sábado, agosto 20, 2016

Escolher o Nosso Caminho...

Apesar de soprarem por aí ventos contrários, continuo a pensar que continuamos em evolução de geração em geração.

E acho que conseguimos ser melhores se tivermos a capacidade de pensar pela nossa cabeça, e claro, a liberdade de puder escolher o nosso próprio caminho.

Pensei nisto hoje, ao lembrar-me do meu pai e no meu avô. Ambos tentaram passar para mim e para o meu irmão algumas tradições, que lhe eram caras, mas não o conseguiram...

O meu pai ainda nos quis iniciar nas caçadas, mas nós não demonstramos o mínimo interesse em andar por aí a matar animais. O pai percebeu a mensagem e não nos voltou a incomodar... O meu avô era um aficionado das touradas, e também ele não nos passou esse "bichinho", apesar de nos levar a algumas praças e nos explicasse com emoção algumas coisas giras do mundo dos touros e toureiros.

Embora não tenhamos nada contra as pessoas que gostam destas duas tradições, sabemos que temos um olhar diferente sobre a natureza.

(Óleo de Pablo Picasso)

sexta-feira, agosto 19, 2016

"As Primeiras Coisas" de Bruno Vieira Amaral


Comecei a ler, "As Primeiras Coisas", de Bruno Vieira Amaral no final de férias. Cheguei ao fim há já alguns dias e como tinha sentido logo vontade de dizer algumas coisas, aqui estou eu.

Devo começar por dizer que se trata de um bom livro, muito bem escrito, com acção, humor e originalidade. No entanto devo realçar que, mesmo sabendo que cabe quase tudo no "romance", acho que "As Primeiras Cosias" são outra coisa...

O autor foi inteligente na forma como montou esta história, depois de uma pequena divagação, faz a colagem de dezenas de crónicas biográficas sobre as personagens (muito bem construídas, com todos os "cromos" que são possíveis de encontrar num bairro problemático, entre o esquecido e o abandonado...) do Bairro Amélia, um dos muitos que povoam as cidades suburbanas que rodeiam a Capital, neste caso particular o Barreiro, metendo-as com relativa facilidade dentro da história autobiográfica que nos quis contar.

Apesar da qualidade da escrita, senti a falta da densidade do romance tradicional e do protagonismo de uma ou outra personagem (como o autor escreve na primeira pessoa, acaba por ser ele a figura principal da história, do princípio ao fim).

É também por isso que acho que este livro não merecia tantos prémios para romances (na contracapa são publicitados quatro...). Sem estar a ser "má língua", espero que o Bruno não tenha sido premiado por estar ligado a um dos dois grandes grupos editoriais que dominam o nosso pequeno mercado livreiro.

E claro, fico à espera de um segundo livro do Bruno, desejoso de que seja um romance de verdade, daqueles que as personagens tomam conta da história e conseguem fintar o autor...

(Fotografia de Luís Eme)

quinta-feira, agosto 18, 2016

Dúvidas e Certezas na Estrada Larga do Amor...


Não sei se há alguma coisa que nos leve a cometer mais erros, que os chamados "males do coração", que tanto gostam de fintar a "razão".

Também não sei se as telenovelas ou as revistas que enrolam e embrulham pessoas semana após semana, têm influência no comportamento quase estranho de algumas mulheres e homens.

Sei apenas que há quem não consiga (nem queira...) escapar das teias tecidas pelas "boas e bons malandros", que passam o tempo a cantarolar  todas as "baladas do bandido" que conhecem. Há quem caia, uma duas três quatro cinco vezes, e continue a suspirar e a encontrar coisas positivas nestas histórias desiguais. 

Quando ouvimos alguém a dizer que nunca foi tão feliz como no tempo em que viveu com o homem que lhe deu cabo da conta bancária e "limpou" a casa de tudo aquilo que tinha valor... há qualquer coisa que não bate certo... por muito que isso me interesse no campo literário...

(Óleo de Marcel Dyf)

quarta-feira, agosto 17, 2016

O Álbum de Recortes que Chegou do Quase Nada...

Sabe que não foi um grande actor, mesmo assim ainda entrou numa dúzia de filmes e fez quase meia centena de peças de teatro.

Depois aceitou um emprego normal e deixou definitivamente o mundo do espectáculo.

Não guardou nada, nem sequer uma notícia de revista ou jornal da sua estreia. Já havia muitas invenções nesses quase loucos anos sessenta, em que se inventavam namoradas, para vender "plateias" e "crónicas femininas", com casais quase perfeitos, masculinizando os calvários e os garcias dos palcos e das canções. 

Foi sempre um corpo estranho naqueles bastidores, cheios de histórias proibidas, por uma coisa bastante simples para o comum dos mortais, ter o defeito "imperdoável" de gostar de mulheres. Embora na altura não o assumisse, foi também por isso que se afastou...

Não fazia ideia de que tinha tido admiradoras. Só quando há dias uma jovem lhe bateu à porta, para lhe entregar um álbum sobre a sua curta carreira, organizado pela avó, percebeu que a sua actividade artística não era tão vazia como pensara...

(Fotografia de autor desconhecido)

terça-feira, agosto 16, 2016

Passagem pelo Oeste

Aproveitei o fim de semana prolongado para regressar às origens.

Houve alguns momentos altos. Um deles terá sido o passeio que dei de bicicleta pela Lagoa de Óbidos menos conhecida, com o meu irmão e o meu filho.

Na noite de sábado fomos beber café à Foz do Arelho e vimos a temperatura descer para uns impensáveis 18 graus, depois de tantos dias acima dos 40...

Embora esta continue a ser a "Minha Praia", lamento a sujidade da areia da praia da Lagoa, ano após ano. 

Não sei se são as águas do Sul se é o facto de estar a caminhar para "velho", mas já não me consigo adaptar à temperatura de água da Foz...

(Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, agosto 15, 2016

Olhar o 15 de Agosto

O 15 de Agosto sempre foi um dia festivo na minha Cidade Natal.

Além da Feira anual havia também a tradicional tourada, que traziam muita gente às Caldas.

Sei que os tempos mudaram e já nada é igual, mas ainda continuo a gostar do meu querido "15 de Agosto"...

(Fotografia de Luís Eme - série "Blue & Yellow")

sábado, agosto 13, 2016

Cuba: Um Exemplo de Resistência

Embora esteja longe de ser adepto de estados totalitários (tanto de esquerda como de direita), não posso deixar de registar a grande resistência do povo cubano, que no começo do ano de 1959 conseguiu implantar uma sociedade socialista, num dos lugares mais improváveis, quase quase ao lado dos Estados Unidos da América.

Conhecendo o que os americanos fizeram em países como o Chile, Argentina ou Nicarágua, imagino as muitas tentativas que fizeram para reverter a situação política em Cuba.

Mesmo sem querer enaltecer Fidel Castro, que completou 90 anos de idade - que pode não ter sido alvo de atentados frustrados dos serviços secretos dos EUA por duzentas vezes, mas que foram bastantes, foram com toda a certeza - , ou Che Guevara, que continua a ser sobretudo um mito, não posso deixar de registar a longa vida do socialismo Cubano (cinquenta e sete anos), que se deseja que mantenha nos seus propósitos políticos a abertura ao mundo...

(Fotografia de autor desconhecido)

sexta-feira, agosto 12, 2016

«Por alguma razão nem toda a gente chora a ver filmes...»

A maior ou menor sensibilidade de cada um de nós, faz-se notar em pequenos nadas do nosso dia a dia, muitas vezes quando menos se espera...

Ninguém percebeu se o Jorge estava a falar a sério ou a brincar quando disse que era um chorão quando via um filme que lhe enchia as medidas.

Lacrimejar não digo, mas ficar com os olhos húmidos toca a todos, basta ser um daqueles filmes que fazem mexericos com as nossas emoções.

Claro que ele estava a brincar. Quem não achou piada a brincadeira foi a Rita que disse: «por alguma razão nem toda a gente chora a ver filmes...»

Há muito tempo que não via alguém chamar "besta" a outra, com tanta diplomacia.

(Fotografia de autor desconhecido)

quinta-feira, agosto 11, 2016

Estamos Quase lá, no Mundo da Cegueira e da Surdez...

Basta-me olhar para as pessoas, nos transportes ou  na rua, para perceber que um telemóvel com rede, sinal e jogos, é mais importante que o resto do mundo...

Mesmo que todo este fogo lhes chegue ao "faicebook", é apenas uma imagem, como a do prato de lagosta que a Isilda comeu ontem ou a praia onde o Gilberto está de férias a refrescar os pés.

Já nem sequer sei se as pessoas conseguem distinguir a ficção da realidade... se as telenovelas não passaram a ser uma cópia suas vidas, do avesso...

Provavelmente não tiveram tempo para escutar, Rafaela Silva, a judoca brasileira que ganhou a medalha de ouro na sua categoria, que na hora dos festejos não se esqueceu de falar da sua vidinha de favelada, da sorte que teve quando um professor lhe segurou a mão e lhe mostrou que o desporto, com muito treino e vontade de vencer, poderia ser uma "porta" para chegar ao mundo dos outros. Felizmente ela acabou por ir muito mais longe e chegar ao Olimpo no Rio (ao contrário de Londres, onde o facto de ficar pelo caminho fez com que fosse vitima de racismo, especialmente nas fabulosas redes sociais, com macacos e jaulas à mistura).

Gostei de a ouvir contar como o "mundo" a vê, ter a coragem de dizer que basta a cor da sua pele, para que  nas ruas e nos autocarros segurem a bolsa com mais força e a olhem sem nunca baixar a retaguarda.

E nem falou da sua condição de mulher, num país onde as violações são uma banalidade...

Por cá? Fingimos que está tudo bem. Entramos num café e perguntamos a senha da internet e vamos até "Marte". A Terra? Que se lixe! 

O problema só é problema quando por exemplo os "incêndios" nos entram pela casa ou pelo festival dentro...

(Fotografia de autor desconhecido)

quarta-feira, agosto 10, 2016

Este País Constantemente Adiado...

Os incêndios dos últimos dias são apenas mais uma consequência deste país, à beira-mar plantado, constantemente adiado, gerido há tempo demais por políticos que colocam quase sempre os interesses particulares à frente dos interesses do Estado e de todos nós.

Se por um lado não querem perder eleições e tomar medidas pouco populares, por outro não têm vontade nem força, para lutar contra os muitos interesses instalados. E as reformas tão necessárias são constantemente adiadas... Continua a ser mais fácil despedir funcionários que fazem falta aos hospitais que encerrar institutos ou observatórios, cuja única utilidade é a oferta de empregos aos "amigos do partido"...

O mesmo se passa com o ordenamento do território - que vem sempre à baila na época dos incêndios (assim como a prevenção) -, que marca passo ano após ano, tal como o país, porque quando sair do papel vai mexer nos interesses imobiliários e industriais da "gente amiga" do costume...

E nós aceitamos tudo isto, como se se tratasse apenas de mais uma catástrofe natural.

Até somos capazes de chamar "coitadinhos" aos bandidos dos incendiários (quase sempre a soldo de alguém...) e desculpá-los por isto e por aquilo.

É nestas alturas que mais me dói ser português...

(Óleo de Rene Magritte)

terça-feira, agosto 09, 2016

«O humanismo não tem mãos, braços ou pernas.»

Há uns tempos que não me sentava com a Rita num café (desta vez fugimos da esplanada e dos quarenta graus...), porque o Julho e o Agosto enviam-nos para outras paragens, para pudermos sonhar e fingir que o "mundo" muda depois das férias...

Durante poucos minutos (foi o beber um café ter ou fingir pressa e perceber que não é do nosso mundo...) estivemos acompanhados por um fulano, que bastou dizer duas ou três coisas para registarmos o quanto é egoísta e até cínico.

Quando saiu falámos da sua aparente incoerência, mas fomos chegando à conclusão que nós é que estávamos errados, por levar o idealismo longe demais... Para nós os dois um comunista não pode ser egoísta, já que defende a igualdade entre todas as pessoas, e a solidariedade é um das grandes bandeiras da esquerda.

Esquecemos que a ambição dos homens está em todo o lado, puxa e empurra para baixo e para trás, na aproximação ao poder. É por isso que o humanismo, a sensibilidade para percebermos e ajudarmos os outros, não tem nada que ver com credos políticos, embora devesse estar muito mais próxima das "esquerdas"...

Foi por isso que a Rita disse que: «o humanismo não tem mãos, braços ou pernas.»

Pois não, tem sobretudo coração...

(Fotografia de Luis Eme - série "Blue & Yellow")

segunda-feira, agosto 08, 2016

«Não imaginas o quanto tenho aprendido contigo, companheiro.»


Sempre que se fala na sua segunda vida, ele sorri... e fica-se por aqui. Nem uma palavra sobre o assunto.

Claro que um dia também quis ser apenas músico de jazz, mas depressa percebeu no sarilho que se ia meter. Já não se chateia de ser funcionário público das nove às cinco, pela montra que é de ideias e de comportamentos esquizofrénicos. Claro que até tinha pensado em reformar-se mais cedo, mas como os governantes alteraram as regras, ele teve de mudar de planos...

A transferência da tal vida quase inteira para a casa de campo herdada dos avós, com espaço suficiente para criar e ser livre, continua quase presente. Mas como passa muitos fins de semana a tocar, continua aparentemente a ser mais sonho que realidade... embora a casa esteja lá à espera, a caminho do Sul.

Só me disse uma vez, quando estava a ouvir os meus desabafos: «uma das melhores qualidades que tenho é não me levar demasiado a sério, nem sequer ter a mania que sou o melhor músico da minha rua. O que isso me tem poupado dinheiro em antidepressivos...»
Eu sorri e percebi a mensagem: há defeitos que também são qualidades... 

E embora não seja de me lastimar, graças aos seus exemplos deixei de perder tempo a "lamber as feridas" ou a querer mudar o mundo sozinho...

Acho que ele já devia ter ouvido da minha boca algo como: «Não imaginas o quanto tenho aprendido contigo, companheiro.»

Especialmente com os seus silêncios e pausas.

(Óleo de Gosta Adran Nilsson)