domingo, maio 18, 2014

Quando a Realidade é Prima da Ficção


Há muito que não escutava  as histórias de vida do velho Daniel, que tem andado "escondido" na aldeia onde se costuma encontrar consigo próprio, no coração do Alentejo, distante deste país que há bastante tempo que já não é o dele.

Desta vez falou-nos de outro lado do seu exílio, mais colorido e algo que nunca tinha escutado. Os protagonistas eram falsos "hippies" e "beatnicks", gente que  só vestia roupas sujas e deixava de se barbear ou perfumar, quando se aproximava um acontecimento que juntava a malta excêntrica que enchia páginas de jornais e revistas. Foi um fenómeno que conheceu em Londres, mas que soube ser comum em Paris e Nova Iorque.

Disse-nos que nunca percebeu muito bem a modernidade de um gajo cheirar mal e andar com roupas de mendigo, nesses já longínquos anos sessenta.

Uma coisa era um tipo ser obrigado a viver na rua, não ter dinheiro para um simples pão com manteiga, como lhe aconteceu, outra era pertencer à classe média alta e fazer quase um número de teatro, na rua, nos cafés e bares mais populares, junto dos verdadeiros "donos da rua".

Percebeu isso quando entrou nos seus apartamentos, com tudo no lugar. E onde, descobriu que afinal, tomavam banhos diários, ao contrário dele e usavam perfumes parisienses.

O que nos rimos com os episódios mais pitorescos (alguns a roçar a pornografia, que por razões óbvias, ficaram lá na mesa do café).

O óleo é de Gil Bruvel.

sexta-feira, maio 16, 2014

A Nossa Atracção Pelo Abismo


Estive com o Gui na semana passada, que passou por cá apenas para matar saudades,  de passagem para o Festival de Cannes.

Falámos de muitas coisas, como de costume.

Ele ainda não está totalmente adaptado ao Brasil. Diz mesmo que nunca se habituará aquele tipo de violência, em que se mata por um tostão furado, ao pouco valor que se dá à vida humana. E pensa que a organização do Mundial foi um erro que poderá ter consequências graves. Acha mesmo que há mais pessoas contra que a favor, apesar do Brasil ser o país do futebol...

Mesmo com todas estas coisas, Gui não sente saudades do nosso país, pelo menos para trabalhar. Continua a fazer o que gosta e faz melhor, o que talvez não fosse possível entre nós.

E também continua sem perceber muito bem o porquê da nossa atracção pelo abismo.

Da mesma forma que não percebe como é que votamos sempre nos mesmos políticos, com provas dadas da sua incompetência.

Desafiou-me a votar no Coelho da Madeira ou no Marinho Pinto para as europeias, por saber que não embarco nessas provocações...

quarta-feira, maio 14, 2014

A Normalidade e a Alarvidade Televisiva


Depois do almoço escrevi isto:

«Hoje é dia de "estagiar" e de apenas ligar a televisão uns minutos antes do começo da final da Liga Europa, entre o Benfica e o Sevilha. Palavra de benfiquista!
Acho impossível aguentar esta programação, de manhã à noite, apenas focada  no Benfica. Como de costume, povoada de lugares comuns e de repetições. É no mínimo doentio.
Normalmente para se defenderem, dizem que é isto que o povo quer e gosta.
Não sei a que povo se referem... sei apenas que era preferível falarem, ainda que levemente, dos muitos interesses comerciais que giram à volta destes acontecimentos.
E eu sou benfiquista. Imagino como se devem sentir os simpatizantes de outros clubes...
E claro que quero que o Benfica ganhe.»

Telefonaram-me e como não tinha escolhido uma imagem, este texto acabou por ficar apenas como "rascunho".

Já depois do final do jogo, pensei que toda aquela euforia exagerada dos meios de comunicação (que só falou filmarem os benfiquistas nos mictórios de Turim), só poderia levar a estados depressivos exagerados, após a derrota benfiquista...

Se os jogos fossem encarados com normalidade, sem toda esta pressão, talvez as bolas entrassem com mais facilidade nas balizas. Talvez...

A foto foi retirada do site "A Bola".

terça-feira, maio 13, 2014

A Poesia Tem Tanto de Belo como de Estranho, Mas...


Quando me tentam colar na pele o "autocolante" de poeta, faço um desvio (um pouco menos que o de fotógrafo, mas...) e finjo que não é comigo que estão a falar.

Digo que a poesia para mim é um jogo de palavras (embora saiba que é muito mais, muito mais mesmo...). Talvez fuja a sete pés de ser considerado poeta, mesmo sem saber muito bem porquê...

Mas cada vez entendo melhor a poesia e os poetas.

Por causa do meu filho que amanhã vai apresentar na escola um livro da poesia (sugestão minha a seu pedido...) entrei ainda mais dentro da poesia de um dos grandes poetas portugueses, fui mais fundo nas suas palavras (ou pelo menos fiquei a pensar que sim).

Até me apeteceu deixar de fingir e assumir que afinal sempre sou um bocadinho poeta.

O óleo é de Boiko Kolev.

segunda-feira, maio 12, 2014

Quase Auto-Retrato de Esmeralda, ela Própria uma Aguarela Bonita


«Não sei se ele queria que eu fosse pintora. Acho que não. Acho que ele nunca quis que eu fosse nada que não quisesse ser.

Só quem teve ou tem um pai libertário percebe isto. O único lugar para onde ele me tentou empurrar foi para o canto dos "felizes", disse-me que era das coisas mais difíceis da vida, mas que devia tentar, sempre, ser feliz. Em tudo e em todos os lados.

Como passava o tempo a desenhar, ele começou a trazer-me lápis de cor, de cera, aguarelas, cadernos. Acho que foi isso que me colou às artes.

Sabes qual foi a melhor herança que recebi dele? O desprezo pelo dinheiro e bens materiais. A minha mãe não acha muita piada, paciência.»

O óleo é de Graig Mundins.

domingo, maio 11, 2014

Cultura de Primeira e de Segunda (ou a que assusta e a que faz sorrir...)


Sei que é perigoso dizer não de uma forma taxativa, porque existem sempre várias circunstâncias que nos podem fazer mudar de ideias.

Mas pelo menos estou certo que irei viver um período de algum recolhimento nos tempos mais próximos. Não tanto por mim, mas em solidariedade com todos os criadores nacionais, que são tratados como se vivessem do ar.

As autarquias por exemplo, têm sempre dinheiro para pagar a cantores pimba, mas raramente têm dinheiro sequer para apoiar o transporte e a alimentação de um escritor ou historiador, que vem de fora e foi convidado para participar numa iniciativa cultural local.

Não esqueço o exemplo que uma historiadora deu em jeito de desabafo (Fátima Bonifácio), quando comparou a sua actividade com a de um canalizador ou electricista, pois quando uma escola ou outra instituição precisa dos serviços de um canalizador ou de um electricista, não tem qualquer dúvida que tem de pagar esse serviço. Embora o mesmo não se passe com um historiador ou escritor, ainda que este perca várias horas para preparar a sua intervenção em qualquer visita programada.

Digo isto sem colocar em causa estes ofícios, que acho muito bem que sejam remunerados, porque como referi anteriormente, ninguém vive do ar.

Voltando à Cultura e à nossa Sociedade, claro que percebo muito bem que haja mais dinheiro para entreter o povo que para o educar...

O óleo é de Lima Junior.

sexta-feira, maio 09, 2014

Uma Sociedade Cada Vez Mais Violenta e Cobarde


É cada vez menos estranho encontrar por nas ruas, alguém de cabeça perdida, preparado para explodir, ao mínimo contratempo que lhe surge pela frente.

E se estão ao volante de um carro podem transfigurar-se e fazer-nos sentir que os automóveis são uma das armas mais perigosas que se usam nas cidades.

Quando alguém acelera à aproximação de uma passagem de peões e ainda grita insultos pela janela, explica apenas um pouco da confusão que deve ter tomado conta da chamada "caixa dos pirolitos"...

Mas o pior está guardado lá para casa, para a mulher e para os filhos, que normalmente oferecem menos resistência que o "mundo exterior"...

Não sei se há displicência dos tribunais e das polícias, sei que a violência está a tomar proporções anormais no nosso país.

O óleo é de Heiner Altmepen.

quarta-feira, maio 07, 2014

Num Lugar Sujo a Limpeza não Passa de uma Ilusão


Não viste os governantes orgulhosos por terem saído de uma "forma limpa" do reinado troikano (algo que ninguém percebe muito o que é, excluindo o presidente da República, que é um sabido), a pavonearem-se na televisão. Não é que tenhas muito com que te preocupar, mas devias ter visto...

Pensavas que não era possível descer mais, quando perdeste o emprego, ficaste sem carro, deixaste de ter televisão por cabo, gás canalizado e por fim até electricidade.

No dia seguinte o prazo do banco esgotou-se e deixaste a casa. Antes entregaste a tua mulher e o teu filho na casa dos sogros e passaste a ser mais um dono das ruas, à procura de um abrigo em qualquer canto ainda vago…

Só que agora tens medo que ainda seja possível descer mais.

Apetece-te morrer da mesma forma que te apetece viver.

O mais esquisito é que ainda tens sonhos…

Ainda te espantas, porque a solidariedade surge de quem menos esperas e de quem menos tem. Nunca imaginaste que alguém partilhasse contigo uma manta cheia de buracos e que ela te aquecesse tanto…

Sabes que é impossível procurares trabalho assim, sujo, mal vestido e com um cheiro horrível.

Disseram-te onde podes tomar banho. E até podes escolher roupa limpa, mas tens um medo terrível da sensação de "limpeza" no esterco da vida.

Provavelmente devias ter dado uma olhadela à televisão para perceberes que é mais fácil do que parece, uma saída limpa...

Nota: A fotografia é da "Casa Viva" do Porto e foi publicada no blogue, "Portal Anarquista".  A faixa foi afixada para festejar o 1º de Maio no Porto, mas parece que houve quem se sentisse muito ofendido e 38 horas depois, numa operação quase de assalto - protagonizada pela PSP, PM e Sapadores do Porto -, a faixa da "Casa Vida" foi arrancada, sem sequer informarem a malta da "Casa".
Mas continuem descansados, não se enervem que ainda vivemos em democracia...

terça-feira, maio 06, 2014

Viver (ou não) no Lado de Lá do Mundo


A felicidade não só não se mede, como também  não tem poiso certo. É por isso que podemos ser felizes em lugares completamente opostos.

Há quem opte por fugir do mundo comandado pelas máquinas que inventámos para umas coisas e que rapidamente evoluíram para outras.

Há quem deseje viver "eternamente" a nona ou décima maravilha, à frente de um computador ligado ao mundo virtual, sem sequer se aperceber que pode começar a ser vitima de uma nova "escravidão"...

Claro que existe o meu termo. Podemos viver com um pé dentro e outro fora nestes dois mundos. 

Além de sermos "animais" de hábitos também somos seres cheios de contradições...

O óleo é de Romano Bertelli.

segunda-feira, maio 05, 2014

O País das Mulheres de Negro


Ontem não escrevi nada sobre as Mães, embora tenha festejado este dia na companhia da minha mãe.

Hoje pensei da sua condição de viúva, tal como tantas mulheres da sua geração. Nós partimos sempre antes, não apenas para abrir caminho, mas também para não termos de suportar a solidão, que é mais feminina que masculina, para lá da essência da palavra.

Talvez as mulheres de hoje não consigam suportar as agruras da vida, como as nossas mães, que nasceram num outro tempo, em que lhes estava reservado um papel (oficialmente) secundário na sociedade. 

Talvez, mas não devem ter como fugir a este destino de  durarem mais tempo e acabarem sós...

O óleo é de Guglielmo Siega.

sábado, maio 03, 2014

Um Cobarde Transformado em Herói


Quando as polícias conseguem transformar um cobarde em herói, cai muita coisa por terra, inclusive a lenda (de certeza inventada por um polícia português...), de que temos a melhor polícia de investigação do mundo,  ao mesmo tempo que descobrimos que os problemas da justiça não se resumem aos juízes e ao ministério público.

Um assassino de mulheres nunca pode ser herói em parte alguma do mundo. 

As chefias policiais deviam ter aprendido com o caso da menina inglesa desaparecida no Algarve, que não se fazem buscas em directo, para a rádio e tevê, e muito menos se convoca a cavalaria, os cães e as operações especiais da GNR para a reportagem. 

O espectáculo é inimigo de qualquer investigação ou busca policial, pois estas requerem sobretudo discrição...

O óleo é de Iurie Matei.

quinta-feira, maio 01, 2014

Benfica de Maio


Apesar de hoje ser o Dia do Trabalhador, que continua a ser banalizado pelo "senhor pingo doce", o grande destaque do dia vai para o Benfica, que apesar de hoje ser tradicionalmente um dia de descanso e de festa, os seus atletas foram uns autênticos operários, unidos e solidários, na luta que travaram com os italianos da Juventus. 

Jogaram mais de 20 minutos com menos um jogador e os últimos nove com menos dois jogadores, devido à lesão de um dos seus grandes campeões, Garay. Tal como já tinha acontecido nos dois jogos que disputou com o FC Porto.

Há um atleta que merece  algumas palavras de homenagem, o capitão Luisão, que além de tirar uma bola de dentro da baliza, foi, o que tem sido durante toda a época, o grande "comandante" desta verdadeira equipa.

A fotografia foi retirada do site de "A Bola".