quarta-feira, setembro 13, 2023

Natália...


A minha singela homenagem a uma grande Mulher, das mais livres e corajosas do século XX (poema escrito há vinte anos, mais mês menos mês...), no dia em que faz 100 anos.

Natália
 
Não gostas de ser descrita
como uma mulher bela e sedutora,
preferes a dama inteligente e insubmissa
que escreve de uma forma avassaladora
e é o pesadelo de qualquer homem apaixonado...
 
não gostas da vulgaridade,
espalhas o teu ser diferente
pelas ruelas e bares da cidade...
 
Na bruma de um cigarro
Matas a secura quase infinita
Com o liquido ardente que te aquece...

Luís (Alves) Milheiro
 
 

(Fotografia de Luís Eme - Caramujo)


terça-feira, setembro 12, 2023

A "doença" de se gostar de ler livros...


Apetece-me escrever duas ou três coisas sobre esta quase "doença" de se gostar de ler livros, mesmo sabendo que cada leitor é um caso porque, felizmente, não gostamos todos das mesmas coisas, ou melhor, gostamos de coisas diferentes (parece igual mas não é bem a mesma coisa...). 

Há autores mais difíceis que outros, por várias razão. Não é por acaso que a chamada "literatura leve" ganha no campeonato das vendas, às chamadas "grandes obras" de escritores densos (como o nosso Lobo Antunes...). Mas o que quero mesmo falar é do conteúdo, do que está dentro dos livros. E isso nem se prende muito com a forma como estão escritos.

Por exemplo, Philip Roth, não acho que seja um autor com uma escrita demasiado densa. Escreve sim, quase sempre sobre temáticas pesadas, é capaz de escrever sobre o pior da natureza humana, de uma forma perturbante e séria. É por isso que não gosto de ler livros da sua autoria seguidos. Leio só de longe a longe. Por exemplo, Arturo-Pérez Revert , talvez por gostar de temas ligados à história (e sempre com "aventuras"...), é muito mais escritor da minha cabeceira.

O curioso é sentir que já cheguei àquela fase, em que há livros que sei que nunca irei querer ler. Ao mesmo tempo que sei, que há muitos outros livros, que embora gostasse muito, já não vou ter tempo de os ler...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


segunda-feira, setembro 11, 2023

«Só podemos controlar a nossa vida até certo ponto»


Era verdade. Mais uma das muitas que dizem ser daquele senhor, que é quase dono de todas as verdades com cheiro a lugar comum. 

O que me chamou a atenção foi a forma como a senhora disse a frase: «só podemos controlar a nossa vida até certo ponto.» Havia ali uma aceitação, que ficava quase entre o divino e o ficar à espera do que caísse alguma coisa do céu.

Talvez seja esse uma das imagens mais fáceis de colar a quem vai ficando com os cabelos cinzentos. 

Não sei se é por se ter vivido muito, ou se, por de alguma forma, já estarem no lado dos "descartáveis". Também pode ser cansaço. Sim, viver também cansa (não sei se a frase é do grande Zé Gomes Ferreira, mas fica-lhe bem)...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


domingo, setembro 10, 2023

A ignorância "atrevida" e "burra" televisiva (cada vez mais normal)...


Logo que ouvi pela primeira vez a notícia, pareceu-me estranha, até pela marca obtida ser demasiado vulgar. Refiro-me ao recorde dos 10.000 metros tão badalado hoje nas televisões, porque finalmente Samuel Barata tinha batido o recorde nacional desta distância (com 27.45,00")  de Fernando Mamede.

Como fiz atletismo e gostava de estatística, tinha algum conhecimento sobre as melhores marcas nacionais de praticamente todas as disciplinas. Com o passar dos anos, fui-me afastando da modalidade, mas não ao ponto de perceber que estava a ouvir uma "burrice" nos vários canais televisivos que anunciavam o dito recorde.

Consultei a lista dos recordes nacionais e das melhores marcas e verifiquei que estava certo. Ou seja, estava a dar-se relevo a algo que nunca teve grande importância, que são os tempos obtidos em provas de estrada (se excluirmos a maratona...). E isso acontece porque há diferenças substanciais entre os vários percursos, que podem ser mais - ou menos - favoráveis a que se obtenham grandes marcas. Isso acontece por exemplo nas maratonas. Há duas ou três maratonas espalhadas pelo Mundo que são as onde se conseguem melhores resultados, e por essa razão são as mais procuradas pelos atletas...

Ou seja, o verdadeiro recorde de Portugal dos 10.000 metros, nem sequer pertence a Fernando Mamede. É de António Pinto e foi obtido em 1999, com 27.12,47". A segunda e terceira melhor marcas pertencem a Fernando Mamede e a Carlos Lopes, obtidos na mesma prova realizada a 2 Julho de 1984, que toda a gente que gosta de atletismo se deve recordar. Carlos Lopes estava isolado, quando Fernando Mamede faz uma parte final de prova incrível e além de passar Lopes, bateu o recorde Nacional e o recorde do Mundo (que nessa prova também foi batido por Carlos Lopes...). Mamede conseguiu a excelente marca de 27.13,81" e Lopes, 27.17,48". E ainda existem duas outras marcas com tempos inferiores ao de Samuel Barata, em pista, as de Domingos Castro (27.34,53", obtida em 1993) e de Dionísio Castro (27.42,84" em 1988).

Sem pretender desvalorizar o valor de Samuel Barata, sei que está longe da qualidade atlética destes cinco fundistas portugueses citados (na sua época eram dos melhores do Mundo)...

Se queriam noticiar este feito, não deviam falar em recorde, mas sim em melhor marca. E sem se esquecerem de dizer que tinha sido obtido numa prova de estrada, que continua a estar longe de ter a credibilidade dos tempos realizados numa pista de atletismo.

Estranho não ouvir ninguém da FPA (Federação Portuguesa de Atletismo) a manifestar-se sobre esta notícia. 

(Fotografia de Luís Eme - Óbidos)


sexta-feira, setembro 08, 2023

Bater de frente com a realidade e ficar a "chover no molhado"...


Noto que as pessoas "normais" cada vez gostam menos de falar de política e de futebol. Isso acontece porque não lhes apetece nada pensar em coisas tristes, muitos menos conversar sobre coisas que só lhes dão aborrecimentos.

No fundo sabem, que por muito que falem e votem, os problemas vão manter-se, porque as pessoas que fazem parte dos principais partidos sempre se preocuparam mais com os seus interesses particulares que com o que é realmente importante para todos nós.

O curioso é ainda haver gente que fica surpreendida por cada vez votarem menos pessoas.

Quem não se parece preocupar minimamente com isso são os políticos. Desde que se mantenham no poder, fingem que está tudo bem.

Com o futebol acontece a mesma coisa. Os seus dirigentes não se preocupam se as suas atitudes pouco desportivas estão a destruir a "indústria" que os ajuda a nadarem em milhões, se cada vez vai menos gente aos estádios, ou se os canais desportivos pagos têm menos assinantes. Mas gostam muito de falar de "verdade desportiva". Apenas isso. Falar...

Lá estou eu a "chover no molhado", mas entristece-me viver num país assim, onde se finge diariamente que tudo está bem e vão-se empurrando os problemas para o buraco (que parece não ter fundo...) que se esconde debaixo do tapete...

Se Santa Marta nos valesse, apanhávamos todos este autocarro...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


quinta-feira, setembro 07, 2023

«Há já algum tempo que desisti de andar atrás da perfeição. Só ainda não percebi se isso é bom ou mau.»


Há frases que nos fazem pensar mais que outras. Foi a primeira coisa que me veio à cabeça quando o Rui disse: «Há já algum tempo que desisti de andar atrás da perfeição. Só ainda não percebi se isso é bom ou mau.»

Depois fiquei a pensar que como nunca fui demasiado perfecionista, nunca precisei de desistir da tal perfeição. Estava enganado. Ou talvez estivesse apenas a querer enganar-me...  

Eu sabia que a perfeição é apenas mais uma das várias linhas invisíveis que existem à nossa volta, que quase funcionam como balizas nas nossas vidas. Também sabia que o Rui queria conversa à volta da "perfeição". Mas ninguém teve vontade de "desmontar" as suas palavras, como se a tal "perfeição" fosse uma coisa perigosa...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


quarta-feira, setembro 06, 2023

Transparências e olhos vendados...


Normalmente as pessoas com poder, não gostam muito de coisas transparentes, nem de coisas que sejam fáceis de entender, por mais ou menos instrução que se possa ter.

Apesar da justiça ser apresentada de olhos vendados, provavelmente, é o sector da sociedade onde se notam mais estas incongruências humanas, onde muitas vezes uma vírgula colocada no lugar errado (propositadamente) faz toda a diferença.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


terça-feira, setembro 05, 2023

A gargalhada rara do "rei dos azares"...


Não lhe sei explicar o porquê, nem tenho vontade. Acho que ninguém sabe.

Mas ele insiste em ser o "rei dos azares". Tudo de mal que está a acontecer no mundo (em dimensões reduzidas, claro), espera-o à porta.

Quanto menos dinheiro tem, mais complicações lhe aparecem na vida. Entre outras coisas, diz que quando o carro "morrer" não volta a ter outro. Em relação à casa e aos problemas domésticos que todos enfrentamos, já o ouvi um dia falar da "sorte" dos sem abrigo, que não pagam renda, água, luz, muito menos arranjos aos "vigaristas" dos canalizadores ou electricistas.

Não lhe disse, por saber que não ia mudar nada. Mas sei que se ele tivesse uma perspectiva mais optimista em relação à vida,  alguns problemas eram capazes de se deixar de colar à sua pele.

O único conselho que lhe dei, foi que devia mudar-se para uma aldeia, daquelas que ainda têm um prior, capaz de curar todos os males do mundo. De certeza que ele benzia-o, assim como ao carro e à casa. O único senão era ter de rezar algumas centenas de vezes a "Avé-maria" e o "Padre-nosso". 

Estranhamente soltou uma gargalhada das grandes, coisa rara nele. E depois mandou-me ir "encher de pulgas".

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, setembro 04, 2023

Talvez o mundo não seja para pessoas inteligentes...


Já pensei mais que uma vez, que este mundo em que vivemos não é para pessoas demasiado inteligentes (e ainda menos para pessoas sensíveis...), mas sim para gente esperta que nem um alho, que vê em cada oportunidade que a vida lhes dá, uma possibilidade de se sair bem e por cima.

Isso tanto me acontece em situações complexas como em situações simples. 

Hoje ao pequeno almoço aconteceu uma coisa tão simples, mas que me disse que mesmo nas coisas mais banais, olhamos para as coisas de forma diferente. A minha filha estava a perguntar onde estavam as canecas depois de abrir a primeira porta do conjunto de armários da cozinha. Disse-lhe que estavam na "terceira". A cabeça dela pensou em prateleiras e colocou-se em bicos de pés a espreitar para cima. Foi quando a sorrir lhe disse que era a terceira porta.

Depois fiquei a pensar que as pessoas inteligentes pensam em demasiadas coisas ao mesmo tempo, não vão directas ao assunto, como os espertalhaços.

Claro que tudo acaba por ser normal. A casa é nova, a cozinha também, e estamos em habituação a tudo, até ao lugar das coisas... Mas mantenho a minha, talvez o mundo não seja para pessoas inteligentes...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


domingo, setembro 03, 2023

Quando os livros não passam de "contos de fadas" (mesmo que os escritores pintem o mundo de cores escuras)...


Acho que não vale a pena "traduzir" o sentido da palavra "demónios" que coloquei por aqui, ontem. Com toda a certeza não tem nada a ver com o "diabo" apregoado por Passos Coelho, há alguns anos, muito menos com algum "amigo do peito" de Cavaco.

Os livros despertam o melhor e o pior que temos dentro de nós, porque  nos obrigam muitas vezes a entrar em "divisões escuras", que fingimos desconhecer no nosso "edifício interno", ou que simplesmente, nos recusamos a abrir.

Mas eu vou traduzir (só para ti...). São sobretudo inquietações. Claro que também somos perseguidos por dúvidas, ao ponto de ficarmos quase sem palavras, perante a maldade humana.

Do que não tenho dúvida nenhuma, é que os livros não passam de "contos de fadas" (e de bruxas...), se pensarmos na Ucrânia, na Rússia, no Afeganistão, nas Arábias ou no Irão.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, setembro 02, 2023

Ainda bem que os livros transportam vários "demónios" dentro do seu mar de palavras


Hoje tive um dia calmo, leve. Ontem foi bem mais pesado. Hoje quase que não pensei. Ontem, pelo contrário, pensei bastante.

Pois foi, hoje não li uma linha do romance de Roth, que está quase no fim. Está aqui a resposta. Faz de conta que o tio Valentim tinha razão, quando dizia que os livros tinham demónios lá dentro., que não era das melhores coisas ler.

Comecei a sorrir sozinho, a dizer a mim próprio que gosto mais dos dias com livros. 

Ainda bem que os livros transportam vários "demónios" dentro do seu mar de palavras.

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


sexta-feira, setembro 01, 2023

«Este é o Setembro que eu conheço»


O vento, a temperatura ligeiramente mais baixa e bastantes nuvens no céu, avisaram-nos que já estávamos em Setembro.

Encontrei o João na rua e entre outras coisas falamos da diferença de ontem para hoje. Entre outras coisas, ele disse-me: «este é o Setembro que eu conheço.»

Não lhe dei muitas esperanças, porque tudo muda rapidamente, desde que o "tempo" anda por aí, com as rédeas cada vez mais soltas. 

Depois de o deixar lembrei-me do meu avô. Se ele conhecesse este tempo, capaz de nos mostrar todas as estações num só dia, devia ficar surpreendido, mesmo com o conhecimento que tinha da teimosia e da força da natureza. Não tivesse ele sido agricultor a vida toda.

Só faltou falarmos dos dias mais curtos...

(Fotografia de Luís Eme - Monte de Caparica)