É essa nitidez que me leva a citar algumas palavras de Sidónio Muralha, da sua "Caminhada" repleta de vivências:
«Será possível uma operação plástica? Acaso ainda possuímos reservas de bom senso e de generosidade para salvarmos o que nos pode salvar, ou vamos cortar aos pedaços a corda que nos levaria ao outro lado do abismo para industrializarmos a forca e a introduzirmos com pagamentos facilitados, em todos os lares dos cinco continentes? Todos hesitam, quase ninguém ousa responder, e é nesse clima de permanente ameaça que os jovens amam, querem construir, mas o terreno é movediço, cantam a coragem entre quatro muros de medo, são confiantes mas se se sabem traídos protestam de toda e qualquer maneira, mas o eco responde com ressonâncias de tédio e como um céu de chumbo, uma estrangulada angústia vai lentamente descendo. É por essa razão, que pesa e magoa, que eles procuram refúgios inusitados que os mais velhos, se de facto envelheceram, não aceitam e não compreendem. Mas seria idiota que eles esperassem compreensão de quem lhes deixou uma herança de mil alqueires de insegurança e ódio, toneladas de problemas, um laboratório macabro com frascos sujos rotulados meticulosamente - guerra - tráfico de armas - fome - entorpecentes - mortalidade infantil - racismo - detestai-vos uns aos outros.»
Ninguém diria que este texto foi escrito em Dezembro de 1971... Pode facilmente ser transportado para 2025.
(Fotografia de Luís Eme - Algés)
De uma atualidade terrível!
ResponderEliminarSe calhar, tirando alguns anos de reconstrução de uma Europa devastada por duas guerras, foi sempre assim no nosso continente.
Abraço
Há sempre pessoas que vêm mais longe, conseguem ver o que ainda não é completamente perceptível, Rosa...
EliminarÉ impressionante, e ao mesmo tempo desolador, como um texto de 1971 se encaixa com tanta precisão no nosso 2025. Parece que trocamos a tecnologia, mas o "laboratório macabro" continua com o mesmo inventário. O Eça não sai de moda porque, como bem dizes, a nitidez da nossa condição continua a doer da mesma forma. Um excelente resgate.
ResponderEliminarÉ isso, Daniel, impressionante e desolador...
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