Estávamos a falar das "cegueira ideológicas", quando apareceu a Laura.
Como de costume entrou muda e saiu calada.
Olhei-a e fiquei a pensar que devia ser o único daquela mesa de trabalho, que sabia das várias "questões ideológicas" que enfrentou desde muito cedo. Sim, teve logo na infância, a percepção de que alguma coisa estava errada no seu mundo. Ao contrário dos irmãos e dos primos, não percebia a razão de "ter tudo" e dos outros, que trabalhavam na quinta do avô, "não terem nada".
Também lhe custava não puder brincar com os filhos dos trabalhadores, e logo ela, que gostava tanto de correr e de saltar... Nem mesmo depois do 25 de Abril.
Como não viviam no Alentejo não enfrentaram o pesadelo das ocupações nem outra qualquer batalha laboral com os trabalhadores. Pelo contrário, ainda aumentaram o património, graças à desgraça alheia...
Já adolescente, foi "convocada" com o resto da família, para conhecer uma das novas propriedades da família. Fez-lhe muita confusão, ver o avô num dos pontos mais altos da herdade, de braços abertos, com um charuto no canto da boca, a dizer, quase num grito de felicidade, «Isto é tudo meu!»
Foi apenas a confirmação, de que aquele não era o seu mundo. Achou tão estranho perceber que o avô era incapaz de dizer: "Isto é tudo nosso"...
É muitas vezes olhada de desdém pela família. Alguns sobrinhos chamam-lhe a "tia comunista", mesmo que nunca tenha sido do PCP. Quando me contou mais esse episódio lembrei-me de ouvir um dos sobrinhos do Nuno (Teotónio Pereira), falar do mesmo modo, pouco orgulhoso de ter um "tio comunista"...
Se o avô da Laura ainda fosse vivo, era capaz de achar mais que graça, à "cambalhota" que estão a obrigar o mundo a dar...
(Fotografia de Luís Eme - Seixal)
Não sei se os senhores do latifúndio deixaram muitos descendentes como a Laura.
ResponderEliminarSou fã de José Saramago e acabei de ler Levantado do Chão, que me tinha ficado para trás.
Daí a minha referência aos senhores do latifúndio.
Abraço
Deixaram muito poucos, Rosa.
EliminarTambém gostei do "Levantado do Chão" do nosso Saramago. Há um ou outro livro de Alves Redol, que também nos mostra a dificuldade de alguns descendentes em lidarem com a injustiça e com a desigualdade, com os poderes das famílias...
A maior parte, prefere o conforto e o poder, que lhes garante o apelido e os trocos que ficaram...