sábado, maio 30, 2026

«Como é que podes estar a falar de dignidade num mundo completamente indigno?


Tenho um ou dois amigos anarquistas, surrealistas nunca tive nenhum.

Um ou dois pintores que se inspiram nas formas, ideias e mundos, que parecem mais saturnianas que terrestres, não contam.

Pensei nisso ao ler o livro, de António Maria Lisboa, "Uma Poesia Extrema", que como todos os "verdadeiros artistas", morreu novo.

No quinto ponto do seu "Aviso a tempo por causa do tempo" ele diz ao que vem: 

«que não somos assim contra a ordem, o trabalho, o progresso, a família, a pátria, o conhecimento estabelecido (religioso, filosófico, científico) mas que na e pela Liberdade, Amor e Conhecimento que lhes preside preferimos estes.»

Falei sobre isto com um dos meus homónimos, que também conhece o bom gosto da colecção dos livros de bolso da Penguin.

Também acabei por pensar e falar em Luiz Pacheco e João de César Monteiro, que só devem ter sido anarquistas ou surrealistas, de apelido.

Lembrei-me deles porque sempre tive alguma dificuldade em os respeitar como gente, devido à sua prática quotidiana. Como artistas, reconheço-lhes talento, coragem (é mais lata...) e individualidade, mas a sua "alma de chupistas", o andar sempre à procura da rua "onde chove dinheiro", não me deixa morrer de amores pela sua forma de vida.

No decorrer da nossa conversa, o Luís desculpou-os. Falou-me de "adaptações", de "escolhas", de "provocações", para se conseguir sobreviver nesta autêntica selva, que é a nossa sociedade, que ainda está mais cheia de "leões e panteras" nas ruas da cultura...

Quando me armei em purista e falei na dignidade do individuo, ele voltou a desarmar-me e quase que me silenciou:

«Como é que podes estar a falar de dignidade num mundo completamente indigno?»

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


Sem comentários:

Enviar um comentário