apitam os jogos profissionais...

Mas não cabe na cabeça de ninguém que se deixe que um grupo de "arruaceiros", habituados a esgrimir argumentos nas bancadas dos estádios, também o possam fazer dentro dos estádios como atletas, e com a mesma impunidade com que o fazem por onde quer que passam...

domingo, abril 02, 2017

Viver é Isso...

A vida está sempre a desafiar-nos, com pequenas e grandes coisas.

Basta olharmos à nossa volta, para percebermos, que viver é isso.

(Fotografia de Luís Eme - "Passeio dos Tristes")

sábado, abril 01, 2017

As Primeiras Impressões...


Às vezes fazemos perguntas que sabemos que não irão ter resposta, porque há sempre razões que a razão desconhece...

Na sexta a Rita estava irritada porque tinha tido uma manhã daquelas. Foi por isso que me perguntou porque razão gostávamos de algumas pessoas mal as conhecíamos, e outras, nunca lhe dávamos sequer espaço para uma conversa, quanto mais oportunidade para algum dia sermos amigos.

Pois é, não se explica mesmo (pelo menos de uma forma racional) a empatia que sentimos por algumas pessoas, ou o contrário, com outras...

(Óleo de Nikolai Chernyshev)