sábado, dezembro 30, 2023

Há coisas que fazemos, que não têm volta, são levadas, irremediavelmente, para o "mar"...


Recebi um telefonema há minutos, com os desejos de bom ano e com queixas da minha ausência, ao ponto de dizer que agora tudo é diferente para pior.

Não sou grande dançarino, ainda menos ao toque de violino. Fico sempre, parado, a ouvir...

A minha companheira que estava por perto e ouviu parte da conversa, falou de hipocrisia e de cinismo. Eu não consegui ver a questão dessa forma. Provavelmente isso acontece  por continuar a gostar desta amiga, e por perceber que somos todos diferentes e todos iguais. 

Não foi preciso dizer. Ela sabe que não vou voltar.

Sei que nem todos nascemos para fazer o papel de "heróis", em determinados lugares e momentos. Há sempre gente que tem dificuldade em dar o passo, que às vezes é preciso dar em frente, por feitio, por cobardia ou até por conveniência. O mundo é isso. Nós somos isso...

Deve ser por isso que sinto que há algum sentimento de culpa nas palavras que vêm do outro lado, por não ter tomado a posição mais justa e correcta, no momento certo. Mas o que passou passou, e mesmo que tenhamos a capacidade de perdoar, não esquecemos...

A vida é quase como um rio. Há coisas que fazemos, que não têm volta, são levadas, irremediavelmente, para o "mar"...

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


quinta-feira, dezembro 28, 2023

"da suavidade dos dias de sal"



um quase poema, para um livro bonito de poesia...

tanto amor,
tantos amores!
Tudo isto dentro de um livro
que nem as páginas a preto e branco
conseguem esconder a beleza  única das cores...


(só mesmo tu, Isabel, é que consegues aproveitar de uma forma tão feliz, (d) a suavidade dos dias de sal...)


(Fotografia de Luís Eme - Almada)

quarta-feira, dezembro 27, 2023

Ainda não me considero um desistente...


Alguns anos passam por nós, de uma forma estranha, sem que seja possível concretizar alguns projectos que considerávamos importantes. Isto acontece por várias razões, que tanto podem depender de nós como de terceiros.

Posso dizer que o meu 2023 foi assim. Foi um ano demasiado "insonso", com muitas coisas adiadas e outras até abandonadas. Não foi nenhuma novidade descobrir que uma boa parte das pessoas que estão à frente das instituições, não percebem que as coisas não se fazem de um dia para o outro, que há projectos que precisam de maturação, precisam de respirar... e até de "falarem" connosco, para serem melhorados.

Sei que mudaram várias coisas, em relação a outros tempos. Encontram-se mais portas fechadas por essas culturas fora. Mas eu também sou diferente. Já não tenho a "vontade de fazer coisas", que tinha com trinta e quarenta anos. Às vezes penso que me faz falta a "teimosia" que tinha, que me levava a saltar, um a um, os obstáculos que me iam colocando à frente (obrigava alguns fulanos a desistirem de "boicotar" o nosso trabalho por cansaço...). Outras nem por isso. Até por saber que é um desperdício dar "pérolas a porcos".

Mas ainda não me considero um desistente. É também por isso que espero que o 2024 seja diferente. Acredito que será, até por algumas coisas já terem sido iniciadas e vão transitar de um ano para o outro.

 (Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


domingo, dezembro 24, 2023

«E se for uma gaivota?»


«Vê lá se hoje não falas dos sem-abrigo. Sabes tão bem como eu, que eles nesta época, estão um bocadinho melhor que no ano inteiro, fazem parte das ceias de Natal que dão na televisão. São um bocado o presépio vivo daqueles que estão acima dos remediados.»

Antes que eu dissesse alguma coisa, insistiu em continuar a ser bom "conselheiro": «Coloca a fotografia de um gatinho, com um laçarote, com umas palavras bonitas. Tem mais a ver com o Natal.»

Quando nos servem ironia em doses capazes de alimentar um urso, não nos restam muitas palavras. Foi por isso que eu respondi: «E se for uma gaivota?»

Um pouco fora de propósito, deixo-vos votos de Boas Festas, com mais esperança que ironia para o ano, que já está ali mesmo à porta.

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


sexta-feira, dezembro 22, 2023

"Fingir" que não se vê o que está à frente dos nossos olhos, não nos vai levar a sítio nenhum...


Uma das situações que me faz mais confusão na nossa sociedade actual, não é  o aumento de gente a viver na rua em si, é perceber que é uma situação sem estudo e aparentemente sem solução, pelo menos no nosso País.

Digo isto porque uma boa parte dos novos sem-abrigo, são pessoas de outras nacionalidades. Uns vieram em busca de trabalho e têm dificuldade em consegui-lo. Outros são nómadas - chamar-lhes turistas é capaz de ser ofensivo -, andam de terra em terra, de país em país, com mochila e tenda às costas (é graças a eles que se vêm tantas tendas montadas um pouco por todo o lado na Capital...) e vivem ao "deus-dará". Nem todos tocam guitarra e cantam, ou seja, têm capacidade para fazer da rua um palco e deixar no chão uma boina para as moedas. Mas o instinto de sobrevivência faz com que depressa percebam quem são as instituições que fornecem refeições e onde passam.

Devemos ser o Pais mais aberto e mais acolhedor para esta gente marginal, porque o nosso habitual "deixa andar",  sem que se tome qualquer medida, nem se tenha bem a dimensão dos problemas, faz com que eles se sintam completamente à vontade.

Isso reflecte-se em outras situações. Não sabemos ao certo quando imigrantes temos em Portugal, sejam eles oriundos do Oriente ou da América do Sul. Quando de fala em meio milhão, deve-se multiplicar este número por três (foi uma fórmula que um amigo inspector do desaparecido SEF me ofereceu, e que por norma está certa...). Muito menos sabemos quem são estes novos "nómadas" (que não têm nada de digital...).

Não sou apoiante das medidas que foram tomadas pelos franceses, muito menos das ideias do Chega sobre quem vem de fora, mas sinto que temos de fazer alguma coisa. Até porque o número de portugueses que vivem com dificuldades já é bastante significativo.

A única certeza que tenho, é que "fingir" que não se vê o que está mesmo à frente dos nossos olhos, não nos vai levar a sítio nenhum...

(Fotografia de Luís Eme - a arte da Rosarlette na Cova da Piedade)


quarta-feira, dezembro 20, 2023

Quando ser bom não é suficiente...


É giro como a palavra "bom", pode ter significados, completamente diferentes. Sim, podes ser "bom" e não ser "boa pessoa" (é quase normal, porque quando és "bom" em qualquer coisa, não gostas muito de dar confiança ao "mundo", deve vir nos manuais de "ser vedeta"...).

Tudo isto porque fiz quase o papel de "psicanalista", com um pai que pensava que o filho ia ser o "novo ronaldo". Ficou muito desiludido por estar ligeiramente enganado. Não era daquelas pessoas que estava a pensar tornar-se milionário à custa do talento do filho, era apenas vítima da "cegueira de pai", que nos faz olhar para os nossos e ver os "melhores do mundo".  Quando desceu à terra, percebeu que estava a fazer mal ao filho e a ele próprio, por estar a obrigá-lo a ser uma coisa que não era...

Não falei muito, limitei-me quase a ouvir. Cada vez dou menos palpites em relação às vidas que nos rodeiam.

Acabámos por falar também da "sorte", da que cai do céu, mas também daquela que dá muito trabalho, que temos de correr atrás dela, porque às vezes só passa uma vez na nossa rua.

Também esta, nos diz que ser bom, não é suficiente...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, dezembro 19, 2023

Milhares de anos de história servem para muito pouco...


Milhares de anos de história, servem para muito pouco, quando procuramos diferenciar  as pessoas, os tempos e os lugares, pelo menos quando falamos de violência.

Encontramos em praticamente todos os continentes governantes que não aprenderam nada com a história. Continuam a fingir que não percebem que o fanatismo não se combate com fanatismo, e que o ódio por si só, a única coisa que consegue, é gerar ainda mais ódio.

Nem precisava que judeus como Hannah Arendt, Primo Levi ou Amos Oz, passassem por cá e dissessem o que pensam do homem que governa hoje Israel. 

É demasiado óbvio que se parece cada vez mais com Hitler e menos com o povo judeu...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


domingo, dezembro 17, 2023

Um Natal mais estranho que todos os outros...


Não me lembro de sentir o Natal tão estranho como neste nosso tempo.

Os miúdos cresceram e já não ligam muito a estas coisas...

Mas sei que não é isso. 

Cada vez suporto menos este mundo que nos rodeia, que é para tudo, menos para natais.

Incomoda-me cada vez mais a normalização do egoísmo, da mentira e do roubo da vida...

Deve ser também por isso, que não me apetece, quase nada, receber ou dar presentes. Prefiro ficar mais fora que dentro desta "febre consumista"...

Mas o que preferia mesmo, era que toda a hipocrisia deste tempo passasse depressa, mesmo percebendo que um dia não são dias, pelo menos para quem vive na rua, que tem a possibilidade de ter roupa lavada e comida quente, durante a época festiva. 

E até pode ser que um ou outro seja "sorteado", para passar a consoada com uma daquelas famílias ricas, que gostam de manter as tradições...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sábado, dezembro 16, 2023

Notícias e personagens do meu bairro...


Nunca sei bem o que se passa, ao certo, no meu bairro. Normalmente apanho as notícias a meio, já quase em deferido e também com os "aumentos do costume" (quem conta um conto acrescenta mesmo um ponto...).

O curioso é que há homens com alma de mulheres (e ainda bem, senão mais de metade das coisas que se passam, passavam-me ao lado...). Um deles é meu vizinho.

Uma tarde vi um carro de bombeiros parado numa das ruas que percorro diariamente. Estranhei aquilo, até por não ver qualquer sinal de incêndio ou de outro acidente qualquer. Só dois dias depois é que soube que estavam a pintar o prédio e que um dos moradores do rés de chão não deixou que entrassem no seu quintal para pintarem as paredes. Aquilo acabou por meter senhorio, polícia e bombeiros. Acabaram por arrombar a casa e descobriram que o homem era uma "acumulador" e que as divisões estavam cheias de "lixo".

Entretanto o senhor (com quem costumava trocar bom dia e boa tarde, quando ele estava à janela a fumar...) desapareceu dali e a casa ficou devoluta... Falta-me saber o que lhe aconteceu. Estou em falta, porque ainda não perguntei a nenhuma das pessoas bem informadas da minha rua, para onde o levaram.

Outra das "novas" passou-me completamente ao lado. Estava a falar no meio da rua com o meu vizinho, quando passou uma senhora por nós. Foi quando fiquei a saber que ela tinha corrido com o amante lá de casa, e que aquilo tinha metido polícia e tudo. Como ele não queria sair a bem, saiu a mal. A mulher chamou a polícia e ele teve mesmo de fazer as malas e pôr-se a milhas.

Perguntei-lhe como é que ele sabia todas aquelas coisas. Começou a sorrir e passou a "bola" a outra personagem cá do bairro, que diga-se de passagem, além de boa "fonte de informação" é um excelente contador de anedotas.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sexta-feira, dezembro 15, 2023

Nem tudo é mau na "nova" televisão...


Embora a programação televisiva deixe cada vez mais a desejar, especialmente nos canais generalistas, a possibilidade que o cabo nos dá de podermos andar para trás foi uma excelente invenção. Oferece-nos a "liberdade" de vermos o que nos apetecer.

Foi desta forma que me foi possível ver o documentário biográfico sobre Nuno Teotónio Pereira (que até é possível que tenha visto pela segunda vez...), transmitido na RTP2. Foi bom rever histórias, pessoas e lugares, que conheço ou conheci.

O curioso é que estes programas dão sempre a altas horas da madrugada. Talvez já estejam programados para serem vistos nos dias seguintes...

Mas são muito mais agradáveis de ver (para mim, claro...) que ter se seguir as "novelas" criadas semana sim, semana não - agora são sobre as duas gémeas brasileiras e cada canal oferece a sua versão... -, ou ver cenas de guerra, que ultrapassam tudo o que já se viu por esse mundo fora, com os assassínios diários protagonizados pelos israelitas.

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


quinta-feira, dezembro 14, 2023

Pois é, somos mesmo um país do caraças...


Sei que não devia ser demasiado pessimista a falar deste nosso país, depois do que escrevi ontem (há sempre a possibilidade de ser eu a usar as lentes erradas...). Mas este nosso Portugal é cá uma coisa... 

Como dizia o Rui, somos um país do caraças (esta frase dá para tudo, para o bom e para o mau).

Sei que o meu olhar (e de uma boa parte dos meus amigos da Margem Sul), não é o olhar da maior parte dos portugueses, mesmo que as sondagens que surgem nas televisões e nos jornais se aproximem dele, em relação às próximas eleições legislativas. Sim, todos nós estamos cansados de um PS que fingia que fazia coisas, embora deixasse tudo na mesma. Mas temos ainda mais receio de um PSD, que assim que se apanha no poder, começa logo a privatizar o que resta das empresas públicas lucrativas. Mas o maior medo é que ele aproveite toda esta "balbúrdia na saúde", para entregar os hospitais aos amigos e "matar de morte matada" o SNS, uma das melhores coisas que nos trouxe Abril.

O mais estranho (ou talvez não...), é que de repente, até parece que António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa, não têm nada a ver com os últimos acontecimentos do país, tão poderosas são as "máquinas de lavar", mais branco, deste portugalinho...

Para terminar volto a transcrever alguém cuja lucidez chega a fazer doer: «A todas as horas e de todos os lados, só nos chegam motivos de desânimo e náusea. Mais roubalheiras, mais traficâncias, mais cobardias, mais degradações, na administração pública, nas profissões liberais, no comércio, na indústria, nas ciências, nas artes e na religião. De tal maneira, que, mesmo contra a vontade, é-se levado a concluir, tristemente, de que em vez de uma comunidade de esforços nobilantes, somos uma lamentável associação de indignidades.» 

Estas palavras foram escritas em Junho de 1970, por Miguel Torga, num dos seus diários, há mais de 53 anos...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, dezembro 13, 2023

O olhar de quem nos vê do lado de fora (que nem sempre usa as "lentes" certas)


De vez em quando aparecem por cá uns estrangeiros, que pensam que o seu olhar vê melhor, e mais longe, que o olhar dos portugueses.

Alguns até acertam, por terem o distanciamento que nós não temos.

Mas não é esse o caso do designer francês, Philippe Starck, que retrata o nosso País como "o único lugar do mundo onde ainda se partilham os valores humanos".

Percebe-se que este senhor não anda nas ruas, diariamente, e anonimamente. Deve viver num lugar paradisíaco, rodeado de aldeias, onde ainda existe essa tal autenticidade de que ele fala, e onde deve ser "venerado".

Eu gostava que ele estivesse certo, mas onde já vai, esse Portugal... 

Claro que temos essa coisa boa de "vivermos e deixarmos viver", sem andarmos a chatear o próximo. Mas daí a termos todas aquelas qualidades, em extinção... é muito abuso.

As suas palavras foram escolhidas para terminar o "É ou não é" (da RTP1) sobre a Cultura, que acabou há minutos, e se disseram coisas importantes, embora, como de costume, amanhã continue tudo igual...

(Fotografia de Luís Eme - Arealva)