sexta-feira, agosto 11, 2023

Ainda existem alguns "milagres humanos", aqui e ali (cheios de teimosia...)


Hoje no meu "Casario" tento fazer alguma justiça a três associativistas, que foram do melhor que conheci nesta Almada, tão fecunda em verdadeiros "operários da cultura".

Foi quando me lembrei das parecenças que existem entre o Associativismo e o Circo, na batalha pela sua sobrevivência. Dos homens que são uns "faz-tudo", porque a necessidade assim os obriga, já que o dinheiro por mais bem gerido que seja, nunca chega...

Sim, por exemplo, o Fernando Gil ou o Francisco Gonçalves, além de serem os protagonistas de qualquer peça de teatro da Incrível Almadense, também montavam e carregavam os cenários, vendiam entradas na bilheteira, entre outras coisas que fossem emergentes para que o espectáculo acontecesse.

No circo passa-se a mesma coisa. Durante a montagem das tendas gigantes é fácil descobrirmos o trapezista ao lado do palhaço ou do equilibrista, a levantar do chão, aquela "casa de sonhos". Tal como durante o espectáculo poderemos ver alguém muito parecido com eles, vestido com uma bata (para disfarçar), a ajudar a tirar as coisas da arena circular, para que não se perca muito tempo entre números, ou ainda a levar as pessoas para os respectivos lugares das bancadas antes do começo do "maior espectáculo do mundo".

Infelizmente o futuro não se compadece com estes "amadorismos" e estas duas actividades vivem grandes dificuldades. Muitas vezes só subsistem quase por "milagre".

Milagres humanos, claro (cheios de teimosia...).

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quinta-feira, agosto 10, 2023

Livros, escritores e livrarias (com e sem futuro...)


Passei por uma "Bertrand" lisboeta e descobri esta pergunta-mensagem na montra.

Minutos antes tinha estado a beber um café e a conversar com um velho professor, que entre outras coisas, me disse que os livros dos grandes autores tinham os dias contados.

Para explicar melhor o seu ponto de vista usou o "escritor-apresentador de telejornais", provavelmente o único autor português próximo dessa coisa que se chama "best-seller". «Não posso "receitar" a leitores do Rodrigues dos Santos livros chatos e complicados, capazes de provocar insónias e fazer pensar em coisas estranhas.»

E depois disse-me, em jeito de conclusão: «Uma escrita quase lisa, evita muitas quedas e tropeções nos "buracos da vida".»

O mais curioso foi não ter ficado nada convencido com este ponto de vista. E minutos depois, aí estou eu a esbarrar com esta "Bertrand", a caminho da nossa Roma...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

quarta-feira, agosto 09, 2023

Escrever para a "gaveta" ou deixar simplesmente de escrever...


Mesmo que os blogues sejam cada vez menos lidos, no meu caso pessoal, que sinto necessidade de escrever, diariamente, funcionam mesmo como "tábua de salvação".

Sei que não é uma coisa assim tão difícil como pode parecer, deixar de escrever. Tenho o exemplo de um amigo poeta, que raramente escreve o que quer que seja, porque não queria encher as "gavetas" de casa de papéis.

Acompanhei o processo com alguma ironia e durante algum tempo pensava que ele me mentia, quando dizia que quando lhe aparecia qualquer ideia, normalmente saía do lugar onde estava e tentava distrair-se com  outra coisa, à espera que a fonte de inspiração fosse embora.

No início foi doloroso, mas com o passar do tempo "curou-se", deixou de sentir necessidade de registar as ideias, os pensamentos em qualquer papel.

Quando lhe pergunto se sente falta da "companhia do poeta", diz que nem por isso. Provavelmente está a mentir, mas a vida é o que é.

"É pá, onde eu já vou!" Pois, começo a escrever e como os "travões estão pouco afinados", torna-se difícil parar (pois é, parece que não consigo fazer como o poeta) ...

A meio da manhã encontrei um amigo na mesa do café onde antes tínhamos uma "tertúlia" aos sábados de manhã. Ele estava a escrever e foi por isso que lhe perguntei se não incomodava, beber um café com ele. Ele disse logo que não. E depois fomos falando.

Contou-me o que se passava com um dos seus projectos de livro (de história local), que continua a ser adiado, porque as autarquias almadenses vão fechando cada vez mais os cordões à bolsa, a quase tudo o que é cultura local.

Também falei do meu caso pessoal, dos dois presidentes de junta, que nem sequer se dignaram a receberem-me em audiência, para lhes apresentar um projecto. É como diz o Ricardo Araújo Pereira, "gente que não sabe estar". E ponto final.

Claro que não vou deixar de escrever como o meu amigo Poeta, nem fico tão constrangido como este outro amigo, tertuliano, por ter um bom livro (quase um roteiro local...) "engatado", por causa desta gente que prefere gastar uns milhares de euros com qualquer cantor  da "rádio e da cassete pirata" em vez de apoiar a cultura local...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


Gente com Demasiadas Cores (digo eu, claro)...


Poderia ficar em silêncio, deixar passar o centenário do nascimento de Mário Cesariny, sem manifestar a opinião negativa que tenho sobre quase todas pessoas que se esforçaram para que se falasse mais das suas vidinhas que dos seus percursos literários ou artísticos.

Acho que foi por esta razão que nunca quis conhecer o Luiz Pacheco (que viveu na minha Cidade-Natal), por ser mais conhecido pelas suas polémicas e vida de pedinchice que pelos livros que escreveu e editou. E também não acho grande piada que se faça mais mais eco da homossexualidade de Cesariny que da sua poesia ou arte pictórica. O mesmo poderia dizer de João César Monteiro, que ficou mais famoso pela sua "loucura", com a sua "Branca de Neve" à mistura, que pelas "Recordações da Casa Amarela", por exemplo.

As pessoas a preto e branco podem ser chatas e apagadas, mas as com demasiadas cores, também se tornam confusas e acabam por fugir ao essencial.

(Fotografia de Luís Eme - Arealva)


terça-feira, agosto 08, 2023

«Não são as profissões que nos tornam pessoas estranhas, embora existam profissões mais estranhas que outras»


Quando eu disse que «não são as profissões que tornam as pessoas estranhas», estava longe de pensar para onde seguiria a conversa. O que podia ser entendido apenas como um lugar-comum ou como uma verdade lapalissiana, levou-nos para outros lugares. E ainda bem.

Gostamos de simplificar as coisas. É por isso que passamos a vida a dizer outro lugar-comum (falso como judas diga-se de passagem): "a vida  não é complicada, nós é que gostamos de complicar as coisas... "

Claro que há vidas muito mais complicadas que outras, e por mais que nos esforcemos, nem sempre se consegue tornar tudo mais fácil. Porque normalmente há sempre "terceiros" envolvidos, que tanto nos podem facilitar ou dificultar as coisas...

Quando o Pedro disse que não são as profissões que nos escolhem a nós, somos nós que as escolhemos, percebi que era dia dos "lugares-comuns"...

E quando demos por isso já se falava de divórcios, de profissões quase sem horários de trabalho e com deslocações para longe (jornalistas, vendedores ou polícias de investigação) e de outras, com mais serões que o normal, embora fossem mais bem pagas (políticos, advogados, juízes, médicos ou enfermeiros), que tornavam mais difícil o equilíbrio familiar. 

E para fim de conversa uma das moçoilas que estava na mesa disse: «Não são as profissões que nos tornam pessoas estranhas, embora existam profissões mais estranhas que outras.» Os lugares-comuns tinham vindo para ficar.

 (Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, agosto 07, 2023

«O segredo é a capa. Quase que abre a porta à ficção.»


Estávamos ali os dois, quase perdidos, a ver este calor de Agosto chegar, mesmo que ainda fossem nove da manhã.

Pouca gente à nossa volta na esplanada do café, muito cerimoniosa ou ainda sonolenta. Éramos os únicos que falavam, os outros viam e liam as novidades através do pequeno rectângulo que lhes enchia as mãos e os olhos. Só um homem lia o jornal (esse mesmo, o do costume...) e parecia deliciado.

O meu companheiro falou da estranheza de já não se verem pessoas a lerem jornais desportivos. Eu, meio a brincar meio a sério, disse-lhe que talvez prefiram ser informadas pelos programas onde se comenta aos gritos, quase num teatro televisivo. Mas depois lembrei-me do meu vizinho do rés de chão que compra todos os dias a "bíblia", que se tornou um jornal comunitário. Expliquei o seu percurso, tal como ele me contou. Compra o jornal às oito, juntamente com o pão para o pequeno almoço, às dez volta a sair de casa e deixa-o no restaurante do Carlos, onde passa por várias mãos, até ser levado por outras mãos amigas, depois do almoço, para voltar a ser lido por vários olhos.

Voltámos ao "jornal-rei", que além da capa sugestiva, tem sempre um manancial de informação. Fala-se dos bombardeamentos da guerra, dos incêndios que voltaram (quem terá acordado os malditos incendiários?), dos homens que batem em mulheres, das corajosas que fartas envenenam trastes que também eram maridos, do jogador que foi vendido pro milhões... e sim, também dão relevo a uma qualquer odalisca, meio vestida, que trocou de marido, como se troca de automóvel. E poderia continuar. É de facto um jornal com notícias.

E sim, quando o Carlos disse: «O segredo é a capa. Quase que abre a porta à ficção.» Estava quase certo. Só é pena que os seus leitores não fiquem famintos de ficção e se voltem para os livros das boas e grandes histórias...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, agosto 06, 2023

O porquê da Ponte sobre o Tejo ser "vermelha"...


Normalmente evito repetir efemérides por aqui, mesmo que este seja um "Largo" com "Memória".

Mas não resisto e aproveito mais um aniversário da Ponte sobre o Tejo, que foi "Ponte Salazar" de 1966 a 1974, até que o 25 de Abril veio em boa hora e substituiu o ditador (que até era contra a construção da ponte, por causa dos muitos milhões que estavam em equação...), para divulgar uma anedota, que o José Gomes Ferreira me contou no seu livro, "Passos Efémeros (dias comuns 1)".

Segundo o "Poeta Militante" havia um Padre que dava a disciplina de Religião e Moral no Liceu Camões, em 1966, no ano da inauguração da Ponte, que não devia gostar nada do doutor António de Santa Comba e saiu-se com esta (o filho de Gomes Ferreira era um dos alunos...), na aula: «Os meninos sabem porque é que a Ponte Salazar ficou vermelha? - claro que ninguém sabia, e ele contou - Por vergonha de lhe porem aquele nome.»

Espero que este Padre progressista não tenha sido muito incomodado nesses longínquos anos sessenta do século passado, por a sua "moral" estar no lado certo da vida...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sábado, agosto 05, 2023

A natureza tudo vence, até o nosso egoísmo...


Fala-se muitas vezes dos jovens, quase sempre de forma injusta.

Devíamos pensar sim, no mundo que lhes estamos a deixar, até onde fomos capazes de levar o nosso egoísmo, onde se torna demasiado óbvio que as nossas preocupações sobre o bem estar  e o futuro de todos, continuam a não se distanciar mais de um passo do presente e do nosso olhar. 

Claro que generalizo. Mas é a única forma de falar sobre o amanhã. A maior parte das pessoas se puderem estar em casa com o ar condicionado ligado, para esquecerem os 40 graus que estão lá fora, não têm qualquer problema existencial em carregar no botão. E ainda menos em tomar dois duches diários, mesmo que nas áfricas crianças, adultos e idosos, não tenham água potável para beber...

O resultado desde "viver atrás do espelho", apenas para nos pentearmos e tornar o nosso rosto mas agradável, é visível diariamente. Se numa ponta do Planeta chove a rodos, provocando cheias, no outro há incêndios que destroem parques naturais agradáveis e grandes zonas florestais que contribuíam para o equilíbrio ambiental...

Apesar dos cientistas colocarem muitas vezes em cima da mesa o ano 2050 como limite (não sei porquê...), à velocidade com que tudo se transforma e a temperatura sobe, é melhor alterarem as contas, porque serão cada vez menos, os que lá irão chegar. E em situações de vida bastante complicadas, a todos os níveis.

Muitos de nós, com mais de cinquenta anos, em vez de alterarmos os nossos hábitos, dizemos que já cá não estaremos, quando tudo começar a ruir. 

E está tudo dito...

(Fotografia de Luís Eme - Fratel)


sexta-feira, agosto 04, 2023

Os "seres cantantes" e os "velhos de cacilhas"...


Passam por nós seres cantantes, um ou outro embrulhado em bandeiras que identificam as suas origens, que alegra estes dias quentes, repletos de santidade.

Não me embalo nem me incomodo com estas cantorias e alegria alheia.

A "velha do restelo" que me acompanha diz, «que pena na segunda-feira voltar a ser tudo como era...» 

Há mais ironia que vontade de parar este tempo que, entre outras coisas, deu férias aos ministros e secretários de estado que adoram enfiar os pés nos buracos das estradas...

Eu sei que ela tem razão mas mantenho-me em silêncio, a olhar esta multidão quase jovem, que junta a calma e a alegria ao ruído, sem fazer tremer as calçadas.

Antes de subirmos à cidade, assistimos ao embarque  lento de uma multidão de gente de todas as cores e raças no cacilheiro.

Penso que agora sim, imitamos os "velhos do restelo", mesmo que sejamos apenas "velhos de Cacilhas", cativos no cais, à espera dos dias normais de Agosto nas cidades. 

Ao contrário das calçadas, o cacilheiro, sim, deve abanar com tanta gente e tanta canção por metro quadrado...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


quinta-feira, agosto 03, 2023

Dias quase comuns (se esquecer a hora do café)


Ontem bebi café com um dos meus amigos pintores. É sempre um prazer falar com ele, mesmo vivendo num momento de grande indefinição em todas as artes, em parte porque quase "toda a gente quer ser artista" e isso acaba por banalizar (cada vez mais) o acto criativo.

Hoje foi tempo de tomar café com letras (o saudoso nome de um café que fez furor em Cacilhas no começo de século...), na companhia de dois escritores "ressabiados", que gostam de se servir da ironia para o seu habitual bota-abaixo ou para explanarem uma ou outra teoria da conspiração.

Quando era assinante do "Jornal de Letras" e da revista "Ler", chamavam-me tudo e mais alguma coisa. Não foi por causa deles que me esqueci de renovar as duas assinaturas, mas tinham alguma razão no que diziam, estas duas publicações são mesmo "duas quintas", nem sempre bem frequentadas.

Lá me estou eu a desviar da conversa.... 

Estou a reler  os "Passos Efémeros (Dias comuns 1)" de José Gomes Ferreira e depois de deixar estes dois amigos vim pelo caminho a pensar numa das suas frases do livr0: «Pobre razão neutra! (de quem sonha com páginas neutras), revistas neutras, poetas neutros, homens neutros!) posta com indignação fingida na balança, para justificar a tirania e concordar com ela.»

Foi mais ao menos isso que disse a estes dois companheiros, mas fui derrotado facilmente. Encheram-me de exemplos de "livros de trampa" (eles usaram outra palavra...) que são criticados como se fossem obras da prima, ou de escritores e poetas que não valem um chavelho (foi mesmo esta a palavra dita...) e são vendidos quase como candidatos ao Nobel.

Mudando de assunto, sei que leio e releio esta e outras obras diarísticas do nosso grande "Poeta Militante", por me identificar bastante com a forma como José Gomes Ferreira "pinta a cor dos seus dias". Talvez isso aconteça por normalmente ter mais que fazer que me preocupar demasiado com o "Mundo dos Outros"...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


quarta-feira, agosto 02, 2023

Ai liberdade, liberdade, para onde te estão a querer levar...


Mesmo pessoas como eu, que se estão borrifando para o "politicamente correcto", por vezes também ficam a pensar se devem, ou não, fazer isto ou aquilo. 

A onda crescente de "censura" e de "censores" é tal, que tenta varrer tudo o que lhes faz comichão - mesmo que seja só na ponta do nariz -, para qualquer caixote do lixo. Gostam tanto de se fazer notar, que nem sempre lhe conseguimos ser indiferentes.

Escrevo isto porque tenho alguns livros infantis e juvenis que os meus filhos não querem e que são para dar a outras crianças, que gostem de livros. 

Mas com todas estas manias sexistas, que quase querem proibir as meninas de andarem de cor de rosa e os meninos de azul, não sei se será boa ideia dar alguns livros da minha filha (mesmo que tenham sido escolhidos por ela, há apenas uma dúzia de anos...), como os que estão na fotografia...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


terça-feira, agosto 01, 2023

Cristão, sim, Católico, não...


Hoje cruzei-me com dezenas de peregrinos pelas ruas de Almada. Não foi muito difícil de perceber que não pertenço aquele mundo.

Enquanto regressava a casa fui visualizando a minha caminhada lenta de afastamento da religião católica, desde a adolescência. Senti desde cedo que não fazia qualquer sentido pertencer a uma religião que por muito que falasse dos "pobrezinhos", preferia a companhia dos ricos e poderosos.

Mas não deixa de ser curioso, que o episódio que ditou o meu "divórcio", tenha tido a intervenção directa de um padre... 

Mais por tradição (e alguma pressão dos avós...) que por outra coisa, os meus dois filhos foram baptizados. Na preparação do baptismo do meu filho mais velho, o padre fez uma coisa ligeiramente rasteira, disse que só baptizava o meu filho se eu e a minha esposa casássemos pela Igreja. Eu não me fiquei e respondi-lhe à letra, dizendo que era eu e a minha esposa que decidíamos se devíamos ou não casar pela igreja, não era ele. E acrescentei que se não quisesse baptizar o meu filho, havia mais igrejas e mais padres no Concelho.  

Esta conversa foi "remédio santo". O padre não voltou a falar em "casamento" e o baptizado realizou-se sem qualquer incidente na Igreja de Cacilhas. Mas eu percebi, de uma forma que considero definitiva, que não tinha nada a ver com aquele credo.

Poderá parecer estranho, mas continuo a sentir-me Cristão. Continuo a olhar para Jesus Cristo como o maior exemplo de humanismo no nosso Planeta. Ao contrário da Religião Católica, Ele, na sua curta passagem terrestre, esteve sempre ao lado dos mais pobres, dos mais fracos e desprotegidos...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)