terça-feira, outubro 31, 2023

Traços da vida de um pianista quase vulgar...


Ele tocava piano enquanto nós conversávamos, naquele bar frequentado por pessoas que gostavam de baladas e de bandas sonoras de filmes.

Nos intervalos vinha até à nossa mesa, com um whisky numa das mãos, mais para ouvir que para falar ou perguntar se lá fora estava a chover. Pouco tempo antes tinha estado a tocar num dos poucos restaurantes que ainda tinham música ao vivo. Por lá só tocava música clássica. Gostava destas variações, mantinham-lhe os dedos preparados para quase tudo. 

Sabia que aquela vida de bar em bar, de restaurante em restaurante, não estava dentro dos seus melhores sonhos. Nada que o preocupasse demasiado. Também sabia que não fez tudo o que era preciso para as coisas acontecessem, quando teve vinte anos. Faltava-lhe a ambição de quem era capaz de vender a alma ao diabo, se tal fosse necessário, para chegar ao topo da escadaria.

Foi-se habituando aquela vidinha, com horários entre o começo e o fim da noite, que lhe rendiam muito mais que qualquer emprego vulgar das "nove às cinco".

Andava há quase quarenta anos naquilo, sem saber ao certo quando era tempo de se reformar...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, outubro 29, 2023

A esperança, que nos ajuda tanto a viver e a resistir aos "piores pesadelos"...


Ao ligar a televisão, vi que num dos canais de filmes estava a ser oferecido o "Papillon", a versão do começo dos anos 70, com Steve McQueen e Dustin Hoffman (que continua a ser a melhor, para mim claro...).

Recordei que o filme me marcou bastante na adolescência, quando o vi pela primeira vez, numa das salas de cinema das Caldas.

Hoje, ao ver aquele cenário desolador das ilhas da Guiana Francesa, lembrei-me de Cabo Verde e do presídio do Tarrafal, que ficou conhecido como o "Campo da Morte Lenta", por ser isso mesmo (além das dezenas de prisioneiros que morreram no Campo, houve outros tantos que depois de serem libertados, duraram muito pouco tempo, como foi o caso de Alberto Araújo, professor almadense).

"Papillon" tinha a liberdade sempre presente, nos seus pensamentos, mesmo nos lugares onde a fuga era tida como "impossível". Foi nesta parte do filme que recordei algumas das conversas que tive com Edmundo Pedro, que apesar de ter passado parte da sua adolescência no Tarrafal, junto de Pai e de tantos outros camaradas (como Bento Gonçalves, que tanto o influenciou pela vida fora...), quase que chegou aos cem anos de vida...

Recordei-o porque ele contou-me uma vez (devo-lhe ter perguntado, claro...) as peripécias da tentativa de fuga protagonizada por ele, pelo pai, Gabriel Pedro e por outro companheiro que não recordo o nome (e não vou agora à sua procura...). 

Ele continuava a pensar que a fuga do Tarrafal tinha sido possível, o problema foi que correu tudo mal, desde início, os astros estavam completamente desalinhados com esta sua "fuga para a liberdade"... 

Podia ser ilusão, mas ainda bem que ele continuava a pensar que o "impossível" era "possível".

E claro, a motivação foi a mesma do "Papillon", a esperança que nos ajuda tanto a viver e a resistir aos "piores pesadelos", quando se tornam realidade...

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


sábado, outubro 28, 2023

Ideias que saltitam no começo das manhãs de sábado (agora menos)...


Gostei de acordar e descobrir que andavam à minha volta, duas ou três ideias, à solta. Foi como se estivesse a viver um daqueles sábado à antiga, em que em vez de dormir até um pouco mais tarde, era acordado por uma ou outra história, que só descansavam quando ficavam registadas no pequeno bloco de mesa de cabeceira.

Como deixei de ter um bloco por perto, fico apenas com as ideias a cirandar na cabeça... 

E hoje gostei, particularmente, de pensar um projecto antigo de uma forma diferente  (sobre o clube e as pessoas do bairro da minha infância...). Foi como se alguém me dissesse ao ouvido, para fugir do rigor dos números e pensar mais nas pessoas, desde o seccionista, passando pelo treinador e acabando nos muitos companheiros de aventura...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


sexta-feira, outubro 27, 2023

Descobrir palavras, quase esquecidas no "beco das memórias", com passado, presente e futuro...


Continuo a gostar de fazer o papel de "arquivista" (se pensar bem, foi esta a minha última actividade profissional, antes de me armar em jornalista...), mesmo que perca demasiado tempo, quase "embrulhado" nos papéis amarelecidos pelo tempo que fui guardando e enchem pastas quase perdidas na garagem. Papéis que tenho sempre pouca vontade de deitar fora...

A vantagem é descobrir coisas que já não fazia ideia que tinham acontecido. Também apanho muita gente com "a boca na botija", que disseram coisas impensáveis. De certeza que se pudessem, davam mais que cinco tostões para "apagar" essas palavras, quase esquecidas no "beco das memórias"...

Mas normalmente não recupero essas coisas estranhas, que até podem sujar as mãos. Prefiro fazer o que fiz ontem, recordar palavras que vale a pena darem mais uma volta por cá, porque sinto que têm, passado, presente e futuro...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


quinta-feira, outubro 26, 2023

Coisas de "Um Eremita em Paris" (e não só)...


De vez enquanto pego em cadernos quase antigos, onde costumo deixar apontamentos sobre tudo e sobre nada. Este era de 2014...

Há sempre uma ou outra frase sobre livros ou filmes. Desta vez descobri mais que uma frase sobre um dos livros de Italo Calvino, "Um Eremita em Paris" e escrevi que a espaços, me estava a olhar ao espelho, graças às suas palavras. 

«É o anonimato que me atrai: aquela multidão em que posso observar todos, um a um, e ao mesmo tempo desaparecer completamente.» (pois é, como eu gosto de me perder na multidão...)

«Quando me encontro num ambiente em que posso ter a ilusão de ser invisível, sinto-me muito bem.» (eu também...) 

«Dantes os escritores realmente populares, ninguém sabia quem eram, pessoalmente. Eram só um nome na capa e isso dava-lhes um fascínio extraordinário.» (esta frase fez-me pensar como tudo mudou. E também me lembrei que isso também acontecia na rádio, onde as pessoas eram mais "vozes que rostos"...)

Por ser o livro sobre "Um Eremita em Paris", não podia deixar de deixar por aqui, uma frase de Calvino sobre esta cidade singular: «Em Paris podemos sempre ter esperanças de encontrar o que julgávamos perdido, o passado nosso ou de outrem. A cidade pode ser um gigantesco serviço de perdidos e achados.»

Não há nada como os livros e os filmes para nos transportarem para "outras ruas" e fazer pensar que o mundo pode ser uma coisa diferente...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


quarta-feira, outubro 25, 2023

O jornalismo livre é outra coisa...


É cada vez mais fácil manipular as notícias, misturar factos com mentiras, ou seja, enganar as pessoas comuns.

Pessoas comuns que começam a fugir dos telejornais e dos programas de informação, por terem a sensação de que andam por ali em volta todos os interesses, menos os seus. Até por existir cada vez mais opinião e menos notícias. E normalmente a opinião que nos é oferecida não é inocente, serve na maior parte das vezes os interesses partidários ou corporativistas, cada vez mais enraizados na nossa sociedade...

É também por isso que não deixa de ser curioso que o pequeno responsável governamental que durante o cavaquismo mais tentou pressionar e direccionar a comunicação social (especialmente a RTP...), seja hoje "vendido" como o "supra-sumo" dos comentadores políticos televisivos...

A desculpa da existência das "redes sociais", não cobre todo este manto cada vez mais negro...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, outubro 24, 2023

A ONU cada vez mais "banalizada" pelos interesses das grandes potências...


Nem Putin tinha ido tão longe como foi agora o representante do Israel na ONU, que entende que defender a paz e as vidas humanas dos palestinianos que moram em Gaza, é estar ao lado dos terroristas do Hamas. 

António Guterres não tem poder mas não se deixa silenciar, e ainda bem. Mas é triste assistir a todo este vazio, que se foi instalando em volta da Organização das Nações Unidas, que tem cada vez menos peso efectivo no Mundo, em questões tão importantes como a paz entre as nações, os direitos humanos ou o respeito pela defesa do ambiente.

Isto só acontece porque as grandes potências mundiais (EUA, Rússia e China) sempre se preocuparam mais com os seus interesses particulares que com os interesses de todos nós. Conseguiram banalizar a ONU, que há muito deixou de cumprir o papel para a qual foi criada, após a Segunda Guerra Mundial.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, outubro 23, 2023

A ciência de se saber sair e de se saber entrar...


O Metro já circula em Almada há demasiados anos, tempo mais que suficiente para que as pessoas percebessem que, só depois de toda a gente sair das carruagens, é que se deve entrar.

Mas continua a ser sempre a mesma "cegada", com choques perfeitamente evitáveis e algumas "bocas" desnecessárias de parte a parte.

Talvez estes utentes precisassem de ser "educados" como as pessoas que em Lisboa apanham o Metro, diariamente, e que nunca se colocam em frente da porta, ocupam sim, os espaços laterais. 

Provavelmente sabem o que é ser-se levado numa "enxurrada de pessoas", que é o que acontece nas saídas das carruagens nas estações mais movimentadas, em hora de ponta (sim, em hora de ponta é impossível alguém entrar antes das pessoas sairem...).

Fotografia de Luís Eme - Almada)


domingo, outubro 22, 2023

Parece que é desta...


Parece que é desta, que os calções vão ficar, finalmente, dobrados na gaveta do roupeiro.

Estamos quase no fim de Outubro. Cada vez o frio chega mais tarde, assim como a chuva, que ataca forte, embora só apareça de longe a longe...

Fingimos que não percebemos o que anda por aí, muito menos mudamos de hábitos...

(Fotografia de Luís Eme -Almada)


sábado, outubro 21, 2023

Quem não quer uma "Vida (mais) Justa"?


Mesmo que o tempo não fosse o mais convidativo, a verdade é que hoje era dia para sairmos quase todos para a rua.

É mais que legitimo queremos uma vida justa, querermos que as coisas, todas, sejam mais bem distribuídas, como o foram na parte final do século XX.

Eram tempos em que o capitalismo fingia ser menos selvagem...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sexta-feira, outubro 20, 2023

Sem medo do mau tempo que se fazia sentir para cá e para lá do canal...


Ontem não era o dia mais recomendável para um daqueles encontros de amigos, que se encontram de longe a longe, para almoçar e confraternizar. Provavelmente foi por isso que aparecemos quase três dezenas, pouco temerosos com a Aline, mesmo sabendo que ela foi deixando marcas da sua passagem, de Norte a Sul.

O mais curioso destes convívios é nunca haver espaço para conversas tóxicas. Por alguns momentos esquecemos o pior da realidade e falamos apenas de nós, do que são e do que foram as nossas vidas, dando um relevo especial aos bons momentos que passámos juntos. 

São sempre agradáveis estas viagens no tempo, porque um lembra-se de um episódio, outro de outro, e daí a nada estamos todos a sorrir...

Sabemos que o passado não volta, mas mesmo assim, sabe-nos bem recordar os bons momentos que passámos juntos, e sentir que continua viva essa coisa boa a que normalmente chamamos, amizade.

(Fotografia de Luís Eme - Costa de Caparica)


quinta-feira, outubro 19, 2023

«Não. Não há qualquer ambiguidade.»


Perguntaram-me porque não digo o que realmente penso sobre esta ultima batalha entre o Hamas e o Israel. Chegaram a falar de ambiguidade.

Não. Não há qualquer ambiguidade.

Nunca houve.

Há sim, mais silêncio. Mais tristeza. E mais descobertas de culpas dos dois lados. Mas sem nunca esquecer que o único invasor é o Israel.

E por isso mesmo, sou contra os bandidos do Hamas e do Israel.

Da mesma forma que sou a favor das pessoas comuns, sejam elas Palestinianas ou Israelitas...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)