sábado, agosto 22, 2026

"o mesmo bilhete de ida e volta"


o mesmo bilhete
de ida e de volta
  
quando parti
sabia que tinha tirado
um bilhete de ida e de volta
ia ficar e ia voltar
ainda era um rapaz novo
estava longe de pensar
nas voltas que a vida dá
de como o tempo
nos pode transformar…
 
soube sempre que
aquele não era o meu país
era apenas o lugar possível
onde se podia acreditar
na palavra futuro e
pensar num final feliz
 
os anos foram passando
e já a dois sentimos
que nada é como sonhamos
a vida é sempre outra coisa
 
mesmo assim nunca desistimos
de voltar ao nosso ponto de partida
fingimos não perceber a factura
que no final teríamos de saldar
 
num tempo não muito distante
uma parte de nós, “ia ficar”…
talvez a mais importante.
 
Isso dizia-nos que iriamos continuar
a usar o mesmo bilhete
vezes sem conta
a ir e a voltar
porque quando o coração
está no sítio certo
ninguém consegue vencer o verbo amar
 
percebemos e aceitámos
que o nosso bilhete
nunca seria diferente
 
era o nosso
bilhete de ida e de volta
de sempre…
 
Luís [Alves] Milheiro

Nota: escrevi este poema para os meus tios, Zé e Lurdes, que emigraram para Alemanha no começo dos anos setenta, onde nasceram os seus dois filhos. Filhos que se sentem, naturalmente, mais alemães que portugueses. O que faz com que os pais, embora tenham voltado para Portugal, para gozar a reforma, acabem por voltar, sempre que as saudades apertam, para estarem com os filhos e com os netos... 

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


2 comentários:

  1. É uma realidade vivida por milhares de portugueses que retornaram depois da reforma, ou que vivem intermitentes entre o cá e o lá.
    Tenho uma cunhada andarilha que foi dar aulas para França, casou com um francês, teve três filhos, separou-se e vive entre o cá e o lá, porque uma das filhas decidiu vir para Portugal para a universidade, casou com um português, tem dois filhos e vive em Lisboa.
    O irmão e a irmã mais velha vivem em Paris, assim a minha cunhada tem casa em Paris e em Lisboa e nós nunca sabemos por onde anda, porque a vida dela é uma correria, intervalada com caminhadas por sítios exóticos.
    O filho entretanto decidiu comprar casa junto da Lagoa de Albufeira., é nómada digital.
    Felizmente até uma neta parisiense decidiu estudar português.
    Assim as raízes são flutuantes e quando nos juntamos todos falamos a mesma língua.

    Abraço

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    1. Havia tanto a dizer sobre isso, Rosa...

      Só quem teve de partir é que sabe o que realmente sentiu e sente...

      Um dos meus tios, o primeiro a emigrar (primeiro sozinho, depois com a esposa e só mais tarde com os filhos...), contou-me há poucos dias (quase com uma lágrima no olho...), que ainda se arrepia quando se recorda da dificuldade que teve em despedir-se do filho mais velho - com quatro, cinco anos -, que não queria ficar com os avós, e que o fez perceber que tinha de ter toda a família com ele na Alemanha...

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