terça-feira, dezembro 30, 2025

Segundo alguns livros, a humanidade não tem mesmo conserto...


Não sei se o Eça retratista da sociedade intemporal está a ficar fora de moda, ou se continua em grande. Sei apenas que há dezenas de livros do século passado que  retratam a actualidade com uma nitidez que até dói.

É essa nitidez que me leva a citar algumas palavras de Sidónio Muralha, da sua "Caminhada" repleta de vivências:

«Será possível uma operação plástica? Acaso ainda possuímos reservas de bom senso e de generosidade para salvarmos o que nos pode salvar, ou vamos cortar aos pedaços a corda que nos levaria ao outro lado do abismo para industrializarmos a forca e a introduzirmos com pagamentos facilitados, em todos os lares dos cinco continentes? Todos hesitam, quase ninguém ousa responder, e é nesse clima de permanente ameaça que os jovens amam, querem construir, mas o terreno é movediço, cantam a coragem entre quatro muros de medo, são confiantes mas se se sabem traídos protestam de toda e qualquer maneira, mas o eco responde com ressonâncias de tédio e como um céu de chumbo, uma estrangulada angústia vai lentamente descendo. É por essa razão, que pesa e magoa, que eles procuram refúgios inusitados que os mais velhos, se de facto envelheceram, não aceitam e não compreendem. Mas seria idiota que eles esperassem compreensão de quem lhes deixou uma herança de mil alqueires de insegurança e ódio, toneladas de problemas, um laboratório macabro com frascos sujos rotulados meticulosamente - guerra - tráfico de armas - fome - entorpecentes - mortalidade infantil - racismo - detestai-vos uns aos outros.»

Ninguém diria que este texto foi escrito em Dezembro de 1971... Pode facilmente ser transportado para 2025.

(Fotografia de Luís Eme - Algés)


segunda-feira, dezembro 29, 2025

Regresso com a poesia e os livros do Sidónio...


Os primeiros contactos que tive com Sidónio Muralha foi através de uma amiga, que aproveitava todos os momentos de poesia, para o declamar (sim, declamava, não lia...), a Ofélia.

Pela força das suas palavras, percebia-se que era um poeta da resistência.

Acabei por ler dois livros de poesia da sua autoria e fiquei com a certeza de que ele teria sido um "homem político" (um resistente, perseguido e preso,  provavelmente ligado ao PCP...) dos tempos do neo-realismo, mas sem nunca ter tido a curiosidade de saber quem foi realmente o Sidónio.

Foi a leitura de "Caminhada - livro de vivências", que fez com que percebesse que o Sidónio Muralha foi um cidadão do mundo. Esta obra é uma espécie de diário com múltiplas entradas escritas em São Paulo, Rio de Janeiro, Lages, Londrina, Curitiba, Bruxelas, Farim (Guiné), Stanleyville (Congo), Dakar, e claro, Lisboa, entre outros lugares. Fala de tudo menos de poesia. Isso fez-me perceber que havia uma outra vida, para lá da poesia...

Foi por isso que acabei por pesquisar mais algumas coisas e descobrir que Sidónio tinha partido para o exílio em 1943 (estava a ser perseguido politicamente...) e que foi um quadro superior da Unilever, o que o levou a trabalhar em vários países africanos, acabando por se radicar nos anos 1960 no Brasil, onde viria a falecer em 1982.

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


quarta-feira, dezembro 24, 2025

Porque é Natal...


Porque é Natal…
 
Esta quadra festiva é de muitas coisas,
quase todas de apenas um só dia.
sejam elas a solidariedade
(que nunca se gasta, pelo menos nos discursos…)
seja a própria reflexão “cristã”
(que muitos católicos querem que seja só deles…)
sobre este tempo que hoje nos divide mais do que nos aproxima.
 
Todos nós caímos na “esparrela”
porque o Natal continua longe de ser quando um “homem quer”…
e festeja-se num só dia do ano.
Parece-nos quase sempre pouco, mas é apenas isso, uma aparência…
é suficiente para juntarmos a família,
é suficiente para oferecermos presentes
é suficiente para nos sentirmos melhores pessoas…
 
E chega de conversa, senão ainda começo a usar as palavras
obrigatórias para se conseguir ser “miss mundo”…
 
Claro que vos desejo BOAS FESTAS,
Mas não limito os votos de SAÚDE, PAZ,
a um só dia, mas sim a todos os dias do ano.

Mas o que realmente todos precisamos
é de uma grande dose de paciência para conseguirmos
sobreviver a este tempo que contraria
os valores humanistas, que nos foram deixados pelo
verdadeiro causador do Natal, Jesus de Nazaré.
(mas até isso os Americanos nos roubaram, ao imporem-nos o gordo das barbas brancas, que se veste como se fosse do Benfica e tem umas renas voadoras que lhe puxam a carroça…)
 
(Fotografia de Luís Eme - Seixal)

 

terça-feira, dezembro 23, 2025

O normal deste tempo é discutir e insultar os outros sem razão...


Não é difícil fazermos a pergunta simples e óbvia destes tempos: «porque é que as pessoas estão tão parvas?»

Tanto pode acontecer numa fila, no interior de uma loja, num restaurante ou até numa passadeira, é a coisa mais fácil do mundo vermos alguém a deixar que lhe "salte a tampa". O normal deste tempo é que se discuta e insulte os outros sem se ter razão...

Estás numa fila numa caixa de multibanco, para levantares dinheiro.  Os minutos de espera parecem horas e o casal que está a levantar dinheiro não se despacha, há alguns desistentes e vais passando para a frente. Dez minutos depois o fulano deixa de usar a máquina mas tem o desplante de continuar no mesmo sítio a contar o dinheiro que levantou, sem se preocupar com a bicha que criara, já com mais de meia dúzia de pessoas.

Alguém lhe diz para se desviar da caixa, sem pedir por favor. O que lhe foram dizer...

Desvia-se mas vira-se, furioso, para as pessoas que estão à espera. E nunca mais se calou (a mulher curiosamente desapareceu....). Disparou para todos os lados até para o senhor que estava atrás de mim, que com o ar mais calmo do mundo lhe disse: «Desculpe, mas o senhor não tem razão.»

Isso é que era bom, ele não ter razão!

Ainda disse que estava o tempo que quisesse na máquina. Foi quando uma senhora sexagenária o aconselhou a comprar uma máquina e colocá-la lá em casa, sem perder a compostura...

Deve ter ficado a pensar na possibilidade e afastou-se, mas sem se calar.

O poeta Eduardo dizia que isto estava tudo ligado. E é verdade. Deve existir um dedo do Trump e do Ventura em toda esta irracionalidade...

(Fotografia de Luís Eme - Beira Baixa)


segunda-feira, dezembro 22, 2025

Hoje é um daqueles dias em que se pode dizer que a democracia funcionou...


Hoje é um daqueles dias, em que podemos dizer que a democracia funcionou no nosso país.

Viver em democracia será tudo, menos "fazermos o que nos dá na real gana", sem nos preocuparmos em respeitar os outros, apenas porque são diferentes de nós

E não é a existência de um partido formado por gente ordinária e com "alma de bufos", que se pode andar por aí, a apontar dedos aos outros, dentro e fora de cartazes, que procuram discriminar, neste caso particular, os ciganos.

E não venham com histórias sobre liberdade de expressão. Não há nenhum dicionário que indique que a palavra liberdade é sinónimo de libertinagem...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


sexta-feira, dezembro 19, 2025

Quando a meritocracia é usada como música de serrote...


É engraçado - sem ter graça nenhuma claro - o que algumas pessoas pensam da meritocracia, principalmente aquelas que se aconchegam mais para o lado direito da política.

O problema é quando a boca lhes foge para a verdade e temos de lhes dizer pra consultarem um dicionário, para perceberem qual é o verdadeiro significado da palavra "mérito".

Eu sei que o "homem cor de laranja" está a querer mudar tudo na América, com uma grande vontade em regressar ao velho Oeste e à lei do mais forte. O que me faz confusão é ver tanto europeu a defender o seu mundo, ou seja, uma sociedade sem princípios, onde tudo é possível, desde que tenhas dinheiro e poder.

Toda esta prosa porque encontrei um rapaz que em tempos trabalhou comigo, com quem acabei por beber um café e meter a conversa em dia.

Se soubesse o que esperava, tinha alegado "pressa" para um encontro qualquer, importante, e limitava o nosso convívio a um café e desejos de boas festas. Mal nos sentámos, veio logo com a "lengalenga" do costume contra os estrangeiros, apenas porque aquele lugar só tinha funcionários das terras por onde andámos a navegar nos séculos XV e XVI.

A conversa avançou logo para os nossos filhos (ele tem um rapaz mais velho um ano que a minha filha...). Estava chateado porque o filhote não conseguia arranjar um emprego de jeito e ganhava pouco mais que o ordenado mínimo e que a licenciatura que tirou de pouco lhe valia. Depois disse que os bons empregos deviam sempre em primeiro lugar para os portugueses, e só depois para os estrangeiros. 

Aquilo caiu-me tão mal. Esperava aquele conversa de muita gente, mas não daquele rapaz...

Percebi que estava na companhia de um "chegano". São contra a corrupção, contra uma sociedade pouco "meritória", mas quando toca às suas famílias, "venha a nós a santa corrupção e o compadrio" e que se lixe o mérito usado nos discursos. 

Claro que a conversa azedou. Ele ainda teve a lata de dizer, "continuas um comuna do caraças", como se isso fosse um "pecado mortal". 

Talvez por estarmos próximos do Natal, não lhe chamei fascista e ainda fui capaz de desejar boas festas a ele e à família...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


quinta-feira, dezembro 18, 2025

Um pai mais cuidadoso (e responsável), das tais "castas"...


O meu texto de ontem foi comentado na mesa de amigos, porque muitos deles sabem que só chegaram à universidade, graças ao 25 de Abril.

O Rui, de uma forma jocosa, até nos contou um episódio verídico (ele conhece a família e o dito veterinário ainda é vivo, embora já esteja reformado...).

Um pai, médico de província, com consultório montado, não conseguiu que nenhum dos seus três filhos seguisse medicina. Curiosamente, o único que queria seguir as pisadas do pai, já a pensar no negócio e na clientela do consultório, foi barrado pelo pai. 

Era tão burro, que até o próprio pai tinha consciência que poderia ser um "perigo público" para os doentes. Perante este cenário, a única saída profissional que lhe calhou, foi a veterinária. Continuava a ser o "senhor doutor", mas agora, de "burros como ele".

Como devem calcular, foi risada geral.

Como bons portugueses que somos, continuamos bons a rirmo-nos de tudo, até mesmo das coisas sérias...

(Fotografia de Luís Eme - Beira Baixa)


quarta-feira, dezembro 17, 2025

Será que depois da saúde e do trabalho, agora o alvo é a educação?


O ministro da Educação pode vir com as desculpas que quiser e dizer que foi mal interpretado. Mas as suas palavras não dão grande espaço para dúvidas.

Ele gostava que as residências de estudantes fossem para todos os estudantes e não apenas para os que o seu agregado familiar tem fracos rendimentos económicos.

Claro que graças, às "virtudes" da língua portuguesa, ele agora pode dizer que quando falou do estado em que ficam as residências universitárias dos "pobrezinhos", queria culpar o Estado, que nunca faz qualquer tipo de obra de manutenção ou beneficiação, e não os alunos...

Talvez não falte muito, para que se volte ao ensino de 24 de Abril de 1974, que estava reservado apenas para alguns (no secundário há cada vez mais divisões e balizas entre o ensino público e privado)...

Depois do que a AD tem feito com a saúde e com o mundo do trabalho, talvez agora esteja apostado em tornar a ensino superior, só para alguns, como aconteceu durante as ditaduras salazarista e marcelista. Nesse tempo o país era governado pelas "castas", ou seja, pela "meia-dúzia de famílias do costume", que tinham todas as portas abertas, inclusive as das universidades. Sim, até mesmo os seus filhos burros conseguiam chegar a doutores e engenheiros...

Talvez esta aliança cada vez menos democrática, queira acabar de vez com "a escadaria social" (no nosso país não se pode falar sequer em "elevador", continua a ser preciso ter "boas pernas", para não se desistir a meio das escadas...), que nos foi proporcionada pela Revolução de Abril (e não pelo tão aclamado 25 de Novembro, agarrado com as duas mãos pelos saudosistas do fascismo...).

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, dezembro 16, 2025

Demasiados candidatos a presidente com menos de metro e meio...


A sensação que eu tinha antes dos debates, era que estas eram as eleições presidenciais com candidatos mais fraquinhos, tanto à esquerda como à direita.

Com os debates televisivos, a minha opinião manteve-se.

Fico com a sensação que os melhores candidatos são aqueles que dificilmente irão à segunda volta, como são os casos de António Filipe ou Cotrim de Figueiredo...

Mas o pior mesmo é andar tudo maluco. Faz-me confusão que o candidato que anda a brincar aos presidentes (tal como Jorge Pinto e Catarina Martins...), apareça à frente nas sondagens e com forte possibilidade de ir à segunda volta.

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


segunda-feira, dezembro 15, 2025

As "percepções" e o uso e abuso da ignorância como armas políticas


Penso que nunca existiram governos tão mentirosos como estes dois últimos, chefiados por Montenegro. 

Desde os seus primeiros tempos que a AD governa segundo as percepções que mais lhe dão jeito, par reforçar a sua presença no Parlamento e ter cada vez mais poder governamental. É por isso que vai criando narrativas, que mesmo que não encaixem na realidade, deixam muitos portugueses na dúvida.

Apesar do caos que se vive na saúde (recordes de urgências fechadas e de tempos de espera, nas mesmas urgências; cada vez mais utentes sem médico de família, etc), Montenegro tem a lata de dizer a todos nós que as "coisas estão melhor" nos hospitais...

O mesmo se passa em relação aos imigrantes, em que tem aproveitado a "boleia" do Chega, para criar a percepção que as pessoas que chegam de fora, com tonalidades de cor diferentes das nossas, são uns bandidos, quando todos sabemos que a sua maioria trabalha e contribui para o equilíbrio da nossa Segurança Social. Mais uma vez, a realidade é um bastante diferente. Afinal parece que os verdadeiros bandidos são os portugueses que além de os tratarem como escravos, oferecem-lhes condições de habitabilidade indignas para qualquer ser humano.

Se ainda existe alguém com dúvidas desta prática política, a reação do primeiro-ministro e do "ministro da propaganda" em relação à Greve Geral, diz tudo sobre a forma como o governo olha para a realidade. Leitão Amaro foi mesmo capaz de falar de uma adesão entre os 0 e os 10%. Tentaram desvalorizar este movimento grevista, dizendo que só teve algum significado no sector público, que o resto da país não parou, esteve sempre a trabalhar...

Haverá centenas de exemplos pelo país fora que desmentem o governo. Mas basta falarmos da fábrica que é usada como o nosso grande "sucesso empresarial no mundo", a Auto-Europa. Apesar de praticamente ter parado a sua produção, foi ignorada tanto pelos ministros como por alguma comunicação social...

Infelizmente, as coisas têm tendência para piorar, pois a aposta continua a ser o uso e o abuso da ignorância das pessoas (à boa maneira salazarista), puxando-as cada vez mais para o que dizem as redes sociais e menos para o que se edita no verdadeiro jornalismo.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sábado, dezembro 13, 2025

Um "Patinho Feio" Campeão do Mundo...


Há muito tempo que não ouvia tantas vozes a questionarem a vitória num Campeonato Mundial de Fórmula Um, conquistado no passado domingo por Lando Norris.

Até parece que o seu carro andou sozinho nas pistas, que ele se limitou a ficar sentado no seu interior. Ou que,  tanto Oscar Piastri como Max Verstappen, resolveram estender-lhe a passadeira e oferecer-lhe o título de 2025.

Ao contrário de vários especialistas, gostei bastante que Lando fosse Campeão do Mundo. Sei que ele cometeu alguns erros, que só o prejudicaram, pois poderia ter sido coroado campeão antes da última prova. Mas isso deve-se sobretudo à sua juventude.

Esta semana até colocaram em causa a sua "sexualidade", mesmo que tenha como namorada, uma miúda gira, que por acaso é portuguesa...

Mas nestas coisas dos campeões, quando não se cai em graça, por muito que se tente ser engraçado, é sempre mais difícil chegar lá.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sexta-feira, dezembro 12, 2025

"O congresso de migalhas" do primeiro-ministro


Não posso deixar de citar o grande Alexandre O' Neill, que num dos seus textos (De um "Congresso de Migalhas") do seu livro, "Tempo de Fantasmas", podia muito bem estar a referir-se ao espertalhaço do nosso primeiro-ministro.

«Ao grande torneio mandibular que os nossos antepassados introduziram no seu sistema de sobrevivência, com o correr sempre indiferente dos anos, sucedeu este pequeno jogo de migalhas, migalhas de tudo, que ficará como a forma típica do convívio neste tempo.»

A lei laboral, é isso mesmo, um jogo, ainda com mais migalhas, para serem distribuídas para os mesmos de sempre.

É por isso que o "conde de monteverde" é capaz de dizer, sem se rir, que a greve foi pouco geral, de mão dada com o seu querido Amaro, que já se percebeu há muito, que é "pau para toda a obra".

Isso só quer dizer, que não podemos baixar os braços, muito menos aceitar que o nosso patronato, que sempre se esteve borrifando para o crescimento do país (gostam é de ter "bolsos cheios"...), tenha a vida ainda mais facilitada para explorar os seus "colaboradores".

Sim, há coisas que nunca mudam. Uma delas é a filosofia dos "patrões" portugueses.

 (Fotografia de Luís Eme - Cova da Piedade)


quinta-feira, dezembro 11, 2025

(Greve Geral)

 




terça-feira, dezembro 09, 2025

Não foi apenas o mau tempo no canal...


Não é a primeira vez que os funcionários da maior parte dos transportes públicos (comboio, cacilheiro e metro de superfície...) decidem fazer pequenos ensaios da greve geral (que apoio...), dois dias antes, com a supressão de horários e paragens em alguns estações, apenas porque sim. Ou então, estão com vontade de empatar (e chatear) as pessoas, obrigando-as a chegar fora de horas aos seus trabalhos.

Por não querer descer ao mesmo nível deles, digo apenas que se trata de uma grande falta de respeito por todos nós.

Até por que sei que isto não aconteceu por estar mau tempo no canal.

Talvez eles gostem de ter a maior parte das pessoas contra eles, mesmo as que também estão a pensar fazer greve no dia onze...

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


segunda-feira, dezembro 08, 2025

«Passei quase toda a vida a correr à frente e atrás dos homens»


Bastou a passagem de dois polícias pela rua para que todos os "comerciantes sem licença" pegassem nas trouxas e escapassem para outros lugares.

Poucos minutos depois uma mulher com mais de setenta anos de idade sentou-se na mesa ao lado da nossa e pediu um galão. Trazia consigo dois sacos grandes de plástico, cheios de camisas, meias, lençóis, etc. Percebia-se que pertencia ao grupo de vendedores sazonais que andavam a tentar aproveitar a onda dos presentes de Natal, que só passava pela baixa, uma vez por ano.

Pouco tempo depois apareceu outra, mulher mais jovem, que tanto podia ser filha, sobrinha ou simplesmente amiga ou vizinha. Também estava carregada com sacos de material para vender, a piscar o olho à boa vontade das pessoas com os preços baratos dos seus produtos. Um minuto depois apareceu um homem, que quase que apenas entrou e saiu. Deu um recado de ouvido, à mulher mais nova, que já dobrara os quarenta há uma meia dúzia de anos, que a deixou impaciente.

Foi quando começaram a falar das suas vidas, sem se preocuparem com quem estava à volta. Não era preciso ser muito esperto, para perceber que ambas tinham passado parte das suas vidas, nas ruas, em busca de clientes. A meio da conversa a mulher mais madura, aconselhou-a a mudar de homem, para não voltar a cair na armadilha das ruas.

Com a sabedoria dos seus cabelos brancos disse que os últimos anos tinham sido os mais felizes da sua vida e que o melhor que lhe acontecera, fora livrar-se dos homens.

Isto antes de me oferecer a melhor frase do dia, quando confessou: «Passei quase toda a vida a correr à frente e atrás dos homens. Chegou, já não tenho energia nem vontade para isso.»

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, dezembro 07, 2025

A "cegueira ideológica" dos liberais...


A cegueira ideológica está a atingir níveis impensáveis, tanto dos políticos que nos governam como de alguns jornaleiros, que inventam narrativas e um país que nunca existiu.

Quando li o que um sujeito chamado Ricardo S. Ferreira escreveu no Diário de Notícias, fiquei na dúvida de ele estava a querer enganar-nos, ou se estava a enganar-se a ele próprio. Provavelmente, era as duas coisas...

Quando alguém é capaz de escrever: «Quando o candidato presidencial comunista afirma, num debate, que o liberalismo são "ideias mofas do século XIX", o escândalo não é a sua mentira. Afinal, o comunismo vive da mentira, de reescrever a história. O escândalo é a tirada passar incólume. Mas isso tem uma explicação: nesta sociedade, quase todos os jornalistas inclusive, foram "educados" na mesma escola ideológica que ele.»

O que disse António Filipe, pouco me importa. O que me interessa é a parte final, quando este jornaleiro "explica" que quase todos os jornalistas foram "educados" na mesma escola ideológica que ele, ao ponto de falar da facilidade destes em recitar o "Manifesto Comunista". 

Sei que agora é normal mentir, com todos os dentes ou apenas com metade, na televisão, nos jornais, etc. Mas há limites (ou pelo menos devia haver...).

Em cinquenta anos de democracia, fomos governados apenas pelo PSD, PS e CDS, que não têm nada de socialistas. São eles que têm alimentado o famoso "polvo", que faz com que o líder do Chega, diga, à boca cheia, que temos vivido 50 anos de corrupção. Se nunca fizeram as reformas necessárias, foi por falta de competência técnica e por falta de vontade (o mais importante continua a ser ganhar eleições e não em tornar o nosso país mais competitivo e economicamente mais viável), nunca por questões ideológicas, muito menos "socialistas".

Esta governação social democrata reflectiu-se em praticamente tudo, desde a saúde à educação. Nunca existiram "ilhas" (os Açores e a Madeiras não contam nesta "aritmética").

Talvez o senhor Ferreira ache que tanto Mário Soares como António Guterres ou António Costa, são uns "perigosos marxistas" (não vale a pena colocar Cavaco Silva na equação embora este tenha sido primeiro-ministro durante dez anos)...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, dezembro 06, 2025

O verbo "indrominar" está cada vez mais na moda...


O verbo "indrominar" está cada vez mais na moda.

Primeiro foram os políticos, agora é a vez dos comentadores dos debates televisivos entre os candidatos a "marcelo", usarem esta palavra enganadora.

Adoram dar notas e fingir que são professores. E tal como estes, "chumbam" os rapazes e as raparigas com quem não "vão à bola".

E nós não devíamos ser tão inocentes. 

Claro que eles não foram, nem são, escolhidos ao acaso...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, dezembro 05, 2025

Este é "mundo" que está à espera de muitos de nós, depois da esquina...


Há sempre questões polémicas e estranhas para escrever, aqui no "Largo". Tinha prometido a mim mesmo não falar de política e de políticos, durante alguns dias, mas é quase impossível passar ao lado de alguns dramas, cada vez mais assustadores. 

Um dos problemas que se está a tornar cada vez mais visível é o quase desprezo com que se tratam as pessoas de mais idade. Ao ponto de já existir gente com mais de setenta anos, a dormir nas ruas. Muitos delas não conseguem suportar o aumento das rendas e sem filhos para as ajudarem, são forçadas a mudar de vida, entrando no "mundo dos indigentes"...

Quase em paralelo, existe outro problema, não menos grave, que atinge estas mesmas pessoas (e os seus familiares directos).

Estou a falar da falta de lares, de casas de repouso com cuidados continuados, com preços compatíveis com as reformas da maior parte das portugueses. É quase impossível alguém arranjar um lar, de um dia para o outro (a doença faz com que surjam situações imprevistas...), com um valor inferior a 1.500 euros. Ou seja, só uma pequena percentagem dos nossos reformados, tem possibilidade de pagar o alojamento numa casa de repouso ou lar de idosos com vagas.

Como tem acontecido nos últimos anos, em quase tudo (saúde, habitação, justiça, segurança social, etc), o Estado quase que se limita a assobiar parta o lado, usando a técnica de sempre, de fingir que se resolvem os problemas, sem que se resolva coisa nenhuma. Até que os problemas se agravam de tal forma (é o que está a acontecer na saúde e na habitação), que deixa de haver qualquer espaço para fugas... 

É esta falta de soluções que faz com que continuem a surgir, aqui e ali, lares ilegais, onde se usa e abusa quase sempre da fragilidade e da necessidade das pessoas. Como pagam menos que nas "casas de repouso", os seus donos acham-se no direito de as tratar de qualquer maneira, sem que lhes sejam garantidas as condições mínimas de conforto e dignidade.

É muito triste viveremos num país, em que se paga uma brutalidade de impostos, e que se percebe, diariamente, que as coisas em vez de melhorarem, estão cada vez piores.

E ainda é mais triste sermos velhos e sentirmo-nos completamente abandonados por toda a gente...

(Fotografia de Luís Eme - Sobreda)


quinta-feira, dezembro 04, 2025

Ser outra coisa, distante das "marias que vão com as outras"...


Olho para trás e sinto que esta coisa de querermos ser diferentes, começa logo na infância, com coisas tão simples, como a gastronomia, por exemplo. Não foi por acaso, que os primeiros problemas que tive de enfrentar foram na casa dos meus avós maternos, com uma coisa simples, a sopa.

Habituado à sopinha passada e cremosa da minha mãe, detestava a sopa liquida e com os legumes, completamente à solta, da avó. Em vez de ficar em silencio, como o meu irmão (que neste caso particular gostava mesmo da sopa da avó...), dizia que não gostava e recusava-me a comer...

Recordo-me que os adultos gostavam de me chamar "uma criança difícil", como se nestas idades a nossa missão fosse obedecer religiosamente a todos os adultos.

Cresci e continuei a gostar de pensar pela minha cabeça, de querer a ser eu a escolher o que gostava e queria fazer. Claro que a teimosia e espírito de contradição, fazem com que tenhamos de percorrer caminhos mais longos, apenas porque queremos e sentimos que aquele é que é "o nosso"...

Curiosamente, ou não, tenho a quem sair. Tal como o meu pai, sempre gostei e quis ser "eu". 

Claro que além das rosas, também tive de agarrar alguns espinhos, porque o mundo que nos rodeia não gosta muito de quem não tem vocação para  vestir a pele de "carneiro" ou ser uma "maria que vai com as outras"...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


terça-feira, dezembro 02, 2025

Os filhos não nos tornam melhores pessoas. Tornam-nos sim, pessoas diferentes...


Sei que os filhos não nos tornam melhores pessoas. Tornam-nos, sim, pessoas diferentes...

Pensei nisto depois de conversar com a minha filha sobre a vida, sobre quem nós somos, sobre tudo aquilo que nos une e nos separa. 

Não foi difícil concluir que ter filhos dá-nos uma outra perspectiva, um outro olhar sobre esta coisa que é viver em sociedade. 

Provavelmente também nos tornamos mais frágeis e inseguros. Isso deve acontecer porque temos consciência, de que erramos mais vezes. 

Õ mais curioso, é nunca nos conseguimos livrar dessa sensação. É como se estivéssemos num processo de aprendizagem permanente. 

Talvez seja por isso que há muita gente que não quer ter filhos. Não quer passar a "vida na escola"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, dezembro 01, 2025

«Somos tantos...»


Ela não estava na fila para as escolhas de mais um desses concursos televisivos, em que se percebe que  existe tanta gente que sabe cantar e devia fazer corar de vergonha esses fulanos (as) que em sociedade com as televisões e com os programadores, enchem os fins de semana de música parola. Mas podia estar...

Deu-me vontade rir, ouvi-la dizer, "somos tantos...»

Até porque não estava ninguém à nossa volta.

Embora eu estivesse farto de saber que o mundo não começava e acabava ali, que as multidões estão sempre ao virar da esquina...

Só não percebi se ela estava a querer desistir, antes de conseguir ser qualquer coisa, ou se queria ir à luta e estava ali, a querer ganhar balanço.

Depois disse-me que estava com receio. Questionei-a sem palavras, apenas com o olhar.

E ela levantou-se do chão, mostrou-me um sorriso enigmático, para me contar o seu dilema: «Às tantas começamos a querer muito ser isto e aquilo, perdemos o medo e começamos a andar em frente, sem receio de pisar os outros que já estão à espera de vez, sentados ou deitados...»

Podia dizer-lhe, "bem vinda à selva urbana", mas não ia adiantar muito. Até porque ela já encontrara pelo caminho várias espécies de "animais", capazes de se "transvestir" de leões, zebras, ursos, gazelas, macacos ou serpentes...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)