domingo, março 12, 2017

Ler Mal e Entender Pior...

Normalmente não gosto muito de recorrer a frases com mais do que a minha idade, para explicar o óbvio e o menos óbvio, que tanto baralha o nosso quotidiano.

Um dos poetas e contistas que gosto de ler em todos os registos é o grande Zé Gomes Ferreira, o velho da cabeleira branca despenteada, que oferecia sorrisos e palavras a conhecidos e a desconhecidos (pensar que julguei que era um velho maluco, sem o reconhecer como o pai de "O Mundo dos Outros", que lera ainda na primeira adolescência..).

Esta frase retirada do seu livro de crónicas, "Intervenção Sonâmbula", explica tanta coisa... Até os comentários "selvagens" dos nossos dias que infectam as caixas de palavras de jornais, blogues e redes sociais

«Ler mal é uma das inúmeras formas conhecidas de analfabetismo português. Salvo seja, mas às vezes até chega a parecer que certas pessoas soletram sempre os jornais do avesso, com as mãos no chão a fazerem o pino mental.»

(Fotografia de Luís Eme)

sábado, março 11, 2017

Cores e Sabores do Ginjal

A zona de restaurantes do Ginjal acaba por funcionar quase como um "oásis", pela atenção que existe para com os turistas e também pela sua localização, mesmo à beira da Praia das Lavadeiras, onde o Tejo já começa a ficar ligeiramente salgado e as casas de pasto surgem por ali com um ar simpático...

Também gosto que da forma como os donos do "Ponto Final" vão mudando a decoração do exterior.

(Fotografia de Luís Eme)

sexta-feira, março 10, 2017

A Banalização das Coisas (importantes e também das outras)...


Acho que todos funcionamos assim, uns mais outros menos. Temos tendência para banalizar as coisas, mesmo as sérias, à medida que o tempo vai passando.

A sociedade de hoje, de "informação instantânea" (curta, grossa e tóxica) também é propícia a que isso aconteça. Cada vez conheço mais gente que deixou de ver as notícias televisivas e de comprar jornais.

Mas escolhi mesmo um exemplo para focar esta nossa maneira de ser e estar. 

Muitos anos e muitas mortes depois, os governos criaram leis que "obrigaram" a sociedade a interiorizar que o tabaco era mesmo um malefício para a saúde de todos. Uma das medidas foi decorar os maços de cigarros com slogans mortíferos, com tanto de assustador como de irritante. Isto foi óptimo para os vendedores de cigarrilhas, porque ninguém queria andar com a "morte" nos dedos, sempre que fumasse um cigarro...

Como costuma acontecer nestas coisas, vários anos depois já ninguém liga muito ao assunto e as caixas, ora discretas ora douradas, para guardar cigarros, deixaram de ser moda. Nos nossos dias alguns miúdos principiantes na arte do fumo até gozam com as fotografias.

Um dos meus poucos amigos fumadores, quando lhe falei do assunto, disse que está tão habituado às palavras e às imagens dos maços, que já não surtem qualquer efeito visual ou de outro género para ele. Rematando com um daqueles lemas com que nos defendemos tantas vezes sobre a sua opção de ainda fumar: «todos temos de morrer um dia, ninguém fica cá para semente...»

(Ilustração japonesa de autor desconhecido) 

quinta-feira, março 09, 2017

Uma Flor e um Poema no Dia Seguinte

Hoje vou receber uma flor, das mãos de uma das pessoas que melhor me conhece.

Conheci-a há mais de vinte e seis anos. Fui a uma conferência de imprensa que se realizava numa das salas do Sheraton e andava por ali meio perdido, quando uma mulher bonita e simpática, que estava em serviço pela RTP, me descobriu e acabou por fazer o papel de "guia".

Como a pessoa que esperávamos demorou mais de uma hora a aparecer, fomos conversando e... mesmo sem a existência de telemóveis e redes sociais, nunca mais perdemos o rasto um do outro.

Olhamos à nossa volta e temos a percepção de que construímos algo raro, pelo menos neste tempo cheios de maquinações. 

É por isso que conhecemos a vida um do outro de trás para a frente e da frente para trás. Sabemos de tanta coisa que os nossos companheiros desconhecem... especialmente as nossas "maluquices" saídas dos sonhos, que teimam em não ser livros ou filmes...

Ela não sabe, mas hoje vou oferecer-lhe um poema.

(Fotografia de Ami Strachan)

quarta-feira, março 08, 2017

Flores Para os Homens no Dia da Mulher

O homem queria uma flor, queria ser tratado da mesma forma que as mulheres. Eu sorria para dentro, por conhecer a "peça", por saber que a tão proclamada igualdade que ele queria, não era praticada lá em casa.

Continuei a sorrir, agora também para fora, depois de ele se ter vendido pela tal flor, que a mulher que me piscou o olho lhe deu.

Acho que é aqui que está toda a diferença. A mulher vê mais com um olho que nós, homens, com os dois. A vida fácil que temos tido ao longo dos séculos tem nos desviado as atenções do essencial. 

Claro que gostamos de falar de igualdade, mas somos um bocado como os "funcionários públicos", temos medo de perder os "direitos adquiridos"...

Foi por isso que quando a mulher simpática me questionou se eu também queria uma flor, respondi-lhe com uma pergunta: «tem cravos?»

E ela sem perder o sorriso disse-me: «Agora não. Mas se esperar até ao mês que vem, prometo, que lhe ofereço, não um, mas dois.»

(Óleo de Efimovich Volkov)

terça-feira, março 07, 2017

Boca Ilha, o Rosto que Ninguém Vê...

"Boca Ilha, o Rosto que Ninguém Vê", é uma peça de Carolina Bettencourt e Miguel Curiel (que também são os interpretes), que parte do universo poético de Natália Correia e se expande por outros mundos poéticos, de Alberto Caeiro a Cesariny, Ary, Sophia e Mário de Sá Carneiro. 

A peça vai estar em cena nos dias 11 e 12 de Março, no Teatro O Bando (Vale dos Barris, Palmela) e é encenada por Nuno Nunes.

segunda-feira, março 06, 2017

O Mundo é Sempre Mais Complicado do que o que Parece...


Nunca tinha pensado que no mundo real era possível encontrar uma mulher incapaz de olhar para mim nos olhos, e pior ainda, de falar normalmente comigo.

Tudo o que acontece tem uma história. Neste caso particular, um único homem foi suficiente para despoletar um ódio para toda a vida, por todos os outros homens.

Também deve acontecer o contrário, homens incapazes de ter uma relação normal com mulheres (sem estar a meter o sexo ao barulho...).

É por isso que não tenho qualquer dúvida que o mundo é sempre mais complicado do que o que parece...

(Óleo de D' Souza)

domingo, março 05, 2017

O Surpreendente Nelson Campeão Europeu

Hoje durante um almoço festivo (sem televisão por perto...) falou-se dos campeonatos da Europa de Atletismo, da prata da Patrícia, e claro, do Nelson Évora, na nossa mesa.

Numa mesa com dois sportinguistas e dois benfiquistas, ninguém acreditava na possibilidade de vitória do Nelson, pela grande exigência física do triplo-salto e pela sua idade... Um de nós disse que no atletismo não costumavam existir milagres. 

Mesmo sem qualquer milagre, fiquei extremamente feliz quando soube que o Nelson Évora tinha conquistado o ouro.

Outra coisa que se falou à refeição foi a sua passagem do Benfica para o Sporting. O Manel não tinha gostado nada da mudança e queria que ele ficasse longe das medalhas. Eu como segundo benfiquista da mesa fiz a sua defesa. Com a idade do Nelson não pode haver lugar para romantismos, e se o Sporting lhe ofereceu um ordenado muito superior ao que o Benfica lhe oferecia, ele fez muito bem em mudar...

(Fotografia retirada do site do "D. Notícias")

sábado, março 04, 2017

Ler as Palavras dos Outros


Nem mesmo aos fins de semana consigo ficar mais tempo na cama. Talvez isso aconteça porque dormir muito nunca foi o meu forte.

Comi qualquer coisa, sentei-me ao computador e antes de dar um salto pelos jornais visitei dois blogues, de duas mulheres, a Isabel e a Elvira, que "moram perto" e passam praticamente todos os dias pelo "Largo". Fiquei a pensar nas suas reflexões e também no que comentei...

A primeira constatação é que a vida mudou mesmo muito. Passámos a viver com mais conforto e fomos-nos tornando cada vez mais exigentes. Socialmente também crescemos muito, e ainda bem.

Sei que alguns homens (daqueles que aderem com facilidade às histórias de não sei quantas virgens...), gostavam mais de viver num tempo em que as mulheres continuassem a ter mais deveres que direitos. Um bom exemplo desta  "filosofia" são as palavras ditas por um deputado polaco esta semana no parlamento europeu. Num resumo simplista, disse que as mulheres eram menos inteligentes e mais fracas fisicamente, por isso não podiam querer ser iguais a nós, homens.

Sei que só posso falar por mim, mas sempre me fez confusão a minha mãe ser criada do meu pai, como eram praticamente todas as mulheres da sua geração. E soube desde cedo que não queria viver assim.

É também por isso que percebo muito bem que ninguém queira voltar atrás no tempo. Porque não é normal as pessoas casarem-se e irem viver para um quarto alugado. Podia ser há sessenta anos, onde não havia água, luz ou casas de banho em noventa por cento das casas das aldeias do nosso país. E quase tudo era bom para se fugir à fome ou à vida de escravidão nos campos...

Por isso é que existiam tantos bairros de lata à volta de Lisboa ou até Paris, povoados por gente que sonhava com uma vida diferente, e que mais tarde ou mais cedo (com muito sacrifício), conseguiam mesmo mudar de vida.

Mas não precisavam de esquecer. Nem de esconder a vida que tiveram dos filhos e netos. Tinham tornado tudo mais fácil...

Sei que agora está a falar o "historiador", mas olhar para o passado sempre foi uma das melhores ajudas para compreendermos o presente e enfrentarmos o futuro.

Foi por isso que gostei de reflectir com as palavras da Elvira e da Isabel.

(Fotografia de Walker Evans)

sexta-feira, março 03, 2017

Sou Mesmo uma "Esponja"...

Nem sempre me apercebo da minha capacidade de absorção e transformação (quase em simultâneo) de uma frase que ouço na rua numa pequena história...

E lá vai mais uma "prosa" para a pasta dos "contos malucos"...

E sim, é verdade, há quem escreva sem gostar de  ler livros. Claro que escreve coisas estranhas, normalmente mal construídas, como o fulano que apareceu num clube de leitura e quando começou a falar, contou a história de um livro que ninguém conhecia, nem mesmo ele próprio, pouco dado a leituras...

(Fotografia de Luís Eme - não tem quase nada a ver, mas o bar "A Cerca" ficou mais bonito com este "boneco", com a marca da "Semana do Amor")

quinta-feira, março 02, 2017

«Sim, todas as coisas que escrevemos são autobigráficas, mesmo as que não foram vividas por nós»

Recebi há já algum tempo, um convite raro, para falar sobre o que quisesse, perante uma plateia interessada nas coisas da cultura. Podia falar de livros, do jornalismo, de associativismo ou de outra coisa qualquer. Agradeci a deferência e disse que sim, que iria arranjar um tema que pudesse despertar o interesse das pessoas.

No início estava inclinado para falar sobre jornais e jornalismo, por ser uma coisa que é praticamente inexistente em Almada neste novo milénio. Por saber que teria falar de coisas que não me interessam muito, de apontar dedos e de ser crítico de uma realidade translúcida, que interessa preferencialmente a quem não gosta de "contraditórios", acabei por mudar de ideias.

O associativismo nunca foi sequer hipótese, porque também teria de ser polémico e repetitivo. Por muito que aprecie Gil Vicente, não quero fazer o papel do "diabo", muito menos utilizar algo que foi tão importante na vida dos almadenses, como mera "personagem" de discurso, com mais palha que substancia. 

Inevitavelmente, sobram os livros... A minha experiência de mais de vinte anos,  a marcar presença nos "campeonatos regionais" e na "terceira divisão" da literatura. A Rita deve ter alguma razão, quando diz que sou como aqueles jogadores que dão uns toques com a bola, mas como têm medo de se deslumbrar com a fama, não aceitam as propostas "indecentes" de alguns empresários.

Como tenho escrito um pouco de tudo, sei muito bem onde começa a "inspiração" e acaba a "transpiração" no jogo de palavras.

E também já não consigo discordar de que todas as coisas que escrevemos são autobiográficas, mesmo as que não foram vividas por nós. Pode parecer contraditório, mas não é. Todas as histórias, com e sem dono, quando entram dentro de nós, ficam sempre com "a nossa marca".

(Fotografia de Luís Eme)

quarta-feira, março 01, 2017

Rui de Carvalho, um Homem Especial

Rui de Carvalho completa hoje noventa anos. Além de ser um dos nossos grandes actores, é um homem especial, que tive o prazer de entrevistar...

Foi a primeira pessoa que entrevistei para uma rubrica que tinha no jornal "Record" no começo dos anos 1990 ("Contra-Ponto"), num momento difícil da sua vida, pois tinha sido operado há pouco tempo e apesar da aparente fragilidade, recebeu-me com grande afabilidade no seu camarim do teatro Dona Maria II. 

Recordo-me de ele me abrir a porta, cansado e suado, poucos minutos depois de receber os aplausos do público, em mais uma excelente representação da peça  "Minetti, o Retrato do Artista quando Velho", em que interpretava a personagem principal do drama de Thomas Bernhard.

Fomos várias vezes interrompidos por gente amiga que tinha vindo ao camarim dar-lhe um abraço.

Foi uma conversa muita agradável com um ser humano de excepção, que recordo com grande ternura.

(Fotografia de autor desconhecido)