quarta-feira, maio 18, 2011

Não Querem Visitar o Museu do Chiado?


Claro que sabem que hoje é o Dia Internacional dos Museus.


É uma boa oportunidade para revisitarmos o nosso (ou os nossos...) museu preferido.

Se estivesse nas Caldas, de certeza que passava pelo Museu José Malhoa. Como estou em Almada, garanto-vos que vou passar pela Casa da Cerca.

A sugestão que vos dou - se por acaso estiverem por Lisboa -, é visitarem o Museu do Chiado, que tem duas belas exposições patentes ao público (visitei-as no domingo), uma de pintura e outra de fotografia.

Falo-vos de, "Arte Portuguesa do Século XIX", com alguns dos quadros mais belos da história da pintura portuguesa, da autoria de: Columbano Bordalo Pinheiro, José Malhoa, João Vaz, Cristino da Silva, Tomás da Anunciação, Silva Porto, Marques de Oliveira, Francisco Metrass, Alfredo Keil, Carlos Reis, Aurélia de Sousa, Henrique Pousão, etc.

A outra exposição também tem muita qualidade e é da autoria de Adelino Lyon de Castro, "O Fardo das Imagens (1945 - 1953)". Quem gosta da beleza do preto e branco não a deve perder.

E depois têm a esplanada do pequeno jardim, calma e agradável, onde contamos com a companhia de gente bonita, imortalizada pelo bronze...

terça-feira, maio 17, 2011

Conversa Sobre Cinema nos Fados


A noite era de fados, talvez por isso fosse mais agradável falar de cinema, para fugir daquele clima carregado de melancolia.


Ela conhecia tantos filmes como eu, mas tinha uma vantagem, memorizara frases de dezenas de fitas que misturava com as ideias e as imagens que saltavam para a mesa. Talvez fosse do exercício de decorar canções...

Tinha outra característica especial, era a única mulher que eu conhecia que cantava fado com um sorriso nos lábios. Cantava mais por prazer que por sentimento, era por isso que nunca seria uma fadista a sério, segundo os críticos.

E eu só queria que ela não mudasse, que continuasse a cantar com alegria e a discutir cinema como se falasse sobre futebol...

O óleo é de Ron Hickes.

segunda-feira, maio 16, 2011

Os Sonhos


Os sonhos são um dos maiores mistérios da nossa vida.


Raramente sabemos o que fazer com eles. Provavelmente é por isso que somos tentados a empurrá-los para a rua do esquecimento, tantas vezes. É nesse jogo do "empurra" que percebemos que os sonhos quase que têm vida própria, mostrando que se quiserem são mais teimosos e chatos que nós.

Mas estão longe de ser constantes.

Deve ser por isso que há quem decida viver dos sonhos, tal como há quem fuja deles a sete pés.

O pior de tudo é que uma boa parte dos sonhos são escorregadios, não se deixam agarrar com facilidade.

Mas o que seria de nós sem os sonhos?


O óleo é de Dária Palotti.

sábado, maio 14, 2011

«O Senhor é mesmo detective?»


«O senhor é mesmo detective?» A pergunta não o iludia nem desiludia, mas sabia que vinda de uma criança tinha de ter resposta. E uma criança muito curiosa, por isso é que andava por ali a espreitar, até que um dia conseguiu mesmo meter conversa com o "homem misterioso".


Respondeu-lhe que era várias coisas, detective também, mas clandestino, como todos os que trabalhavam no país.

Nada que interessasse ao rapaz, que queria saber outra coisa, graças aos filmes e livros que devorava: «Também tem um arma?» Disse que sim para não estragar o "filme" que já rodava na cabeça do miúdo que não devia ter mais de doze anos, apenas escondeu que raramente a usava. A mãe chamou-o do corredor e ele foi-se embora, despedindo-se com uma piscadela de olho e um tiro certeiro com os dedos da mão direita.

Sorriu e quando ficou sozinho, pensou como apareceu por ali.

Precisava de ganhar dinheiro e o que recebia nos jornais não chegava. Os biscates que fazia para um investigador foram apenas a ponte que o levou a trabalhar por conta própria, algum tempo depois.

Todos os libertários sonham um dia serem os próprios donos do seu destino, não terem um "amo" de quem recebem ordens. Ele para variar não fugia ao ideal.

Se pudesse escolher aceitava menos casos sobre "infidelidades", mas a lei do mercado não se compadecia com gostos ou vontades...

Uma das coisas que lhe dava algum gozo era ser olhado como um "inimigo" pelos polícias, especialmente os incompetentes.

Nunca esperou nem espera compreensão, muito menos agora que dobrou os cinquenta e vai para velho.


O óleo é de Miquel Bosh.

sexta-feira, maio 13, 2011

Uma Sexta-Feira Estranha, com 13


O bloguer tem andado desde ontem às "cambalhotas" e nem me deixou homenagear Manuel António Pina, que foi anunciado como vencedor do Prémio Camões 2011.


Ele disse numa entrevista ao "Público", entre outras coisas:

«A poesia é uma busca de identidade, ou seja da coincidência. Na busca dessa coincidência é natural que cada um de nós construa uma narrativa, construa um passado. Os poemas sobre a infância são uma tentativa desesperada de construir um passado para regressar, onde possa encostar a cabeça.»

É um grande poeta e um grande cronista (um critico sempre atento...) do quotidiano.

quarta-feira, maio 11, 2011

Ver o Tempo e a Mulher a Passar


Mesmo estando em divida com a beleza, a mulher passeava-se para lá e para cá, na paragem da estação, com desenvoltura, olhando de soslaio para os homens parados, provavelmente à descoberta dos olhos que a seguiam.


Incapaz de desmontar aquele seu "encantamento", lembrei-me de duas pessoas, do meu pai e de um professor de português, patético e mentiroso.

O professor, quase disfarçado de poeta, espalhava aos oito ventos (a sala de aula era um antigo pavilhão, daqueles bastante arejados, onde nem faltavam às aulas alguns animais rastejantes...), que as mulheres eram todas bonitas. Embora fossemos adolescentes, estávamos fartos de saber que as moedas tinhas duas faces, tal como as mulheres ou os homens...

O meu pai pelo contrário, foi bastante mais educativo, quando me ouviu dizer que a tia estava feia (nem sempre as roupas e a "tinta" tornam as mulheres deslumbrantes...). Disse-me que quando uma mulher está ou é bonita, devemos dizê-lo, até mesmo ao ouvido, quando está ou é feia, nunca se diz nada.

Aprendi a lição, nunca disse a nenhuma mulher que era feia...

O óleo é de Will Barnet.

terça-feira, maio 10, 2011

Ficar a Olhar o Mar


Quando olhei este quadro de Will Barnet recuei no tempo e lembrei-me do que acontecera, há uns vinte anos atrás, quando fui entrevistar o treinador da equipa de futebol da Vila, uma velha glória do Benfica.


A conversa ficara marcada para depois do jantar, no bar do hotel onde estava hospedado. E que conversa, foi de tal forma aberta e franca, que este ídolo sem pés de barro até me falou das vezes que jogou dopado...

Mas o que eu queria dizer, é que antes de jantar, passei rente à praia e vi várias mulheres de negro, em silêncio, com o olhar preso ao mar.

Passei sem que dessem por mim. Eram mulheres de várias idades; mães, esposas, filhas, irmãs, tudo gente presa aquele mar, que lhes furtara os homens que amavam...

segunda-feira, maio 09, 2011

Vendedores, Políticos, Jornalistas, Pescadores e Caçadores


Mentia diariamente porque achava que essa era uma das principais regras do seu ofício de vendedor. Como tantos, foi educado a vender "gato por lebre", e nunca conseguiu sair deste registo. O mais curioso era nunca ninguém estar à espera que dissesse a verdade, nem mesmo na mesa de café, no intervalo das "vendas".


Gabava-se que o único homem que conhecia capaz de lhe fazer sombra era o primeiro-ministro, que ainda por cima tinha a vantagem de ter nome de filósofo grego.

Adorava misturar gente à sua volta, sempre pronto para fazer números de circo, inclusive de contorcionismo.

Salientava sempre que os vendedores eram uns anjinhos à beira de políticos, jornalistas, pescadores e caçadores...

O óleo é de Pike Koch.

domingo, maio 08, 2011

"Coca" da Boa


Ontem ao fim da tarde fomos todos à Feira do Livro, e claro, fingimos que não estamos em crise e viemos carregados de livros.


Houve três livros que trouxe por situações imprevistas. O primeiro por ser de um amigo, estar como livro de dia e ser também a primeira vez que o vi à venda (trata-se de uma pequena editora...), o segundo por ser de um familiar e um livro que ainda não tinha...

E por último, o mais curioso e até engraçado. Junto à "Quetzal" havia uma fila enorme, de gente que queria um autógrafo com algumas palavras do Peixoto, mais preocupado a olhar para os livros, descobri a assistir aquele espectáculo, encostado ao "stand", o escritor J. Rentes de Carvalho. Reconheci-o mas não me lembrei do seu nome, naquele momento, perguntei onde estava "La Coca", trouxeram-me o livro e depois pedi-lhe um autógrafo e trocámos algumas palavras sobre a sua obra e até sobre o seu blogue. Até me perguntou se era transmontano, por demonstrar algum conhecimento sobre os seus livros. Disse que não, era um produto da Estremadura.

Extremamente simpático, disse que por ser um dia especial, ia dar-me um presente especial. Tirou o seu "sinete" redondo do bolso (uma espécie de selo branco) e carimbou o meu livro com "Romeiro sem Romaria, JRC (no centro)".

sábado, maio 07, 2011

Amesterdão, Cidade de Esperança


O aeroporto é sobretudo um espaço de passagem, de encontros e desencontros, e claro, muita paciência, porque os atrasos fazem parte do seu quotidiano.


Podemos ir para continentes diferentes e encontramos-nos por ali, à espera, quase prisioneiros de um destino. Por vezes uma atenção e um gesto simpático podem ser o mote para uma conversa, ou até mesmo o livro que temos na mão, companheiro fiel e silencioso para quase todas as horas.

Holanda era o destino daquela mulher jovem, ou seja a sua cidade maior, Amesterdão, lugar de tantas canções, filmes e romances...

Estranhei ela começar a tratar-me por tu. Raramente uso esse tratamento com pessoas desconhecidas, a não ser que se trate de alguém jovem, com idade para ser meu filho. E ela por acaso até podia ser minha filha. Provavelmente foi por isso entrei naquele tu cá tu lá, circunstancial.

Sem lhe perguntar quase nada, explicou-me que ia viver com uma irmã e tentar ficar no país das tulipas, depois do pai ter sido despedido e as coisas terem ficado péssimas em casa.

«Fingimos que está tudo bem, anos a fio. Sentimos-nos incapazes por nós próprios de acabar com uma relação ou simplesmente abandonar o conforto da casa dos nossos pais.

É sempre mais fácil partir quando nada te segura ou quando és empurrado para a rua.»

Ela tinha razão. As dificuldades ajudam-nos quase sempre a despertar para a vida, a dar um grito, arregaçar as mangas e partir para a luta.

Estou convencido que a entrada do FMI no nosso país vai fazer com isto suceda em muitos casos...

O óleo é de Luís Soler.

quinta-feira, maio 05, 2011

Reviver o Neo-Realismo e Alves Redol em Almada


No ano em que se comemora o centenário do nascimento de Alves Redol, a SCALA recebeu na "Tertúlia do Dragão" o seu filho, António Mota Redol, que além de nos trazer um filme biográfico de cinquenta minutos, onde é feito um excelente retrato do escritor ribatejano (o primeiro autor português a escrever uma obra literária da corrente neo-realista, "Gaibéus", em 1939), trouxe-nos a emoção e o orgulho de ser filho de um grande homem e de um grande escritor, muito mais multifacetado do que imaginava.
Além da sua acção politico-cultural (esteve preso em Caxias e viu algumas obras apreendidas pela PIDE), com uma grande ligação ao movimento associativo, fez teatro (no filme fala sobre esta paixão e sobre a escrita teatral) e escreveu argumentos para filmes ("Nazaré" e "Avieiros").

Quando soube que o Benfica perdeu em Braga e foi eliminado da Liga Europa, ainda fiquei mais satisfeito por passar o começo da noite no café "Dragão Vermelho", em Almada...

O óleo "As Abandonadas" é de Constantino Fernandes.

quarta-feira, maio 04, 2011

As Feiras do Livro em Lisboa


No domingo passei pelo Parque Eduardo VII e lá dei um giro pela Feira do Livro.


Ia comprar apenas uma revista, mas como costuma acontecer, vieram mais uns quantos livros colados, inclusive mais um "repetido".

Há de facto duas feiras, a da Leya e a dos outros. Embora a Babel (um túnel para friorentos...) e a Porto Editora (uma praça de livros, a que gostei mais...) também tenham criado espaços próprios, não me incomodam tanto como o hipermercado ambulante do maior grupo português. Talvez aquilo resulte em mais vendas, mas eu sempre que passo por aquela confusão acelero e passo e só volto ao ritmo de passeio depois de me sentir novamente na "Feira".

Não sei onde isto irá parar, mas caminha-se mesmo para duas feiras, a dos ricos e a dos remediados e pobres, aliás, bem à imagem do país, cada vez mais desigual...

Escolhi o óleo de William S. Hung, porque o livro consegue ser mais importante que o espaço onde se compra ou até onde se lê. E roupa nem sequer é preciso, se o tempo estiver agradável...