terça-feira, junho 16, 2026

"Atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir..."


A frase que escolhi para título deste pequeno texto faz parte de uma das canções do Fausto. Escolhi-a porque é um retrato do mundo, andamos praticamente desde a nossa existência a cometer os mesmos erros (por pior que sejam...), que acabam por voltar sempre, de tempos a tempos...

Aparece sempre alguém, capaz de inventar uma guerra qualquer, com um único objectivo, servir os seus interesses pessoais, pouco preocupado com o rasto que deixa atrás de si, tanto de gente assassinada ou mutilada como de cidades completamente destruídas...

Nem a invenção dos deuses e das religiões apaziguaram esta ambição desmedida dos humanos...

Tenho à cabeceira um livro há mais de dois meses, o "Diário" de Hélene Berr (escrito de 1942 a 1944), escrito em Paris durante a ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial, por uma jovem judia francesa, que morreu pouco tempo antes da libertação, em Auschwitz. 

Não o leio todos os dias, porque está longe de ser um testemunho agradável, por razões óbvias.

Há muitas partes do seu testemunho que podiam ser transpostas para os dias de hoje, onde a indiferença, se vai tornando reinante. Transcrevemos um exemplo sobre a actividade policial em duas frases:

«Polícias que obedecem a ordens expressas de ir prender uma bebé de dois anos, a casa da ama, para a internar! Eis a prova mais pungente do estado de embrutecimento, da perda absoluta de consciência moral em que caímos. É isto que é desesperante.»

E umas linhas mais abaixo: «Que se tenha chegado a conceber o dever como uma coisa independente da consciência, independente da justiça, da bondade, da caridade, eis a prova da inanidade da nossa pretensa civilização.»

E não são precisas mais palavras...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


4 comentários:

  1. Segundo o Velho Testamento fomos feitos à imagem e semelhança de Deus, daí não compreender tanta imperfeição e maldade!

    Abraço

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    1. Eu também não, Rosa.

      Mas o problema é que há muita hipocrisia e cinismo à nossa volta. Há muita gente má disfarçada de boazinha, quando os ventos não lhe soam de feição...

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  2. Gosta muito do texto, gosta das canções do Fausto, prematuramente desaparecido do nosso convívio, mas acima de tudo por o Luís lhe revelar esse Diário de Guerra de Heléne Berr, que desconhecia por completo, lacuna que, apesar dos dias difíceis, tentará rectificar.

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    1. Não penso que seja uma lacuna, Sammy.

      Nem eu sei porque comecei a ler o livro, que me veio parar às mãos. A autora era desconhecida, e deve continuar a ser, para a maior parte das pessoas.

      Acho que foi mais curiosidade que outra coisa.

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