domingo, março 08, 2026

Uma homenagem diferente às mulheres, com um poema de uma grande poeta...

 


sou um homem e pinto
 
acontece-me frequentemente sair de casa
para escolher uma mulher na rua,
uma desconhecida, alguém cujo rosto seja um poema, 
ou simplesmente um rosto.
visto umas calças e uma camisa velha 
e saio na hora de ponta,
envolvo-me na multidão e atravesso ruas sem parar,
até encontrar esta mulher.
 
já trouxe para casa mulheres cegas,
são fáceis de pintar,
tiram a roupa tão depressa como tiram os óculos
e despem-me em igualdade de circunstâncias.
não me fazem perguntas, falam das condições do tempo,
numa espécie de arrefecimento gradual
que vão experimentando com a idade,
e quase sempre me oferecem o corpo.
 
já trouxe mulheres solteiras, muito jovens,
ainda virgens, comportam-se timidamente,
não mexem em nada, fazem gestos de grande ignorância,
encolhem-se sobre a sua própria magreza,
enrolam fios de cabelo nos dedos, à espera das palavras.
 
já tenho recebido mulheres casadas, estupidamente infelizes,
que deixam os filhos na escola e chegam extenuadas,
como se a tarefa da maternidade fosse invencível,
ou estas visitas pudessem aliviá-las.
 
há uma que vem todas as sextas-feiras, descalça, 
com os olhos cheios de perguntas,
as mãos tão brancas e doridas, a pele enrugada,
cada ruga um enigma para o meu complexo ofício de pintor.
 
hoje, quando chegou, pediu-me com gentileza,
ponha algumas flores no meu retrato,
e foi sentar-se na cadeira.
depois, quando viu o retrato disse, 
ficam já estas para as que me faltarem na campa, e saiu.
 
alice macedo campos

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


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