domingo, março 27, 2016

Teatro na Páscoa

Os calendários têm destas coisas e este ano o Dia de Páscoa coincidiu com o Dia Mundial do Teatro.

Quem gosta de teatro têm muitas salas abertas neste feriado, onde além da Páscoa, se festeja o Teatro, esse companheiro permanente de todas as "crises" e que tem uma resistência pouco comum...

Esta fotografia foi tirada num dos ensaios da peça que escrevi, "O Amor é uma Invenção do Cinema", encenada e exibida pelo Cénico da Incrível Almadense em 2014 e apresentada na 18ª Mostra de Teatro de Almada.

(Fotografia de Luís Aniceto)

sexta-feira, março 25, 2016

Achamos Sempre Mais Graça às Raparigas que aos Rapazes

Como observador do "mundo que me rodeia" sinto que se acha sempre mais graça às raparigas que aos rapazes.

Posso falar inclusive dos exemplos cá de casa, pois a minha filhota sempre foi mais mimada e elogiada que o meu filho - e não estou a falar dos pais. Ou ainda de outros casos próximos, como o exemplo de dois gémeos falsos em que as suas diferenças de comportamento (a "lata" dela e a "timidez" dele...) e a forma como foram acarinhados durante o seu crescimento determinaram os seus percursos na vida adulta (ela mais certinha e ele mais errático...).

Isto pode ser entendido como palavra de homem, mas sinto que estou a escrever sem qualquer tipo de amarras de género. Basta olhar para as avós, para quem as suas "meninas" são sempre diferentes dos seus "rapazes". Sei que isto também pode acontecer como forma de defesa e de protecção, por estas saberem que o mundo que as espera continua a ser mais masculino que feminino (para não lhe chamar outra coisa...), pelo menos fora de casa.

Como a maioria dos comentários do blogue são femininos, estou curioso por saber o que é que elas pensam deste quase "não assunto".

(Óleo de Dima Dmitriev)

quinta-feira, março 24, 2016

«De lágrimas de crocodilo está o mundo cheio.»


Enquanto bebíamos café a televisão continuava com ligação directa a Bruxelas.

Comentámos mais uma vez de forma crítica  toda esta "intoxicação televisiva", com repetições de imagens, entrevistas a vitimas dos atentados e também a todos aqueles que gostam de dar um ar da sua graça e de se candidatarem a "heróis".

As emoções e as palavras de circunstância dos políticos foram o alvo da Rita que exclamou: «de lágrimas de crocodilo está o mundo cheio.»

O Carlos foi ainda mais incisivo sobre os governantes europeus: «são uns merdosos que passam a vida a alimentar todo este circo de hipocrisia, incapazes de resolver o que quer que seja.»

Eu limitei-me a ouvir, cansado e farto disto tudo. Até por saber que eles estão certos. Tenho cada vez mais a sensação de que as grandes potências europeias apenas fingem estar preocupadas com o clima de medo e de desconfiança que se vai instalando um pouco por todo o lado.

(Fotografia de Luís Eme)

quarta-feira, março 23, 2016

Viagens pela Memória à Mesa...


Hoje fui à minha Cidade Natal almoçar com a minha mãe e o meu irmão.

O passado finta quase sempre o presente e o futuro, através das conversas sobre as pessoas que povoaram a nossa meninice.

Sei que sou quem tem mais dificuldade em arranjar rostos para colar aos nomes que a mãe e o mano vão trazendo para a mesa.

Tenho a desculpa de ter partido aos dezoito anos para a "Cidade Grande" e, embora nunca me tenha afastado demasiado, fui perdendo raízes, fui esquecendo a existência de demasiadas pessoas, que o tempo gosta de "engolir".

Louvo a paciência dos meus filhos que são meros espectadores destas conversas sobre lugares e pessoas, que fazem parte do meu imaginário, de uma Cidade e de um Bairro que já só existem nas nossas memórias...

(Fotografia de Luís Eme)

terça-feira, março 22, 2016

A Substituição do Nosso Olhar...

Já devo ter escrito qualquer coisa sobre a evidência da "massificação" da fotografia, ter revolucionado completamente o nosso olhar.

Fico muitas vezes com a sensação de que vamos aos lugares para os fotografar e não para os olhar.

Talvez seja por isso que muitas vezes tento disciplinar-me, dizer aos meus olhos e aos meus dedos, que estou ali para olhar e não para fotografar. Mas é uma tarefa difícil...

Não sei se vimos pior ou melhor as coisas. Sei apenas que as olhamos de maneira diferente.

É também por isso que gosto dos museus que nos proíbem de tirar retratos. Os museus pedem um olhar mais atento, e também uma atmosfera sem os "cliques" das máquinas, apenas com vozes que se fazem ouvir quase em sussurro.

Claro que também se mistura nesta "febre de imagens" a natural "feira de vaidades", um sinal destes tempos. Esta fotografia foi tirada no domingo de manhã, em que me apeteceu ir a Lisboa ver a Sophia, no seu miradouro da Graça. Quando vinha de regresso no cacilheiro para a minha margem, escutei e senti a alegria de uma "atleta" que participara na meia-maratona, por já ter colocado a sua aventura atlética e fotográfica no "facebook"...

(Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, março 21, 2016

Abril Pode (e deve) Florir em Março...

Porque hoje se festeja a natureza e a poesia, publico o poema que escrevi para ser "colado" à fotografia de ontem, da tal exposição de Abril de 2014, "Cravos da Liberdade", quase de poesia ilustrada, pois cada fotografia teve uma Legenda-Poema...

A exibição da peça "Turismo Infinito" em Almada foi usada como pano de fundo para ilustrar o futuro próximo dos nossos jovens, que para sobreviverem têm de partir...


Abril Floria

Fazias as malas
enquanto lá fora ABRIL FLORIA.
Sabias que não havia
lugar para ti neste país
onde se continua a fingir
que se vive em democracia…


                      [Luís Milheiro]

(Fotografia de Luís Eme)

domingo, março 20, 2016

Mudar (ou não) de um Dia para o Outro...


Há pessoas que conseguem mudar de vida de um dia para o outro, quase sem deixar rasto. Não vivem agarradas aos lugares, mudam de casa e de cidade com relativa facilidade.

Hoje isso acontece mais que ontem, porque a instabilidade tomou conta de muitas vidas, especialmente dos jovens. O emprego voltou quase aos tempos da "jorna diária", nos campos e nas fábricas. O arrendamento de casas também voltou em força (até por ser mais difícil conseguir um empréstimo)...

Eu sei que não sou de mudar. Muito menos de deixar tudo para trás num ápice. Este tudo não engloba apenas pessoas, também lá estão os objectos que fui "coleccionando" ao longo da vida.

Talvez isso aconteça por não ter nascido nem vivido num tempo e num espaço de instabilidades. Enquanto vivi com os meus pais só mudámos uma vez de casa. Eu também vivo há vinte e oito anos no mesmo apartamento, que vim estrear...  

Claro que pode sempre acontecer uma catástrofe, natural ou não, que nos obrigue a seguir um novo rumo, sem querermos. Basta olharmos para o Médio Oriente, para todos aqueles que são obrigados a fugir da "morte anunciada"...

(Fotografia de Luís Eme - uma encenação que fiz para a minha exposição de fotografia, "Cravos da Liberdade" de 2014, o modelo é o meu filho...)

sábado, março 19, 2016

O Cacilheiro o Tejo e o "Polícia Sinaleiro"

A ilusão óptica tem destas coisas...

Eu que estava lá, no Cais do Ginjal, ao fim da manhã, sei que o homem mexia os braços a puxar os fios das "armadilhas" que montara para chamar os chocos.

Mas quem olha para a fotografia, fica mesmo a pensar que se deve tratar de "louco de Cacilhas" (ou de um brincalhão), que pensa escolher a direcção do Cacilheiro...

(Fotografia de Luís Eme)

sexta-feira, março 18, 2016

«Será que o jornalismo morreu, sem que tenhamos dado por isso?»

Hoje publicou-se pela última vez, em papel, o "Diário Económico".

Confesso que nunca perdi muito tempo com as leituras deste género jornalístico, por ser demasiado técnico. Foi também por isso que não comprei o último número.

Tenho lido algumas coisas que se têm escrito sobre o que se está a passar no nosso jornalismo, onde se fica com a sensação que o "jornalismo sério e pluralista" já quase que não tem leitores...

Não vou em busca de causas, mas o que se tem passado nos últimos anos na nossa comunicação social, só nos poderia levar a caminhar para "ruas tortuosas", cheias de "armadilhas". Quando se fechou os olhos à criação de autênticos monopólios - que nunca existiram nas ditaduras salazarista ou marcelista -, cujos interesses tinham a ver com tudo menos com jornalismo, não se podia esperar que o rigor e independência do "quarto poder" ficassem a ganhar. 

Sei que a televisão é em boa parte a grande culpada do quase "alheamento" das pessoas, pelo que realmente se passa no nosso país. Parece que é só ali, dentro da "caixa mágica" que está a felicidade... Com programas que enchem as manhãs e as tardes das pessoas de ilusões (basta ligar para o número da "sorte" para ganhar um carro mais um saco cheio de notas...).

Não é por acaso que o que hoje mais vende são as revistas associadas à televisão, que se alimentam dos resumos das telenovelas e das "invenções" sobre as vidas - pública e privada - dos "famosos", que tanto podem ser actores das novelas como participantes dos programas onde se finge transmitir a "vida em directo" (e que eu na maior parte das vezes não faça ideia quem são... mas isso só acontece porque eu primo por ser gajo um "mal informado"...). 

E claro, quem também vende que se farta é um jornal diário que explora ao jeito de folhetins novelescos vários casos de polícia, e que adora explorar a curiosidade mórbida de cada um de nós. Parece que este "Correio" vende mais que todos os outros jornais juntos...

Por tudo isto, não sei que diga sobre jornalismo, jornais, monopólios, patrões ou jornalistas, mas lanço uma pergunta: «Será que o jornalismo morreu, sem que tenhamos dado por isso?»

(Fotografia de Johua Benoliel)

quinta-feira, março 17, 2016

O Fado Vadio e um Outro Bairro Alto


Ontem encontrei um rapaz que não devia ver há mais de vinte anos.

Encontrámos-nos por acaso nas ruas de Lisboa. Acabámos por parar num café onde oferecemos alguns minutos de conversa um ao outro.

Falámos de vários tempos e de várias peripécias, desde as aulas de natação que demos em conjunto (que eu evitava, porque ele passava mais tempo a chatear os miúdos que a ensiná-los a nadar...) às noites de quinta-feira em que nos enfiávamos no Bairro Alto com mais dois ou três amigos depois de jantar, e que se prolongavam até ao raiar do dia.

Nesse começo da década de oitenta, em que ainda andávamos a aprender a ser homens, o fado ainda não estava na moda, as prostitutas e os seus "donos" ainda tinham o seu território no Bairro, tanto nas ruas como em alguns bares, que tentavam fintar a modernidade, perfumados com vinho tinto, carapau frito e "águas de colónia" e lacas baratas que as "meninas" (algumas já quarentonas...) usavam.

Perguntei-lhe se ainda cantava o fado. Começou a sorrir e abanou a cabeça a dizer que não. Depois disse-me que continuava a gostar da canção de Lisboa e que ainda sabia de cor os dois ou três fados que cantava sempre que lhe pediam, embora gostasse de se "fazer caro". Pelo menos isso aprendera com as "vedetas", a só responder às chamadas para  o palco improvisado com muita insistência...

Claro que falámos de outras coisas, dos filhos que fizemos, das mulheres que amámos, dos amigos que perdemos de vista. Da vidinha, como diria o grande poeta O' Neill...

(Fotografia de Toni Frissel)

terça-feira, março 15, 2016

Proibido Andar Sobre a Relva


Hoje comprei por dois euros o livro, "Proibido Andar Sobre a Relva", de Ferro Rodrigues. Embora não esteja datado (há muitos livros mais antigos que não têm qualquer data da sua edição...), pesquisei e descobri que era de 1966.

Comprei-o sobretudo pelo título. Já em casa acabei por ter uma segunda surpresa, o livro nunca tinha sido lido, continuava "virgem", à espera que alguém lhe abrisse as suas páginas...

Não deixa de ser curioso, que um livro com praticamente cinquenta anos de vida, com as suas páginas amarelecidas, tenha passado  todo este tempo a "dormir" em qualquer estante, sem que ninguém sentisse curiosidade pelo título ou pela própria capa.

Prometo lê-lo com alguma brevidade (vai ultrapassar uma montanha de livros que esperam e desesperam por quem os folheei com entusiasmo...). Talvez já em Abril.

segunda-feira, março 14, 2016

A Arte de Ser Actor


Antes do almoço vinha numa das carruagens do metro perto de cinco jovens que falavam descontraidamente das vantagens de se ser actor. Durante os poucos minutos que os ouvi, nunca se referiram a esta profissão como Arte, nem tão pouco ao talento que é necessário ter para se enfrentar o público numa sala de teatro ou uma câmara de filmar.

A única coisa que realmente lhes interessava era o dinheiro que um ou outro amigo tinha ganho com a participação numa série ou telenovela. O mais curioso é que nenhum deles tinha aquilo que se pode chamar de "bom ar", algo que nos dias de hoje é essencial para se aspirar a qualquer coisa no mundo do espectáculo.

Já depois das 16 horas fiquei a saber que o Nicolau Breyner tinha sido encontrado sem vida em casa.

Como já tinha pensado escrever algumas linhas sobre a conversa destes jovens, aproveito também para homenagear o Nicolau, um dos grandes actores portugueses. E ele bem podia ser olhado como um exemplo para estes jovens, do que é realmente ser actor, até por ser bom em todas as áreas de representação (embora não morresse de amores pelo teatro, pelas "repetições" do mesmo papel, noite após noite...).

Guardo na memória algumas excelentes personagens que interpretou na "sétima arte", onde oferecia uma naturalidade e uma relação com as câmaras pouco habitual no nosso país. 

(Óleo de Pablo Picasso)