sou um homem e
pinto
acontece-me
frequentemente sair de casa
para escolher uma
mulher na rua,
uma desconhecida,
alguém cujo rosto seja um poema,
ou simplesmente um
rosto.
visto umas calças
e uma camisa velha
e saio na hora de
ponta,
envolvo-me na
multidão e atravesso ruas sem parar,
até encontrar esta
mulher.
já trouxe para
casa mulheres cegas,
são fáceis de
pintar,
tiram a roupa tão
depressa como tiram os óculos
e despem-me em
igualdade de circunstâncias.
não me fazem
perguntas, falam das condições do tempo,
numa espécie de
arrefecimento gradual
que vão
experimentando com a idade,
e quase sempre me
oferecem o corpo.
já trouxe mulheres
solteiras, muito jovens,
ainda virgens,
comportam-se timidamente,
não mexem em nada,
fazem gestos de grande ignorância,
encolhem-se sobre
a sua própria magreza,
enrolam fios de
cabelo nos dedos, à espera das palavras.
já tenho recebido
mulheres casadas, estupidamente infelizes,
que deixam os
filhos na escola e chegam extenuadas,
como se a tarefa
da maternidade fosse invencível,
ou estas visitas
pudessem aliviá-las.
há uma que vem
todas as sextas-feiras, descalça,
com os olhos
cheios de perguntas,
as mãos tão
brancas e doridas, a pele enrugada,
cada ruga um
enigma para o meu complexo ofício de pintor.
hoje, quando
chegou, pediu-me com gentileza,
ponha algumas
flores no meu retrato,
e foi sentar-se na
cadeira.
depois, quando viu
o retrato disse,
ficam já estas
para as que me faltarem na campa, e saiu.
alice macedo
campos
(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)
domingo, março 08, 2026
Uma homenagem diferente às mulheres, com um poema de uma grande poeta...
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