sábado, maio 31, 2025

As palavras difíceis de explicar e de lhes oferecer o seu verdadeiro sentido...


Ele podia perguntar a outra pessoa, mas veio logo perguntar-me a mim (isto de ter fama de "intelectual" tem que se lhe diga...), o que queria dizer "honra", palavra que ouvira duas ou três vezes durante o jantar.

Tive dificuldade em explicar às primeiras aquele miúdo curioso, de oito anos, o significado desta palavra tão em desuso. Percebi que não havia uma forma fácil de explicar algo que fora tão importante no seio das famílias, mesmo nas mais humildes. O quanto era importante para eles honrar os seu nome...

Foi quando me lembrei de lhe dizer que a honra era o orgulho que sentíamos pelos nossos pais, tios ou avós, por serem boas pessoas. Ao ponto de querermos seguir os seus exemplos pela vida fora.

Como acontece com as crianças, não se ficou com uma explicação tão simples e continuou a querer saber coisas: «Então os tios que não são boas pessoas, deixam de ser da família?»

Disse-lhe que não. Por mais disparates que os nossos familiares façam, são sempre da nossa família. Lembrei-me da expressão "laços de sangue", mas guardei-a para mim, achei que era melhor não complicar as coisas...

Não lhe quis estar a dar lições de moral, mas ainda lhe disse que não estarmos sempre a mentir, também era uma questão de honra. O que lhe fui dizer, falou-me logo, com um sorriso, do "maior mentiroso do mundo", esse mesmo o Trump, que quer tudo menos ser uma "pessoa honrada". 

Foi bom, porque nos deu uma oportunidade para mudarmos de assunto...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, maio 30, 2025

«Não é preciso. O que mais se encontra nas livrarias são livros de instruções»


Quando a Ana disse que as pessoas (parece que já não são só os homens...) deviam trazer com eles, livros com instruções, o Carlos não perdeu a oportunidade de nos brindar com o seu humor sarcástico: «Não é preciso. O que mais se encontra nas livrarias são livros de instruções.»

Ela rebateu a frase do nosso amigo comum, dizendo que livros de autoajuda não são a mesma coisa. 

«Pois não.» Disse ele. Para depois acrescentar, logo de seguida: «Mas também existem muitos com instruções. O que não falta nas montras de livros são teorias sobre tudo e mais alguma coisa.»

Pois é. Há mais livros destes à procura de leitores, que romances, por exemplo...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quinta-feira, maio 29, 2025

Porque é que estas pessoas não se demitem?


Soube-se nos últimos dias que a Federação Portuguesa de Judo foi suspensa pelas instâncias internacionais oficiais, devido a dívidas que ascendem a mais de 800 mil euros.

Embora não esteja em causa a participação dos nossos atletas nas competições internacionais mais importantes do mundo, não poderão concorrer com as cores de Portugal, se entretanto a questão não for resolvida.

O mais curioso (ou não), é que os dirigentes actuais da Federação, em vez de assumirem as suas responsabilidades, dedicam-se ao habitual "passa culpa", apontando o dedo ao antigo presidente (apesar de terem tomado parte no anterior executivo...).

Faz-me muita confusão que esta gente não se demita, pois é demasiado óbvio que são incompetentes para gerir uma federação desportiva. 

Não só estão a prejudicar os nossos atletas, como a imagem do nosso país.

(Fotografia de Luís Eme - Caramujo)


quarta-feira, maio 28, 2025

Talvez seja esta a "chave do sucesso" nos nossos dias...


O excesso de comentadores televisivos, alguns dos quais "especialistas de tudo", desde gastronomia, passando pelo futebol e pela política e acabando na guerra, faz com que tenha cada vez mais a ideia de que somos sobretudo um país de "teóricos", com cada vez menos "práticos" em áreas fundamentais, como é a governação.

Muitos destes comentadores tornam-se bons a "vender banha da cobra", e raramente desdenham de qualquer oportunidade que surja de se encostarem ao poder, seja como assessores ou mesmo como actores políticos (André Ventura é o melhor exemplo, era comentador de futebol no "CMTV", vestindo a camisola do Benfica...).

Mesmo sem os ouvirmos, diariamente, percebe-se que seguem - ainda que de forma mais discreta -, a "cartilha" de Trump. São capazes de dizer hoje uma coisa e amanhã o seu contrário, com o ar mais sério do mundo.

Talvez seja esta a "chave do sucesso" nos nossos dias...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, maio 27, 2025

Afinal continua tudo igual: só são diferentes na cor que defendem e no penteado que usam


Com a eleição do novo presidente do FC Porto, pensava-se que tudo mudaria no relacionamento entre os três presidentes dos grandes (Rui Costa, André Vilas Boas e Frederico Varandas). Por terem uma cultura futebolística acima da média, estava aberto o caminho para um tempo com menos jogos de bastidores, mais transparência e mais desportivismo.

Infelizmente quase nada mudou. Um ano e alguns meses depois, pode-se dizer que continuam com os velhos hábitos de antigamente, só falam quando se sentem prejudicados, fechando o bico quando são beneficiados. 

Ou seja, a "filosofia de jogo" é a mesma de um Pinto da Costa, um Sousa Cintra ou um Luís Filipe Vieira. "ganhar, ganhar, a qualquer preço".

Mesmo quando se tentam afirmar "melhores e mais sérios que os outros" (o presidente do Sporting é useiro e vezeiro nesta atitude...), a realidade acaba sempre por os fintar. Isso explica que não se tenha ouvido uma única palavra de Frederico Varandas sobre as agressões de que o avançado italiano do Benfica foi vítima, duplamente, por defesas do Sporting, na final da Taça de Portugal...

Nota: Não temos dúvidas de que o silêncio seria também ensurdecedor por parte dos outros dois presidentes na mesma situação.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, maio 26, 2025

«As pessoas gostam mais de um mundo faz de conta, onde a mentira tem a mesma validade que a verdade, que de um mundo com leis e valores claros»


Nunca pensei vir a concordar com o Rui, mas basta olhar para os acontecimentos do último ano no nosso país, para se perceber que a ética e a moral são cada vez mais, coisas da ficção (dos livros e do cinema).

Cada vez tenho  menos dúvidas de há cada vez mais gente que vive satisfeita dentro da realidade paralela, alimentada sobretudo pelas redes sociais. Quando ele disse, «As pessoas gostam mais de um mundo faz de conta, onde a mentira tem a mesma validade que a verdade, que de um mundo com leis e valores claros», ninguém foi capaz de discordar.

Sei que não é um fenómeno nacional, basta olhar para Trump, que não consegue dizer uma frase sem introduzir qualquer dado falso. E pior ainda, em poucos minutos é capaz de dizer uma coisa e também o seu contrário. Bolsonaro foi o que foi (e continua cheio de saudosistas...), Milei é o que é. E Ventura pode ser uma coisa mais perigosa do que se pensa (o seu crescimento começa a assustar aqueles que acham que ele não passa de um "palhaço", como eu)...

No dia a dia, é capaz de ser mais divertido, andarmos a mentir uns aos outros, colocando a realidade num segundo patamar. Só que isso tem um preço...

Mais tarde ou mais cedo, vamos todos pagar um preço demasiado alto, por alimentarmos este "mundo faz de conta". É assim que surgem as ditaduras, onde a mentira passa a ser a "linguagem oficial" do poder, ao mesmo tempo que quem defende a democracia, os factos e a liberdade, é empurrado para o lado errado da sociedade. Ou seja, é preso ou silenciado, por vezes da pior maneira. 

Exemplos não faltam por esse mundo fora...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


domingo, maio 25, 2025

O bonito olhar estrangeiro de Abril


Não sei dizer o que gostei mais da exposição "Venham Mais Cinco", que vi hoje, no Parque da Antiga Lisnave (ao lado da Escola Profissional da Lisnave, em Almada). 


Mas talvez tenha sido a diversidade, o que mais me espantou, das duzentas bonitas imagens que retratam muitas das aventuras que ilustram os anos luminosos de 1974 e 1975. Sim, são trinta olhares diferentes, atentos à nossa  memorável Revolução, que foi muito mais que um só dia.

Recomendo vivamente a visita à exposição a todos aqueles que gostam de fotografia e de Abril. 

Vale a pena!

(Fotografias de Luís Eme - Margueira)


sábado, maio 24, 2025

Quando a fotografia se torna bela e complexa em simultâneo...


O desaparecimento de Sebastião Salgado é um bom motivo para falar de fotografia, como arte, mas também como objecto de denúncia, de clarificação, porque o que ele mais gostava de retratar era um mundo desigual e devastador, graças à acção do homem, mas sempre a perseguir a diferença, a encontrar beleza mesmo no "inferno".

Penso que ele chegou onde mais ninguém foi (muitos nunca quiseram ir por aí, até por uma questão de filosofia de vida e do entendimento que tinham da imagem). Onde havia exploração, escravidão, devastação, miséria, ele foi lá, e tirou retratos a tudo e mais alguma coisa, sem estar preso a questões éticas e morais.

No meu caso pessoal, devo dizer que a partir de certa altura, comecei a desinteressar-me pela sua fotografia. Senti que aquilo era tudo muito igual, ou seja, ele já não me surpreendia com a beleza das suas imagens. 

Acho que isso aconteceu quando entrei mais dentro da fotografia. Fui educando o meu olhar, através da prática da fotografia e também de conversas com amigos fotógrafos (as conversas influenciam-nos muito, mesmo sem darmos por isso...), comecei a achar que as imagens de Sebastião eram demasiado encenadas. Até mesmo a miséria humana, não me parecia real, entre outras coisas, mesmo que o fotógrafo brasileiro tivesse sempre a arte como prioridade, no seu olhar...

É por isso que eu digo que a fotografia com Sebastião Salgado, ganha uma beleza única (os seus cinzentos são uma marca...), mas também se torna complexa, enquanto objecto social...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


sexta-feira, maio 23, 2025

Não explica mas ajuda a compreender...


Não é que estivesse sem assunto, mas queria mudar de página, deixar este mundo de "sabujos" (onde o PSD e o PS continuam a ter a maioria...), que se julgam mais espertos que os outros, passando a vida a prometer o que sabem que nunca irão dar...

Mas como achei a crónica de Ana Cristina Leonardo no "Ípsilon" de hoje, muito feliz - tem alguns enigmas mas é sobretudo rica em retratos do mundo e do país -, achei que a transcrição de um dos parágrafos era boa para fazer de conta que vou "encerrar" o assunto:

«Se apelidar alguém de gordo pode ser interpretado como discurso de ódio, se questionar a participação de mulheres trans em competições desportivas femininas pode ser (e geralmente é, que o diga J. K. Rowling…) visto como transfobia, se recusar a chamada linguagem inclusiva que multiplica casos e casinhos pode ser entendido como discriminatório, se optar por usar a palavra deficientes em vez da designação pessoas com deficiência pode ser lido como prova de insensibilidade, se contar uma piada passou a ser razoável apenas e só se a piada não ofender ninguém, se… se… se… Já aparecer nas televisões e nos jornais a afirmar mentirosamente (desmentido pelos serviços hospitalares e pela PSP) que os ciganos o queriam matar, ou a expressar ideias boçais que nem na taberna de Eco, como fez o deputado Pedro Pinto (Deputado! Por Toutatis!) — “Não podem querer que André Ventura vá para uma cama onde ao lado esteja, por exemplo, alguém de etnia cigana” — passou a ser admissível e, além de admissível, aceitável.
Repare-se, porém, no detalhe (e o Diabo, é sabido, está nos detalhes): Pedro Pinto, recorrendo, até ele, e apesar da boçalidade, ao politicamente correcto — um entendimento linguístico que nos conduziu à ideia de que é possível mexer na merda sem sujar as mãos… —, não diz ciganos, diz alguém de etnia cigana. É o progresso!»

As palavras de Ana Cristina não explicam, mas ajudam a compreender este mundo, o lugar para onde estamos a caminhar. 

E a sua referência final da crónica ao hospital do Algarve (com cronologia e tudo) é bastante elucidativa do papel dos "sabujos" neste "país do faz de conta" ao longo das últimas décadas. E lá está, talvez a soma do banal dois mais dois, ajude a compreender - com mais nitidez - a vitória do Chega no "reino dos algarves"...

(Fotografia de Luís Eme - Olho de Boi)


quinta-feira, maio 22, 2025

A cumplicidade socialista na partilha da escola pública e privada


A semana passada fui convidado para ir falar sobre leitura e livros a uma escola secundária, privada.

Achei tudo normal. Os professores (o convite partiu de uma amiga, professora de inglês), os alunos, os funcionários.

Só a partir de sexta feira é que comecei a pensar com alguma insistência na diferença que existe, entre um "colégio" e uma "escola secundária". Como os meus filhos já tem mais de vinte anos e sempre estudaram na escola pública (nas melhores de Almada, a António da Costa e a Emídio Navarro...), sem problemas de maior, nunca pensei seriamente na degradação do ensino (ao contrário da saúde, talvez por esta ser mais visível) na última década. E a pandemia não explica tudo...

Depois de domingo, ainda foi mais fácil associar as ideias, ir ao encontro de um país, que é cada vez menos para todos.

Não fui capaz de dissociar a derrota socialista de António Costa e Mário Centeno (Medina apenas seguiu o guião), que preferiram "encher os cofres" do Estado a investir dinheiro onde era necessário (educação, saúde e serviços públicos) e onde falta um pouco de tudo. Sei que estavam longe de pensar "sair a meio" e que os "cofres" que foram enchendo iriam servir para o PSD andar um ano em campanha eleitoral a dar a uma série de classes profissionais o que o PS se recusou dar. Isso ainda os deveria envergonhar mais (se tivessem vergonha, claro).

Lá estou eu a "desviar-me do assunto". 

Segundo as estatísticas, 25% das escolas secundárias  de Lisboa hoje já são privadas. E o número promete crescer. Isso só acontece porque as escolas públicas deixaram de ser as com mais qualidade e com mais segurança (a falta de funcionários é mais que evidente em algumas escolas...). E quem pode escolher, escolhe as melhores para os filhos...

É por isso que embora os socialistas se batam (teoricamente) pela Escola Pública e pelo SNS, com a falta de investimento, foram os primeiros a abrir caminho ao crescimento dos colégios e das clínicas privadas no nosso país.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, maio 21, 2025

O risco do insucesso aumenta sempre que um treinador começa a época a meio...


Ruben Amorim e Sérgio Conceição continuam a ser dois dos nossos melhores treinadores (para mim estão no pódio, juntamente com Jorge Jesus...), apesar de terem tido uma época para esquecer (pela primeira vez...), com demasiadas derrotas e classificações muito abaixo do nível dos clubes e deles próprios.

Ambos cometeram o mesmo erro: entraram a "meio da época" nos seus  actuais clubes para comandar atletas que foram escolhidos por outros técnicos...

Mas tanto Ruben como Sérgio, não podiam dizer não ao Manchester United ou ao Milão, dois dos melhores clubes do mundo.

Deve ter sido um ano de grande aprendizagem para ambos. Apesar do insucesso (a provável vitória do Manchester na Liga Europa não muda quase nada...), viveram situações novas, que os tornaram mais fortes e mais preparados para enfrentar o futuro, em qualquer campeonato, em qualquer país.

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


terça-feira, maio 20, 2025

A anormalidade destes tempos, que tentam ser a nova normalidade (com a cumplicidade das redes sociais e da própria televisão)


O ser humano é desconcertante. Sempre foi.

E não é um problema apenas deste canto da Europa, por muito que insistam nas patranhas do "filho que bateu na mãe" ou na tese romana "do povo que não se governa nem se deixa governar".

Como de costume as "modas" chegam sempre depois a Portugal. Neste caso ainda bem. A extrema-direita já influenciava a governação de países como a Holanda, Itália, França, Alemanha e até Espanha, e ainda se olhava para Ventura como uma espécie de "palhaço de serviço", mas que não perdia uma oportunidade de aparecer nas televisões e redes sociais...

E se as pessoas com dois dedos de testa já perceberam há algum tempo, que o mundo está de pernas para o ar (antes de as pessoas votarem "contra elas próprias" por cá, já Trump tinha sido eleito nos EUA - esta foi a segunda vez... - e Bolsonaro no Brasil), as outras, que só consomem as notícias que lhes são oferecidas pelas redes sociais, bem "mastigadas" e com objectivos claros, dançam ao sabor dos "populismos".

Tenho poucas dúvidas que vamos sempre pelo mais fácil, é por isso que cada vez pensamos menos pela nossa cabeça, sem nos apercebermos, somos "meras "marionetes". 

Isso também explica, por exemplo, que exista uma dualidade tão grande na forma como se olha para o que se passa em Gaza e na Ucrânia. É bem pior o que se passa em Gaza que na Ucrânia, mesmo assim Bibi é tratado com mais benevolência que Putin, pelo menos no Ocidente.

Voltando ao nosso país, num tempo normal, Montenegro nem sequer tinha sido candidato a primeiro-ministro. Tinha sido o seu próprio partido que o tinha substituído. Num tempo normal o Chega teria meia-dúzia de deputados, no máximo...

Mas que não existam quaisquer dúvidas, de que somos nós, os grandes culpados, pela anormalidade destes tempos que se vivem...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)