sexta-feira, março 31, 2023

Um Retrato extremamente Lúcido e Honesto, mesmo estando Inacabado...


Quando resolvemos mudar as coisas de sítio, aparece sempre uma  ou outra surpresa. Isso tem acontecido sobretudo com os livros, que resolvem "submergir" e pedir uma chance, quase a prometer que não me vou arrepender de ler as suas palavras. 

Normalmente chamo-lhes os "livros improváveis". Foi desta forma que redescobri o "Retrato Inacabado (memórias)" da autoria da actriz Carmen Dolores. Por gostar deste género literário aceitei o desafio e devo desde já dizer que foi uma bela surpresa.

O que mais sobressai nesta obra é a "verdade" da actriz, a forma honesta como ela olha para dentro e para fora de si, sem ter medo de mostrar as suas fragilidades, iguais às de qualquer ser humano, desde os primeiros tempos até à sua idade madura.

Quando ela escreve, «Com o tempo fui aprendendo que os poetas são homens como os outros, tal como eu, embora actriz, sou uma mulher exactamente igual às outras», tenta aproximar o mundo das artes e das letras do cidadão comum. Ela oferece mais exemplos, ao longo das 160 páginas, porque nunca se sentiu uma "vedeta", ou pelo menos não alimentou essa ilusão, que nem sempre dá bons resultados.

Normalmente nas páginas dos livros de memórias, encontra-se sempre um ou outro capítulo, onde se ajusta contas com alguém, porque as nossas vidas nem sempre são fáceis. Carmen conseguiu resistir a este "lado negro" e apenas ajusta contas consigo própria, todas as outras personagens que passam pelo livro são tratadas com respeito, carinho e muita camaradagem.

Apesar de ser um livro simples, tocou-me bastante este "Retrato Inacabado", de Carmen Dolores.


quinta-feira, março 30, 2023

Com Tantos "Salvadores da Pátria", o Futuro do País está assegurado...


Quem assistiu hoje às notícias televisivas descobriu uma nova classe de "salvadores da pátria", os empresários do alojamento local.

Quem os ouvisse, ficava com a sensação de que tinham feito os seus negócios apenas para ajudar o país, para oferecer um novo rosto às cidades onde têm as suas casas, e não para ganharem dinheiro com a "galinha" que continua a pôr "ovos de oiro", o turismo.

Quase que fiquei zonzo, ao ver tanta gente preocupada com a economia e com os empregos deste País.

Depois lembrei-me que alguns destes "patrioteiros" foram os principais responsáveis pelo despejo de centenas de famílias dos chamados bairros históricos de Lisboa, que tiveram de ir morar para os subúrbios da Capital. E já se sente há algum tempo o resultado destas mudanças, a perda de identidade local e de vida própria, porque quase que se limitam a servir o turismo e os turistas.

É mesmo caso para dizer: Com tantos "salvadores da pátria", o futuro do País está assegurado...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, março 29, 2023

O Surpreendente Passeio Higiénico de um Ministro à Lisnave (com promessas, claro...)


Fiquei agradado por ver o ministro das Finanças a passear pela Lisnave (da Margueira...) com a "mayor" da cidade de Almada (que raramente se deixa ver, ao ponto de alguns munícipes ainda não a conhecerem...) e respectivos acompanhantes e a dizer, entre outras coisas, que é desta, que se vai realizar a descontaminação ambiental daquele espaço.

E ainda melhor, o estaleiro gigante abandonado há mais de vinte anos, afinal pode ser a tal solução para o défice habitacional que se faz sentir na "Grande Lisboa". Finalmente ouvi alguém a dizer que se poderá construir por ali habitação social a pensar nos jovens. Até ao dia de hoje só tive conhecimento de projectos megalómanos para a Lisnave, cuja habitação - de luxo - só poderia estar ao alcance de milionários.

Embora seja coisa para se prolongar no tempo (hoje foi só dia de promessas...), é bom saber que o Tejo pode estar ao alcance de todas as bolsas, até porque ninguém vive das vistas que tem ou não tem. O grande exemplo é o bairro social do "picapau amarelo", cuja localização foi tão invejada pela actual presidente da Câmara de Almada, há já algum tempo...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


terça-feira, março 28, 2023

Chegar "Ligeiramente" Atrasado ao Teatro...


Este título é quase mentiroso, porque as coisas não aconteceram assim. Não foi ao "teatro" que cheguei atrasado, mas sim ao "Dia Mundial do Teatro", que se festejou ontem.

É por estes pequenos pormenores que nos apercebemos que ainda não acertámos todos os passos, há coisas que ainda ficam para trás, esquecidas.

Curiosamente, na madrugada de 27 acordei bastante cedo e ainda na cama comecei a escrever o que poderiam ser duas peças de teatro (vieram duas ideias quase em simultâneo...), no caderno da "teatrices". É provável que não avancem muito (tem acontecido muito com este género literário, penso muitas vezes que era muito mais fácil ter uma ligação qualquer a uma companhia, mesmo amadora, e escrever um pouco de acordo com o que eles querem experimentar no palco...).

Mas não são coisas que me chateiem muito. Escrevo porque me apetece, porque algumas ideias vêm ter comigo. Se "morrem" quase à nascença, é porque não vieram com força suficiente, para se aguentarem "no mundo"...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


segunda-feira, março 27, 2023

«Há, Ele é isso tudo? Ainda bem! Assim tenho a certeza que ninguém mo rouba!»


Tenho impressão que as pessoas falam cada vez mais alto nas ruas, com e sem telemóvel.

Muitas vezes não queremos saber da vida delas para nada, mas é impossível não ouvir algumas coisas, com a estranheza possível.

Mas nem tudo é dramático ou triste. Três jovens estavam entretidas a "azucrinar" a cabeça de outra jovem, por causa do namorado desta. Ele era feio, gordo, usava óculos, era desengonçado... e provavelmente mais alguma coisa que me escapou.

O mais curioso, foi a rapariga namoradeira ter conseguido calar as outras três com uma resposta quase "assassina",  deixando-as a olhar umas para as outras, sem contudo perderem a leveza do momento.

Bastou-lhe dizer: «Há, ele é isso tudo? Ainda bem! Assim tenho a certeza de que ninguém mo rouba!»

Claro que alguns segundos depois, acabaram todas a rir, como se tudo não passasse de uma piada.

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


sábado, março 25, 2023

Os "Puros", a Literatura e a Vida...


Quase todas as semanas os "puros" das redes sociais e da vida inventam novas vítimas na literatura. A escritora Enid Blyton parece ser a última e já está a ser "banida" das bibliotecas do seu país, que desaconselham a sua leitura, de uma forma já mais oficial que formal.

Sinto vergonha desta gente e deste tempo, em que se finge perceber que o mundo nem sempre foi igual ao que é, nos nossos dias.

Voltando aos livros, continuo a pensar que, quando os livros mexem com a nossa inteligência ou com outra coisa qualquer, a única coisa sensata que devemos fazer, é colocá-los num canto e deixá-los por lá ficar, sossegadinhos. Ponto final.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, março 24, 2023

Dois "Pedregulhos" no Charco...


Não deixa de ser curioso, que as duas instituições mais conservadoras e menos democráticas da sociedade portuguesa estejam, de alguma forma, a ser colocadas em causa pela forma como funcionam e como interpretam os acontecimentos.

Falo da Igreja Católica e das Forças Armadas (em particular a Armada, que até tem fama de ser o seu ramo "mais democrático"...) e da reacção aos casos de abusos sexuais e à recusa de 13 marinheiros em embarcaram num navio longe de estar operacional.

O advogado Garcia Pereira, na entrevista que deu hoje ao "DN", foi bastante pertinente na forma como abordou este último caso, assim como o funcionamento da justiça, em geral, no nosso país.

Embora saiba que é necessária a disciplina nas Forças Armadas, as coisas têm mesmo de mudar. De uma forma simplista, a mentira de um oficial continua a valer mais que a verdade de um sargento ou de uma praça. E isso não pode continuar, num Estado de direito.

E quando se fala em obediência, apesar do nosso hino nos convidar a "contra os canhões marchar", não se pode, nem deve, entender esta frase de uma forma literal. Não se pode obedecer "cegamente" a uma ordem. Se um comandante mandar que nos atiremos para um poço, profundo sem água, é evidente que temos todo o direito de a recusar, mesmo que depois possamos ser acusados de insubordinação...

É por isso que espero que estes "dois pedregulhos" atirados ao charco, ajudem estas duas instituições a aproximarem-se da sociedade e a funcionarem de uma forma mais democrática e respeitadora dos direitos humanos.

(Fotografia de Luís Eme - Fonte da Pipa)


quinta-feira, março 23, 2023

A Verdade que está Dentro do Olhar...


Passei por Lisboa e encontrei-me com um amigo das fotografias, com quem aprendo sempre qualquer coisa, nas nossas conversas animadas.

Desta vez até andámos pelo futuro. Como se tem inventado tanta coisa, ele falou-me de um daqueles inventos, que acabava com a dificuldade cada vez maior que existe em "roubar fotografias" aos rostos das pessoas com quem nos cruzamos.

Quando  ele me disse, «Sabes, gostava de ainda cá estar, quando alguém resolver inventar algo que torne possível que, apenas com o nosso olhar, sem o uso de qualquer máquina fotográfica, seja possível retratar uma pessoa ou um objecto, tornando-a muito mais próxima daquilo que realmente queremos transferir para o mundo das imagens», eu limitei-me a sorrir.

E depois contei-lhe que tinha encontrado no cacilheiro uma jovem extremamente bonita, muçulmana, que trazia a cabeça coberta, com uma espécie de lenço azul. Tive uma grande vontade de a fotografar, mas era impossível fazê-lo, sem que ela desse por isso. Mesmo que os meus olhos a tivessem "fotografado", mais que uma vez...

Voltámos a sorrir, até por sabermos que o futuro estava sempre pronto a surpreender-nos...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, março 22, 2023

Um Mundo Cheio de Pessoas Mal Agradecidas...


Se há coisa que evito, é ser mal agradecido. Não quer dizer que o consiga, sempre, mas pelo menos tento ter sempre a memória bem viva.

Faço-o porque uma das coisas que mais detesto são as pessoas que têm a memória muito curta e que se esquecem daqueles que os ajudam e lhe fazem bem.

Ouvir hoje o Cristiano Ronaldo, sempre que lhe foi possível, puxar este novo seleccionador para cima, ao mesmo tempo que tentava "beliscar" o trabalho de Fernando Santos, sem nunca se referir ao seu nome (na conferência de imprensa da selecção), mostra o seu carácter. 

Fico à espera da sua reacção, quando for para o banco. Porque, mesmo que jogue amanhã a titular, já quase toda a gente percebeu que ele não é o melhor avançado português. Pelo que, mais tarde ou mais cedo, sairá do onze da Selecção.

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


terça-feira, março 21, 2023

"Éramos uma Invenção tão Boa"


Éramos uma Invenção tão Boa
 
 
Eles amputaram
As tuas coxas das minhas ancas.
Tanto quanto sei
São todos cirurgiões. Todos eles.
 
Eles desmantelaram-nos
Um ao outro
Tanto quanto sei
São todos engenheiros. Todos eles.
 
Que pena. Éramos uma invenção
Tão boa e tão amável.
Um aeroplano feito de um homem e de uma mulher.
Com asas e tudo.
Pairávamos ligeiramente por cima da terra.
 
Até voávamos um pouco.
 
 
Yehuda Amichai

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, março 20, 2023

A "Prima Vera" Acabou de Chegar...


Durante anos e anos, o dia 21 de Março festejava o começo da Primavera, e também os dias da Árvore e da Poesia por esse Mundo fora.

Até que a ciência disse que afinal a Primavera chegava ligeiramente mais cedo, ainda a 20 de Março...

Felizmente a Primavera não floresce apenas os campos, que ficam mais bonitos e cheirosos. As ruas também ficam mais coloridas porque com o aumento da temperatura, as mulheres começam a tirar os vestidos dos armários e saem de casa, mais leves e floridas...

(Fotografia de Luís Eme - Constância)


domingo, março 19, 2023

Rui Nabeiro: o "Patrão com Memória"...


O empresário Rui Nabeiro deixou-nos hoje. Teve todos os motivos para partir, com um sorriso no rosto, pelo legado empresarial e humanista que deixa atrás de si.

Li no "Cais do Olhar" do Sammy, que tinha dito um dia: «Hei-de ser um rico diferente dos que há por aí.» 

E foi mesmo muito diferente. 

Foi um rico, um patrão, um empresário com memória. Nunca se esqueceu de onde veio, nem nunca foi ganancioso, ao ponto de querer "tudo para si", como é comum no mundo empresarial português.

É uma pena para todos nós que o seu exemplo humanista, não seja regra, em vez de excepção, neste mundo capitalista cada vez mais "selvagem". 

Portugal seria um país muito melhor para todos.