terça-feira, junho 13, 2017

O Calor e o Frio, a Escrita e a Leitura...

Com estes dias "marroquinos" acabo por constatar o óbvio. Escrevo mais com o frio, leio mais com o calor...

Acho que este calor, além de me "toldar" as ideias... amolece-me quase tudo, até os dedos que são de escrever...

É por isso que procuro uma sombra, sento-me num soalho fresco e leio as folhas dos livros...

Não sou como ela, que lê à beira Tejo, ao mesmo tempo que espera que o Sol lhe pinte a pele...

(Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, junho 12, 2017

Nunca leves a televisão demasiado a sério. Mesmo a própria realidade é encenada.»


Não sei porquê, mas começou-se a falar de televisão. Sabia que era chover no molhado, porque quando conversamos sobre a programação dos canais da televisão, dificilmente chegamos a alguma  conclusão. E o único consenso que aparece, deve-se à qualidade, porque muito poucas coisas parecem fazer sentido dentro e fora da "caixa mágica".

E eu lá me lembrei de um amigo que andou pela televisão pública mais de 30 anos e que me dizia meio a sério meio a brincar: «Nunca leves a televisão demasiado a sério. Mesmo a própria realidade é encenada.»

Eu sei que a RTP tenta fazer a diferença (nota-se mais nos últimos tempos...), mas acaba quase sempre por apanhar os mesmos atalhos dos outros, em nome das audiências... Aliás tudo o que se faz em televisão tem como desculpa, as famosas audiências...

Durante uns tempos as gentes das televisões diziam que andavam atrás do gosto das pessoas. Talvez ainda mantenham o mesmo discurso, embora gostem mais de estar à frente dos "consumidores", porque fingem que são "mágicos" e conseguem adivinhar o que o pessoal quer ver.

Hoje é tudo mais descarado, no condicionamento do gosto e na manipulação de notícias. Os censores das ditaduras eram uns "anjinhos" em relação aos programadores do nosso tempo...

domingo, junho 11, 2017

A Língua, o Estilo e a Escrita...

Estou a ler um livro que tem tanto de curioso como de estimulante ("A Sétima Função da Linguagem - Quem matou Roland Barthes?", de Laurent Binet), que me tem feito pensar sobre várias coisas, inclusive sobre esta coisa que é o escrever. 

Vou transcrever essa parte:

«Roland Barthes mostrou é que no fundo uma obra literária tem três níveis; há a língua - Racine escreve em francês, Shakespeare escreve em inglês, essa é a língua - há o estilo; esse é o resultado da sua técnica, do seu talento, mas entre o estilo - voluntário, pois controlamo-lo - e a língua! Há um terceiro nível que é; a escrita. E a escrita, dizia ele, é o lugar... do politico, no sentido lato, ou seja, a escrita é aquilo mediante a qual ele se exprime, mesmo se o escritor não é disso consciente, o que ele é socialmente, a sua cultura, a sua origem, a sua classe social, a sociedade que o rodeia...»

Concordo com Barthes, penso que estas três divisões definem o essencial do que deve ser um fazedor de livros.

(Óleo de Costa Pinheiro)

sábado, junho 10, 2017

A Arte com Imagens e Palavras...

Participei  hoje à tarde numa sessão cultural que me deu a sensação de ter sido extremamente enriquecedora e agradável para todos aqueles que apareceram na sede-galeria da SCALA.

Não se tratava apenas da inauguração de uma exposição de artes plásticas, havia também o atractivo da projecção de seis pequenos filmes sobre a vida e obra do autor,  Mártio, um artista plástico almadense, que depois seria seguida de uma conversa informal sobre, e com, o pintor e ceramista possuidor de uma obra bastante vasta e diversificada.

E foi esta conversa que se revelou de grande interesse para todos, graças à disponibilidade do Mártio para falar abertamente do seu percurso artístico, dos seus dois principais interlocutores, que o ladearam, mas sobretudo pela interacção que se proporcionou com todos aqueles que quiseram saber mais qualquer coisa sobre a arte, ou ainda, de oferecerem o testemunho da sua experiência pessoal no mundo das artes.

(Óleo de Mártio - as "Banhistas" de Mártio, glosando as "Banhistas" de Cezanne...)

sexta-feira, junho 09, 2017

O Cacilheiro e os Dois Amigos do Sul...

Estava a olhar o Rio da janela do cacilheiro quando duas vozes maduras atrás de mim me chamaram a atenção.

Pelo jeito de falar percebi que eram alentejanos e falavam de uma mulher qualquer como se fossem dois adolescentes. Não tinha um nome, era apenas a "magana", como às vezes escutamos em anedotas.

Um deles gabou-se de dançar com ela numa festa, acrescentando que foi cá uma esfrega, ao mesmo tempo que o marido emborcava copos de vinho no bar. O outro para não ficar atrás contou um episódio romanesco que aconteceu num café, em que ela se ofereceu quase toda.

A conversa só acabou quando a barca laranja chegou a Cacilhas e os dois sessentões desapareceram no meio da multidão que se deslocava na direcção das paragens dos autocarros.

Não me lembro de ver dois homens de cabelo esbranquiçado a conversar com tanto entusiasmo de uma "magana", que era do clube das  "frescas" (foi outra das palavras mais batidas no diálogo quase quente), pelos exemplos relatados...

(Fotografia de Luís Eme)

quarta-feira, junho 07, 2017

O que Uma Crónica nos Faz...


Hoje ao ler uma crónica de revista, voltei a experimentar a sensação que conhecia a autora, mesmo sem nunca a ter visto.

O pai era meu amigo e costumava falar-me dela, há quase trinta anos. A vida era tudo menos fácil para eles. Sabia-o pelos desabafos deste meu companheiro do mundo dos jornais e dos livros, que não só me contava alguns episódios do seu quotidiano, como até era capaz de me pedir conselhos, a mim, que era praticamente da geração da filhota (hoje percebo que isso devia acontecer por isso mesmo, talvez ele achasse que eu a poderia "descodificar" e tornar a sua relação mais próxima...).

Voltei a estar sentado no café com ele, a fumar os seus cigarros, enquanto falávamos das coisas de que gostávamos, como o futebol ou o cinema. Mas também das outras, que nos trocavam as voltas...

Voltando à rapariga, gostei das suas palavras e lembrei-me que o pai nunca me mostrara uma fotografia dela. Não sei muito bem porquê, mas ela para mim era pequena e usava cabelo à rapazinho... Provavelmente tive uma ou outra pista para fazer este "boneco"...

O que uma crónica nos faz...

(Óleo de Paul Swan)

terça-feira, junho 06, 2017

«Ainda bem que já não há "banha da cobra" para todos»

Apesar de se terem escondido debaixo do tapete valores que a minha geração e anteriores, consideravam essenciais (eu bem sei que para muitos era apenas teoria, não foi por um mero acaso que os políticos dos últimos quarenta anos, pertencem todos à minha e às gerações anteriores...), a mentira (e a "pós-verdade") continua a ter a perna curta.

Ou seja, percebe-se à légua que hoje já não há "banha da cobra" para todos...

Cada vez tenho menos dúvidas de que a qualidade - e hoje somos um país, onde cada vez mais se aposta na qualidade - dá cabo de todos os negócios dos espertalhaços que ainda continuam a querer "vender gato por lebre", em várias esquinas. 

E é aqui que entra o turismo, que tanta "porrada" tem levado nos últimos tempos. Tem sido ele que tem empurrado muitos jovens a fazerem pela vida e a serem inovadores,  ao perceberem que só terão hipótese de crescer, e de ter sucesso, com a aposta na diferença e na qualidade.

É por isso que eu digo: «Ainda bem que já não há banha da cobra para todos.»

(Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, junho 05, 2017

Setenta e Nove...

Porque é que alguém começa a fumar aos setenta e nove anos?

Por uma razão demasiado óbvia: acredita na publicidade impressa nos maços.

Todos eles dizem que os cigarros matam. E é normal que alguma gente com uma idade já quase avançada,  um pouco farta de viver, faça também um manguito à vida quase saudável. 

Quando se está farto de andar para trás e para a frente e não se tem coragem de acabar tudo em segundos, com um tiro na carola ou com a suspensão do corpo, preso pelo pescoço a uma corda, fumar pode ser uma boa alternativa...

E com um pouco de sorte aprende-se a gostar de fabricar nuvens de fumo e a ter um hálito apropriado para quem já não faz linguados... 

(Fotografia de Luís Eme)

domingo, junho 04, 2017

O Turismo não Pode ser Maior que o País...

Esta semana foi pródiga em gente a opinar sobre o turismo, mesmo que fossem capazes de dizerem e escreverem o contrário do que disseram ontem... 

De repente toda a gente "acordou"  e "descobriu" que há demasiada gente a alugar quartos e casas a quem se quer perder de amores por Lisboa.

Todos sabemos que os políticos ainda vão a tempo de perceber que uma urbe precisa de gente que viva no seu espaço a tempo inteiro, caso contrário corre o risco de ser uma "cidade fantasma" (e isso já foi uma realidade na Baixa lisboeta, há pouco mais de meia-dúzia de anos...).

Talvez o "artista" que fez este boneco nas paredes dos armazéns abandonados do Ginjal, tenha alguma razão...

O que eu sei é que o turismo não pode (aliás, não deve...), nunca, ser maior que o país.

(Fotografia de Luís Eme)

sábado, junho 03, 2017

A Feira do Livro (Rainha dos Campeonatos Literários...)


A Feira do Livro está de novo aí, e segundo a publicidade, com novo recorde de editoras, livrarias e alfarrábios.

Dizem também que está mais bonita e agradável, para todos.

E claro, continua a ser a melhor altura para se falar com os livros e olhar de alto a baixo para os escritores e pedir-lhes autógrafos.

Embora nem todos participem nesta festança, pois ainda há gente do século passado que se recusa a ser "promoção" de super-mercado.

Alguns dias antes da feira, telefonema para aqui telefonema para ali, deixaram o velho António cansado de tanta intromissão. Foi por isso que disse à menina que lhe arrastava a asa e prometia ir buscá-lo e trazê-lo da festa dos livros, sempre que ele fosse "livro do dia": «Há um engano qualquer, minha jovem, o escritor não é o que vende, é o que escreve. Esse tipo que anda à procura para vender livros é o livreiro.» E desligou-lhe o telefone.

(Óleo de Lesser Ury)

sexta-feira, junho 02, 2017

Olha Para Mim...

Há animais com dono. Há animais sem dono. Há animais com vários donos...

Aparentemente os primeiros são mais felizes. Aparentemente...

O "preguiças" da fotografia (dupla...) mora no Ginjal e tem muito mais que um dono. Além das duas senhoras que se passeiam ao longo do cais com um carrinho de compras cheio de mantimentos para os vários felinos, há outros anónimos que lhe oferecem uns miminhos, dentro de latas.

De mim leva um olá, sempre que nos cruzamos. Às vezes faz algumas avarias, a pedir-me que lhe tire uma fotografia. E eu digo-lhe que sim...

(Fotografia de Luís Eme)

quinta-feira, junho 01, 2017

Os Esquecimentos sem Inocência...

Embora os tempos pareçam fartos, graças ao optimismo exagerado do Presidente da República (campeão de tantas coisas banais para um chefe de Estado, embrulhadas em sorrisos, beijos, "selfies", etc) e dos governantes, que abraçam todos os turistas, especialmente os que compram "vistos dourados", a vida dos portugueses continua a ser outra coisa...

Ontem estive com um amigo das escritas (quase todas, do jornalismo à poesia...), que desancou no maldito capitalismo que tanto lhe inferniza a "vidinha", sem se esquecer de apontar a dedo dois ou três amigos, que deixaram de lhe atender o telefone, quando ele mais precisava. Já conseguiu equilibrar novamente as coisas, mas voltou mais uma vez para casa dos pais. E com o preço das rendas na Capital, não sabe quando poderá voltar a ter um espaço só para ele em Lisboa...

Deu-me exemplos da tal meia-dúzia de falsos amigos que lhe pediam colaborações para jornais e revistas, que o riscaram da lista de colaboradores, sem qualquer explicação ou desentendimento. Foi esquecido e pronto. O pior de tudo foi isto acontecer quando mais precisava.

Eu escutei-o pacientemente e em silêncio. Porque nestas alturas não há nada que possamos dizer ou fazer, que mude o que se sente. Limitei-me a dizer o que todos já sabemos, não é por acaso que dizem que este é um "mundo-cão"... 

Apenas lhe dei um exemplo. Durante meia-dúzia de anos colaborei numa revista, número a número, sem nunca receber qualquer dinheiro. Fazia-o essencialmente para que o projecto não acabasse. Quando decidiram fazer um número especial, convidaram várias "sumidades", e eu acabei, naturalmente, esquecido...

Embora ele seja mais novo que eu, sabe bem demais que este mundo está cheio de gente mal agradecida, capaz de nos encher de sorrisos prometedores, mas que nunca se esquece de trazer de casa uma "faca de cozinha" escondida na meia...

(Fotografia de Luís Eme)