quinta-feira, novembro 30, 2017

E Agora?

Os "Xutos e Pontapés" perderam hoje o seu líder natural, o guitarrista Zé Pedro, o elemento da banda que melhor assumia o papel de "roqueiro" daquela que continua a ser a única verdadeira banda de rock portuguesa.

Para trás ficam quase quarenta anos recheados de concertos, discos, entrevistas... com sucessos que todos recordamos, como "O Homem do Leme", "Remar, Remar", "Minha Casinha", "Circo de Feras", "Chuva Dissolvente", "Contentores", "Para Ti Maria", "Não Sou o Único", "Se me Amas", ou "Quero-te Tanto", entre outras dezenas de canções inesquecíveis.

E agora? Faz sentido continuar? Zé Pedro diria com toda a certeza, que sim.

Resta perceber o que pensam, e o que querem, o Kalu, o Tim, o João Cabeleira e o Gui. Porque deve ser muito difícil continuar na estrada, sem a companhia de Zé Pedro, o seu elemento mais emblemático e o líder natural da banda...

(Fotografia de autor desconhecido)

quarta-feira, novembro 29, 2017

O Anjo Pornográfico

Acabei agora de ler "O Anjo Pornográfico - a Vida de Nelson Rodrigues", de Ruy Castro. Como costuma acontecer quando leio ensaios ou biografias, demoro uma "eternidade" a chegar ao fim. E quando são quinhentas páginas... Ou seja, levei três meses a ler este livro.
Isso acontece porque tenho dois ritmos de leitura. Um para romances outro para ensaios. Os romances são escritos para serem lidos num ápice, os ensaios (onde incluo as biografias), são para se irem lendo, neste caso particular, é como se em cada "encontro" fosse conhecendo um pouco melhor Nelson Rodrigues (tal como sucede com as nossas amizades...).
Não é um livro deslumbrante, como cheguei a ler por aí (se o fosse tinha o devorado, como devoro os bons romances...), mas é um bom livro, muito bem escrito e organizado, que nos oferece um retrato extremamente completo de um dos maiores cronistas da língua portuguesa e um bom dramaturgo (foi bom conhecer detalhadamente esta sua faceta, nem sempre compreendida pelo público...).
Gosto de ler biografias porque acabam por ser também retratos de época, neste caso particular, acaba por nos dar informações importantes sobre a própria história do Brasil do século XX, especialmente do seu jornalismo.
E Nelson Rodrigues era um "escriba" extraordinário, com uma facilidade incrível em escrever sobre o que quer que fosse, mesmo que por vezes misturasse a ficção com a realidade. O facto de ele meter alguns dos seus amigos dentro das crónicas e até das peças que escrevia, dão-nos ideia do género de homem que ele era, muito observador e sem qualquer tipo de pudor, com tudo o que isso pode ter de inquietante e de perigoso (deve ter feito tantos "inimigos" pela vida fora...).
Ruy Castro, o autor, é um grande biógrafo. Nunca se perdeu ao longo da meia centena de páginas, manteve sempre uma escrita equilibrada, conseguindo focar os aspectos mais importantes da vida de Nelson Rodrigues, inclusive a sua vida familiar (desde a infância até aos últimos dias...), povoada de dramas.
A escolha do título também foi óptima. O Nelson era isto...

terça-feira, novembro 28, 2017

A Ambiguidade Feminina...


Nos meus primeiros anos de vida adulta tive mais que um exemplo daquilo que se pode chamar a "ambiguidade feminina".

Talvez fossemos todos do clube dos "assediadores", mas também me parece que era normal as moçoilas disseram "não", mesmo quando queriam dizer sim. Claro que só depois é que se percebia que afinal o "não" era "sim"... Às vezes já tarde demais...

Recordo que cheguei a ser "gozado" por alguns amigos, por ser demasiado respeitador das "damas"...

Claro que estou a falar dos primeiros namoricos, das primeiras saídas, tempos de inseguranças e de incompreensões, povoados por aquilo que me apetece chamar  de "ambiguidade feminina".

(Óleo de Rolf Armstrong)

segunda-feira, novembro 27, 2017

As Mulheres Assassinadas e as Forças de Segurança


Eu tinha pensado escrever esta semana sobre a forma como nos relacionamos com as mulheres e vice-versa, mas o artigo que a Fernanda Câncio publica hoje no Diário de Notícias (Mulheres Mortas), "cortou-me o pio". Artigo que aconselho todas as pessoas a lerem.

A Fernanda relata um caso, um dos mais graves que li, e que me tinha passado ao lado, pelos menos com todos estes pormenores. O que me choca mais é a conivência das forças de segurança e autoridade (GNR), que se limitaram a assistir a um assassinato, sem esboçarem um só gesto para defender a vítima de maus tratos e a filha.

É quase um lugar comum dizer que é mais que tempo de mudar, que é uma vergonha a forma como alguns agentes de autoridade tratam todos estes casos, sendo coniventes (e até co-responsáveis) por muitas das mortes que têm ocorrido nos últimos anos, por tratarem ocorrências graves de violência doméstica com uma ligeireza incompreensível. 

Será que ainda não perceberam que o país mudou, assim como as leis e a sociedade? É que a Revolução de Abril aconteceu há mais de 43 anos....

(Óleo de Michael Malm)

domingo, novembro 26, 2017

"A vida como ela é..."

Nelson Rodrigues, um dos grandes cronistas da língua portuguesa foi o autor de uma das crónicas que tiveram mais êxito no Brasil, "A vida como ela é...", em que embora ficcionasse a vida, tudo acabava por bater certo, tal era a forma surpreendente e inexplicável com que algumas pessoas viviam os seus dias...

Mas não é do Nelson que quero falar hoje,  mas sim da vida de todos nós, da forma como facilmente criticamos os outros, muitas vezes sem sequer os tentarmos perceber, outras, deixando alguma inveja a "flutuar"... Tudo isto porque cada vez  se conhecem mais casos de pessoas (já com idade suficiente para saberem o que é melhor para elas) que embora gostem de alguém e assumam a relação amorosa, cada uma continua a viver na sua casa. Ou seja, não querem perder o seu espaço, a sua liberdade. Por muito que me chamem egoísta, individualista, eu acho que isso não faz mal nenhum ao amor, nem ao facto de gostarmos de alguém. 

Só consegui que percebessem o meu ponto de vista, quando dei um exemplo quase antagónico, falando das pessoas que deixam de gostar, e por "dependência" (não ter onde ficar, ou estarem mesmo dependentes economicamente do outro...), são obrigadas a viver no mesmo tecto com alguém que já não suportam...

(Fotografia de Luís Eme)

sábado, novembro 25, 2017

Romeu "Excessivo"...

O Município de Almada resolveu aproveitar a comemoração do 20.º aniversário do Fórum Romeu Correia para realizar dezenas de iniciativas de homenagem ao grande Escritor de Almada, neste ano em que se comemora o centenário do seu nascimento, praticamente em apenas uma quinzena.

Não pensaram no quanto isso poderia ser "cansativo" para as pessoas, principalmente para os indiferentes ou aqueles que sempre olharam de lado para Romeu Correia.

Isso poderá explicar a ausência de público numa sessão tão prometedora como a de ontem, em que se iria falar da matéria mais popular, e de mais evidência como autor, a sua faceta de dramaturgo, com as peças que escreveu e as que visitaram os palcos, especialmente de grupos amadores, de Norte a Sul.

É também nestes momentos que eu percebo a parte "postiça", da Almada, "Capital do Teatro"... Não apareceu um actor, um encenador ou um amante de teatro...

(Fotografia de Luís Eme)

sexta-feira, novembro 24, 2017

Ser Engraçado, Cair em Graça e Afins...

Há pessoas que percebemos logo às primeiras que há muito poucas hipóteses de alguma vez sermos amigos, tais são as diferenças que descobrimos logo num primeiro relance.

Podemos estar enganados, pode acontecer, embora saibamos que esta é uma daquelas coisas que nem sequer belisca a regra.

E nem é preciso fazerem-nos mal. Basta fazerem algo que choca com a nossa forma de estar, ou que seja parecido com aquilo que normalmente abominamos. 

O mais curioso, é que a partir daqui, quase todas as tentativas de tentar inverter a situação, são ridículas e deixam transparecer a hipocrisia em que estamos metidos a vida quase toda...

Somos uns gajos tão estranhos.

(Fotografia de Izis Bdermanas)

quinta-feira, novembro 23, 2017

As Gaivotas em Terra de Manhã...

Apesar do Sol furar as nuvens ainda pouco escuras, pela manhã, as gaivotas já adivinhavam o pior para a tarde, à beira do Tejo, pelo menos na Capital...

Notei que não há qualquer sinal dos turistas desistirem de Lisboa, nem mesmo no penúltimo mês do ano. 

À tarde, já na Outra Banda, andei pelas ruas quase desertas de chapéu de chuva, a ver se molhava os pés (e consegui). As pessoas abençoam a chuva mas preferem ficar em casa a vê-la cair, do lado de dentro das janelas.

(Fotografia de Luís Eme)

terça-feira, novembro 21, 2017

A Falsa Fábrica de Sonhos....

No fim do descampado lá surgiu o velho barracão, ainda com alguma imponência, mas sem portas ou janelas. Ainda era visível a chapa ferrugenta com o nome da segunda vida, como "casa de sonhos", sem esconder que no passado fora uma fábrica de tijolos. 

Os donos fartos de saber que as discotecas passavam de moda rapidamente, fizeram um investimento quase curto. Depois de ser discoteca, ainda foi quase um "templo de rock alternativo", com música ao vivo às sextas.

Foi lá que o Rui e a malta da sua banda fizeram a estreia em concertos ao vivo. Quem os ouviu diz que tocavam bem, com o Rui a cantar em português (foi lá que cantou uma letra da minha autoria,  a "Viagem"...). Gostavam de tocar, de se juntar e criar. Não pensavam em discos, muito menos em ganhar camiões de dinheiro. Pelo exemplo do Rui, penso que nunca se levaram a sério, foi por isso que nem sequer pensarem em abandonar os seus empregos tristes. 

Pouco tempo depois o barracão foi obrigado a fechar por estar completamente "fora da lei". Não foi difícil de perceberem que o "fim" estava um pouco à frente, depois da esquina.

Não se chatearam, simplesmente acharam que aquela brincadeira musical foi perdendo a graça, provavelmente por não terem encontrado qualquer estrada com setas para o futuro. Começaram a vender o material da banda e prometeram deixar de sonhar por uns tempos... pelo menos sonhos com som.

Lembrei-me desta história por ter passado ao pé da velha fábrica e por saber que o Rui não voltou a tocar e a cantar, nem mesmo no banho (pelo menos é o que ele diz)...

(Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, novembro 20, 2017

Quase Cenário de Filme...

A "Outra Banda", outrora tão procurada por gente que vinha a esta margem com o intuito de pintar o Tejo e Lisboa, continua a oferecer a beleza de sempre, do alto dos seus miradouros, que surgem de uma forma natural, nos planos superiores das suas encostas.

Embora esta fotografia seja de Outubro, quando ainda parecia ser "Verão"... podia ter sido tirada hoje, à hora de almoço, em que a temperatura esteve amena, nos jardins da Casa da Cerca, com uma "varanda" virada para o melhor rio do mundo, que bem poderia passar por um cenário de filme, onde nem sequer falta um cacilheiro a navegar...

(Fotografia de Luís Eme)

domingo, novembro 19, 2017

Estes Tempos Cheios de Nada...

Estes nossos tempos, tão cheios de nada, fazem com que seja cada vez mais fácil ler em diagonal e perceber as coisas de uma forma distorcida. E o pior, é que isso acontece quase sem nos apercebermos.

Toda esta maquinação que nos permite viajar sem dar um passo, ir ao Japão e voltar em meia dúzia de segundos, está a roubar-nos a "atenção" e a "concentração", entre outras coisas, afundando-nos com demasiada informação "inútil", ao mesmo tempo que nos afasta de coisas que realmente nos deviam interessar...

Todo este uso e abuso de informação faz-me pensar que nunca foi tão fácil enganar tanta gente em tão pouco tempo...

(Fotografia de autor desconhecido das bibliotecas itinerantes da Gulbenkian de um tempo com muito mais minutos...)

sábado, novembro 18, 2017

«Qual casa, quais livros, quais quadros?»

As pessoas mais próximas ainda não perceberam até que ponto o António ficou afectado com a fogueira grande que deixou a casa de campo apenas com as paredes.

A Ana anda preocupada e diz a todos os amigos que o companheiro não anda bem. Tudo porque quando alguém lhe "quer medir o pulso", para saber coisas que ele desistiu de quer saber e lhe faz perguntas sobre tudo o que aconteceu, ele com um sorriso nos lábios diz: «Qual casa, quais livros, quais quadros?»

Com os amigos mais próximos vai mais longe nas explicações: «Há muito que a casa precisava de uma remodelação. Nos últimos anos foi tratada como "depósito de lixo", levávamos para lá o que não nos fazia falta. Os móveis que não queríamos, as roupas que não usávamos, os livros que não líamos e os quadros que não cabiam nas paredes. Agora voltou tudo ao início. Vai voltar a ser a casa dos primeiros tempos, quando acabarem as obras.»

E vai ainda mais longe no seu sorriso: «Talvez volte a ter tempo de pegar na viola no quintal e tocar para os pássaros.»

Mesmo assim desconfiam da sinceridade das suas palavras. Não compreendem que ele seja capaz de dizer, «Voltar atrás para quê?», um lugar comum que é título de livros e de filmes, mas que é a melhor solução para se conseguir continuar a andar em frente, sem andar com os bolsos cheios de "fatalidades". 

Não sei se é o facto de ser homem (com um bom poder de abstracção - que há quem chame capacidade de "fugir dos problemas"...), que me leva a compreender o António. Sei que o que ele quer dizer é que há coisas mais importantes que os objectos que vamos guardando pela vida fora, por muito que façam parte das nossas memórias...

(Fotografia de Tarlé Dominique)