quarta-feira, junho 29, 2016

Dois Mundos Quase Diferentes...

Apesar de receber algumas informações em sentido contrário, continuo a pensar que as conversas entre homens se desenrolam de uma forma diferente das entre mulheres.

E não me refiro apenas ao calão utilizado - ou ao vernáculo -, mas sim à forma descontraída com que se processam as conversas, mesmo as aparentemente sérias.

Há sempre alguém capaz de contar uma anedota ou dizer uma graçola, cortando a "seriedade da coisa". Claro que há quem viva as coisas de uma forma mais intensa e seja capaz de saltar de exaltação em exaltação, mas não é a norma (pelo menos no seio dos meus amigos...).

Até porque quando estamos entre amigos, o objectivo acaba por ser mais a diversão, passarmos um bom bocado, que carpir mágoas... E sabe sempre bem ouvir: «Ainda hoje não tinha soltado uma gargalhada. Só mesmo vocês para me fazerem rir...»

(Fotografia de Henri Cartier-Bresson)

terça-feira, junho 28, 2016

As Danças da Vida...

Estou farto de saber que a verdade e a ficção passam a vida a abraçarem-se e a dançarem, músicas que tanto podem ser mexidas como uma coisa mais elaborada e bonita, como um tango. Sempre achei este aparte óptimo, aliás, acho que é também por isso que escrevo...

A história de um rapaz da minha idade, que nunca trabalhou, pelo menos se pensarmos nas profissões normalizadas que normalmente nos deixam sempre pouco realizados, encheu a mesa do café, há pelo menos meia-dúzia de dias. 

Depois de contarem que ele vivia à conta de uma mulher com idade para ser sua mãe, houve comentários para todos os gostos. Só o Jorge é que foi capaz de adjectivá-lo sem qualquer tipo de moralismo, utilizando apenas uma palavra:  «Esperto.»

Eu já conhecia a personagem e a história apenas confirmou aquilo que os meus olhos já tinham descoberto há pelo menos meia-dúzia de anos.

Mas o que me interessou mais foi a história da mulher - essa sim, completamente desconhecida -, que ficou rica depois dos sessenta anos, e de uma forma completamente improvável. O marido que sempre lhe fizera a vida negra e nunca lhe deu qualquer filho (a maior tristeza da sua vida...), teve um acidente de trabalho fatal. Como a multinacional onde trabalhava tinha um bom seguro de vida, a senhora tornou-se milionária de um dia para o outro.

Em poucos meses tornou-se uma outra mulher. Comprou um apartamento mais central e maior, passou a vestir-se com gosto e frequentar a cabeleireira todas as semanas e a ter um cachorrinho para a acompanhar nos passeios. E para ser falada, ainda arranjou o tal "moço de companhia", o rapaz que deve ter mais ou menos a minha idade, e que também deve ter sentido que lhe saiu a sorte grande, quando ela o aceitou na sua vida...

Como calculam houve comentários de todo o género naquela mesa de homens. Alguns bem ordinários, diga-se de passagem. Eu limitei-me a sorrir.

A senhora não sai muito, mas quando a encontro, vejo-a bem arranjada e com um ar feliz. E fico a pensar - ao contrário de alguns companheiros - que finalmente a vida lhe lançou um sorriso e lhe ofereceu a oportunidade de acabar os seus dias ao lado de alguém que a respeita e que ela deve tratar como um filho (embora possa estar errado, nunca os vi como amantes...).

E ele também não se deve importar muito com o seu papel, até por ter bastante liberdade de acção. Não é por acaso que ele é um frequentador assíduo das matinés dançantes do Ginjal.

(Fotografia de Henri Cartier-Bresson)

domingo, junho 26, 2016

Na América Tudo Parece ser Possível


Não resisto à tentação de transcrever uma frase de "O Livro das Ilusões" de Paul Auster, que de alguma forma retratava uma das muitas coisas que se passavam (e passam...) nos Estados Unidos da América, que dizem ser a terra das oportunidades: 

«Não tens convivido muito com actores pois não? os actores são as pessoas mais desesperadas do mundo. Noventa por cento estão desempregados, e se lhe ofereces um trabalho com um salário decente, podes crer que não vão levantar muitas questões. Tudo o que querem é uma oportunidade de trabalhar.»

Tudo isto se deve a uma conversa que tive com o meu amigo dos cinemas que me disse que tinha estado há alguns meses numa cidade em que mais de noventa por cento dos seus habitantes eram actores ou escritores (pelo menos era assim que respondiam, quando lhe perguntavam a profissão...), mesmo que a maioria nunca tivessem entrado num filme ou escrito qualquer livro.

Podiam lavar pratos num restaurante, varrer as ruas, conduzir autocarros, que isso não colidia com os sonhos e com a ambição natural de terem a sua oportunidade nos muitos estúdios que os rodeavam.

Se eu duvidasse das palavras de Paul Auster, o Gui ainda conseguiu tornar a questão mais complicada...

sábado, junho 25, 2016

Um Bilhete Postal para a Croácia

Hoje a selecção portuguesa teve sorte na vitória alcançada sobre a excelente equipa da Croácia, num lance que resultou da aparição esporádica de Cristiano Ronaldo, aproveitada pelo talento de Ricardo Quaresma, mesmo quase no final do prolongamento.

Mas depois do que aconteceu, especialmente nos dois primeiros jogos, era tempo de se mudar alguma coisa, nem que fosse o sentido da sorte. Provavelmente foi também por isso que o Cédric e o Adrien foram titulares...

E agora seguem-se os polacos.

Mas é bom que a selecção comece a jogar melhor, mesmo que este seleccionador seja mais adepto da eficácia que do bom futebol.

Cédric e Renato Sanches deram mais que provas durante os mais de 120 minutos de jogo que merecem um lugar no onze.

Escolhi esta fotografia, porque Modric, Vida, Srna e companhia, bem merecem regressar a casa num paquete de luxo...

(Fotografia de Luís Eme)

sexta-feira, junho 24, 2016

Uma Exposição Admirável das Escolas

Tem estado patente da Sala Pablo Neruda do Fórum Romeu Correia, uma exposição feita pelos alunos e professores das escolas do concelho de Almada (acho que foi mais das Bibliotecas das escolas, embora não tenha a certeza...), com muita qualidade artística e até informativa.


A minha filha fez parte do Clube de Leitura da sua escola e também participou no projecto "Quantos Queres?", em que a paz, a guerra e os livros foram o tema dominante.

Apesar das dificuldades cada vez maiores em se ser professor no nosso país, noto que que a relação entre as escolas, instituições e população tem melhorado bastante nos últimos anos em Almada.

(Fotografias de Luís Eme)

quarta-feira, junho 22, 2016

O Livro das Ilusões


Os livros que lemos são como a vida, não nos sorriem todos os dias, nem sentimos sempre a mesma boa vontade de os ler do princípio ao fim.

Ando satisfeito porque há uns tempos que não lia um livro com tanto gosto. Isto também acontece porque nem sempre nos apetece escolher bons livros para ler... e nem vou falar de que nem todos gostamos das mesmas histórias, dos mesmos escritores, entre outras coisas.

Embora tenha livros em praticamente todos os cantos da casa, tenho uma amiga que gosta de me oferecer livros e poemas. A minha satisfação deve-se a ela, pois foi ela que me deu "O Livro das Ilusões" de Paul Auster, que estou a adorar ler. Isso acontece porque ele é mesmo um livro cheio de ilusões... 

E como nós precisamos delas para sobreviver, neste pequeno canto europeu, que parece ser capaz de atrair mais malandros por metro quadrado, que outro lugar qualquer. E daqueles que se acham bem falantes e gostam de usar gravatas (tenho a sensação que foram inventados pelo Eça...).

(Óleo de August Macke)

terça-feira, junho 21, 2016

Cristiano Ronaldo é Grande Mesmo no Chão (a minha legenda da fotografia)

Cheguei à pouco a casa. Liguei a televisão e estavam a transmitir a chegada, partida ou outra coisa qualquer do autocarro da selecção, como se isso fosse o que de mais importante se passa no "mundo". Desliguei a máquina de imagens e liguei a de sons.

Eu que gosto de futebol começo a sentir-me incomodado com tanta "loucura", com tantos excessos, com tantas cambalhotas, com tantas passagens de besta em bestial e vice versa em minutos.

Agora tornou-se moda o "tiro ao Ronaldo", como se ele fosse culpado de todos os males do mundo e também os da selecção.

Eu gosto dele, e não é apenas por ele ser um campeão. É também por saber que para lá do tipo vaidoso que beija todos os espelhos que encontra, se encontra um gajo porreiro, que nunca quis ser um "príncipe" de nada, apenas continua a querer ser o melhor futebolista do mundo. Mas ninguém consegue ser o melhor todos os dias... 

E é óbvio que ele não está a cem por cento. Só se falham livres e até uma grande penalidade quando a confiança está abaixo dos níveis normais...

É por isso é que era bom que o "fardo" da selecção fosse repartido por todos, e não carregado apenas pelo mesmo de sempre, que está longe de ser o dono da bola (como tantos dizem...). É simplesmente o nosso melhor jogador de sempre.

Não sei se Portugal amanhã ganha. Espero que sim, como a maior parte dos portugueses (ainda que isso represente mais dias de loucura e doença...). 

Mas pensava que o seleccionador era mais inteligente. Mesmo que seja campeão europeu (como diz que vai ser...) nunca irei perceber porque razão não apostou no meio-campo do Sporting (William, Adrien e João Mário), que jogam quase de olhos fechados uns com os outros, entre outras aselhices...

(Fotografia de autor desconhecido)

segunda-feira, junho 20, 2016

O S. João e Portugal a Concurso em Almada

Sem pretender estar a fazer publicidade, esta fotografia cheia de reflexos é de uma montra de uma das lojas da Avenida D. Afonso Henriques que concorre ao "Concurso de Montras" das Festas Sãojoaninas de Almada.

Achei curioso terem juntado o S. João à participação de Portugal no Europeu de futebol de 2016....

(Fotografia de Luís Eme)

domingo, junho 19, 2016

A Arte Urbana no Ginjal

Embora o Ginjal se aproxime cada vez mais dos lugares que normalmente se chamam a "terra de ninguém", tal é o abandono a que está votado, há pelo menos uma coisa que faz com que seja diferente. Refiro-me à constante mudança nas pinturas dos muros e das paredes, graças aos adeptos da arte urbana, que sempre que podem, dão largas à sua imaginação.

Embora a maior parte das pinturas sejam quase "autógrafos", que devem satisfazer mais o ego dos seus autores que a paisagem urbana, também costuma aparecer uma outra coisa diferente, que se aproxima daquilo que normalmente entendemos por arte.

Tanta conversa porque hoje descobri uma pintura nova...

(Fotografia de Luís Eme)

sábado, junho 18, 2016

Parar no Tempo...


Hoje ao reparar numa jovem mulher com saia comprida e blusa e casaco de malha "vintage", fiquei com a sensação de que através da roupa que as pessoas vestem, podemos descobrir se elas se sentem neste ou noutro tempo.

Embora possa ser especulativo (como quase tudo...), fiquei mesmo a pensar que uma das formas que mostram a nossa "paragem num tempo qualquer" é a roupa que usamos diariamente, tal como o penteado...

(Fotografia de autor desconhecido)

sexta-feira, junho 17, 2016

A Dificuldade em Fugir das Máquinas de Retratos dos Outros...


Numa cidade que é invadida diariamente por turistas, torna-se difícil fugir das muitas dúzias de máquinas fotográficas, que querem fixar Lisboa, de todas as formas e feitios.

Percebo perfeitamente que as pessoas não gostem de ser fotografadas por estranhos. Eu também costumo fugir com o rosto das objectivas que nos dizem olá.

Embora prefira fotografar lugares sem pessoas, de vez em quando também apanho alguns desconhecidos (fico com a sensação que há quem queira ficar mesmo na fotografia porque não deixa os sítios que quero fotografar...). Prefiro sempre que estejam numa posição que não sejam facilmente reconhecíveis, ou seja, que possam ser "qualquer pessoa", que estão ali apenas para compor a fotografia e não em pose.

Claro que de vez em quando as pessoas olham quando não devem e acabam por "estragar o boneco" (como foi o caso do homem que estava a fazer as palavras cruzadas neste banco de jardim...). Além de terem todo o direito de não achar piada, também acabam por fazer com que a fotografia seja outra coisa, distante da vontade inicial do retratista...

(Fotografia de Luís Eme)

quinta-feira, junho 16, 2016

Quando não Gostamos de Nós Próprios...


Quando não gostamos de nós próprios, dificilmente gostamos dos outros...

Não sei se é também por isso que somos tão permissivos com os ditadores e revelamos tanto medo de ser livres, de fazer aquilo que realmente gostamos.

Nem me vou esforçar por perceber um país como os Estados Unidos ou os norte-americanos, que depois de nos últimos anos terem sido governados com alguma democracia e liberdade, podem recuar no tempo e eleger como presidente um individuo racista, homofóbico e lunático.

Nos filmes até pode parecer engraçado que num certo estado se viva em democracia e que mesmo ao lado, exista a pena de morte e os xerifes possam fazer a sua própria lei. Mas a realidade é outra coisa, daí que me pareçam absurdos os discursos contra as "coreias" e as "venezuelas" do mundo, para depois se esconder debaixo do tapete todo o "lixo" interno.

É por isso que penso que empurrar o assassínio brutal de mais de cinquenta pessoas, por um só individuo, apenas para cima do terrorismo, é esconder ainda mais coisas debaixo do tapete. 

E se é verdade que o homem que matou e feriu tanta gente era frequentador habitual da discoteca gay de Orlando, ainda se levantam outras questões, como a não aceitação da própria tendência sexual, por se viver numa sociedade que continua a alimentar o ódio pelas minorias e pela diferença.

Continuo a pensar que quando não gostamos de nós próprios, dificilmente gostamos dos outros...

(Fotografia de Walter Sanders)