Estou farto de saber que a verdade e a ficção passam a vida a abraçarem-se e a dançarem, músicas que tanto podem ser mexidas como uma coisa mais elaborada e bonita, como um tango. Sempre achei este aparte óptimo, aliás, acho que é também por isso que escrevo...
A história de um rapaz da minha idade, que nunca trabalhou, pelo menos se pensarmos nas profissões normalizadas que normalmente nos deixam sempre pouco realizados, encheu a mesa do café, há pelo menos meia-dúzia de dias.
Depois de contarem que ele vivia à conta de uma mulher com idade para ser sua mãe, houve comentários para todos os gostos. Só o Jorge é que foi capaz de adjectivá-lo sem qualquer tipo de moralismo, utilizando apenas uma palavra: «Esperto.»
Eu já conhecia a personagem e a história apenas confirmou aquilo que os meus olhos já tinham descoberto há pelo menos meia-dúzia de anos.
Mas o que me interessou mais foi a história da mulher - essa sim, completamente desconhecida -, que ficou rica depois dos sessenta anos, e de uma forma completamente improvável. O marido que sempre lhe fizera a vida negra e nunca lhe deu qualquer filho (a maior tristeza da sua vida...), teve um acidente de trabalho fatal. Como a multinacional onde trabalhava tinha um bom seguro de vida, a senhora tornou-se milionária de um dia para o outro.
Em poucos meses tornou-se uma outra mulher. Comprou um apartamento mais central e maior, passou a vestir-se com gosto e frequentar a cabeleireira todas as semanas e a ter um cachorrinho para a acompanhar nos passeios. E para ser falada, ainda arranjou o tal "moço de companhia", o rapaz que deve ter mais ou menos a minha idade, e que também deve ter sentido que lhe saiu a sorte grande, quando ela o aceitou na sua vida...
Como calculam houve comentários de todo o género naquela mesa de homens. Alguns bem ordinários, diga-se de passagem. Eu limitei-me a sorrir.
A senhora não sai muito, mas quando a encontro, vejo-a bem arranjada e com um ar feliz. E fico a pensar - ao contrário de alguns companheiros - que finalmente a vida lhe lançou um sorriso e lhe ofereceu a oportunidade de acabar os seus dias ao lado de alguém que a respeita e que ela deve tratar como um filho (embora possa estar errado, nunca os vi como amantes...).
E ele também não se deve importar muito com o seu papel, até por ter bastante liberdade de acção. Não é por acaso que ele é um frequentador assíduo das matinés dançantes do Ginjal.
(Fotografia de Henri Cartier-Bresson)
As más línguas criticam sempre com maldade o que desconhecem.
ResponderEliminarDe fora, não sabemos o que une verdadeiramente as pessoas.
Pois não, Isabel.
EliminarÉ sempre perigoso deixarmos-se levar pelo "mundo das aparências"...
E bem vinda ao "Largo".
Que rico e delicado marido foi esse homem.
ResponderEliminarQuanto aos comentários, ele há-os para tudo e sobre tudo. :)
O outro foi uma besta, Carla.
EliminarEste rapaz, seja ele o que for, trata-a bem (mesmo que seja por interesse....
Luís, há uma tendência muito má para opinarmos sobre a vida dos outros e que por vezes não é condizente com o cuidado que temos com a nossa.
ResponderEliminarE não sou capaz de deixar de dizer isto.
Sei que uma das razões por eu ser tramada em termos de socialização é ter poucos filtros e dizer tudo o que penso, mesmo que vá contra a maioria e estrague a brincadeira.
Por dizeres "limitei-me a sorrir". Eu manifestaria desagrado e seria logo um aborrecimento.
(que mulher tão moralista!)
EliminarEscrevi hoje muito por causa do teu comentário, Isabel.
Nós homens falamos muitas vezes a brincar sobre coisas sérias. E somos capazes de dizer os maiores disparates, às vezes apenas para termos graça. Foi por isso que me limitei a sorrir.
Muitas das coisas que foram ditas, não tiveram qualquer peso moral, má língua divertida, apenas para passarmos um bom bocado, sem julgamentos.:)
esta história dava pano para mangas, Luís :)
ResponderEliminarSim, Laura.
EliminarMas eu acho bem que a senhora aproveite os últimos anos que tem de vida, para viver com tudo o que tem direito. :)
Se a imagem que a senhora apresenta é de felicidade, o mais provável é que o seja, Não acredito que uma mulher que toda a vida sofreu com um marido traste, se sujeitasse a aparentar agora uma felicidade que não tem. Se toda a vida desejou um filho, o mais provável é que tenha visto esse homem como o filho que nunca teve. E se assim não for também não interessa nada, O que realmente importa é que esteja feliz.
ResponderEliminarAbraço
Penso a mesma coisa, Elvira. :)
Eliminarsó eles sabem da estória deles e se ela esta feliz...que assim seja!
ResponderEliminara vida vira ficção e vice versa
gosto de ler estes textos....
:)
Claro, Piedade.
EliminarA vida deve-lhe ter dado boas lições e ela aprendeu-as.