quarta-feira, junho 15, 2016

O Tempo, Perturbado e Indeciso...

Se há alguém que anda ainda mais perturbado que nós, é o tempo...

Perturbado e indeciso. É esta a explicação mais fácil que encontro para narrar os abraços do sol e da chuva a meio de Junho.

Até porque sei que este "casamento" nunca será feliz nem duradouro.

Com a agravante de nos encher de pequenos problemas, que começam e acabam quando olhamos para a janela e para o guarda roupa, quase em simultâneo...

(Óleo de Stanislaw Kanocki)

terça-feira, junho 14, 2016

Uma Outra Existência, um Outro Eu...

Nunca se alimentou tanto a ilusão - não me apetece chamar-lhe mentira - como nestes tempos povoados de animação social (mesmo que seja só virtual...). Ou seja, nunca foi tão fácil viver outras vidas, inventarmos personagens. É como se o cinema tivesse descido da tela e passasse a fazer parte do nosso dia a dia, com um guião só nosso.

A culpa não é da proliferação de imagens, nestes tempos em que se fotografa e filma quase tudo, é mais da confusão social (e mental...) que se gerou ao tornarmos mais importante a apresentação de uma fotografia com um prato de lagosta ou  de qualquer destino exótico (mesmo que não passe do tal filme...), que da aldeia simples onde crescemos. Às vezes penso que voltaram a existir "testes" como os da adolescência, que nos poderiam dar acesso ao grupo dos "mais" de qualquer coisa.

Eu sei que a mentira parece ser muito melhor que a verdade (tantas vezes...), pelo menos quando de gordos passamos a elegantes e os nossos vulgares olhos castanhos passam a ter a tonalidade azul ou verde. Só que todos os dias temos de enfrentar o espelho, esse maldito, que nos diz que aquela fotografia que importámos da Estónia ou da Noruega, não passa de mais um engano. Claro que é só mais uma invenção, mas é a pior de todas, é aquela que nos levar levar a partir espelhos...

O mais ingrato de tudo isto, é que este não é o "mundo de aparências" de Sócrates versus Platão, é mais o do político-estudante na Cidade Luz...

Curiosamente não vejo muita gente a dizer: «Tirem-me deste filme!»

(Óleo de Raymond Parker)

segunda-feira, junho 13, 2016

«Quando foi que deixámos de falar?»


Um casal estava sentado frente a frente numa esplanada, quando o homem perguntou: «quando foi que deixámos de falar?». A mulher olhou-o meio espantada e sem dizer nada, voltou a baixar os olhos.

Estava ali ao lado escondido atrás da revista do "Expresso" e senti o peso daquele silêncio na atmosfera. Silêncio que não se voltou a quebrar, nem mesmo quando o homem se levantou para pagar a conta e desaparecer, sem que a mulher tirasse os olhos do telemóvel.

Não consegui perceber se eram casados ou apenas namorados, embora já tivessem ultrapassado os trinta anos. Embora isso nem fosse importante.

Fiquei a pensar que é um problema ficarmos cativos do silêncio, ficarmos cada vez mais palavras no bolso, aparentemente inúteis. Depois à medida que o tempo vai passando, sem se apercebermos, elas deixam de se soltar, é como se ficassem aprisionadas...

Talvez esteja mesmo a mudar a linguagem entre humanos. Talvez as pessoas deixem de comunicar verbalmente num futuro próximo. Talvez apenas o façam por mensagens, por muito estranho que nos pareça...

Por muito que isto me pareça uma espécie de "morte" nas relações humanas, tenho de dizer que já vi acontecerem coisas ainda mais estranhas nas últimas décadas.

(Fotografia de Luís Eme - Arte Urbana de Almada)

sábado, junho 11, 2016

A Dificuldade em Definir uma Excelente Fotografia


Para o autor há sempre alguma dificuldade em definir o que é uma excelente fotografia.

Podemos gostar de uma ou outra, acharmos que fogem do que consideramos normal, mas se tivermos um sentido estético bastante apurado, raramente surge uma que nos "enche as medidas".

Talvez seja por isso que em algumas exposições (quando nos é possível passarmos por gente anónima...), nos aproximamos para ouvir os comentários de quem está por ali a olhar.

Algumas vezes ouvimos coisas curiosas, como a referência a pormenores que nos tinham escapado. Outras elogios ao autor. Reparo que raramente se diz mal. Talvez exista algum pudor em fazê-lo. Talvez seja isso que querem dizer alguns silêncios... 

Talvez...

(Fotografia de Luís Eme)

sexta-feira, junho 10, 2016

Olá Portugal

Hoje é tal dia que é  muitos dias: Dia de Portugal; Dia das Comunidades; Dia de Camões; Dia da Raça (embora não saiba muito bem o que é isto, às vezes até me parece que nós portugueses somos uma espécie quase "rafeira", tal é a mistura e o banho de culturas que fomos recebendo ao longo de muitos séculos).

Curiosamente ou não, também já se vêm algumas bandeiras portuguesas nas varandas, não tanto por este dia, mas sim pela participação de Portugal no Europeu de futebol, que se realiza em França e começa já na próxima semana (para nós...).

Foi por isso que resolvi recuperar esta fotografia, que já tem uns anitos bons, quando Lisboa foi invadida por dezenas de vacas "artísticas"...

(Fotografia de Luís Eme)

quinta-feira, junho 09, 2016

O Vicio de Encantar das Mulheres

Nós homens somos muito menos distraídos do que o que deixamos transparecer. Embora só possa falar por mim, acho que isso acontece porque dá-nos sempre algum jeito andarmos mais à vontade, mesmo quando as situações pedem menos leveza.

Onde se nota mais isso é na forma de vestir. Mesmo em encontros informais as mulheres gostam de deslumbrar, de aparecer, além de bonitas, bem vestidas, como se fossem para uma festa. Embora nunca tenha falado a sério com elas sobre isso, acho que há ali um encanto juvenil, o querer regressar aos tempos da adolescência em que passavam horas a mais ao espelho. Imaginam qualquer coisa que sabem que não vai acontecer (porque não querem ou porque têm medo que possa mesmo acontecer...).

Porque é que digo isto? Porque há pouco tempo encontrei-me com uma amiga num lugar público (não nos devíamos ver há uns dois três anos, o tempo passa por nós sempre a correr...) e ela apareceu-me de vestido  e de sapatos altos (normalmente veste calças...). Disse-lhe que estava deslumbrante, acrescentando que me podia ter dito que de seguida íamos ao baile, pelo menos podia ter vestido um casaco e uma camisa mais formal.

Passando ao lado do aspecto visual, a conversa que tivemos foi completamente normal, não fui alvo de qualquer jogo de sedução. 

E o mais curioso, é que eu em vez de me mostrar agradecido por ela ter caprichado para o nosso encontro, estou aqui a escrever sobre o "vício de encantar" das mulheres...

(Fotografia de Georges Dambier)

quarta-feira, junho 08, 2016

O Vicio de Escrever e o Negócio da Escrita


Quem tenha uma visão "tecnocrata" do mundo, não percebe que alguém escreva apenas porque gosta, porque não concebe que se façam coisas sem se pensar em "cifrões", em ganhar dinheiro (dinheiro que se veja, nada dos tostões da literatura...).

Claro que não é nada que me preocupe. Nós somos o que somos (lá me estou a repetir...). Sei que há mais coisas que apenas o gostar. Às vezes penso que é uma maluquice, como a mania que tenho de falar sozinho (embora agora seja uma coisa quase vulgar, por causa dos telemóveis...). Outras vezes penso que é quase uma vicio como "tirar retratos" ao que no parece giro (eu sei que as fotografias têm a mania de fugir da realidade, mas isso faz parte do "jogo"...), é apanhar um papel a jeito e deixar umas palavras sobre o que aconteceu ou simplesmente sobre o que apareceu na cabeça. Claro que a maior parte destes papeis acabam no lixo (sei que me estou outra vez a repetir, mas o blogue também serve para isso, para escrever mais do mesmo...), porque mudamos de ideias mais rapidamente do que pensamos. Ou seja, escrever é muitas coisas, e também é a possibilidade de se poder ganhar um dinheirito extra (às vezes dá para uma viagens e para a ajuda das férias).

Mas se contasse isso aos tais homens do dinheiro, ainda me olhavam com mais espanto. a pensar que o país não evolui porque há demasiada gente a perder tempo com "tostões", com coisas que não servem para nada...

E agora vou passar a um exemplo concreto.

Aqui já há uns tempos, um conhecido, desempregado (deve ter ouvido a história do João Ricardo Pedro...), abeirou-se de mim e perguntou-me como é que funcionava o "negócio dos livros", a pensar que eu devia ganhar uma "pipa de massa", mesmo como "escritor da III divisão... Lá lhe estraguei o "sonho" de encontrar a "galinha dos ovos de ouro" através da escrita. Disse-lhe que só o Rodrigues dos Santos e mais meia dúzia de escritores é que ganhavam dinheiro com os livros. E muitos deles graças às traduções para outros países, como é o caso de Lobo Antunes.

A proliferação de editoras que vendem a ideia de que escrever um livro e ganhar dinheiro, é a coisa mais natural do mundo, deve ter influência no número de publicações diárias e nas pessoas que pensam que se pode ganhar dinheiro através da escrita. Embora na maior parte dos casos estes negócios se revelem ruinosos para os autores, que se ficam quase sempre pelo sonho de assistir ao feliz nascimento de um livro com o seu nome na capa.

Ou seja, eu penso que há mais gente que escreve para não perder dinheiro, que o contrário.

Se me perguntarem se gostava de vender muitos livros e ter muitos leitores, claro que digo que sim. Mas isso é outra coisa...

(Fotografia de Luís Eme)

terça-feira, junho 07, 2016

«Somos o que somos. Nem melhores nem piores que os outros, apenas diferentes»


Estava a conversar sobre escritores e editores antigos com um amigo e veio à baila o Luiz Pacheco e algumas das suas histórias mirabolantes. Confessei que foi uma personagem que nunca me despertou qualquer interesse em conhecer.

Quando disse isto reparei no seu ar de espanto. Expliquei-lhe que tenho dificuldade em lidar com pessoas que sobrevivem graças a "expedientes", que passam o tempo a servirem-se da sua esperteza para ludibriar os outros (que na maior parte das vezes fazem-se de parvos, por razões óbvias...), mesmo que isso aconteça por uma questão de sobrevivência e que sejam talentosos, como era o caso, etc.

Ele insistiu com a história do Pacheco ter vivido nas Caldas da Rainha, a minha "terra". E eu continuei a dizer-lhe que esse tempo foi péssimo para ele e para a família (foi quando lhe retiraram os filhos e ele escreveu a obra "O Caso das Criancinhas Desaparecidas"...).

Foi quando fui qualificado como moralista e mais algumas coisas que não dá muito jeito escrever.

E nem sequer falámos da sua vida pessoal, dos seus casos amorosos com irmãs ainda meninas. Ficámos-se pelos "vintes" que cravava a toda a gente conhecida com que se cruzava...

Talvez seja mesmo um "moralista". Mas somos o que somos. Nem melhores nem piores que os outros, apenas diferentes. Se os exemplos que recebemos em casa são completamente antagónicos destes estilos de vida, que agora até estão na moda, em que muita gente passa o tempo a tentar enganar o próximo, é mais difícil aceitar aquilo que para mim não passa de mais uma "deturpação social". Ou seja, algo que em vez de nos engrandecer, nos empobrece como pessoas. 

(E tens mesmo razão, sou muito mais moralista do que pensava, O escrever também nos ajuda a conhecermos-nos melhor, é mais um espelho...)

(Fotografia de Ann Mansolino)

segunda-feira, junho 06, 2016

Os Amigos e os Outros...


Ninguém precisa de amigos imparciais, por mais honestos que sejam. Aliás honestidade não é sinónimo de imparcialidade em nenhum dicionário.

Nem nós conseguimos ser imparciais, quando é um verdadeiro amigo que está em causa. Quando se é mesmo amigo, o valor da amizade ultrapassa outros, que aparentemente parecem mais importantes. Parecem mas não são. Pelo menos naquela hora.

Só quem não tem verdadeiros amigos, daqueles capazes de "ir à guerra" por nossa causa, é que não percebe isto que acabo de escrever.

Talvez tenha sido vítima de proteccionismo excessivo de alguns amigos mais velhos, na infância e na adolescência, que me ajudaram a crescer e a perceber que ser amigo é uma coisa para todas as horas.

E depois ainda tive a "pancada" de me oferecer voluntário para uma tropa especial, onde o espírito de corpo era uma coisa daquelas, que surgem em filmes de aventuras do género dos mosqueteiros, todos por um e um por todos. O mais engraçado é sentirmos naquela doidice dos vinte anos que as coisas funcionavam mesmo assim.

Tudo isto parece romantismo. Uma coisa antiga. Ou até coisa dos filmes. Até porque o serviço militar obrigatório acabou (pois é, nunca mais foi preciso aos jovens perceberem que sem os outros não valem nada...), como tantas outras coisas na nossa sociedade, que parece que assustavam alguns "meninos jotinhas" que hoje são governantes e deputados desta espécie de país.

Deve ser por isso que eu gosto tanto de ter amigos antigos...

(Fotografia de Roger Schaal)

domingo, junho 05, 2016

«Não vês que a tinta e o ferro fazem toda a diferença»

A leveza das roupas que usamos quando o calor aperta, alimentou a conversa de café que troquei com a Rita e a Cristina, uma colega dela que eu pensava que era mais de ouvir que de falar. Acabei por descobrir que afinal também  "parte uns pratos" de vez em quando.

Mais calor é sinónimo de mais cor e também de mais vestidos, mais alças, mais mini saias, mais pernas, mais decotes, mais sandálias...

Só nós é que dificilmente vamos para o trabalho de calções ou de sandálias. Temos muito menos escolhas no guarda-roupa...

Não sei se é por elas duas não conseguirem largar as calças - tal como os homens -, que cortam tanto nos decotes, nas saias e vestidos curtos, que "mostram tudo".

Claro que apenas sugerem, estão longe de mostrar tudo... acrescentei eu, sem as convencer.

Foi quando lhes disse que só à arte pública é permitida a nudez, que desde o século dezanove que as estátuas e os quadros nos ensinavam anatomia, e da boa...

A Rita com o seu sentido de humor apurado, respondeu-me logo à letra: «Não vês que a tinta e o ferro fazem toda a diferença.»

(Óleo de Henri Lebasque)

sexta-feira, junho 03, 2016

A Piscina do Isaque e dos Amigos

Hoje quando passava no Jardim do Almada, reparei em vários jovens que aproveitavam para se refrescar no tanque com repuxo, que fica junto aos paineis de azulejo de Manuel Cargaleiro.

A miudagem estava muito divertida, foi quando pedi ao Isaque (um míudo de cor que andou na primária com a minha filhota) se lhe podia tirar uma fotografia.

Ele acenou-me que sim, com o seu sorriso traquina, divertido a dar banho a um dos amigos...

(Fotografia de Luís Eme)

quarta-feira, junho 01, 2016

Grande Novidade...

Passei por um espaço de publicidade das culturas e fui quase obrigado a olhar nos dois cartazes com amor. O primeiro por razões óbvias, o segundo pelo lugar comum do título do filme, e também pela imagem, como se o amor entre dois homens fosse uma coisa do próximo século.

Basta passear pela blogosfera para perceber que "o amor é (mesmo) uma coisa estranha" (os outros lugares com redes, só conheço de nome...). 

Há quem escreva com relativa facilidade sobre as suas histórias povoadas de amores impossíveis, fazendo-o muitas vezes quase em forma de "folhetins". Esperam com relativa facilidade pelo quase impossível, embora também possa ser apenas uma "fantasia".

Também tenho escrito bastante (fora do blogue...) sobre a facilidade com que nos desentendemos e como extremamos posições, quase como se homens e mulheres tivessem vindo de planetas diferentes. Até por continuar a pensar que não somos assim tão diferentes.

E nem vou falar dos outros lados do amor, entre o absurdo, o surreal, que visitam algumas conversas decalcadas de jornais e revistas, cujos protagonistas parecem saídos de filmes "noir", embora sejam de carne e osso. São gente capaz de fazer tudo por amor, até matar, porque fingem entender o casamento como algo eterno, como se ensina na missa.

Por onde eu já vou, e apenas porque passei à hora errada  pela publicidade errada.

(Fotografia de Luís Eme)