domingo, dezembro 04, 2011

Quando a Diferença não Faz Grande Diferença


O antigo futebolista brasileiro, Sócrates, deixou-nos hoje, com apenas 57 anos, vitima de uma intoxicação, que se tornou fatal devido ao seu passado de abuso do consumo de álcool.


Foi um jogador diferente, a par da sua carreira futebolista, formou-se em medicina, que penso nunca ter exercido, pois quando abandonou o futebol colocou a sua popularidade ao serviço da democracia e dos mais desfavorecidos, envolvendo-se no mundo da política brasileira.

Outro aspecto curioso, foi ter partido no dia em que o seu clube do coração, o Corinthians, se sagrou Pentacampeão Brasileiro.

Escolhi este título, porque Sócrates tinha tudo para não morrer desta forma, precocemente. Não foi um dos muitos futebolistas, que enquanto jogou, apenas pensou no presente (gastando boa parte do seu ordenado milionário em carros e mulheres velozes). Além da formação superior, era um exemplo de carácter e coragem, dentro e fora dos relvados.

sábado, dezembro 03, 2011

As Fotos de Família


Passei a pente fino os três envelopes de fotografias e não encontrei uma única sem pessoas.


Uma amiga herdara-as dos avós e nunca lhes mexera, confessou-me que lhe fazia mal ver todas aquelas pessoas que conhecera e que já não estavam cá. Mantinha-as na mesma caixa de madeira, penso que de charutos, que lhe tinha sido entregue como herança.

Como sabia que eu gostava de fotografias e tinha interesse pela história local, emprestou-mas e deu-me carta verde para digitalizar as que quisesse.

Acabei por digitalizar meia-dúzia delas, apenas pela sua profundidade, pelo que se via por detrás das pessoas.

Para a maior parte das pessoas as máquinas fotográficas, apenas serviam para retratar gentes. Havia mesmo quem fosse periodicamente ao fotógrafo, tirar fotografias com outra qualidade e dimensão, para oferecer e também para ficarem registadas nos álbuns de família.

O óleo é de António Doughi.

quinta-feira, dezembro 01, 2011

Da Independência à Dependência


Hoje é um dia especial, por duas razões importantes: uma nacional, outra mundial.


Provavelmente foi o último Primeiro de Dezembro que comemorámos como feriado. Se já pouca gente liga ao dia da nossa Restauração, no já longínquo ano de 1640, em que nos conseguimos ver livres dos espanhóis, daqui para a frente ainda cairá mais no esquecimento.

Também se comemora o Dia Mundial da Luta Contra a Sida, a doença mais traiçoeira e cobarde do nosso tempo. Infelizmente ainda não se descobriu a cura, mas graças aos avanços da medicina, tem sido possível melhorar a qualidade de vida dos doentes, permitindo que tenham uma vida quase normal.

O preconceito também tem diminuido. A Sida deixou de ser a doença das minorias, para passar a ser a doença dos descuidados e distraídos...

O óleo é de Vijender Sharma.

quarta-feira, novembro 30, 2011

Quando a Realidade Finta a Ficção


O episódio de ontem, na qual o administrador da Caixa Geral de Depósitos foi vitima de "carjaking", quase que coincide com o argumento do filme do meu amigo, de quem vos falei na última "posta".


Ele criou uma situação em que à mesma hora são raptados um ministro, um banqueiro e um empresário, cópias quase fiéis daqueles que pensam ser "donos" do país, e a quem são pedidos milhões de resgate.

E tudo isto começou com um desafio colocado pela personagem principal, um professor desempregado, que se viu obrigado a viver de expedientes, próximos do mundo da criminalidade. Duas semanas foram suficientes para se adaptar e sentir algum gozo nas brincadeiras do gato e do rato, com as polícias. Como ele sempre achou miseráveis os assaltos a velhinhas e a pequenos comerciantes de bairro, começou a questionar os bandidos de segunda e terceira que vai conhecendo, perguntando-lhes porque arriscam tanto por apenas umas dezenas ou centenas de euros, em de vez de correrem atrás dos milhões.

Atónicos e irritados de início, acabam a dar razão ao professor, que também começa a dar aulas a quem vive do lado de fora da lei.

Depois deste exemplo verídico, em que a realidade resolve fintar a ficção, é caso para dizer: «quem tem dinheiro no nosso país que se cuide, ou arranje uma dúzia de guarda-costas».

O óleo é de Mery Sales.

terça-feira, novembro 29, 2011

O Filme da Tua Vida


Encontrámos-nos na Baixa, ocasionalmente, depois de nos olharmos percebemos que éramos mesmo nós. Trocámos sorrisos e um abraço forte, que soube bem por tudo, até para esquecermos o frio do meio da tarde. Depois agarraste-me o braço e levaste-me para dentro de um café, onde ficámos na conversa mais de duas horas (cancelei uma reunião de trabalho por telemóvel, apenas com a desculpa que tinha encontrado um amigo e estava no "Nicola" a matar saudades, sem falar de doenças, filhos, filas, avarias, etc, as desculpas que costumo receber...).


Estavas mais magro e também mais calmo.

Falámos de quase tudo, de política, de futebol - nem o "galinheiro" da Luz escapou...-, de música, de livros, de filmes, e de nós claro. Quiseste saber coisas lá de casa, dos miúdos que estão quase grandes, da loura rebelde. Como sempre, falaste pouco de ti. Perguntei pela Clara, a tua fonte de preocupações. Não te alongaste muito, apenas lamentaste ter sido um péssimo pai, sempre entretido com a gente de fora, seguindo os maus exemplos do teu pai. Quando falas dele, continuas a resumir tudo a uma frase, «era um homem extraordinário». Esqueces que era um reaccionário, apaixonado pelo dinheiro e pelas mulheres dos outros. Agradeces que ele, ao contrário de tantos progenitores, nunca quisesse que fosses a sua cópia, preferia que fosses um artista, de qualquer coisa. Foi por isso que te pagou estudos, cursos, viagens, e até os primeiros filmes, que quase ninguém viu. Nem sequer estranhou que te tornasses comunista. Mas disse-te uma vez, que para os burgueses era muito fácil gostar de Marx ou de Lenine, mais difícil era ser pobre e comunista. Nunca o esqueceste, foi por isso que também nunca deixaste de ajudar aqueles que precisavam.

É também por isso que estás a realizar aquele que deve ser o teu último filme, demasiado autobiográfico, que pode ter vários títulos, até a banalidade que não está guardada apenas para os operários da Margem Sul, que nunca quiseram enriquecer nem se tornaram funcionários das autarquias da CDU, "Comunista Até ao Fim".

Não sabes se vais acabar o filme, nem tão pouco se isso será importante. Não compreendes este mundo, que parece sem rumo, «refém de gente corrupta que nada em dinheiro». Nem compreendes estes desempregados que não se revoltam contra os patrões nem contra o estado.

Contaste-me que no teu filme acontece precisamente o contrário, há um "robin dos bosques" urbano, que se torna bom a transformar ricos em pobres e pobres em ricos... Filme que tem ainda outro contra, não fala de princesas nem de príncipes.

Quando saímos do café já era noite. Antes de nos despedirmos no coração da cidade, com um novo abraço, combinámos almoçar em Cacilhas, um dia destes.

O óleo é de Brent Lynch.

domingo, novembro 27, 2011

Porque Hoje é Dia de Fados...

A Nossa Canção

O fado é uma mistura de amor,
Saudade, sonho e muita emoção,
Liberta o sentimento, a dor,
Que inunda as estradas da solidão.

É a canção dos saudosistas,
Da gente que parte, com e sem calma,
Que faz eco às vozes fadistas,
Que cantam o que lhes vai na alma...

Não conseguem esquecer o país
As gentes e os lugares amados.
Mesmo que naveguem num mar feliz,
Jamais esquecem os dias passados...

Deixam escapar uma lágrima de tristeza
Presos a um sonho quase encantado,
Enquanto cantam com beleza,
A Canção da nossa alma, o fado.

Poema escrito por mim, que faz parte do caderno de poemas, "Palavras ao Tejo".

sábado, novembro 26, 2011

O Essencial em Segundo Plano


Na última "posta" excedi-me em palavras e como deixei o essencial para o fim, nem todos os meus leitores lá chegaram.


É por essa razão que considero o comentário da Carol precioso, pois trouxe ao de cima uma "falsidade", que tem sido usada durante anos, à qual também dei relevo, propositadamente.

Quando a minha amiga falou que o pior pesadelo da vizinha eram as derrotas do Benfica, expliquei-lhe que se isso fosse verdade, a senhora só devia levar pancada meia dúzia de vezes por ano, porque o clube da Luz era o clube que mais vitórias alcançava nesse tempo, no nosso país.

Penso que é tão errado associar os bons chefes de família ao Benfica, como os agressores dos casos de violência doméstica. Deve-se associar sim, ao futebol, e a toda a alienação que provoca junto dos seus adeptos.

Muito triste é perceber que as pessoas têm uma vida tão pequena, que para se sentirem vencedores, têm de viver as vitórias e as derrotas dos seus clubes como se fossem suas, sejam elas do Benfica, do Sporting, do Porto ou do Cascalheira Futebol Clube. Infelizmente esta "cegueira" escolhe sempre inocentes como vitimas...

O óleo é de Luís de la Fuente.

sexta-feira, novembro 25, 2011

Quando Ser Benfiquista ou Sportinguista Acaba por Ser o Menos Importante...


Não estou aqui a falar do Benfica, por amanhã ser dia de "derby" na Luz, nem tão pouco por ter decidido ser benfiquista numa família de sportinguistas.


Até porque já devia ser adolescente quando soube o porquê do sportinguismo da minha mãe. A história sobre o sportinguismo do meu pai ainda é mais recente. Como nunca lhe perguntei, ele também nunca me contou essa e tantas outras coisas que ficaram por contar sobre a sua vida. Há pouco tempo tive uma conversa deliciosa com o meu tio Valentim, em que ele desfiou um bom novelo de memórias sobre a sua infância e juventude. Fiquei a saber muitas coisas sobre o meu pai, o seu irmão mais velho que o trouxe para a Capital e foi tão importante na sua vida. Foi também no decorrer desta conversa que soube a razão do seu sportinguismo.

O meu pai e os irmãos nasceram na Beira Baixa, numa das muitas aldeia perdidas do interior, distantes do "mundo". Um dia apareceu lá na aldeia um tio, que trazia nos bolsos uns cromos do Sporting da Covilhã, que estava nessa altura na primeira divisão (nos anos quarenta do século passado), e acabou por os oferecer aos sobrinhos. Aquelas imagens a cores foram uma autêntica novidade para quem nunca saíra dali e pouco sabia sobre futebol. A alegria deles foi tanta que nunca mais deixaram de gostar das camisas listradas a verde e branco do Sporting da Covilhã e do de Portugal.

A minha mãe antes de ser sportinguista, começou por ser anti-benfiquista, porque durante a passagem do Caldas pela primeira divisão (nos anos cinquenta...), numa das visitas do Benfica este ficou alojado no Hotel Lisbonense e os seus craques resolveram levar da Cidade uns "recuerdos" sem avisar a gerência, tais como talheres, toalhas, copos, etc. Na altura isto foi um escândalo local, e quem não gostava da equipa da Luz ainda ficou a gostar menos, como foi o caso da minha mãe.

A outra razão para não ser benfiquista é muito mais arrepiante e foi-me contada há mais de vinte anos por uma amiga, que por uma razão qualquer me explicou porque não gostava do Benfica.

Quando ainda não se falava de violência doméstica, era costume um vizinho agredir a mulher e os filhos, especialmente quando o Benfica perdia, mesmo na casa ao lado dela. Toda a vizinhança ouvia a gritaria, o barulho de coisas a partirem-se e os choros, ao qual se seguia sempre um silêncio sepulcral. Ela também chorava muitas vezes no seu quarto, de raiva, por ninguém entrar naquela casa e parar aquele animal. Tinha catorze anos quando se mudou para o centro da cidade e deixou de assistir a este espectáculo degradante, mas nunca o esqueceu. Nem nunca conseguiu perdoar ao Benfica, mesmo que fosse apenas um elemento secundário em toda a história.

Naturalmente, não deixei de ser benfiquista por estas duas histórias. Na época ainda utilizei um argumento para defender o Benfica, mas nada de muito relevante para a história. Importante é dizer que tenho muita vergonha de todos os cobardes que aproveitam as derrotas e as vitórias de um desporto qualquer - que devia ser apenas isso -, para deitarem fora a raiva e a frustração de uma vida falhada, no corpo de inocentes, que se calam tempo demais, quase sempre por amor...

A fotografia é de Maurice Tabard.

quarta-feira, novembro 23, 2011

Amanhã Faço Greve


Só tenho de estar solidário, especialmente com as pessoas com menos recursos da sociedade, que são sempre as mais atingidas pela "crise".

O desemprego está a destruir vidas e a provocar dramas impensáveis, perante a "cegueira" habitual dos patrões.

A imagem mostra-nos uma greve de varinas na Capital, em 1912.

Adenda: esqueci-me de registar o principal, estou frontalmente contra as medidas deste governo, completamente dominado pelos poderes economico e financeiro e preparado para privatizar tudo o que possa ser lucrativo para os amigos.

terça-feira, novembro 22, 2011

Histórias Absurdas


Às vezes penso que uma das coisas mais absurdas dessa coisa que chamamos amor, é sermos atraídos e apaixonarmos-nos por pessoas completamente diferentes de nós. As diferenças são quase daquelas que fazem "faísca", e mesmo assim, continuamos na nossa luta diária.


Sei que gostamos de desafios, mas isso não explica tudo...

Nem é preciso, embora nós tenhamos a mania de arranjar explicações para tudo.

O óleo é de Mark Keller.

segunda-feira, novembro 21, 2011

Fugir do Escuro


Não me apeteceu sorrir, porque não era uma piada.

A senhora com mais de setenta anos contou-nos que tinha medo do escuro. Depois de se tornar mulher, escondeu-o, primeiro do marido, depois dos filhos. Fingiu muitas vezes que a escuridão já não a assustava. Como quase todas as mulheres ficou viúva e voltou a sentir a solidão e o medo da infãncia. Hoje só consegue adormecer com o candeeiro da mesa de cabeceira aceso.


Foi por isso que confessou, que o pior que lhe podiam tirar, nestes tempos de crise, era a luz eléctrica. Olhámos uns para os outros, sem saber o que dizer.


Ninguém sorriu, bastava olharmos a senhora para percebermos que que não era nenhuma piada...


O óleo é de Peter Taylor Quidley.

domingo, novembro 20, 2011

A Coragem de Continuar a Fazer dos Domingos um Dia Diferente


A vida incaracteristica que enfrentamos nas cidades fez com os domingos perdessem a importância social que tiveram durante anos. É mais fácil a uma boa parte das pessoas ficar de pijama em casa, pelo menos até ao almoço, que levantarem-se antes do meio da manhã, tomarem um banho apetecido e vestir uma roupa diferente, especializada para os dias que não são dias.


É por isso que é de louvar a atitude dos país da Carolina, que ao domingo nunca ficam em casa. Ele não têm paciência para participar no culto católico e ouvir as palavras do padre da freguesia, mas espera a esposa à saída da igreja, umas vezes a pé, outras já com carro a brilhar, preparado para ir a qualquer lugar, escapando da vulgaridade dos dias.

Não há qualquer ironia nas minhas palavras, acho louvável a acção de todos aqueles que conseguem fazer dos domingos um dia diferente, por mais estranhos que possam parecer. O pai da Carolina, por exemplo, tem um hábito que com o decorrer do tempo fez com que fosse olhado de lado pela vizinhança e motivo de conversa do café mais próximo, porque é também ao domingo de manhã que pega no trompete e toca uns acordes, a reviver os tempos em que foi músico da filarmónica da Incrível.

Às vezes passo pela rua e ouço os seus solos entre o jazz e o blues, que se escapam pela janela. Não é nada desagradável, para mim claro, que estou a passar na rua...

Aliás, a única coisa que me irrita um pouco (aqui estou a favorecer a questão...) nestes amantes do domingo, é a sua capacidade de transformarem as estradas portuguesas em autênticas romarias, fazendo com que andar de carro ao fim de semana, seja uma aventura no mínimo surpreendente...

O óleo é de Ton Pinch.