segunda-feira, novembro 17, 2025

Descobrir diferenças entre o trabalhar para o bem comum e o trabalhar para o "nosso bolso"...


Fui um dos convidados para participar num convívio familiar onde se comemorava o nonagésimo de um homem, que sempre pautou a sua vida pela discrição, embora estivesse presente, nos momentos mais importantes da vida da sua colectividade, dos anos sessenta até ao começo do século XXI.

Sabia quem o António era, mas só o conheci, verdadeiramente, nos últimos dez anos. O facto de ser extremamente culto nunca foi o melhor cartão de visita no meio onde estava inserido. Num tempo em que já não se liam livros como na sua juventude, ele continuava com vontade de descobrir e ler autores novos. Foi o Romeu Correia que nos aproximou, com os seus livros e as suas histórias de vida. Mas falámos de muito mais livros e autores, de Almada e do Mundo.

Curiosamente, quem falou mais naquela tarde longa, foi um companheiro, dois anos mais novo. Ele foi desfiando algumas das memórias vividas em conjunto, especialmente como bibliotecários. Embora não estivéssemos a ver nenhum álbum de fotografias, a sensação era quase a mesma, à medida que a história ia passando pelos dois homens.

A meu lado, estava uma terceira pessoa, também da mesma geração, que nunca foi um associativista. Enquanto os outros andaram dentro das colectividades ele ia fazendo pela vida, comprando lojas aqui e ali (chegou a ter três estabelecimentos comerciais no centro de Almada...). Em apenas duas ou três frases que disse, percebi que se tinha em grande conta. Achava que tinha sido mais importante para a comunidade que os dois amigos, mesmo assim, como se via, passara ao lado da história (pelo menos daquela)...

Não tive tempo nem vontade de lhe explicar que eram coisas diferentes, trabalhar para o bem comum e trabalhar para o "nosso bolso". Fiquei sim, a pensar, que ele nascera no tempo errado. O tempo dele era hoje, em que o "eu" é quem mais ordena...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


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