sábado, abril 30, 2016

A Origem é um Poema em Aberto


Hoje foi apresentado na Sala Pablo Neruda do Forum Romeu Correia, em Almada, o livro de poemas, "A Origem é um Poema em Aberto", da autoria do professor Américo Morgado.

Tive a honra de dizer algumas palavras sobre o autor e também de ler dois poemas desta bela obra poética, que começa com:

A Origem


Tenho um pequeno mundo na minha mão.

Lindo!

Outro iluminado, infinito na minha mente

constantemente a seduzir

uma vontade enorme de ir

sem saber para onde vou.

Esta angústia, este desassossego

de ser um e ter dois mundos onde viver
sem estar bem em lado nenhum.

É a origem que me inquieta

é este vazio que me desperta
e me fez ser gente.


A professora Elisa Araújo, autora do prefácio e apresentadora da obra,  fez uma intervenção brilhante. Helena Peixinho e o autor leram vários poemas para gáudio da assistência que encheu a sala, para abraçar as palavras de Américo Morgado.

sexta-feira, abril 29, 2016

«Nunca tenhas medo de ter medo...»

Nunca esqueci as palavras de um dos meus heróis da infância, que ao perceber que havia coisas que me assustavam, como o escuro, me disse: «Nunca tenhas medo de ter medo», ao mesmo tempo que me fazia uma festa no cabelo. E foi ainda mais longe quando acrescentou: «Nunca te esqueças disto, o medo torna-nos mais fortes. Só precisamos de o olhar de frente.»

Foi por isso que nessa noite de Lua Nova, depois do jantar ele me levou a passear de mão dada,  ao mesmo tempo que me contava histórias alegres enquanto furávamos a noite.

Na altura não devo ter percebido completamente o sentido daquelas palavras. Mas acho que foi a partir daí que comecei a perder o medo de ter medo...

(Fotografia de Laura Makabresku)

quinta-feira, abril 28, 2016

No Limite da Dor


Ao começo da tarde recebi um telefonema de gente amiga a convidar-me para o lançamento de um livro.

Nesse momento ainda não tinha a certeza se podia ir. Mas disse que ia tentar... Não só tentei como fui. E acabou por ser uma agradável surpresa esta apresentação.

Falo de "No Limite da Dor", que começou por ser um conjunto de entrevistas de rádio da Antena 1 a presos políticos, feitas por Ana Aranha, co-autora (juntamente com Carlos Ademar, que a desafiou a passar o programa para livro). Embora esta obra já tenha uma segunda edição e tenha sido lançado há dois anos, passou-me um pouco ao lado.

O grande atractivo desta sessão foi a presença de dois antigos prisioneiros políticos, Mário Araújo e José Pedro Soares (é um dos entrevistados, cuja existência ignorava...), que na época tinha apenas 21 anos e estava a cumprir o serviço militar e foi um dos presos mais torturados pela PIDE, pela sua intransigência em falar, em trair... ele que só foi preso porque um camarada seu não aguentou a dor e falou...

Durante o seu testemunho pensei em várias coisas, até na acusação que me foi feita em relação a um dos meus livros, por eu não ser independente na forma como falava do Estado Novo e da Oposição. E nunca poderia ser, até por não reconhecer qualquer legitimidade a governos ditatoriais. Esta acusação foi feita por um "salazarista"...

Vou ler o livro com todo o interesse, por razões óbvias.

quarta-feira, abril 27, 2016

Uma Cidade Para os Outros

Não gosto desta Lisboa que está a perder a autenticidade, da Cidade que se está a virar para fora e a esquecer a sua verdadeira essência bairrista, apenas porque se transformou num óptimo negócio, para alguns, apostados em a espremer até ao tutano.

O mais estranho é que nos acusam de trabalharmos pouco, mas são os outros povos, oriundos de países mais desenvolvidos (os turistas estão longe de ser apenas reformados, pois há entre eles gente de todas as idades...), que passam o tempo a viajar, a conhecer mundo...

Os preços dos bilhetes para os museus aumentaram, penso que os próprios bilhetes de transportares são diferenciados (por enquanto...). A comida nas partes que atraem mais visitantes também deve ter sido inflacionada. 

Nunca tinha visto tantos eléctricos a circularem pelas colinas, com "aluguer" como destino, a par das "motorizadas-táxi" coloridas e voadoras, conduzidas por jovens de ambos os sexos que nos fazem lembrar o oriente,  até pelo seu desembaraço.

Sei que este "filão é esgotável", pelo menos desta forma confusa e atabalhoada, que nos faz lembrar mais o Norte de África e algum Oriente, que a Europa. Mas talvez seja isso que estas pessoas procuram... e como agora não dá muito jeito visitar a Síria, o Egipto, a Líbia ou Tunísia, visitam este Portugal, com exotismos para quase todos os gostos.

A identidade nacional? Está no fado, e não se fala mais nisso...

(Fotografia de Luís Eme)

terça-feira, abril 26, 2016

Os Campos Verdejantes da Beira

Passei este fim de semana - que recebeu mais um dia de "borla" em nome da Liberdade -, na Beira Baixa.

Gostei de ver os campos floridos e cheios de água.

É bom sinal para a agricultura e para a pastorícia da região que  nos oferece, entre outras coisas, tão bons queijos de cabra e ovelha.

(Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, abril 25, 2016

Abril Sem Idade


ABRIL SEM IDADE

Abril é um poema sem idade
Que invade o sonho dos poetas
E lhes lembra a Praça da Liberdade
Que encontraram de portas abertas

Fizeram da praça uma canção
Que percorreram de mãos dadas
Com o povo e as forças armadas
Dando vivas à Revolução

 Saudaram os capitães-coragem
Erguendo um cravo encarnado
E gritaram de punho fechado
- Já chega de malandragem!

Apesar dos anos passados
Continuam na Praça da Liberdade
E exclamam encantados,
Abril é um poema sem idade!

Luís [Alves] Milheiro


sábado, abril 23, 2016

Abraçar os Livros


Ontem, quase no final da minha intervenção, a professora de Português daqueles jovens, perguntou-me como é que ela poderia fazer com que eles lessem.



Voltei atrás na conversa (ela esteve a dar uma aula só apareceu depois...), ao meu sétimo ano de escolaridade, à minha excelente professora de Português e à "Biblioteca de Turma" que criámos ao longo do ano, em que nos quotizávamos e comprávamos os livros que queríamos ler (com algumas sugestões da professora...) e depois falávamos sobre eles (não sei se de quinze em quinze dias se mensalmente, havia uma aula só para a nossa "biblioteca" e os "nossos livros"), sobre o que tínhamos gostado mais, das personagens, dos lugares, estimulando o interesse dos que ainda não os tinham lido.

E claro, aconselhei a professora a sugerir livros bons (mas também de boa "digestão"...), com uma linguagem acessível, boas histórias e muita acção... Falei também do realismo mágico da "latina-américa", de Jorge Amado, de Ernest Hemingway, Luís Sepúveda ou até do nosso Camilo. Desaconselhei por completo José Saramago ou António Lobo Antunes...

Mas o importante é ler, ler, viajar dentro dos livros.

(Óleo de Gustave Caillebotte)

sexta-feira, abril 22, 2016

A Curiosa e Feliz Sobrevivência dos Livros


A proximidade do Dia Mundial do Livro fez com que fosse convidado hoje de manhã para falar sobre a importância do Livro e dos Autores na aquisição de conhecimentos e criação de mundos, nesta era dominada pela tecnologia, numa escola do Concelho de Almada (EPED)

Falei de muitas coisas, revivi os meus tempos de escola, sem me esquecer de falar das boas professoras de português que tive (pena terem sido poucas...). Falei da importância de ler para escrever, e depois fiz um paralelo entre o que está a acontecer aos jornais e aos livros nestes tempos de mudanças quase diárias.

Os jornais em papel têm os dias contados, por não serem viáveis economicamente. A falta de publicidade, o peso das redacções e a queda brutal nas vendas, faz com que eu pense que dentro de pouco tempo a maior parte dos jornais só serão publicados "on-line".

Curiosamente com os livros aconteceu o contrário, mostraram uma resistência fora do comum e conseguiram (até ao momento...) ganhar a "batalha" contra os "livros digitais".

Para justificar esta "vitória", falei da identidade própria de cada livro, que começa na beleza da capa, no cheiro do papel e da tinta, do prazer de folhear as suas páginas, anotar, marcar as suas folhas... embora continue a pensar que o melhor de cada livro são as suas palavras, capazes de nos levarem de viagem para lugares especiais e conhecer personagens extraordinárias.

O mais curioso foi a turma do 11 º ano que me recebeu  ser  composta apenas por rapazes (pensava que já não existia nada disto...), que se portaram muito bem. E foram bastante honestos, quando lhe perguntei se algum deles lia livros. A resposta foi não. As únicas mulheres presentes foram as três professoras que organizaram a sessão e foram um bom apoio.

Não sei até que ponto fui uma boa influência. Não sei se eles irão sentir alguma curiosidade pelo que está dentro dos livros. Era bom que sim. Só ficavam a ganhar...

(Fotografia de Zoltan Glass)

quinta-feira, abril 21, 2016

Há Algo Mais Importante que Ser de Direita ou de Esquerda

Sempre li, escutei e ouvi coisas que me pareciam completamente distorcidas da realidade, e em muitos casos até erradas. Provavelmente influenciado por toda a carga ideológica com que somos moldados (em casa, na escola, com os amigos...) e que acaba por ser decisiva na nossa forma de pensar e olhar o mundo que nos cerca.

Falo de se ser de esquerda ou de direita, essa bipolaridade que é capaz de provocar discussões quase ao nível do futebol, dos duelos entre o Benfica e o Sporting.

Tenho alguns amigos que não sabem nem querem saber o que é isso de se ser de direita ou de esquerda, que segundo eles, é das coisas mais parvas que existem na nossa sociedade. Mas depois não votam... e são capazes de dizer, com uma grande lata: «votar para quê?»

Eu continuo a ser de esquerda, a ter orgulho nas minhas raízes (de sangue vermelho...) e a pensar que este é o melhor caminho para a existência de uma sociedade mais justa para todos. Provavelmente vou ser sempre assim, e sei que a culpa é mais dos meus pais que de Marx.  E agradeço-lhes muito por isso.

Não estava a pensar escrever tanto sobre mim, mas foi o que saiu... tudo porque há mais qualquer coisa que a ideologia nestas maneiras de se "olhar o mundo". O meu objectivo era debruçar-me sobre as palavras de dois dos cronistas mais antigos da nossa imprensa, Pacheco Pereira e Vasco Pulido Valente, que sempre tiveram um comportamento completamente diferente na sociedade, mesmo pertencendo a áreas políticas próximas (já foram ambos deputados do PSD...). Sempre considerei o Pacheco Pereira um homem intelectualmente honesto. Mesmo quando não concordo com ele, percebo os seus pontos de vista, sei que há ali uma ideia para o país... ao contrário de Pulido Valente, que é apenas um provocador, capaz de escapar da verdade para reforçar as suas ideias estapafúrdias ou apenas dizer mal de alguém que detesta, por despeito, inveja e cinismo (embora se finja estrangeirado, tem os piores defeitos atribuídos aos portugueses...).

Utilizei como exemplo estes dois políticos  porque embora sejam da mesma área ideológica, são completamente diferentes. Há uma coisa simples que os separa e faz toda a diferença: a honestidade. Ou seja, mais importante que a ideologia, é a nossa qualidade humana. Porque não basta escrever ou falar com e em liberdade. Importante (e cada vez mais raro...) é procurarmos a verdade, sem estarmos "reféns" de partidos ou de outros interesses particulares. E infelizmente isso é o que se vê mais por aí...

(Fotografia de Luís Eme)

quarta-feira, abril 20, 2016

A Bondade Humana Dentro de um "Mundo" Sem Concerto...

Se compararmos as notícias de hoje com as de há vinte anos (para não recuar mais no tempo...), ficamos com a sensação de que na actualidade toda a gente usa óculos com lentes de aumentar. A televisão então é pródiga em exemplificar o pior e o melhor que há em cada um de nós. Apesar de eu saber que o "meio termo" nunca foi notícia... e nem é preciso vir com a história do homem que mordeu o cão... acho que se está a exagerar. 

Exemplos? Os telejornais são o que são. Embora não seja consumidor do "negócio", fico com a sensação que há demasiados vilões nas nossas telenovelas. E nem vou nas séries policiais americanas, onde tudo é possível de acontecer... 

Talvez seja apenas uma "colagem" ao tal "mundo" que nos é oferecido pela comunicação social. E como as catástrofes e misérias alheias sempre conseguiram agarrar muito mais o nosso olhar - tal como as vozes dos "profetas da desgraça" - que os sorrisos do actual presidente da República, facilmente chegamos à conclusão que o "mundo" está mesmo sem conserto...

Talvez seja também por isso que  falamos cada vez menos com desconhecidos. Ou seja, estamos a deixar de acreditar que alguém poderá querer falar connosco, apenas porque tem curiosidade em querer saber qualquer coisa simples, como qual é o melhor  caminho para o "Cristo Rei", sem nos querer impingir alguma coisa ou tentar enganar-nos.

Às vezes penso que nunca foi tão fácil desconfiar da bondade humana. Qualquer dia até somos capazes de concluir que ser boa pessoa é um defeito...

(Fotografia de Robert Doisneau)

terça-feira, abril 19, 2016

O Acumular de Inutilidades que se Fingem Úteis...


Ao longo dos anos fui acumulando inutilidades, cadernos ou papeis soltos que acabaram por perder o prazo de validade. Falo de recortes de jornais mas também de muita coisa que escrevi. Encontro muitas coisas que quase me pedem para "viver", para ficarem dentro de qualquer história.

Alguns títulos ridículos, como o do caderno que passei a pente fino, datado 2003, "Tempos Novos". Provavelmente nessa altura fazia sentido. Mas doze anos depois são mesmo tempos velhos...

Mesmo assim encontrei coisas algumas interessantes, como as frases guardadas de uma entrevista do grande arquitecto brasileiro, Niiemeyer, ao "Expresso". Alguns projectos jornalísticos que não passaram disso mesmo. Uma história infantil, no mínimo curiosa. Memórias sobre o meu pai, que tinha falecido dois anos antes. Ou seja, coisas que fui sabendo da sua vida, quase sempre contadas pelo tio Valentim, que viveu com ele na Capital. Alguns começos de poemas que se transformaram em "gente", ou seja, no meu primeiro caderno de poesia publicado. E ainda várias personagens inventadas para livros que nunca chegaram a ser escritos.

Ou seja, há papeis que ficam. Apenas porque sim. Ou talvez porque gosto mesmo de acumular inutilidades...

(Óleo de Arshile Gorky)

domingo, abril 17, 2016

A História e a Beleza que os Museus nos Mostram


Às vezes somos sugestionados a fazer perguntas a nós próprios, por conversas que temos ou leituras que fazemos.

Foi o que me aconteceu ontem ao ler a entrevista de Penelope Curtis na "E" (revista do "Expresso"), a britânica que dirige actualmente o Museu Gulbenkian.

De uma forma natural vi-me a perguntar a mim próprio, porque razão gostava tanto de visitar museus... não foi difícil chegar à resposta, além de me sentir bem naquela atmosfera (normalmente rodeado de coisas únicas...), há a história e a beleza que faz parte de cada uma destas casas, que podem ser tão diferentes na sua temática e tão iguais nos seus objectivos.

E depois existem os silêncios destas salas (prefiro os museus com pouca gente...), que nos podem dizer tanto. Não sou daquelas pessoas que passam horas a olhar para uma peça. Vou sempre andando. Só paro mais que uns segundos quando sinto que há um pormenor diferente que me chama a atenção. Não deixa de ser curioso, que nos museus de arte, olho com muito mais atenção para as esculturas que há meia dúzia de anos. Reparo mais nos pormenores, na forma como está modelado o corpo ou o rosto, naquilo que as mãos seguram, para onde nos leva o seu olhar...

Somos o que somos. Não sei se os meus filhos vão gostar de museus no futuro. Às vezes a fartura enjoa, espero que não seja o caso...

(Fotografia de Luís Eme)