sexta-feira, novembro 18, 2011

Não Sei Porquê...


Não sei porquê, mas sempre preferi fotografar lugares sem gente. É, sempre preferi os candeeiros às pessoas.


Em parte isso deve-se à minha falta de jeito para explorar a componente humana, sinto sempre que estão a mais na fotografia.

Por outro lado também tenho pouca paciência para ficar à espera do "passarinho". E a paciência é uma qualidade básica para se ser bom fotógrafo...

Esperar é mais que uma virtude para quem tira retratos, muitas vezes é o segredo de uma fotografia única. Tanto se pode ficar à espera do Sol, como da Sombra, ou até de um sorriso, ou de uma distracção.

Embora acredite muito no "click" de momento, sei que a sorte é uma coisa tramada, dá sempre um bocado de trabalho...

quinta-feira, novembro 17, 2011

E se Pela Boca Morre o Peixe?


Embora esteja ligado à literatura de várias maneiras, inclusive como criador, acho uma vergonha o que se está a fazer ao mundo das artes, a quem este governo está a retirar as poucas migalhas que tinham para sobreviver. Enquanto tira de um lado, deixa perceber que a literatura é a menina dos olhos deste governo, não fosse o secretário de estado escritor.


O aumento do IVA nos bilhetes para espectáculos de teatro, música ou cinema é um bom exemplo. A demissão de Diogo Infante do Teatro Nacional D. Maria II (depois de ter confrontado o governo numa entrevista dada ao "Expresso") é outro. Só nos livros tudo ficou igual.

Parece que a arte de talma está longe das preferências artísticas de Francisco José Viegas e o Joaquim Benite ainda vai mudar de opinião, em relação ao que disse há meses ao "I". É que há culturas e culturas...

Não é por acaso, que há milhares de anos que a vida nos ensina que «pela boca morre o peixe».

quarta-feira, novembro 16, 2011

«Esta gente já não se casa, vive junta.»


Fingia mais uma vez que lia o jornal porque era impossível passar ao lado da conversa das duas mulheres, que deviam rondar os sessenta anos e estavam sentadas à minha frente no cacilheiro.
Uma delas lastimava-se à amiga que agora ninguém se casava. Viviam juntos enquanto durava o amor, quando ele acabava, faziam as malas e voltavam para a casa dos pais, dos irmãos ou dos primos.

A outra concordou: «esta gente já não se casa, vive junta». E com um sorriso nos lábios, preso às nuvens que andavam às voltas lá fora, disse que há mais de vinte anos que não ia a um casamento. Depois falou da sua experiência pessoal, dos seus dois filhos que nunca que casaram. Um estava junto e outro ainda vivia lá por casa.


O mais curioso foi nenhuma delas defender os jovens, falar do desemprego, da dificuldade em alugar e comprar casa, dos obstáculos cada vez maiores para se formar uma família. Também nenhuma falou neste tempo que parece não ter espaço para chegar a netos...


Ficaram ambas a recordar os últimos casamentos onde estiveram presentes, para acabarem a falar dos seus, contando os pormenores decorativos dos seus vestido de noiva, brancos como mandava a boa tradição virginal...


Continuei a fingir que lia o jornal, rendido ao Cristiano Ronaldo e companheiros, que tinham goleado a Bósnia, que demonstrara dificuldades em jogar em relvados normais. Até que o cacilheiro chegou ao cais...


O óleo é de Juan Moreno Aguada.

segunda-feira, novembro 14, 2011

O Tempo, Curto e Longo...



Devia compreender mais o Carlos, por agora depois de velho, andar a passear o seu cão pela cidade. Sei que o passeio é apenas mais uma forma de ele lhe agradecer a companhia e a amizade, que tanto o ajudam a "enganar" a solidão.

De manhã explicou-me como o tempo pode ser estranho e diferente. Sete anos tanto podem parecer cem anos como estarem demasiado próximos, soarem a quase ontem. Sabe que nunca vai esquecer a companheira, que vai ser assim até ao fim.

O pior de tudo são mesmo as datas que estão gravadas no seu coração: a primeira vez que a viu, o casamento, e sobretudo o seu adeus, no fatídico dia 12 de Novembro...


Só tenho medo que ele à medida que se vá afeiçoando ao seu fiel amigo, vá desistindo das pessoas.


O óleo é de Chris Chapman.

sábado, novembro 12, 2011

Nunca vi Ministros tão Arrogantes, Burros e Teimosos


Embora gostasse que estes ministros estivessem certos, estou convencido que daqui a um ano estaremos numa situação económica pior que a dos nossos dias. Com a agravante de nesta caminhada de "certezas", além de nos terem subtraído os subsídios de férias e natal, destruíram o serviço nacional de saúde, deram cabo da rede de transportes públicos e privatizaram bens essenciais como a água.


A última descoberta destas "sapiências" foi acabar com o desconto de 50% para os passes das crianças, jovens e terceira idade. É uma medida de tal forma estúpida, que em termos práticos, acredito que o seu efeito deverá valer zero para as nossas finanças.

A única coisa que vão conseguir é limitar ainda mais as pessoas de idade, fazendo com que fiquem mais tempos sozinhas em casa, deixando de visitar amigos e familiares, porque para quem tem reformas baixas, uma coisa é pagar vinte cinco euros de passe, outra bem diferente é cinquenta.

É uma pena sermos governados por gente tão arrogante, burra e teimosa, por mais diplomas que tenham pendurados nas paredes.

A fotografia é de Robert Doisneau.

sexta-feira, novembro 11, 2011

São Martinho Histórico


Hoje temos um São Martinho histórico, não pelas castanhas assadas e a água pé, mas sim por esta trilogia dos onzes. Só daqui a um século é que voltaremos a ver o primeiro dos algarismos a ser repetido novamente seis vezes nos calendários.


E se estiverem no Rio, aproveitem para ver esta exposição, "Onze", com onze artistas como manda o figurino.

O Sol habitual deste dia alegre é que anda um pouco escondido (alías o tempo está mais as travessuras do S. Pedro que para os sorrisos do Sol), mas parece que não podemos ter tudo (nunca percebi porquê)...

quinta-feira, novembro 10, 2011

«Vou telefonar para a dona Júlia da SIC!»


Sei que a televisão pode ser quase tudo, por isso não devia estranhar o desabafo daquela senhora de idade na mercearia.


Raramente olho para os programas da manhã e da tarde, o que não me impede de saber que são um lugar onde se exploram cada vez mais as emoções humanas. Para terem matéria para os espectáculos que montam diariamente, os apresentadores lançam convites para quem tem histórias para contar, para aparecer por ali.

Talvez sejam estes convites que tenham a capacidade de transformar a televisão em algo mais importante que um objecto de divertimento, que parece querer funcionar como um "tribunal de justiça" ou uma agência de "cobradores de fraque".

A história da senhora acabou por se juntar à excitação vivida nos últimos dias na escola primária da minha filha, que tem como protagonista um miúdo, penso que autista (dos que foram integrados nas aulas normais para poupar uns euros ao Estado...), que usa a violência, como forma de comunicação. Segundo as histórias que correm nas redondezas é normal bater nos colegas (e até já bateu na professora). Só descobri esta história esta semana quando um grupo de pais ameaçou que ia fechar a escola a cadeado e que a SIC ia estar presente.

Percebi que devia encarar a afirmação da senhora na mercearia, que ia telefonar à dona Júlia da SIC, porque estava farta do deixa andar do senhorio, nada preocupado que lhe chovesse em casa, quase como na rua, com alguma normalidade.

Saí da loja a pensar que só num país estranho, que parece não ter ninguém interessado em resolver os problemas das pessoas, é que a televisão é encarada como uma alternativa mais válida que o recurso aos tribunais ou às forças de segurança...

O óleo é de Berbardien Sternhein.

terça-feira, novembro 08, 2011

Um Dia Para Esquecer


Hoje foi um dia para esquecer. Até a chuva apareceu, para ajudar a "festa".

Quem passou por engano nas estações ou rente ao cais, descobriu muito descontentamento, muitas palavras de ordem, sobretudo contra os funcionários das empresas de transportes fluviais e ferroviários.

As pessoas escolhem sempre os alvos mais fáceis, neste caso os operários, com as greves do costume, porque se sentem particularmente atingidas, pois pagam o passe social (que querem que deixe de ser para todos...) e sentem-se defraudadas. Esquecem por momentos os governantes que usam uma tesoura invisível para cortar "gorduras", que só é guardada quando chegam às suas mordomias e da família, com vários condutores privativos das viaturas que teoricamente são de todos nós. Teoricamente!

A única coisa que sei que ninguém têm dúvidas, é que vamo
s pagar mais e ficar pior servidos de transportes públicos.


Só não vamos descer de autocarro para burro, porque não há por aí "jericos" suficientes para tanta gente...

Mas talvez façamos o contrário da China, trocando o carro pela bicicleta...

O óleo é de Mao Yigang.

segunda-feira, novembro 07, 2011

Nascemos Velhos do Restelo


Olho para a nossa história e sinto que sempre foram mais os que ficaram no cais, que os que partiram nas caravelas. E não foi apenas uma questão de espaço...


Mesmo nos tempos salazarentos, eram mais os que ficavam, condenados à miséria, que aqueles que partiam à aventura para outros países, em busca do que não existia por cá: dinheiro para comprar pedaços de sonhos.

Nem mesmo durante a guerra colonial, se fugia do destino, que podia muito bem acabar além mar. Só uma minoria teve coragem para desertar.

Ainda hoje é assim. É por isso que digo que a maior parte de nós nasceu "velho do restelo".

Felizmente há sempre alguém que parte e tem sucesso, na senda de Vasco da Gama ou de José Mourinho.

Acho que nós, os que ficamos por cá, com o olhar preso ao cais, gostamos muito do chão que pisamos, mesmo quando o vento teima em soprar contra tudo aquilo que é razoável...

O óleo é de Anne Magil.

sábado, novembro 05, 2011

«Sou bom, tão bom, tão bom.»


Se há coisa que me irrita na televisão dos nossos dias, é a auto-promoção que se faz em todos os canais, que começou a ser explorada pela SIC (que ainda continua a ser a maior neste jogo de espelhos...), escandalosamente, desde que começou a entrar pelas nossas casas a dentro.


Não sei se há algum prémio extra para todos os jornalistas que alinham nestes jogos, que olham para a televisão como se estivessem ao espelho a convencerem-se que: «sou bom, tão bom, tão bom.»

Infelizmente esta mania foi passando para outros campos da nossa sociedade, onde é comum ouvirmos discursos ou entrevistas, que não passam de auto-elogios, quase sempre forçados e bacocos.

O nosso presidente da República também é bom nisso. Pelo menos que seja bom em alguma coisa, embora tenha muitas dúvidas de que consiga convencer algum espelho...

sexta-feira, novembro 04, 2011

O Quadro da Sala


O valor das obras de arte sempre foi, e continua a ser, relativo, porque há quadros que têm histórias demasiado fortes, para terem preço.


Era o que se passava com o quadro da sala da casa dos avós da Laura, que me deixava sempre por ali, preso, por alguns segundos, até ela me pegar no braço e dizer, «anda».

Ainda conheci a jovem que estava ali, sentada, no meio do campo, para todo o sempre, a matriarca da família, que nos preparava lanches deliciosos, no intervalo das brincadeiras.

Numa das últimas vezes que estive com a Laura, falei-lhe do quadro. Ela sorriu por eu ainda me lembrar do retrato da avó pintado por um jovem pintor, que nunca se tornou conhecido. Acabou por me dizer que agora estava pendurado na sua sala, depois de ter andado por várias paredes da casa dos pais. Convidou-me para uma visita, para me ver parado, a olhar para a avó, como fazia na infância. Prometeu que desta vez não me puxava o braço e dizia, »anda»...

O óleo é de Prudence Heward.

quarta-feira, novembro 02, 2011

Podia Ser um Filme...


Podia ser uma cena de filme, realizada por um europeu daqueles que gostam de dar voltas ao amor, que o preferem contar de uma forma distorcida, de maneira a que nada pareça bater certo.

Coisas do século passado, em que ainda existia teatro de revista e umas moçoilas boas que eram apelidadas de coristas. Normalmente eram mulheres desinibidas, habituadas a mostrar as melhores partes do corpo nos palcos, cantando e rindo, mas quase sem falas.

Havia um pouco de tudo, mulheres que já tinham ultrapassado os trinta e que viam os sonhos a fugir para longe. Sim, os sonhos de um dia serem as protagonistas de qualquer peça teatral, ou até de um filme. Apenas as jovens que rondavam os vinte anos e que pensavam ter forças para provar que eram mais que um corpo curvilíneo, continuavam a correr atrás dos sonhos.

Tu pertencias a este último grupo, notava-se que tinhas o mundo todo à frente.

Não sei se gostei logo de ti, ou se simplesmente fomos empurrados um para o outro, como costuma acontecer quando se juntam grupos de homens e mulheres, uns conhecidos outros nem por isso.

Sei apenas que é impossível esquecer o que vi no fim da noite, no lado escuro do quarto.

Era tão novo... nunca tinha visto uma mulher a despir-se com tanta naturalidade, sentada na única cadeira do quarto. Cantavas e sorrias de uma forma tão suave, ora olhando para mim, ora para dentro de ti.

E claro, também foste a primeira que vi usar um cinto de ligas.

O óleo é de Paul Laurenzi.