quarta-feira, outubro 14, 2020

Uma Frase Simples e Verdadeira (infelizmente)


Estava a passar na sala e parei numa frase de um filme: "Ter educação a mais e a habilitações a menos sempre foi um problema". Um frase que não deixou de ser actual.

Sei que hoje há pessoas com cursos universitários (ou  frequência), que escondem estas habilitações, para se candidatarem a lugares de "caixa de supermercado". Mas penso que são a excepção que confirma a regra.

Felizmente hoje é proibido ter apenas a quarta classe, mas no tempo dos nossos avós e pais, a maioria das crianças ficavam-se mesmo pela quarta classe (alguns até com a terceira, havia um exame na terceira classe com menos custos e chatices...). E nas aldeias havia muitas crianças que nem sequer aprendiam a ler e a escrever (desde muito cedo que eram "mão de obra" lá por casa e ajudavam no que podiam e conseguiam).

Ter educação a mais também sempre foi, e continua a ser um problema, pois faz com que  sejamos facilmente ultrapassados por gente sem escrúpulos (sempre existiram, não é coisa de agora...), que fazem tudo (tudo mesmo), para conseguirem o que querem... E até são capazes de nos olhar e ficarem a pensar que somos iguais ao animal bonito da fotografia...

(Fotografia de Luís Eme - Beira Baixa)


segunda-feira, outubro 12, 2020

Os Cães e as Ruas


Talvez não seja bem assim, mas tenho a sensação de que a pandemia contribuiu para o aumento os animais nos lares almadenses, especialmente cães.

A minha estatística é o olhar, pois não me lembro de ver tantas pessoas a passearem os seus cães - de todas as raças e tamanhos - pelas ruas...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


domingo, outubro 11, 2020

Palavras Escondidas Atrás de Preconceitos


Todos nós enfrentamos situações, entre o estranho e o diferente, ao longo da vida. Umas mais marcantes que outras. Mesmo que o que ontem era esquisito, hoje seja quase normal.

E não é nada do outro mundo pensarmos que estamos preparados para o que vai surgir, depois de virarmos a esquina, e mesmo assim acabarmos surpreendidos... ou reagirmos de maneira diferente.

Mas as palavras são terríveis, e têm de facto um peso diferente. Como eu compreendi o Paulo, quando disse que não lhe fez muita confusão, o filho apresentar-lhe o companheiro, com quem vivia. Ia estranhar muito, sim, se ele lhe apresentasse o marido. Parecem coisas iguais mas são tão diferentes. Pelo menos na nossa cabeça...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, outubro 10, 2020

Fragilidades Humanas...


Ao reparar na descontração deste pato selvagem, misturado com as pessoas que escolhem passar o fim de tarde, rente ao Tejo, no jardim da Fonte da Pipa, constatei mais uma vez, que os animais se estão a aproximar de nós. 

Isso acontece desde o começo da pandemia. Foram as aves que deram os primeiros sinais, ao ocuparem as ruas que deixámos vazias.

Sei que eles têm os sentidos mais apurados que nós. Talvez isso os faça sentir que estamos menos perigosos. Talvez sintam as nossas fragilidades, com mais nitidez que nós.

Não esqueço que durante a semana que passámos na Beira Baixa, recebemos a visita diária de uma raposa, depois do cair da noite, algo que nunca acontecera. Ficava a observarmos sem se aproximar demasiado, sem deixar de dizer "estou aqui".

Claro que poderão ser apenas suposições minhas.

(Fotografia de Luís Eme - Fonte da Pipa)


sexta-feira, outubro 09, 2020

A Ausência do que é o Serviço Público (o "mundo do faz de conta"...)


Se estivermos atentos à prática política das nossas figuras maiores (presidente da República e primeiro-ministro), percebemos que governam sobretudo a pensar  no "mundo do faz de conta".

São muitas as palavras bonitas e confiantes, ditas por quem nunca irá preso pela forma como nos consegue enrolar nos seus discursos. O problema é quando temos de "bater de frente" num hospital, num centro de saúde ou em qualquer outro serviço público.

Se antes da pandemia as coisas já não funcionavam bem, hoje funcionam muito pior. Os funcionários públicos já eram reconhecidos pela sua filosofia quase milagrosa, de passarem ao lado do trabalho, deixando as chatices para amanhã. Hoje têm uma desculpa ainda maior, para a "ausência", para o não cumprimento de metas...

E será assim, enquanto a incompetência e a irresponsabilidade, foram quem mais ordena no que é chamado de serviço público. Como eu disse no inicio, começa logo no presidente da República e no primeiro-ministro. Depois segue o caminho habitual, passando por ministros, secretários de estado, até chegar ao contínuo de qualquer serviço...

(Fotografia de Luís Eme - Sesimbra)


quinta-feira, outubro 08, 2020

A "Loura e a Lua" Resistem ao Tempo...


Uma das coisas que me deixam curioso, é o quase "fenómeno" da substituição das pinturas de parede (às vezes semanal), especialmente no Ginjal, talvez por ser mais fácil reparar nas mudanças...

É por isso que fico espantado quando uma ou outra pintura resistem durante um ou dois anos. E quando acontece um "quadro" resistir quase meia-dúzia de anos, quase que apetece deitar um foguete.

É o que acontece com a "Loura e a Lua", que continuam a resistir ao tempo numa das paredes das casas em ruínas da Quinta da Arealva. Talvez a sua sorte seja não terem sido pintadas num lugar mais central...

(Fotografia de Luís Eme - Quinta da Arealva)


quarta-feira, outubro 07, 2020

Olhamos e o que Vimos?


Estas duas fotografias, fresquinhas (têm meia-dúzia de horas), suscitaram-me algumas questões. A mais pertinente foi a velha história de estarmos todos fisicamente no mesmo lugar, apenas fisicamente. As cabeças de certeza que andavam por sítios diferentes...


Olhamos todos na mesma direcção, e o que vimos?

Nunca é a mesma coisa, porque cada cabeça gosta de pensar de maneira diferente. E o Tejo está longe de ser um "jogo de futebol ou de ténis".

O Tejo é apenas a paisagem, o "pano de fundo". Podemos estar longe ou estar perto. Depende da nossa presença ou da ausência...

(Fotografias de Luís Eme - Boca do Vento e Olho de Boi)


terça-feira, outubro 06, 2020

"O Retrato do Mundo lá Fora"


Hoje lembrei-me de alguns projectos que estão na gaveta e também de algumas pessoas, que estão mais distantes, pelas razões que todos conhecemos.

O pior desta pandemia é mesmo o corte que todos sentimos em relação ao nosso dia-a-dia. Por muita vontade que tenhamos em viver como sempre vivemos, sabemos que tal não é possível.

Não há "liberdade de acção" que consiga resistir a tantos contratempos... E estas palavras não têm nada a ver com pessimismos ou optimismos. É apenas "o retrato do mundo lá fora"...

E é um grande golpe a esta coisa, que é a "vidinha" de todos nós... 

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


segunda-feira, outubro 05, 2020

Crescer com Tranquilidade e Normalidade...


Muitas vezes pensamos que todos crescemos e vivemos os mesmos problemas na infância, esquecidos de que além de sermos todos diferentes, cada família é um caso. Já para não falar da influência que os lugares têm dentro de nós...

Passei quase duas horas na conversa com uma amiga que escreve poesia, que me falou mais dela própria, que das coisas da cultura, que temos em comum. Foi uma conversa diferente de tantas outras que tivemos, porque desta vez ela decidiu focar-se, em alguns episódios da história da sua vida.

Começou por me contar o quanto as histórias misteriosas da infância a tinham marcado, negativamente. Além da religiosidade excessiva (além da ida à missa rezava-se muito em casa, onde havia uma espécie de altar com santinhos...), havia demasiadas coisas que não entravam em nenhuma conversa.

Mas o pior eram as superstições, de toda a ordem. Essas coisas de que todos nos rimos quando ouvimos falar, que metem gatos pretos, escadas, sextas-feiras, eram o seu prato do dia. Havia uma tia que até a costumava questionar se tinha entrado, aqui e ali, com o pé direito. Costumava dizer que sim, apenas para a deixar aliviada, mas não fazia ideia, qual era o seu "pé de entrada".  Também eram proibidas refeições com treze pessoas à mesa.

Nunca achou nada daquilo normal. E demorou muito tempo a libertar-se daquela quase "toxidade", que nos parece mais literária que real.

Eu que crescera sem a presença de pessoas supersticiosas à minha volta, achei tudo aquilo deliciosamente estranho. Foi quando ela me disse, com ar sério: «Que bom que foi para ti, cresceres com tranquilidade e normalidade...»

(Fotografia de Luís Eme - Sesimbra) 


sábado, outubro 03, 2020

Foi Apenas Intervalo...


No começo da pandemia, havia muitas vozes cheias de esperança, ao ponto de serem capazes de acreditar que era possível viver de forma mais saudável, de ainda irem a tempo de salvar o planeta...

Olhava-se para as ruas, quase sem gente, cheias de carros adormecidos. Ouvia-se uma música nova, o cantarolar dos pássaros que tinham regressado, dando sinal de que o ar estava mais respirável. Algo que foi confirmado pelos cientistas.

Habitar dentro de um "tempo suspenso", cansa, esgota... Foi por isso que aceitámos que tinham de existir outras maneiras de "combater" o vírus. Voltámos à rua, ao trabalho, em busca de uma "normalidade" que nunca apareceu...

Só os maus hábitos é que começaram a regressar todos, um a um... até aquela miséria que se esconde atrás dos "bancos alimentares" e das "missas", voltou, ainda com mais força. Tal como a "invenção" de mais rendimentos mínimos, para os precários das culturas e afins. 

E para não variar, parece que a "salvação" passa pela tradição do Estado em "subsidiar" o capitalismo, cada vez mais selvagem.

É por isso que uma fotografia para retratar este tempo, teria de ser obrigatoriamente, cinzenta... 

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sexta-feira, outubro 02, 2020

O Rapaz da Mercearia do Meu Bairro...


Quando vim morar para o meu "bairro" acabei por visitar a mercearia e percebi logo que a dona tinha nascido para estar atrás de um balcão, sempre simpática e prestável. E ganhou naturalmente mais um cliente.

Alguns anos depois mudou-se para uma mercearia mais central, que era quase um "super-mercado", mas que ficava num outro "bairro".

Foi uma pena, porque as pessoas que  passaram pela mercearia - foram bem mais de meia-dúzia -, pensavam mais no dinheiro que em servir as pessoas. Os produtos que vendiam além de caros, eram de qualidade duvidosa. Ou seja, eu só lá entrava quando precisava mesmo de qualquer coisa.

Quase trinta anos depois a mercearia voltou para a família, para o filho mais velho da senhora, que eu conhecia de criança. Comecei a passar por lá e percebi que o rapaz tinha herdado o jeito da mãe em cativar os clientes. E também tinha percebido que tinha de ter preços concorrenciais. Ou seja, conseguiu conquistar muitos dos clientes que o tinham visto crescer e que nem mesmo em tempos de pandemia, deixam de aparecer para dar um pouco à língua (não pode ser por muito tempo porque só podem estar três clientes em simultâneo na loja...).

Às vezes tenho de esperar alguns minutos cá fora e depois quando sou atendido, não me esqueço de lhe dizer que tem de despachar mais rápido as senhoras que aparecem ali com vontade de "namorar". Ele sorri com a cara de bom rapaz, que nunca perdeu.

Toda esta prosa, para dizer que sabe muito bem, sentir que "existe" uma mercearia no nosso "bairro"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, outubro 01, 2020

«Há bonecos que que não mostro a ninguém»


Provavelmente não devia falar em "visita guiada", porque é muito mais que isso. Falo de encontros com amigos artistas, que tanto podem acontecer durante uma das suas exposições, em horas mortas, como em visitas aos seus ateliers. que nos permite falar sobre tudo e mais alguma coisa.  Pois é, se for no espaço do artista é coisa para durar duas, três horas, e ser quase uma "viagem pela sua vida artística"...

A última aconteceu na semana passada. Além dos quadros pendurados pela casa e no sótão (o local de trabalho...), tinha caixas e pastas cheias de desenhos, guardados por temas. Fiquei surpreendido pela positiva. Havia tantas coisas bonitas que ele achava banais... 

Sempre achei graça ele referir-se aos seus desenhos como "bonecos".

Talvez possa ser uma defesa, mas eu gosto de pensar que é uma maneira descontraída e engraçada de se referir aos desenhos que faz quando lhe apetece (faz questão de não desenhar todos os dias, mas apenas quando as mãos "lhe dançam"...).

Desta vez falou-me das pastas que estavam mais fora de mão e disse: «Há bonecos que não mostro a ninguém.» 

Quis saber porquê. Foi sincero, falou de algum pudor e também de secretismo. Acrescentando: «Há bonecos que fazemos que não são para mostrar. Uns são quase estudos, outros são muito pessoais.»

Foi quando abriu a pasta com alguns dos seus nus. Achei-os um espanto. Foi bom ele ter feito uma excepção.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa, Museu Júlio Pomar)