quarta-feira, agosto 19, 2026

«Somos afinal de onde? Dos lugares para onde vamos ou dos lugares de onde vimos?»


As conversas de café sempre se alimentaram muito dos jornais e revistas que se liam, quase em equipa, com comentários frescos e para todos os gostos. Curiosamente, no nosso grupo, mesmo que seja tudo gente com ligações próximas do jornalismo, é raro aparecer alguém com "notícias de papel".  Claro que nos ocupamos da actualidade, mas usando os computadores e os smartphones...

A pandemia quase que nos forçou a abandonar a leitura física e a rendermo-nos ao digital. E já não conseguimos voltar para trás... por muito que gostássemos de folhear e ler  as notícias, do princípio para o fim ou do princípio para o fim...

Tudo isto, porque a Manuela escreveu mais uma crónica feliz na sua revista, sobre os emigrantes. E nós acabámos por falar da forma como usávamos (ou não) a memória.

É de facto muito estranho, que um país de emigrantes receba mal quem chega de fora. Gente que acaba por enfrentar os mesmos problemas vividos por muitos portugueses, há sessenta e até mais anos... A maior parte das pessoas que partiam, iam "a salto" (pelo menos para França, talvez por ficar logo a seguir a Espanha e já existir a "gente" que vivia destas viagens com percursos previamente estabelecidos, mais rurais que citadinos...) sem documentos e sem saberem muito bem o que os esperava. E é bom que se diga, que fugiam mais da vida de miséria que da guerra colonial...

Voltámos à Manela, porque a Rita quis ler uma das suas frases, que mesmo sem ser a mais importante, era a que tinha ficado presa nos seus pensamentos e queria ser tema de conversa: 

«Muitos dos que regressam carregam uma sensação persistente: já não pertencem inteiramente a França, mas também já não pertencem inteiramente a Portugal. Lá são “os portugueses”; cá são “os franceses”. Vivem entre duas línguas, duas memórias, duas formas de estar. E esta condição não desaparece necessariamente com o tempo. Passa para os filhos e, em certos casos, para os netos.»

Ficámos quase sem palavras. Fomos salvos pelo Carlos, que interrogou, muito bem, a gente que passava por nós, sem nos ver, cuja cor e roupagem nos diziam que tinham chegado de fora.

«Somos afinal de onde? Dos lugares para onde vamos ou dos lugares de onde vimos?»

Não sei se foi por ser Agosto, mas desta vez não divergimos, nem mesmo nas vírgulas. Concluímos que que somos dos sítios onde nos recebem bem e onde nos sentimos "em casa", mesmo que estejamos a milhares de quilómetros do lugar onde nascemos e crescemos...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


Sem comentários:

Enviar um comentário