sábado, março 12, 2016

O Adeus sem Aviso que Faz Parte das Cidades...


Hoje estive vários minutos sozinho no café e, para variar, lá coloquei nas folhas de guardanapo "papel bíblia", algumas ideias que apareceram sem pedir licença.

Uma delas foi sobre a solidão que toma conta das grandes cidades, fazendo com que seja possível morrer, sem que quase ninguém dê por isso. E nem estou a falar das pessoas que ficam abandonadas dias e dias em casa, sem que a vizinhança perceba que já cá não estão...

Falo sim do meu vizinho do prédio da frente, que mesmo quando já não saia de casa gostava de nos acenar e oferecer um bom dia ou boa tarde como se vivêssemos numa aldeia. Ou do quase amigo, presença habitual deste mesmo café, com quem falei algumas vezes, para além do cumprimento diário.

Um dia notei as suas faltas. Mas quando perguntei por eles, soube que já cá não estavam há semanas...

Em ambos os casos não havia proximidade que se abeirasse da amizade. Havia sim uma simpatia mútua, que se revelava na troca de sorrisos e olhares, que ofereciam " boas energias" e tornavam o começo dos dias mais prometedores.

(Fotografia de Jean Loup Sieff)

sexta-feira, março 11, 2016

O Sonho não Enche Barriga (e diz-se que é no aproveitar que está o ganho)...

Ontem andei "perdido" por Lisboa e a meio do caminho escrevi:

Quase que deixámos de "existir".
É como se tivéssemos vendido
a Cidade a todos estes turistas
de várias idades, cores,
palavras e nacionalidades.

Trespassamos lojas, restaurantes
museus, entre outras lugares errantes...
Fizemos de cada lisboeta um guia,
mas o seu sorriso aberto é diferente,
foi vendido a este "reino da fantasia".

Até as almas sonhantes
dos bairros do antigamente
se renderam-ao poder do dinheiro,
alugaram as suas casinhas
e estão a viver no "galinheiro"...

Claro que há algum exagero nas minhas palavras, mas foi o que saiu... E resolvi não retirar as vírgulas.

(Fotografia de Luís Eme)

quinta-feira, março 10, 2016

Distracções de Quarta para Quinta-Feira




Eu sei que sou um bocado distraído.

Foi por isso que fiquei com a sensação que voltámos a viver num regime monárquico, embora com um Rei do povo, que até tem um nome plebeu e tudo...

Não me lembro de assistir a tantas horas de "tonterias" e "esfreganço" televisivo (é mentira, a única coisa que aconteceu foi que sempre que ligava a televisão, lá me aparecia o "rei solitário", que, sabe-se lá porquê, não quis ter primeira dama, fosse ela rainha ou princesa..)...

Felizmente o Benfica também jogava ontem,  e o futebol sempre foi bom para desanuviar (mesmo excessivo tem sempre mais humor que a política)... E para felicidade de "seis milhões de portugueses", o Benfica ganhou. 

Espero que o Jorge Jesus não roa muito as unhas. E já agora, que não mastigue pastilhas elásticas a mais...

E que o Tejo se continue a transformar num "Rio sempre novo", mesmo que o Presidente da República não vá a banhos na "Praia dos Prodígios" (baptizada pelo Mestre Lagoa Henriques...), ali mesmo ao lado da Torre de Belém...

(Fotografia de autor desconhecido)

quarta-feira, março 09, 2016

«Não sei ser feliz como nos filmes.»


Quando ela me disse: «Não sei ser feliz como nos filmes», apeteceu-me dar uma gargalhada. Mas o caso parecia ser sério. Parece sempre. As mulheres são melhores nos dramas que nós...

O que é que poderia dizer? Que nós somos todos diferentes e todos iguais? Que lá em casa sou eu quase sempre que peço beijos e dou carinhos? Serei também um cinéfilo (sou de certeza, mas não por andar atrás das histórias com cordel...)?

Foi quando experimentei dizer, sem saber se estava certo: «Não sei se estavas mesmo a falar a sério ou a querer brincar com as palavras. Mas acho que ninguém sabe ser feliz como nos filmes, porque aquilo é tudo inventado. Só nos filmes é que parece que andamos em pino a vida inteira. Ou então na horizontal, como se vivêssemos colados a uma cama E podia continuar a dar-te dezenas de exemplos, por que a vida não é assim. As nossas vidas duram muito mais que duas horas.»

Ela olhou-me sem dizer nada. Primeiro com cara de caso, depois com um sorriso.

Foi quando ela disse uma frase que é capaz de valer para o dia: «Gosto de falar contigo porque és bom a desmontar problemas. Devias abrir um consultório.»

«E chamava-me isso, desmontador de problemas?»
«Porque não? Ias ser um sucesso.»

Quando nos separámos, fiquei a pensar que somos sempre melhores a resolver os problemas dos outros que os nossos...

(Fotografia de Henri Cartier-Bresson)

terça-feira, março 08, 2016

«Então, já compraste flores?»


«Então já compraste flores?»
«Não.»
«Já percebi, estás a fingir que pertences ao clube dos homens esquecidos.»
«Não. Só não ligo muito ao negócio destes dias. E ainda menos à hipocrisia reinante de tornar a mulher rainha por um dia.»
«Como  é que eu me fui esquecer da tua superioridade intelectual...»
Acabámos a sorrir os dois. Foi quando chegou o Carlos Alberto, de luvas e sobretudo. Ele sim era homem para oferecer flores, bombons ou perfumes... E a Rita não perdeu a oportunidade para lhe devolver a mesma pergunta que me fizera.
«Então já compraste flores?»
«Claro. Sou sempre um homem prevenido nestes dias festivos.»
«Eu sabia... Como vocês são diferentes...» E sorriu.
«E ainda bem, só assim é que estes nossos cafés têm graça.» Rematou o Carlos.
«O que é que vocês dão mais importância numa mulher?»
«Sabes que a beleza sempre foi fundamental» Disse eu.
«Concordo. A mulher é  um olhar, um corpo, um sorriso, um andar...»
«Fizeste uma quadra, Carlos. Temos poeta!» E continuou. «Ainda bem que não me vieram com o palavreado de "miss", a falar da inteligência...»
«Mas eu gosto de mulheres inteligentes. Por que achas que estou aqui?» Insisti eu.
«Que parvo! Essas coisas não se dizem em dias como o de hoje. Estragam o ego de qualquer mulher.»
«Não te preocupes, eu não acho que a inteligência seja fundamental. Aliás vocês são mais esperteza que inteligência. É assim que levam a água ao moinho...» Explicou o Carlos.
«Vocês são terríveis. Só pela vossa conversa deviam ser obrigados a oferecer-me uma flor.»
«Pode ser de papel?»
«Querias...»

E lá fomos os três até à florista da esquina. O que um homem faz para ver uma mulher com um sorriso de orelha a orelha...

(Óleo de Dima Dmitriev)

segunda-feira, março 07, 2016

A Liberdade, Sempre a Liberdade...

Ao ler o conto, "Memória de Camarote" do João Tordo do livro, "Mística em Prosa", sobre o avô do João e o camarote que o assustava no velho Estádio da Luz, lembrei-me da minha infância, da liberdade e também do grande desportivismo que sempre reinou na nossa casa.

Não me recordo do meu pai, da minha mãe ou do meu irmão, sportinguistas, alguma vez terem questionado o meu benfiquismo, muito menos de tentarem que eu me mudasse para o seu clube. Talvez gostassem que eu gostasse desse Benfica vencedor dos anos sessenta do Eusébio, do Coluna, do Cávem (amigo de um dos meus tios), do Simões, do Jaime Graça, e mais tarde do Humberto, do Tony, do Néné... e de tantos craques de boa memória.

Continuo a pensar que fui eu que escolhi ser benfiquista, como escolhi tantas outras coisas pela vida fora. Nunca tive espírito de "carneiro", sempre fui incómodo, por não esconder os meus gostos e desgostos. E começou logo na infância... 

Nem todos conseguiam disfarçar o incómodo de "terem de levar" com um puto que gostava de dizer o que pensava, ao contrário do irmão, mais velho e também mais dócil...

Mas havia alguém que se orgulhava da minha rebeldia... Era apenas, e só, o homem mais livre que conheci, o meu querido pai.

Sinto-me sempre reconfortado quando o recordo. É também por  isso que continuo a gostar de dizer o que penso e a achar a palavra Liberdade, uma das mais bonitas que conheço. 

(Óleo de Theodor Kittelsen)

domingo, março 06, 2016

O "Doutor" que Canta o Fado e Conta Histórias Deliciosas


Embora ele não me explicasse como foi a sua infância (pelo menos com principio, meio e fim...), percebi que tinha sido uma enorme aventura, quase um salve-se quem puder. Filho de pais demasiado ausentes e distraídos, salvou-se o avô,  mestre em todo o género de expedientes e que continua a ser o seu herói preferido.

Com tantos putos do seu tempo foi obrigado a crescer depressa demais e a descobrir antes do tempo todo o tipo de "manhas", usadas pelos adultos para arranjarem uns trocados e sobreviverem na "selva urbana".

No bairro onde cresceu habituou-se a ser visita das casas dos vizinhos, que lhe davam comida e até abrigo, especialmente no Inverno. 

Quem o queria chatear chamava-lhe "Má Sorte", a alcunha do pai, que ficou sempre com a sensação que passou mais tempo preso que em liberdade, sobretudo por aselhice, a que se juntava algum azar. O avô há muito que desistira de o ensinar a fugir dos problemas. Preferiu dedicar-se ao neto, que tinha mais do dobro do potencial do filho e era menos teimoso. Foi por isso que quando ele cresceu ficou conhecido como o "Doutor" (alcunha do avô) e não por "Má Sorte".

Hoje, quando lhe perguntam a profissão, nunca sabe o que responder. Talvez seja engenheiro de qualquer coisa, como alguns fulanos que não trabalham como ele, mas têm bons empregos e melhores ordenados. Ele tem de fazer pela vida, todos os dias têm de enganar alguém, para conseguir viver decentemente.

O que me deixou mais surpreso, foi perceber que ele tinha valores diferentes,  não perdia tempo a preocupar-se com o bem ou o mal. A única ética que tinha era a do bom malandro, ensinada pelo avô: nunca enganar vizinhos, pobres, desgraçados ou velhinhos.

O dono do café onde o conheci disse-me em surdina que era quase um milagre ele nunca ter sido preso. Talvez fosse demasiado esperto para se deixar apanhar nos muitos "cantos da sereia" que lhe lançaram pela vida fora.

Tal como todos os heróis de qualquer bairro, já tinha sido dado como preso e como morto mais de uma dúzia de vezes. Mas como depois se cruzavam com ele na rua, pensavam que ele devia ser amigo de alguns "deuses" e também de um ou dois chefes de polícia...

Diziam à boca fechada que tinha umas "meninas" que trabalhavam para ele  no número 107. Claro que era mentira. Neste número vive há mais de cinquenta anos um casal de velhos, que quer "sopas e descanso" e não que lhes toquem constantemente à campainha à procura da "Rosa". Esta é apenas mais uma das muitas histórias que se contavam sobre este homem que também foi cantador de fado no retiro do Tio João, recebendo como troco as refeições e uma pequena mesada, que dava para as cigarrilhas e gravatas.

Quando nos encontramos no café dá-me um abraço e nunca me deixa pagar a despesa. E ainda é senhor para me oferecer uma ou duas histórias pitorescas, capazes de enriquecer as personagens de qualquer livro.

(Fotografia de André Kertesz)

sábado, março 05, 2016

A Amizade Tem Coisas do Arco da Velha

Comecei a escrever algumas linhas sobre a amizade, que tem mesmo coisas do arco da velha.

Mas depois percebi que o texto estava demasiado "codificado". Ou seja, só eu e os meus dois amigos é que iríamos perceber que estava a falar sobre o que aconteceu hoje à tarde...

Tudo porque às vezes temos de funcionar como "árbitros", embora esta função seja mais difícil do que parece. Somos quase sempre "juízes" parciais, pelo menos quando não abdicamos da nossa opinião.

Sei que a nossa amizade é das resistentes, mas mesmo assim, não há necessidade de "esticarmos tanto a corda"... Mas quando se tem opinião e não se abdica dela, é sempre complicado. E nós gostamos muito de ter opinião...

Acho que somos três amigos teimosos. Mas somos mais amigos que teimosos. É por isso que acredito que vamos ser sempre amigos...

(Fotografia de Luís Eme)

quinta-feira, março 03, 2016

Até que Enfim!


Senti algum alívio por saber que uma mulher de vinte e quatro anos, grávida de sete meses,  matou à facada o companheiro, depois de ser mais uma vez vitima  de violência doméstica.

Mesmo sem conhecer os contornos deste crime, penso que os cobardes que gostam de bater em mulheres só aprendem alguma coisa quando começarem a levar uns tiros e umas facadas. 

Mesmo que não morram nem fiquem curados, tenho a certeza que vão pensar duas vezes antes de voltarem à acção. Até por não passarem mesmo de uns cobardolas, daqueles que passam a vida a bater nos mais fracos e em quem está caído no chão.

(Óleo de Pablo Picasso)

quarta-feira, março 02, 2016

Viver no Reino da Estupidez

Só no reino da estupidez é que um avô volta para casa com os netos na mão porque o parque infantil foi ocupado por dois cães, com os seus donos regalados a verem os seus bichos a correrem e a saltarem, fechando os olhos às pequenas paragens para uma "mijinha" ou uma "cagadela".

O velho homem ainda chamou a atenção para uma placa de proibição, mas os dois convivas mandaram-no chamar a polícia.

Por ser uma pessoa educada apenas me disse, quando nos cruzámos, que estamos a viver no reino da estupidez, sem chamar os nomes próprios aos "ocupas" do parque infantil...

Acho que é muito pior que isso. Mas hoje não me apetece ser mau...

(Fotografia de autor desconhecido - do filme "Sinfonia para Hagen")

terça-feira, março 01, 2016

Um Outro Reino da Dinamarca


Não sei se é teatro, poesia, ou apenas ligeireza no uso das palavras.

Apenas sei é que para o Alberto só existe um tipo de estrangeiro: o dinamarquês (mais dinamarquesa. mas...).

Para ele até mesmo os fulanos com olhos em bico são do reino da Dinamarca. Esses mesmo, que se descobriu, com ou sem "vistos de ouro", que também fazem turismo, já não passam os sete dias da semana atrás do balcão das lojas que já foram de "trezentos paus".

Alberto nem sequer se engana por graça e lhes chama "xinamarqueses"... como muitos de nós, que nos achamos engraçados.

Mas do que ele gosta mesmo é das dinamarquesas com olhos azuis e cabelos claros, mesmo que falem francês, inglês ou até espanhol...

(A ilustração é de Jules Erbit)

segunda-feira, fevereiro 29, 2016

«Amanhã vou a Lisboa»


Espreitei à janela e disse para os meus botões: «Amanhã vou a Lisboa.»

Nem sequer sei se vai estar bom ou mau tempo, mas como tenho duas ou três coisas para fazer na Capital, vou mesmo até ao outro lado do Rio.

Há umas três semanas que não visito a Cidade Branca, algo raro. É por isso que quero tanto ir à Lisboa. 

As únicas certezas que tenho é que esta ausência não se deva à distância, muito menos ao receio da travessia de apenas dez minutos, até porque a viagem dentro das barcas laranjas é sempre deliciosa...

(Fotografia de Luís Eme)