Quem tenha uma visão "tecnocrata" do mundo, não percebe que alguém escreva apenas porque gosta, porque não concebe que se façam coisas sem se pensar em "cifrões", em ganhar dinheiro (dinheiro que se veja, nada dos tostões da literatura...).
Claro que não é nada que me preocupe. Nós somos o que somos (lá me estou a repetir...). Sei que há mais coisas que apenas o gostar. Às vezes penso que é uma maluquice, como a mania que tenho de falar sozinho (embora agora seja uma coisa quase vulgar, por causa dos telemóveis...). Outras vezes penso que é quase uma vicio como "tirar retratos" ao que no parece giro (eu sei que as fotografias têm a mania de fugir da realidade, mas isso faz parte do "jogo"...), é apanhar um papel a jeito e deixar umas palavras sobre o que aconteceu ou simplesmente sobre o que apareceu na cabeça. Claro que a maior parte destes papeis acabam no lixo (sei que me estou outra vez a repetir, mas o blogue também serve para isso, para escrever mais do mesmo...), porque mudamos de ideias mais rapidamente do que pensamos. Ou seja, escrever é muitas coisas, e também é a possibilidade de se poder ganhar um dinheirito extra (às vezes dá para uma viagens e para a ajuda das férias).
Mas se contasse isso aos tais homens do dinheiro, ainda me olhavam com mais espanto. a pensar que o país não evolui porque há demasiada gente a perder tempo com "tostões", com coisas que não servem para nada...
E agora vou passar a um exemplo concreto.
Aqui já há uns tempos, um conhecido, desempregado (deve ter ouvido a história do João Ricardo Pedro...), abeirou-se de mim e perguntou-me como é que funcionava o "negócio dos livros", a pensar que eu devia ganhar uma "pipa de massa", mesmo como "escritor da III divisão... Lá lhe estraguei o "sonho" de encontrar a "galinha dos ovos de ouro" através da escrita. Disse-lhe que só o Rodrigues dos Santos e mais meia dúzia de escritores é que ganhavam dinheiro com os livros. E muitos deles graças às traduções para outros países, como é o caso de Lobo Antunes.
A proliferação de editoras que vendem a ideia de que escrever um livro e ganhar dinheiro, é a coisa mais natural do mundo, deve ter influência no número de publicações diárias e nas pessoas que pensam que se pode ganhar dinheiro através da escrita. Embora na maior parte dos casos estes negócios se revelem ruinosos para os autores, que se ficam quase sempre pelo sonho de assistir ao feliz nascimento de um livro com o seu nome na capa.
Ou seja, eu penso que há mais gente que escreve para não perder dinheiro, que o contrário.
Se me perguntarem se gostava de vender muitos livros e ter muitos leitores, claro que digo que sim. Mas isso é outra coisa...
(Fotografia de Luís Eme)