sexta-feira, fevereiro 27, 2026

À procura da "terra de todos e de ninguém"...


Estávamos a escrever coisas diferentes, em mesas iguais. De vez em quanto cruzávamos o olhar, quase a pedir um intervalo.

Somos parecidos em muitas coisas, porque a vida não nos ensinou coisas muito diferentes. As duas coisas que nos distinguem de uma forma mais fácil, é o sexo e a cor de pele.

Sim, eu sou homem, tu és mulher. Eu sou quase cor de rosa, tu és quase castanha.

É por isso que quando nos sentamos na esplanada, procuras o Sol, eu procuro a sombra.

O mais curioso, foi teres-me contado, que há medida que os anos passam, sentes que as pessoas olham para ti, como se não pertencesses aqui. Mesmo que tenhas nascido neste país há mais de quarente e sete anos e só tenhas saído de cá em férias...

Foi por isso que adorei ouvir a história que me contaste, que podia ser sobre a "terra de todos e de ninguém".

Mesmo que nunca tenha sentido o que sentes, gostei muito da ideia sobre a existência de um país de ninguém, com as portas abertas para todos aqueles que sentem não pertencer a sítio nenhum, e por isso mesmo, preferem viver na "terra de ninguém", onde não há o hábito de se olhar de lado para quem passa, ou pior, mirar-se de alto a baixo, como se nos estivessem a tirar as provas de um fato ou de um vestido...

E depois voltámos para as mesas iguais, onde escrevemos coisas diferentes...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


2 comentários:

  1. Que belíssima composição sobre a alteridade e o refúgio. É curioso como, sentados à mesma mesa, o sol e a sombra ditam geografias tão distintas, mas é na escrita — e nesse olhar que pede intervalo — que se constrói essa "terra de ninguém" onde o pertencer não precisa de visto nem de cor. Observei este texto como uma fotografia antiga: com grão, contraste e muita humanidade. Obrigado por esta partilha tão íntima e necessária.

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    1. Daniel, com este evoluir negativo da sociedade, em que se vêm "fantasmas" nos rostos que são diferentes do nosso, é normal que existam cada vez mais pessoas a sentirem-se a mais no nosso país...

      Claro que não falo dos reformados franceses ou dos milionários americanos que "adoram Portugal" e os portugueses...

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