segunda-feira, novembro 29, 2021

O Futebol (por cá e no mundo) de Farsa em Farsa...


De repente toda a gente ficou escandalizada por uma equipa da Primeira Liga, ter começado um jogo de futebol apenas com nove jogadores (provavelmente por ter sido contra o Benfica e por este já estar a vencer por sete a zero ao intervalo...).

Aceito que isto faça confusão ao cidadão comum, agora aos dirigentes dos clubes...  oh "santa hipocrisia". Sim, foram estes mesmos clubes que aprovaram nas reuniões da Liga (a bem do negócio...), que o futebol não podia parar durante a pandemia e todos os clubes eram obrigados a ir a jogo, desde que tivessem sete jogadores disponíveis para entrarem em campo (o número mínimo autorizado, para que os clubes não perdessem por falta de comparência...). Nessa altura não pensaram na aberração que estavam a aprovar, pois qualquer equipa que entre em campo com menos de onze jogadores, entra logo a perder, ainda antes do apito inicial do árbitro... 

Da mesma forma que acabaram com as "quarentenas" nos planteis dos clubes. Para jogar bastava ter um teste negativo, não importava que estivessem durante a semana em contacto com os infectados... (embora isso estranhamente não acontecesse neste caso, provavelmente por causa da nova variante do vírus). Ou seja, como de costume, o futebol funciona com regras à margem da própria sociedade. 

Talvez não estivessem a contar que acontecesse o inesperado (apesar de estar regulado). Mas aconteceu, e se não alterarem as regras, irá acontecer mais vezes durante a época futebolística.

Embora seja muito menos grave não deixa de ser uma brincadeira de mau gosto a atribuição da Bola de Ouro a Lionel Messi, talvez naquela que foi uma das suas piores épocas de sempre, por todos os problemas que viveu no Barcelona e também pelas dificuldades de adaptação a Paris. Mas o futebol é isto...

Gostava de saber o que disseram Salah, Benzema, Jorginho, de Bruyne ou Lewandowski sobre o assunto, depois de saberem o "resultado final"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, novembro 28, 2021

A "Véspera de Viagem" do Fernando e da Teresa Rita


Há alguns livros que têm um prazer especial em se meterem mais connosco, ao ponto de nos levantarem mais que duas ou três questões, daquelas que achamos pertinentes, ao ponto de nos apetecer encontrar os autores numa esplanada qualquer, para tirarmos a "pulguita" que ficou a saltitar de orelha para orelha. 

Foi o que me aconteceu com leitura da peça de teatro, "Vésperas de Viagem", de Teresa Rita Lopes, com o Fernando Pessoa já na cama do hospital, preparado para a derradeira viagem, recebendo a visita de Ofélia e Álvaro de Campos. Na última cena, surgem também os "irmãos gémeos" de Álvaro, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Bernardo Soares.

Foi bom ficar a saber mais coisas sobre o nosso poeta maior e sobre a sua história de amor com a Ofélia. O engenheiro Campos acaba por ter um papel relevante em todo este drama, por de alguma forma funcionar como a "má consciência" do poeta, é aquele a quem é permitido dizer quase tudo. O que é muito bom para o leitor e para a peça.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, novembro 27, 2021

Os "Abraços sem Braços"...

Estava a pensar na importância do convívio entre amigos, nestes tempos estranhos em que quase se acabaram os contactos sociais, quando me surgiu a frase curta que intitula este pequeno texto.

Embora os casos estejam a aumentar de novo, nesta passagem do Outono para o Inverno, vamos fazer os possíveis para continuar a almoçar à segundas-feiras, pela importância que estes encontros de amigos têm dentro de cada um de nós. Há o prazer da conversa à "italiana", mas há também a cumplicidade que se nota no olhar, quase risonho, por estarmos a partilhar muito mais que o bacalhau com grão ou o delicioso arroz doce (para nós o melhor de Almada...), na nossa mesa. 

Durante a pandemia perdi dois amigos com quem também almoçava periodicamente, o Fernando e o Manel. Eram encontros muito ricos, por sermos amigos e por termos bastantes coisas em comum. As conversas fluíam com naturalidade, quase sem pausas ou silêncios. Falávamos ao telefone e sei o quanto sofreram com a quase prisão que lhes foi imposta, onde ficou tão marcado que o nosso país (e o mundo...) não é para velhos...

E é mesmo verdade, os nossos almoços são "abraços sem braços", não precisamos de nos tocar nem de estarmos em cima uns dos outros, para nos abraçarmos com palavras...

(Fotografia de Luís Eme - Alcacer do Sal)


quinta-feira, novembro 25, 2021

«Há anos que não leio um livro. Tenho tantas saudades!...»


Um dos amigos com quem almoço de vez em quando, na última vez que estivemos juntos teve um desabafo, que me tocou particularmente. 

Ele tem uma vida complicada há vários anos, por ser pai de dois filhos problemáticos e também por ter uma esposa com problemas de saúde. Trabalha em vários sítios com conseguir o "milagre da sobrevivência" de todos (há ainda a netinha, de quem ele é mais pai que avô...).

Os almoços e o convívio com os poucos amigos que tem, são a única coisa que o faz esquecer, por momentos, o "turbilhão" em que vive diariamente. Percebemos muito bem quando anda a braços com problemas pelo seu semblante. Nunca o questionamos, por ele estar longe de ser a pessoa mais expansiva do mundo. Tentamos animá-lo com episódios brejeiros e com histórias alegres vividas no mundo do jornalismo e das artes. Acaba por ser uma alegria colectiva vê-lo a sorrir.

No meio da conversa falámos de dois ou três livros e dos seus autores. Foi quando ele me disse: «Há anos que não leio um livro. Tenho tantas saudades!...»

A frase passou despercebida aos outros dois amigos, que entretanto estavam a falar de outras coisas. Não fui capaz de dizer nada, embora estremecesse por dentro... 

Ele também já nos confidenciara uma vez, que não tinha um espaço "seu" em casa, uma simples secretária onde pudesse organizar as suas coisas... o que se compreende, pois são cinco pessoas as que vivem no seu T2.

Por sabermos que a "vidinha" já nos coloca tantos obstáculos, divisões e diferenças no nosso dia a dia, é que é bom que se continue a falar e lutar pela igualdades de oportunidades na "outra vida".

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, novembro 24, 2021

Se Calhar Devia Comprar um Barco...


Tinha decidido ir a Lisboa hoje de manhã, porque precisava de comprar um caderno que só se vende na Capital. Embora fosse uma coisa sem urgências, não me estava a apetecer deixar a viagem para amanhã. Nem sequer me assustei com as nuvens que brincavam às escondidas com o Sol, quando espreitei à janela.

Cheguei a Cacilhas um pouco depois das dez e meia e o próximo cacilheiro era às 10.55 horas. Dei uma volta pelas redondezas e cinco minutos antes da partida, verifiquei que a hora de embarque fora alterada. Passara para as 11.15 horas.

Resolvi voltar a casa, porque não me estava a apetecer ficar ali mais 20 minutos, até porque havia a possibilidade dos funcionários da Transtejo mudarem novamente de ideias e suprimirem mais um horário.

Antes de me vir embora ainda passei pela bilheteira e dei mostras do meu descontentamento, falando da falta de respeito que os trabalhadores da empresa têm pelos outros trabalhadores.

E nem sequer falei da pandemia, de o cais de embarque estar cada vez com mais pessoas, que iriam encher o cacilheiro (sei que agora não há limitação de pessoas, mas um pouco de cuidado não fará, com toda a certeza, mal a ninguém...).

Vinha para casa e comecei a pensar que é um problema quando não temos escolha, como acontece hoje nos transportes fluviais. Antes de Abril de 1974, havia pelo menos três empresas a operarem nas travessias do Tejo. Mesmo alguém como eu, que é a favor do serviço público, detesta ser tratado de forma miserável e não ter outra alternativa (podem falar do comboio ou dos autocarros que passam a ponte, mas isso é outra coisa...). 

Sei que a comparação não é a melhor, porque há restaurantes em quase todas as esquinas, mas gostava de ter a liberdade de fazer com os transportes - ou com outro qualquer serviço público péssimo - o que faço com as casas de pasto: quando sou mal atendido, não volto a colocar lá os pés.

O que eu gostava mesmo era que a minha única solução para resolver este berbicacho e conseguir atravessar o Tejo sem problemas de maior, não fosse ter de comprar um barco...

Apesar de se falar muito de empreendorismo, continuamos a ser um país com poucas escolhas e demasiados "monopólios"...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


terça-feira, novembro 23, 2021

O Surrealismo é Outra Coisa...


A entrevista ao "fugitivo" mais badalado do nosso país (mesmo que esta não tenha tido nada de espectacular, o espertalhaço nem sequer precisou de correr ou disparar para o ar. Bastou-lhe apenas comprar bilhete de avião para Londres e partir, sem que alguém o incomodasse, antes de ser lida a sentença que o iria condenar a prisão efectiva), foi o grande "furo jornalístico" da estreia da nossa CNN.

Embora não ache muita piada à "publicidade" extra que se dá a esta gente rasteira, acabei por perceber que foi importante ouvir as "piadas" que ele tinha para nos dizer, com o ar mais sério do mundo.

Explicou que só volta ao nosso país se for ilibado dos crimes que cometeu ou com um indulto presidencial. Marcelo como de costume não deixou para amanhã o que podia dizer hoje e respondeu muito bem, sem fugir do registo telenovelesco, dizendo-lhe que "já era tarde para amar", pois já tinham sido ultrapassados todos os prazos para fazer o pedido...

Mas faltava a parte melhor: o pulha está a ponderar pedir de um indeminização ao Estado (já tem um valor e tudo, 40 milhões...), pelo anos que o seu caso se arrastou nos tribunais, como se não fosse ele a utilizar todos os recursos possíveis para adiar a sentença. E o rombo de 700 milhões do seu BPP?

E ainda conseguiu dizer que não há lesados do seu antigo banco e lançar as suspeitas sobre o advogado me relação à fuga. E esta?

Tenho de dar razão ao Vitinha, quando diz: «Ele só é bandido porque o deixaram ser. Toda a gente sabe que a maneira mais fácil de roubar um banco é ser o dono.  Qual fuga? Assim também eu. Sem qualquer polícia à perna e com o dinheiro que o gajo deve ter escondido dentro das meias, até conseguia ir para um lugar mais fixe que Belize.»

E sim, isto não tem nada de surrealismo. Parece tudo mais brincadeira de carnaval. O surrealismo é outra coisa, muito mais séria...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, novembro 22, 2021

«Tudo se compra e vende, menos a dignidade. Ponto final.»


Encontrei hoje um amigo que já não encontrava há meses. Entre outras coisas, acabámos por falar dos livros que foram de um nosso amigo comum, que agora estão à venda num alfarrabista. Pelo meio contou-me duas ou três histórias, ainda mais sinistras, com a cara destes tempos modernos.

Falou-me com preocupação desta gente que só vê dinheiro à frente dos olhos e para quem tudo tem preço. Para eles tudo se compra e vende. Coisas tão simples como o amor ao próximo, a generosidade ou a honestidade, parecem pertencer ao século passado e só são praticadas por "otários"...

Contou-me mais dois ou três exemplos de espólios artísticos de pessoas conhecidas, que desapareceram mal os seus donos fecharam os olhos. Os livros, os discos, as peças de cerâmica e os quadros, coleccionados uma vida inteira com amor, foram imediatamente colocados à venda. Nem as obras de arte, que normalmente valorizam com o tempo, escaparam a esta "corrida ao ouro"...

Num destes casos, a viúva, mãe e sogra, ainda com alguma autonomia e lucidez, foi "depositada" num lar, como se já estivesse incapaz de decidir o que era melhor para si própria. Ao mesmo tempo que os dois filhos colocavam tudo o que estava dentro de casa em "leilão"...

Quando se despediu, este meu amigo, sem esconder a desilusão, disse-me: «Tudo se compra e vende, menos a dignidade. Ponto final.»

Quando vinha para casa, tentei desvalorizar a colagem destes casos a este tempo, dizendo para os meus botões, que sempre existiram pessoas capazes de vender tudo, até a alma. 

Talvez sim, mas eram muito menos...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


domingo, novembro 21, 2021

A Polónia e a Bielorrússia tão Longe...


Quase que parece que a Polónia e a Bieolorrússia ficam num outro continente, algures no Oriente, em África ou na América Latina, onde ainda existem mais que um tipo de seres humanos.

Mas não, ficam mesmo na Europa...

Com o passar do tempo, fomos perdendo a noção do que realmente devia contar nas nossas vidas. Talvez tudo comece na dificuldade cada vez maior em distinguir ética de moral, alimentando um egoísmo que faz com que se privilegie cada vez mais o "eu", ignorando o "nós". 

Talvez estejamos já num ponto sem retorno e não nos seja possível voltar a reencontrar a nossa condição humana.

Isso ajuda a explicar a nossa passividade em relação aos passos que temos de dar para tentarmos salvar a Terra, que nos acolhe com cada vez menos serenidade.

Pensei nisto enquanto chovia e fazia sol em simultâneo, a meio da tarde... e eu esperava que este vencesse a chuva, debaixo dum varandim...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


sábado, novembro 20, 2021

Os Bairros, as Pessoas e o Homem do Cachimbo


Não estou a escrever sobre o Homem do Cachimbo por ser sábado, o dia em que nos encontrávamos no café e dávamos vida à nossa Tertúlia das culturas (só faltava mesmo a da "batata"...). Foi na quarta-feira quando nos cruzámos mais uma vez, enquanto eu descia e ele subia a Rua Emília Pomar (essa mesma a tia do Pintor de Lisboa e do Mundo), que pensei em escrever sobre as andanças humanas. 

Trocámos um cumprimento e um sorriso, coisa recente, apesar de termos um historial de encontros e cruzamentos  com provavelmente mais de trinta anos, contando com o tempo em que éramos completamente invisíveis um para o outro. Sim, falámos pela primeira vez já nos tempos estranhos da pandemia, quando numa manhã lhe perguntei pelo cachimbo.

Olhou-me com surpresa e com um sorriso enquanto parava e pousava no chão o saco de compras. Depois pôs a mão no bolso e tirou o seu companheiro de tantas aventuras e mostrou-mo com orgulho. A partir daqui sempre que passamos um pelo outro, cumprimentamo-nos e trocamos um sorriso.

Reparei que envelheceu muito durante a pandemia. Perdeu peso e passou a andar com o apoio de uma bengala. Até eu ganhei cabelos brancos, rugas (e até algumas nuvens dentro de mim...), quanto mais as pessoas de idade, que eram apontadas como o principal alvo da covid 19.

Comecei a reparar nele na nossa esplanada. Sentava-se numa mesa da ponta e ficava por ali sozinho. Fingia que não nos via e ouvia, embora sorri-se de vez em quando (talvez devido às nossas "certezas" e ao nosso  gosto de falarmos "à italiana"), enquanto perfumava as nossas mesas com o seu cachimbo.

Pois é, como diria o bom do poeta Gomes Ferreira, isto da vizinhança tem muito que se lhe diga. Somos de tal forma estranhos, que até somos capazes de passar quase rente a algumas pessoas, durante trinta ou quarenta anos, sem nunca trocarmos sequer um bom dia ou boa tarde, mesmo que sejamos do mesmo bairro (uma denominação que já não se usa nas cidades, vá-se lá saber porquê)...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


quinta-feira, novembro 18, 2021

As "Mulheres-Sombra" da nossa Cultura...


Vou aproveitar a comemoração do centenário do nascimento de Natália Nunes, companheira desse "homem-duplo", que foi Rómulo de Carvalho e António Gedeão, para falar das "mulheres-sombras" na nossa cultura, cujo talento foi relevado para segundo plano, quase sempre por vontade própria.

Quando escrevo "vontade própria", refiro-me à forma voluntária como se deixavam secundar, dando todo o espaço do mundo aos seus companheiros. Provavelmente não queriam ficar conhecidas como a "esposa de" e como no seu tempo não havia muito espaço para escritores anónimos (a PIDE e a Censura não gostavam dessas aventuras, antes de Abril...), escreveram muito menos do que podiam e deviam.

Talvez Maria Judite de Carvalho (companheira de Urbano Tavares Rodrigues), tenha conseguido ser ela própria, por ter uma escrita muito singular e por fazer jornalismo. Mas nunca quis "voar" muito alto, por ser avessa à exposição e porque o "escritor da casa" era o Urbano...

E se caminhasse na direcção de outras artes, cruzava-me logo com a Sarah Afonso, esposa de Almada Negreiros, que nunca teve dúvidas de quem era o "pintor da casa". 

Haverá com toda a certeza dezenas de casos, de mulheres extraordinárias que abdicaram do que mais gostavam de fazer por amor.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, novembro 17, 2021

«São apenas gestos de boa vontade masculina»


Nós fartamo-nos de nos repetirmos, e não falo apenas dos pequenos gestos do quotidiano. Passa-se o mesmo com os "jogos de palavras" que fazemos, seja nas páginas de um jornal, num site ou num blogue.

Mas continua a não me entrar na cabeça que a mulher queira ser igual ao homem, mas depois não dispense os "cavalheirismos" do costume, que a tentam colocar no pedestal. Muito menos os seus jogos de sedução, para obter o que quer (e que normalmente consegue)...

Foi por isso desta vez enfrentei a "fera" indo directo ao assunto, perguntando-lhe - com alguma lata, diga-se de passagem - se não ficava incomodada com tanto cavalheirismo à sua volta. Disse-me que não. E quando lhe falei do seu feminismo, disse-me que isso era outra coisa. 

Acabou a piscar-me o olho e a dizer: «São apenas gestos de boa vontade masculina.» 

Nenhuma fadista se conseguia sair tão bem deste "fado" como ela...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, novembro 16, 2021

A Viagem dos 99 a caminho dos 100


Começa hoje, aos 99 anos, as comemorações do centenário do nascimento de José Saramago, o nosso único Nobel da Literatura.

Apesar de ter crescido no seio de uma sociedade completamente estratificada, onde dificilmente se escapava do destino traçado ainda no berço, José nunca se acomodou. Frequentou a escola industrial, que à partida só lhe franqueava a entrada no mundo dos operários especializados... Embora ele quissesse outras coisas, pois já tinha a sua cabeça povoada de histórias... e sabia que não ia ficar por ali...

E não ficou. Acabou por conseguir emprego no mundo dos livros e andou durante algum tempo a editar os romances dos outros. Depois passou para o mundo dos jornais. A liberdade puxou-o mais para cima, para perto da "boca do lobo", onde se sentiu como "peixe na água", ao serviço da Revolução e do Partido. 

É costume dizer-se que tudo o que é bom se acaba depressa... e foi o que aconteceu com o seu "bem-bom", que acabou no fim de Novembro...

Ele estava era longe de imaginar que iria acabar por ganhar com esta derrota, ao conseguir aproveitar da melhor maneira os seus "azares da vida", transformando-os em "sorte". 

Foi desta forma que o jornalista desempregado se transformou num dos nossos grandes nomes da literatura e é um dos nossos melhores exemplos de resiliência, de que tudo é possível, se não baixarmos os braços.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)