terça-feira, janeiro 28, 2025

Há uma parte rural que não sai dentro de mim...


Estava a ler uma entrevista, que fez com que pensasse, logo naquele momento, nas minhas memórias. Embora fossem muito diferentes das do entrevistado, era sobretudo disso que tratava aquela conversa...

Fiquei a pensar, que, mesmo vivendo sempre na cidade, tinha muito presente dentro de mim, todo o espaço rural. A aldeia, as fazendas e toda aquela outra forma de vida, diferente, artesanal em quase tudo, continuavam vivas, sem que eu conseguisse encontrar uma explicação para isso, até por na época, não gostar nada daquilo (desde o trabalho duro à própria gastronomia, que o meu irmão adorava. Ainda hoje diz que gostava mais da comida da avó que da mãe, ao contrário de mim...). 

Claro que sei que tudo isso se deve à minha vivência, desde a infância, na casa dos avós maternos. Uma boa parte das férias grandes eram passadas lá... Mas também percebo que há coisas que fazem parte de nós (desde sempre, mesmo que não se dê por isso...), que tanto podem já ter nascido connosco, como terem sido adquiridas, sem nos apercebermos. Até porque existem vários estudos no campo da psicologia e da psiquiatria, que explicam que o que se viveu na infância, é essencial para o resto das nossas vidas...

O que sei, é que mesmo sendo, naturalmente, urbano, há uma parte rural muito importante dentro de mim. É ela que determina que goste tanto do contacto com a natureza, que pudesse viver com facilidade sem o conforto das cidades. E claro, tenha tantas memórias dos campos...

Parece contraditório, mas não é. Nós somos sempre mais que uma coisa.

Mesmo que saiba que não é verdade, fico por vezes com a sensação de que aprendi mais coisas, durante estes curtos períodos de férias, que na escola...

(Fotografia de Luís Eme - Monte de Caparica)


segunda-feira, janeiro 27, 2025

Quando o que é normal parece ser entendido como "aberrante"...


Não é de agora, que o para nós parece normal e razoável, para os outros é uma coisa estranha e diferente.

O curioso, é ainda estranharmos estes comportamentos.

Estou a falar das palavras de Pedro Nuno Santos ao "Expresso", que fez com alguns dos seus opositores internos saíssem da "toca" para criticarem a sua opinião sobre a imigração.

O que ele disse é o que quase todos pensamos (se excluirmos os extremistas dos dos lados da política...). De uma forma simplista, ele disse que quem chega a um país, tem de respeitar as suas leis e a forma como se vive em sociedade. Ou seja, devem integrar-se e não viver em "guetos". E devemos ser rigorosos nestes aspectos. Quem não gostar ou não quiser cumprir as nossas normas, só tem de fazer as malinhas e ir para outras bandas.

O exemplo dos portugueses é exemplar, pois foi isto que sempre fizemos, em séculos de emigração pelos vários cantos do mundo. Sempre nos tentámos integrar nos países para onde fomos viver. E esse é que deve ser o comportamento normal de quem chega, vindo da China ou da Dinamarca.

Sei que o PS parece muitas vezes um "saco de gatos". E embora muito boa gente entenda isso como democracia, haver sempre várias vias de "socialismo", e claro, oposições internas, acho que não é lá muito democrático, alguém estar à espera de um qualquer "deslize", para sair da sombra e mostrar as "garras". Faz lembrar um pouco aqueles cães que estão escondidos e aparecem do nada a ladrarem atrás de nós, a fingirem que têm vontade de nos morder os calcanhares.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, janeiro 26, 2025

«Eles escolhem quem faz fogueiras com mais fumo»


Os alentejanos têm uma maneira de comentar as coisas, quase sempre mais irónica e divertida, pelo menos quando comparados com os restantes nativos das várias regiões portuguesas.

E têm ainda outra virtude, conseguem dizer piadas sem se rirem. Algumas vezes nem se trata de piadas mas sim da forma descontraída como olham para este mundo com cada vez mais cores à nossa volta.

E depois há frases que ficam, como as do Chico, em relação aos "especialistas" que enchem as televisões: «Eles escolhem quem faz fogueiras com mais fumo.» E continuou: «Eles querem lá saber do lume. Querem é fumaça!»

Quando alguém é capaz de explicar, com apenas duas frases, qual é o critério de selecção na escolha dos comentadores televisivos, e logo de seguida conseguir que todos concordem com ele, transporta no mínimo, muita sabedoria dentro dele...

Mas o Chico estava imparável na manhã de sábado, que pedia chuva. 

Apostado em nos fazer sorrir, sem nos mostrar os dentes, continuou a oferecer-nos excelentes bonecos de alguns dos nossos comentadores. Fez um belo esboço do general careca que sonha com a Laica e tem um poster do Putin, em tronco nu, a caçar ursos no escritório. Inventou uma colagem com um almirante rodeado de barcos de papel e um anão com uns sapatos de tacão alto agulha, ambos com orelhas grandes a olharem espantados para o Palácio de Belém. Mas a quem ele ofereceu mais adjectivos foi ao Octávio dos "futebóis", que mesmo pequenino, consegue ser um gigante na inveja, na insinuação e na maledicência Foi para ele o melhor elogio: «O magano consegue bater o Zé Povinho aos pontos, em "filha da putice".»

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


sábado, janeiro 25, 2025

Caricaturar com sucesso a realidade...


Tudo o que leio e ouço, vindo dos EUA, por parte do "homem cor de laranja" (que sabe desde há muito tempo, que o cargo que ocupa lhe oferece o estatuto do ser humano "mais poderoso do mundo"), não é tão estranho como se diz por aí.

Pela forma desbocada e excessiva que ele anuncia a maior parte das medidas que diz ir impor no seu País e no Mundo, tudo se torna mais espectacular, mais assustador, e até mais burlesco.

Mas se pensarmos bem, ele faz o mesmo que os outros políticos, só que não tem medo de chamar "os bois pelos nomes", nem de dizer, de forma aberta e incisiva, que escolhe os seus amigos para ocuparem vários cargos de poder.

No nosso país é tudo feito, meio às escondidas, quase como quem não querer a coisa. Mas se analisarmos bem a realidade, é quase tudo igual. Os amigos do partido, a pouco e pouco, vão ocupando os cargos que antes era ocupados pelos amigos dos governantes do outro partido, que tinha estado no poder.

Se olharmos para os números, para as substituições que têm sido realizadas ao longo de 2024 - como sempre muitas delas com pouco nexo, substituindo pessoas competentes por gente ligada à AD, sem qualquer experiência ou conhecimento técnico dos cargos - ficamos espantados.

A grande diferença é o "homem cor de laranja" gostar de "caricaturar a realidade", gostar de tornar todas as coisas, ainda mais absurdas, mais trágicas, mais cómicas e até mais grotescas.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quinta-feira, janeiro 23, 2025

A estatura física e a outra, muito mais importante...


Às vezes penso que a minha antipatia por Marques Mendes, tem em parte a ver com a sua estatura física, de ele ser pequenino, ao ponto de dar a sensação de ter apenas metro e meio. E claro de ele ter sido o "Ganda Noia", desse inesquecível, "Contra Informação". 

Até pode parecer preconceituoso, mas não é. Acho quase cómico, que o agora comentador político, fale na televisão como se fosse um "gigante". Embora, depois de analisar as suas palavras, volte a ver apenas um "pigmeu".

Por muito que se esconda, eu vejo sempre ali o ministro cavaquista, que gostava de enviar recados à comunicação social ligada ao Estado.

Basta lembrar o que disse o insuspeito, José Rodrigues dos Santos, que está muito longe de ser um perigoso esquerdista, sobre as pressões exercidas pelo então ministro adjunto, que o acusou de ser "demasiado independente. Mas vamos lá às palavras do jornalista e escritor:

«Todas as verdades inconvenientes irritam algumas pessoas, mas não é por isso que nos devemos calar. A nossa função não é ser simpáticos, é dizer a verdade tal como a captamos. Não é por acaso que como diretor de Informação da RTP tive graves problemas com um Governo PS e com um Governo PSD/CDS e que em ambos os casos tive de me demitir, acusado por um ministro do PSD que tutelava a RTP do hediondo crime de ser “demasiado independente”.»

Pois é, embora se tenha esforçado bastante nos últimos anos, para ser a "voz da razão", no espaço litúrgico que a SIC lhe ofereceu aos domingos, a sua estatura moral, continua igual, não passa do tal metro e meio...

E sim, o problema é mais dele (do que "tenta vender aos domingos") do que meu. 

Nem mesmo um sapatinho de tacão alto o salva...

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


quarta-feira, janeiro 22, 2025

Sentimento de impunidade e muita "auto-estima" (só pode ser)


Sempre me fez confusão que gente que tem vocação para andar fora da lei, aceite cargos públicos relevantes, daqueles que nunca devem escapar ao "radar" dos jornalistas (já que a justiça limita-se a andar a seu "reboque"...). 

Falo de ministros, secretários de estado, gestores públicos, deputados e directores gerais disto e daquilo, que acham que podem passar pelos intervalos da chuva e não ser alvo de  qualquer "denúncia anónima", quando prevaricam.

Só se podem ter mesmo em grande conta, ao ponto de pensarem que não irão ser apanhados na curva. E claro, que "estão acima da lei", que a justiça é só para os "desgraçados"...

Deve ter sido isto que pensaram, tanto o deputado dos Açores, que tinha um "fetiche" pelas malas dos outros, como o director geral do SNS, que gosta mais de dinheiro que da própria profissão que exerce...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, janeiro 21, 2025

Tudo pode mudar em segundos...


O Benfica acabou de perder um jogo em que esteve a ganhar a maior parte do tempo.

Seria menos trágico, se isso não tivesse acontecido no último lance do encontro...

Não se pode culpar ninguém, a não ser o futebol, uma das coisas mais imprevisíveis que nos rodeiam, onde é frequente, mais que em qualquer outra actividade, o David conseguir ganhar a Golias.

Naturalmente, as sensações são completamente antagónicas, de se ganhar e de se perder no último segundo.

Mas como um dos bons filósofos do futebol disse, este desporto é apenas a coisa mais importante das coisas menos importantes da vida...

Até porque tudo na vida pode mudar em segundos, sem que tenhamos qualquer interferência. 

Sim, nem as passadeiras nos protegem de um qualquer louco das velocidades e das inconsciências e tudo acaba ali...

Há quem fale de sorte e de azar. Os mais espirituais falam mesmo de destino. 

Evita-se - mais vezes do que se devia - falar da estupidez humana...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


segunda-feira, janeiro 20, 2025

Provavelmente, eu é que sou o estranho nesta história...


Não consigo perceber o porquê de tantas horas de emissão televisiva, em directo e em deferido, da tomada de posse de Trump, nos canais noticiosos portugueses.

Sei que não temos tantas notícias como isso no nosso país, muitas vezes por ausência de trabalho de campo e de reportagens próprias. É a explicação que encontro para a tentativa de nos oferecerem informação seguindo as técnicas das telenovela (com "repetições" e "cenas dos próximos episódios...), que começou por ser ensaiada com êxito pelo CMTV, e depois foi copiada por todos aqueles que se fingem "sérios" a transmitir notícias no nosso país.

Também poderá existir alguma subserviência, e até admiração excessiva, ao tal "sonho americano", que só é para alguns. Curiosamente, ou não, o novo governo norte-americano é dominado por multimilionários, que olham o mundo, a partir dos seus investimentos e das suas contas bancárias, e claro, alimentam o "sonho"...

Provavelmente, devo ser eu o estranho nesta história americana, cheia de adjectivos, como o "melhor", o "maior",  o "excepcional", o "único", etc.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


domingo, janeiro 19, 2025

As palmas, os assobios, o silêncio, o vazio...


Uma boa parte das pessoas nunca saberá qual é peso que têm os aplausos e os apupos nas suas vidas, porque têm uma vida demasiado vulgar, para terem direito a palmas ou assobios...

Isso é mais para os artistas da bola, da música, do cinema ou do teatro.

Também nunca experimentarão o silêncio e o vazio, que se segue, pouco tempo depois de serem tratados como os "melhores do mundo". Muito menos quando são "pateados" e tratados como os piores do mundo.

E também nunca ganharão nem gastarão as fortunas que alguns destes artistas ganham...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, janeiro 17, 2025

A desagregação de freguesias que não chegou a Almada (nem às Caldas da Rainha)...


Consultei a lista das freguesias que são ser desagregadas de outras (são cento e trinta e cinco) e não encontrei qualquer sinal do Concelho de Almada, mesmo que algumas uniões sejam autênticos erros de casting, pelo menos para quem conhece a história local e o dia a dia destes pequenos centros urbanos.

O mesmo se passou em relação às Caldas da Rainha, onde até existe uma união entre uma freguesia urbana unida a duas rurais (Nossa Senhora do Pópulo, Coto e São Gregório)... e irá continuar a existir. Aqui é que se deve sentir o "abandono autárquico"...

Mesmo assim, estou satisfeito, pelas mais de cem freguesias que voltam a caminhar, apenas com os seus pés. Sei que se trata de uma reposição justa e uma forma de servir melhor as suas populações.

Sei do que falo. Assisti às mudanças de um concelho com o de Almada, que passou de onze para cinco freguesias. O que foi mais notório foi a "desresponsabilização" dos autarcas, com a velha desculpa, de que lhe era impossível estar em todo o lado ao mesmo tempo. Isso fez, entre outras coisas, que cada vez apoiassem menos as colectividades recreativas, culturais e desportivas, tal como outras instituições que serviam os almadenses. Neste caso particular, diziam sempre que não havia dinheiro para tudo...

Por se tratar de um Concelho onde há um grande envelhecimento da população (especialmente nos centros urbanos mais antigos, como são os casos de Almada, Cacilhas, Cova da Piedade ou Trafaria), a anterior divisão de freguesias permitia uma maior proximidade junto das populações. Infelizmente, esta ligação foi desaparecendo com o tempo, assim como a própria identidade dos lugares, quase sempre com uma história muito própria, e bastante rica, como são os casos de Cova da Piedade, Trafaria ou Cacilhas.

Se acho natural que as freguesias do Feijó e Laranjeiro, assim como a Charneca e Sobreda de Caparica, devem permanecer unidas, acho que pelo menos a Cova da Piedade, o Pragal e a Trafaria, deviam ser freguesias autónomas.

Todos tínhamos a ganhar, especialmente os habitantes destes pequenos centros urbanos.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quinta-feira, janeiro 16, 2025

A tentativa de simplificação do dicionário "politiquês"...


Não sei se o populismo se consegue combater com outras formas de populismo.

Penso que não, mas ainda é cedo para se perceber, se o PSD consegue tirar alguns dividendos políticos, ao usar as mesmas "bandeiras" que o Chega usa, em relação à segurança e à imigração.

Curiosamente, a par desta radicalização da sua prática política, o governo escolheu a  palavra "moderação", para o combate político contra o PS, que está a ser usada pelo primeiro-ministro, pelo alcaide de Lisboa e por vários comentadores ao seu serviço, na tentativa de transformar os socialistas nuns perigosos "radicais". 

Claro que isto só pode ter o dedo e a imaginação da agência de comunicação do governo.

É apenas mais uma manobra de simplificação dos discursos políticos, que tem como objectivo espalhar a falsa "novidade", de que nós somos os "bons" e os outros os "maus".

Só que não bate "a bota com a perdigota". Não se pode ser moderado e radical ao mesmo tempo. 

Talvez seja mais uma percepção deste governo, que acredita que pode criar realidades paralelas, ao mesmo tempo que simplifica, ainda mais, o dicionário "politiquês"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, janeiro 15, 2025

Tantas coisas que não pensamos (e outras tantas que não contamos)...


Acho que as maiores diferenças entre nós, todos, homens e mulheres, está na forma de pensarmos.

Pensamos quase sempre coisas diferentes, e muitas delas (diria mesmo, quase todas), ficam-se apenas pelas nossas cabeças. Pois é, não somos assim tão iguais, como nos querem fazer crer.

São aquelas coisas que se sentem e não se dizem, por isto ou por aquilo.

Pensei nisso, poucos minutos depois de assistir ao começo de uma discussão sobre o "fazerem-se ou não se fazerem filhos", entre um casal, que se aproximava vertiginosamente dos quarenta anos.

Naquela "mesa de ideias", éramos sete e só dois tínhamos filhos. Eu com apenas dois, parecia quase um "fenómeno do entroncamento". A Inês tinha uma miúda, já adolescente. Os outros deviam ter imensas desculpas para não quererem aumentar a população mundial, mas acabámos por ficar todos em silêncio, com algum receio de que aquela conversa chegasse aos lugares, onde existem placas com sentidos únicos.

Mas não se foi tão longe, o Rui limitou-se a dizer que se fosse mulher, há muito que tinha filhos. A Clara começou a rir-se e depois disse: «Pois é. É uma pena, nunca conseguirmos ser iguais. Adorava que os homens também pudessem ter filhos, períodos, enxaquecas e consultas de ginecologia.»

Começámos todos a rir, inclusive o Rui. E a conversa ficou por ali. 

Voltámos ao trabalho.

Quando vinha para casa acabei a pensar no assunto. Era uma coisa tão óbvia, que nunca me fez confusão na cabeça, mesmo que fosse estranha. 

Eram as mulheres que determinavam o aumento da população no nosso país e no mundo e ponto final. 

Embora raramente fosse uma opção solitária, à verdade é que eram elas as únicas que podiam ter filhos e tinham sempre a última palavra sobre o assunto, mesmo que fingissem que não...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)