Um dos lugares atingidos foi a estrada que liga a Boca do Vento ao Olho de Boi e ao Ginjal.
(Fotografias de Luís Eme - Olho de Boi)
Um dos lugares atingidos foi a estrada que liga a Boca do Vento ao Olho de Boi e ao Ginjal.
(Fotografias de Luís Eme - Olho de Boi)
Somos parecidos em muitas coisas, porque a vida não nos ensinou coisas muito diferentes. As duas coisas que nos distinguem de uma forma mais fácil, é o sexo e a cor de pele.
Sim, eu sou homem, tu és mulher. Eu sou quase cor de rosa, tu és quase castanha.
É por isso que quando nos sentamos na esplanada, procuras o Sol, eu procuro a sombra.
O mais curioso, foi teres-me contado, que há medida que os anos passam, sentes que as pessoas olham para ti, como se não pertencesses aqui. Mesmo que tenhas nascido neste país há mais de quarente e sete anos e só tenhas saído de cá em férias...
Foi por isso que adorei ouvir a história que me contaste, que podia ser sobre a "terra de todos e de ninguém".
Mesmo que nunca tenha sentido o que sentes, gostei muito da ideia sobre a existência de um país de ninguém, com as portas abertas para todos aqueles que sentem não pertencer a sítio nenhum, e por isso mesmo, preferem viver na "terra de ninguém", onde não há o hábito de se olhar de lado para quem passa, ou pior, mirar-se de alto a baixo, como se nos estivessem a tirar as provas de um fato ou de um vestido...
E depois voltámos para as mesas iguais, onde escrevemos coisas diferentes...
(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)
Sei que é um trunfo usado por todos aqueles que querem chegar ou permanecer "eternamente" no poder. E está longe de ser uma novidade.
Salazar sempre o fez, embora mentisse com o ar mais cândido do mundo e não se servisse do poder para enriquecer (só quem o rodeava é que "enriquecia", dizem...), mas apenas para se perpetuar como "dono do país".
Acontece que hoje, quando vemos e ouvimos Trump ou Ventura a mentirem com os dentes todos (se for preciso ainda pedem alguns emprestados...) e sem qualquer tipo de pudor, ficamos com a quase certeza de que a mentira deixou de ter a perna curta.
No meio disto tudo, há um coisa que ainda não percebi bem, foi se estamos mais estúpidos, ou se apenas fingimos ter as "orelhas maiores"...
(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)
Recorro mais ao dicionário (devia dizer aos...) e ao "senhor google", que por muito que disfarcemos, é um grande "inteligente artificial".
Talvez exista um limite de idade para escrever...
É quando me aparece o exemplo do nosso Nobel, que publicou o "Memorial do Convento" aos sessenta anos e foi galardoado com o prémio sueco com setenta e seis anos de idade...
Depois do "Memorial" foi escrevendo obras como "O Ano da Morte de Ricardo Reis" (1984), "A Jangada de Pedra" (1987) ou o "Evangelho Segundo Jesus Cristo" (1991), que tanta polémica deu, ao ponto de ele se exilar de forma voluntária em Lanzarote...
O mais provável, é esquecermos umas palavras e encantarmo-nos com outras...
Também sei que o ritmo da escrita diminui, com a mesma naturalidade que nos aparecem os primeiros cabelos cinzentos ou as dores que se vão tornando crónicas...
(Fotografia de Luis Eme - Lisboa)
Ou não. Muitos de nós estão de tal forma viciados em documentários e notícias, que evitam mesmo o seriado duplo ou triplo das televisões "rainhas" das audiências. Outros preferem a distracção e o humor dos "podcasts". Há ainda outros que preferem ir ao cinema dentro de casa, ou então ver "cinquenta episódios" seguidos da série da moda.
Telenovelas é que não vêem, é coisa para velhos ou donas de casa...
Chegou aquela mulher disse boa tarde e abancou, quase sem pedir licença (só depois é que percebemos que era a "nova amiga" do Rui).
Uma das primeiras coisas que disse foi que ia estrear uma novela que devia ser boa, cheia de "Páginas da Vida". Olhámos uns para os outros, sem saber o que dizer, como se de repente ficássemos fora de pé e todos nadássemos pessimamente.
Foi coisa de segundos. De um momento para o outro, já estávamos a falar de namoros de revistas, de pessoas de plástico e de outras cheias de plásticas. A coisa até se tornou divertida, embora fugisse ao tom habitual.
Mas a melhor frase da convidada ainda estava para vir, quando ela salientou uma das nossas diferenças: os homens somam mulheres ao seu currículo e as mulheres subtraem homens da sua conta pessoal.
Acabámos todos a sorrir.
Ela foi a última a chegar e a primeira a partir. E não deixou de ser uma agradável surpresa, por nos conseguir levar para outras conversas.
O mais curioso foi o Rui começar a desculpá-la, tentando dizer-nos que ela normalmante não é assim, não diz aquelas coisas, etc. Como se isso tivesse alguma importância... Nós, normalmente também falamos de outras coisas. E nem soube mal de todo "mudarmos de rua" e fazermos quase uma vénia à Dona Lili...
(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)
Até porque não acredito que tenhas mudado assim tanto, ao ponto de teres viajado para o planeta do Trump e do Ventura, sem levares bilhete de regresso. Faz-me confusão que acredites que o mundo agora é uma mentira e que vale tudo para "lixar o próximo".
Por muito desiludido que possas estar com os nossos políticos incompetentes e corruptos (eu sei que são mais de meia dúzia...), não podes pensar em os substituir por uma coisa pior: populistas especialistas em "cantos da sereia" e "cantigas do bandido", que dizem sempre o que queres ouvir, em especial quando estás farto de tudo e de todos. Cansado de ser enganado e de ver gente que está interessada em tudo, menos em resolver os teus problemas.
Podia dizer-te para olhares para os Estados Unidos.
Mas já não é preciso atravessares o Atlântico, começas a ter muitos exemplos de que esse partido onde votas não passa de um "antro de bandidos". E nem é preciso colocar o foco nos ladrões de malas ou nos pedófilos. Agora que se chegaram ao poder, já começaram a oferecer "tachos" (e panelas), às namoradas, irmãs, tias e primas, porque seguem à letra a frase mestra dos políticos de sarjeta: "olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço".
E depois há a parte que eles tentam esconder (mesmo que o seu "rabo gigante" fique sempre de fora...), a ideologia. De vez enquanto lá aparecem os "três salazares", assim como a tentativa de tapar "Abril" com "novembro", que é sempre demasiado pequeno e curto, para apagar esse dia inesquecível que nos devolveu a liberdade e a democracia.
Nota: texto publicado inicialmente nas "Viagens pelo Oeste", dirigido a um amigo caldense...
(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)
É por isso que hoje temos de ter mais cuidado com o que dizemos e com o que escrevemos (as redes sociais e os anonimatos não contam, claro...).
Está sempre alguém escondido na esquina, preparado para retirar as nossas frases do contexto e fazer acerca delas "um filme" diferente, daquele que era nosso.
E se pensar de forma oposta, é mesmo capaz de ver coisas, que nós, autores dos textos ou palestrantes, nunca escrevemos ou dizemos.
Isto até se percebe, porque sempre foi mais fácil de levar pelos campos um "rebanho de carneiros", que um conjunto de "ovelhas tresmalhadas". Mas não explica que países que se dizem democráticos (EUA é o maior exemplo) governem cada vez mais como ditaduras...
(Fotografia de Luís Eme - Beira Baixa)
Ter dezoito ou dezanove anos é bom, entre outras coisas, por nos dar uma capacidade de sonhar, quase até ao infinito.
E continua a ser boa ideia continuarmos a acreditar no poeta, que nos diz que "sonhar é uma constante da vida". Basta olhar para trás para perceber que muitas coisas boas que nos aconteceram, nasceram de sonhos...
Ao contrário do que os espertalhaços deste tempo pensam, ser inocente, nunca foi sinónimo de parvo.
E claro que sim, há sempre alguma coisa que se pode fazer, para tornar esta quase bola onde habitamos, numa coisa melhor, mesmo quando já se tem oitenta anos...
Talvez a mais importante seja olharmos para trás com olhos de ver, não termos medo do passado. É ele que nos ajuda a "ver melhor" e a não cometer o mesmo erro, mais que duas vezes...
(Fotografia de Luís Eme - Tejo)
Penso sempre que todas estas "mensagens" deviam ter um antes, com as pessoas que têm o poder de mudar alguma coisa, a descerem do "andar mais alto" para a rua. Não há nada como olhar de perto para tudo aquilo que nos cerca, a panorâmica muda imediatamente. Ver "lá de cima" (mesmo as desgraças alheias, é sempre diferente...).
E há imagens terríveis, que conseguem oferecer poesia ao trágico, mesmo quando não devem...
Talvez este seja o tempo de a maior parte dos políticos, deixarem de o ser, a "fingir", de pensarem que a sua verdadeira função é tentar resolver os problemas dos seus concidadãos, que vai muito para além da afixação de cartazes por toda a cidade, que normalmente não resolvem "porra nenhuma".
(Fotografia de Luís Eme - Almada)
Sem estarmos à espera, destapam-se todas as nossas fragilidades, comuns à maior parte dos países, mesmo aqueles do primeiro mundo.
Sim, o Japão e os EUA, apesar do seu poderio económico não conseguem "fintar" a natureza, muito menos, domesticá-la...
Estão sim, melhor preparados, mais habituados, mais "maquinizados" para agir no minuto seguinte...
Raramente ficam paralisados, sem saber qual o próximo passo a dar, muito menos demoram uma semana a reagir...
O mais curioso, é que não é por isso que eles mudam os seus hábitos. Nem tão pouco abandonam as suas casas destruídas, que continuam a ser feitas quase de "papel".
Por aqui as coisas são diferentes. O vento não nos levou as segundas e terceiras habitações. E quando se fazem contas, são poucos os que podem e conseguem mudar...
As nossas fragilidades não são apenas físicas e mentais. Há a parte principal, a falta de um lugar menos exposto e que esteja à nossa espera...
A falta de "tempo" para mudar....
(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)
Reparámos que até nós falamos menos uns com os outros. Desculpámo-nos com o Inverno que este ano decidiu ser um Inverno a sério, com todo o tipo de tropelias. Até obrigou a recolher as duas ou três esplanadas que fazem parte dos nossos roteiros... Bebemos café ao balcão porque detestamos o interior dos cafés e pastelarias com temperaturas de Verão e ofertas simpáticas de vírus de gripes de várias cores.
O Carlos continua a ser o nosso "farol". Só ele mesmo para dizer que: «Fala-se menos para escreve-se mais. Daquelas coisas curtas e grossas que cabem dentro dos telemóveis, que tanto nos podem "derreter" como deixar furibundos.»
É verdade. Mas também se fala menos, porque nos fartámos dos "estranhos" que estão sempre a querer contactar connosco. Pobres diabos, vivem disso, do negócio de "impingir" coisas, seja via telefone seja na rua ou à porta de casa. Palavras sábias da Carla.
O Rui deu mais ainda uma achega a esses tocadores de campainhas, «tu não abres a porta da rua, mas há sempre um estúpido, normalmente do segundo esquerdo, que abre o trinco.»
Sorrimos, sem ir à procura da lógica do segundo esquerdo. Felizmente nenhum de nós mora numa fracção com esse número, para chamar o Rui de mentiroso.
Sabe bem falar com leveza, neste dias pesados...
(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)
A 24 de Julho de 2008, uma senhora escrevia no "Diário de Notícias" o seguinte:
«Em Portugal, a classe política foi a primeira a iniciar uma relação assente numa videodependência assustadora. Grande parte dos políticos convenceu-se de que só existe se a sua imagem e a sua palavra forem difundidas pelos média.»
Dezassete anos e alguns meses depois, as coisas pioraram, muito.
As palavras são de Maria José Nogueira Pinto, que não devia achar muito piada a que a sua filha andasse em 2026 com tão más companhias (nada mais, nada menos, que o "rei das videodependências"...).
(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)
Tem muito a ver com o que fazemos. Como olhamos para a segunda, que devia chamar-se primeira.
Sei que quem tem de trabalhar para os outros e há muito que não se sente feliz no emprego, não acha graça nenhuma a este primeiro dia da semana. É quase sempre o começo de mais uma semana de "pesadelo"...
Quem como eu trabalha todos os dias, sem pensar em segundas, domingos, feriados, muitas vezes perde-se no tempo. Claro que no meio das desvantagens, como por exemplo esquecer-me que amanhã é carnaval, há a vantagem de já não me lembrar de quanto pode ser angustiante, uma segunda-feira...
(Fotografia de Luís Eme - Sobreda)
Mas o Governo de Passos Coelho, sempre a querer ser "bom aluno" (nunca percebi muito bem o que isso representa, mas parece-me que é defender mais os interesses da Europa que os de Portugal...), e a ir "mais longe que a "troika", começou a fechar tribunais, repartições de finanças, estações dos correios, bancos, etc, Esta medida poderá ter reduzido as despesas, mas deixou as pessoas ainda mais isoladas e centralizou, quando a solução para um país mais equilibrado e justo será sempre a descentralização.
Pode parecer que não tem nada a ver, mas tem tudo a ver...
Eu posso falar da realidade local que conheço, que é urbana, em relação às freguesias. Em Almada existiam 11 freguesias, que foram reduzidas para cinco. Criou-se uma super junta de Almada, que passou a incluir Almada, Cacilhas, Cova da Piedade e Pragal. A partir deste momento, houve um afastamento das populações e uma desresponsabilização generalizada, com a velha desculpa de que "é impossível estar em dois sítios ao mesmo tempo". Se isso aconteceu em localidades coladas umas às outras, imagino o que se passou em concelhos com as Caldas da Rainha, em que se juntaram freguesias urbanas com freguesias rurais...
Abordando os problemas trágicos que têm afectado as pessoas, especialmente na região centro, não temos dúvidas de que continuam a existir pessoas isoladas e sem apoio, pelo desconhecimento da sua existência graças à falta de proximidade que existe, que transforma as pessoas quase em números...
Podem continuar a falar da regionalização, mas esta não vai resolver problema nenhum, a não ser criar uma série de "vice-reis" (alguns já se andam a colocar em bicos de pés), porque não irá acabar com o principal problema que existe, a falta de uma política de proximidade. A solução terá de ser sempre ao nível do Concelho e não da Região.
Só quando se conseguir combater este problema se reduz a existência de portugueses de primeira e portugueses de segunda (que é o que existe na actualidade).
(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)
É importante ter memória. O medo que existia em relação à regionalização devia-se sobretudo ao mau exemplo dado por muitos autarcas, que deixaram os seus Municípios quase falidos e com graves suspeitas de corrupção. Isso só acabou quando as contas das Autarquias passaram a ser controladas pelo Tribunal de Contas.
Há outra coisa que se deve ter em conta. Se a qualidade dos políticos tem decrescido a nível nacional, a nível local nota-se a presença de gente mais responsável e melhor preparada tecnicamente para as funções que exerce.
E sim, agora talvez faça sentido pensar-se na regionalização, mesmo que continue a ser demasiado apetecida por quem adora o poder, como é o caso dos políticos que abandonaram os Municípios, depois de atingirem o limite mandatos, como é o caso de Rui Moreira...
(Fotografia de Luís Eme - Trafaria)
Uma mãe com a idade da minha filha estava com o chapéu aberto, com a filhota ao colo. Cheguei-me para uma ponta e convidei-a a vir para o abrigo da paragem.
Ela veio e agradeceu.
Depois chegou o metro, sentei-me e ela sentou-se a meu lado. Como ainda havia lugares sentados perguntei-lhe se queria sentar a filha. Disse-me que não.
Quando se levantaram para sair a pequenita virou-se para mim a sorrir e ofereceu-me um "Tchau".
Surpreendido deu-lhe um "adeus linda".
Tudo isto seria normal, se não se desse o caso da mãe e da filha, serem de cor... E por isso mesmo, não estarem habituadas a serem tratadas e olhadas pelos outros, com normalidade, desde que existe um partido político, que faz questão de colocar as pessoas dentro de catálogos de cores e de nacionalidades...
(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)
Durante algum tempo não iremos poder circular em várias estradas deste país, que muitas vezes parece de brincar.
Durante uns dias não iremos falar de outra coisa nas televisões, a não ser que surja por aí uma outra "tragédia de substituição"...
(Fotografia de Luís Eme - Tejo)
Mas a história é o que é. As mentiras que lhe tentam colar, normalmente ficam caídas no chão.
É também por isso que é importante dizer que tanto o 25 de Abril como o 25 de Novembro, mesmo sendo diferentes, foram protagonizados por democratas. E o último, mesmo que a direita queira agora agarrá-lo com as duas mãos, pode e deve-se afirmar, que os seus principais intervenientes pertenciam à área do socialismo democrático. Se na sociedade civil, Mário Soares é a grande figura, no campo militar, tanto Melo Antunes como Vasco Lourenço (os seus principais estrategos) sempre estiveram próximos do Partido Socialista.
E poderia continuar a falar de outras grandes transformações sociais no nosso país, como foram a criação do SNS (de António Arnaut) ou a assinatura do Tratado de Adesão na União Europeia (assinado por Mário Soares).
Mesmo que este seja o tempo dos "papagaios", estou certo de que as suas vozes não vão "chegar ao céu"...
(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)
Não acho que seja possível a vitória do "populista de serviço", embora saiba que, seja qual for o resultado que tiver, ele gritará sempre como um vencedor.
É muito provável que tenha um resultado superior aos 30%, o que fará que cole na lapela do casaco ou num chapéu de fiscal de jardins, as palavras: "líder da direita" (para desespero do "conde de monteverde"...).
Mas se for abaixo dos 30%, continuará vencedor. Veste o fato de "calimero" (que também lhe assenta que nem uma luva...) e diz que teve de lutar contra tudo e contra todos...
(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)
Acaba por ser normal que estas visitas diárias criem empatia, mesmo sem conhecermos pessoalmente quem está do outro lado.
É curioso percebermos que isso acontece porque nos revemos nas suas palavras e nos pensamentos que exprime (às vezes até podem ser diferentes dos nossos...).
Foi o que aconteceu nos últimos dezoito anos com "Entre as Brumas da Memória", de Joana Lopes, que nos deixou ontem e que interrompera as suas publicações a 17 de Janeiro, por doença...
Vou sentir falta da Mulher que oferecia provas, dia sim dia sim, de que a esquerda continuava viva, e que apesar dos avanços de uma direita agressiva e mentirosa, continua a ser o que faz mais sentido, pelo menos para quem acredita na Liberdade, na Igualdade e na Fraternidade.
(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)
No tempo das cheias cíclicas no distrito de Santarém, chegámos a falar disso em casa dos meus pais. Eu tinha muita dificuldade em perceber aquela gente, que ano após ano enfrentava os mesmos problemas, os mesmos dramas. Eles percebiam e desculpavam-nos com frases do género, "aquela é a sua terra, foi ali que sempre viveram..."
Passados todos estes anos, continuo sem perceber a localização de muitas casas (meto aqui também aquelas de gente que quer ter o mar só para elas...). Claro que não me estou a referir às cidades, como Alcácer do Sal ou Coruche. O normal sempre foi as localidades crescerem próximas de rios, devido à sua própria sobrevivência económica e social. Mas mesmo nestes lugares, há zonas ribeirinhas que são demasiado perigosas para serem utilizadas como espaços habitacionais.
Espero que estas alterações climáticas - é disso que se trata, por muito que se assobie para o ar -, façam toda a gente repensar o que se tem feito ao longo dos anos em relação às linhas de água e leitos de cheia (há rios que foram "condenados" a circular dentro das cidades em ribeiras artificiais, demasiado estreitas e curtas para invernos mais rigorosos...).
(Fotografia de Luís Eme - Seixal)
Eu estava ausente e assim continuei, embora ouvisse a conversa e me sentisse a espaços um privilegiado, por não ter ninguém da família que fosse actor de telenovelas ou vedeta dos "reality shows".
O "pseudo-drama" era um primo que não passava cartão à família, desde os pais aos avós, passando pelos primos e tios, mesmo não passando de um actor de terceira categoria, daqueles que fazem sempre o mesmo papel, a única coisa que muda é o nome da personagem. Parece que há dois ou três anos que não visita os pais, sem que existisse qualquer zanga...
Continuei em silêncio, mas senti que uma boa parte dos actores deviam ter uma existência estranha, não era por acaso que a sua profissão era ser "outras pessoas", passar o tempo a "mudar de vida", mesmo que isso acontecesse só na sua vidinha de ficção. Sabia que muitos, faziam quase tudo, para não ter de voltar a ser o "antoninho" da vida real...
Eu não era exemplo para ninguém, por gostar de ser "invísivel", mas estava farto de saber que o que há mais por aí, é gente que detesta a pessoa que encontram logo pela manhã, no lado de lá do espelho...
Ainda bem que não disse nada. O mais provável era dizerem que estava a "defender" o tal artista dos papeis menores, que tenta andar entretido nos teatros e nas televisões, para não ter de ser, o que não gosta de ser...
(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)
Ainda tive tempo de ouvir a miúda de cinco ou seis anos perguntar ao pai: «Ó pai vai chover o ano inteiro?»
Ele não disse nada. Estava entretido a abrir o chapéu e farto de chuva, como todos nós...
Pensei que a minha filha era mais de fazer perguntas que o meu filho. E sempre foi assim pela vida fora. Talvez seja essa a norma, as mulheres são mais curiosas e gostam mais de perguntar...
(Fotografia de Luís Eme - Almada)
Um dos barcos atracados preparava-se para partir e tinha o nome de "Jorge de Sena".
Isso fez com que começasse a pensar, em qual seria a reacção do escritor, ao saber que agora era "nome de barco", que andava a atravessar o Tejo, entre Lisboa e o Seixal...
E logo ele, que sempre fora um grande crítico do nosso país, que sempre se sentiu mal amado, e até injustiçado...
Em parte tinha razão, havia uma certa mediocridade intelectual, que não o podia ver à frente, mesmo que tentassem disfarçar...
Mas o mais curioso, foi achar que o Jorge de Sena era capaz de gostar...
(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)
Uma das pessoas que conheço natural de Leiria é a Isabel, que além do retrato indescritível que encontrou no terreno (até me falou do Japão dos terramotos, como termo de comparação...), também me falou do "aparecimento e desaparecimento" de Ventura, numa das zonas mais atingidas pela "Kristin". O jeitoso assim que foi visto pela população, rodeado pelos seus "muchachos", foi de tal forma insultado e vaiado, que desapareceu em segundos, sem que ninguém lhe pusesse mais a vista em cima. Estava acompanhado de pelo menos duas câmaras de televisão...
Como ela não viu nenhuma reportagem a mostrar estes enxovalhos (aconteceram pelo menos dois, que foram do seu conhecimento e quem o insultava não eram "ciganos"...), concluiu que há mesmo cumplicidade entre o Chega e as televisões.
Como eu esta semana tinha lido o artigo de opinião de Filipe Luís na "Visão" que também diz muito sobre a relação do senhor com a comunicação social, transcrevo-o com a devida vénia: «Se há alguém que não tem nenhuma razão de queixa dos jornalistas é o candidato apoiado pelo Chega. Pelo contrário: com sete dezenas de entrevistas, nos últimos cinco anos, em horário nobre, em todas as televisões, ele teve mais do dobro de tempo de antena de dois líderes, juntos, do PSD, um dos quais primeiro-ministro, e é o campeão político da nossa democracia em exposição mediática favorável, isto é, com presença constante, não apenas em entrevistas, mas também em declarações avulsas – nomeadamente, nos Passos Perdidos, no Parlamento – quase sempre em regime de “pé de microfone” (sem contraditório) com questionamentos “fofinhos” de entrevistadores que, muitas vezes, e sem cerimónia, em certos canais, trata publicamente por tu. Seguro ganhou a primeira volta, mas, três dias depois, era Ventura quem já tinha sido entrevistado três vezes, nas televisões. Duas conclusões: primeira, o “jornalixo” existe mesmo. Segunda, se Ventura é o que é, aos jornalistas o deve.»
Falar de cumplicidade, talvez seja ir longe demais, mas que há muito boa gente que escreve nos jornais e faz reportagens televisivas que está na profissão errada, está. Ou então não, sente-se bem, atolada no "jornalixo"...
(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)