terça-feira, maio 14, 2013

Abril: Entre o Sonho e o Pesadelo


Abril parece cada vez mais um sonho, distante.
Às vezes penso que se está a transformar
numa  daquelas recordações infantis, 
que em alguns momentos duvidamos da sua existência.

É então que pergunto:
É assim tão difícil viver num regime verdadeiramente democrático,
onde todos temos deveres e direitos iguais?
Para mim não, mas para alguns nota-se que é um pesadelo.

Nunca percebi (nem vou perceber...),
porque razão "esses alguns" sonham ser donos de tudo,
porque gostam tanto de construir ilhas no meio da terra,
onde tem quase tudo e mesmo assim não vivem satisfeitos.

Pensar,
que é,
por causa dessa gente,
que Abril parece,
cada vez mais,
um sonho distante...

O óleo é de Alexei Antonov.

segunda-feira, maio 13, 2013

Gostar de Olhar para o "Mundo"


Quando gostamos de olhar para o mundo que nos rodeia, não precisamos de levar uma cadeira para a rua, como nos é sugerido pelo quadro de Andreas M. Wiese.

Aliás, penso que quanto mais discreto for o nosso olhar, mais longe ele consegue chegar.

Gosto muito de olhar com olhos de ver para tudo o que me rodeia. Os meus olhos deixam-se "prender" com  relativa facilidade, e nem sempre se agarram à beleza, essa palavras feminina. O insólito e o curioso também me chamam a atenção muitas vezes.

E também gosto de sentir que nunca vejo quase tudo. Tantas vezes que descubro uma janela ou um azulejo, "pela primeira vez", numa rua que já percorri vezes sem conta.

Acho que quem escreve ou filma, ainda sente mais necessidade de observar, de ver como os outros se comportam, muitas vezes até lhes dá "vida" como personagens...

domingo, maio 12, 2013

O Homem Certo no Lugar Certo


Jorge Jesus não é outro Mourinho, como um "filósofo" tem andado a apregoar pro aí, por razões que só ele conhece, mas é um bom treinador, provavelmente, o ideal para o Benfica, nestes tempos difíceis.

Não tem o melhor discurso, embora isso não seja coisa que lhe tire o sono nem o faça mudar de "dialéctica", pois "os pontapés na gramática" já são uma imagem de marca.

Ainda bem que não mede cada palavra que diz, é natural frente às câmaras, ao contrário de Paulo Bento ou Vitor Pereira, que já deviam ter tido umas "lições" para enfrentarem os jornalistas com mais naturalidade e fugirem do discurso monocórdio.

Mas o mais importante é percebermos que Jorge Jesus percebe realmente de futebol e é capaz de construir equipas e valorizar jogadores. O único senão é ser muito teimoso. Mas até aqui parece ter melhorado. Este ano, se perder o título, não foi devido a apostas erradas como as que fez com Roberto ou Emerson nas últimas duas épocas.

Como Benfiquista espero que o Paços Ferreira termine a época da melhor maneira, com uma vitória na última jornada em casa frente ao FCP, e que o Benfica vença o Moreirense, claro...

sábado, maio 11, 2013

A Falta de Imaginação é o Mal Menor


Podia falar dos administradores de empresas públicas (não lucrativas...), que continuam a receber ordenados superiores ao do presidente da república (sem esquecer  as suas mordomias: carro, cartão de crédito, despesas de representação, senhas de gasolina, etc);  dos deputados que além do vencimento, têm direito a despesas de representação e ajudas de custo para tudo e mais alguma coisa; do presidente da república que gasta quase o dobro da casa real espanhola; dos observatórios e institutos que se mantêm e cuja única finalidade é colocar "bois" (quer do PSD quer do PS); mas para quê?

Já todos percebemos que este governo vai continuar a insistir na mesma fórmula para reduzir a despesa do Estado: reduzir salários aos funcionários públicos e pensionistas. E despedir milhares de funcionários públicos (não pode despedir pensionistas, mas vai cortando-lhes o acesso à saúde e aos bens essenciais, para ver se "desaparecem" de vez da sua vista...).

Isto não revela apenas falta de imaginação, revela sobretudo incompetência e ódio à coisa pública e aos portugueses mais dependentes do Estado, como se estes fossem culpados dos "desmandos" desta gente (PSD e PS) que tem repartido o poder nos últimos 30 anos.

O que estranho é não existir uma reacção forte de todos os sindicatos da função pública, de em vez de fazerem greve por um dia, pararem os seus serviços durante uma semana, para que esta gente ordinária perceba que sem a função pública o país não existe.

O óleo é de Massimo Marano.

quinta-feira, maio 09, 2013

«Todos nós somos uma época».


As pessoas iam passando por nós, rente à nossa esplanada, onde fazíamos tempo para a reunião que tinha sido adiada por uma hora e comunicada cinco minutos antes do seu início...

Podíamos ter ficado chateados, mas não, foi uma oportunidade de metermos a conversa em dia, especialmente com a Rita, que está sempre a sair-se com "novas", não vivesse ela completamente focada no mundo que nos rodeia, ao ponto de ver coisas que mais ninguém vê.

Foi quase assim que nos mostrou as "diferenças" existentes nas pessoas que passavam, explicando-nos de seguida: «todos nós somos uma época qualquer. Onde isso se vê de uma forma mais nítida é na roupa que vestimos.»

Nunca tinha pensado nisso nem estava à espera da surpresa que ela preparou.

A partir desse momento a Rita começou a catalogar as pessoas por anos, pelo penteado, pela roupa, pelo andar, pelo calçado e até pelo olhar. Curiosamente passaram por nós mais pessoas "anos quarenta que sessenta ou setenta", talvez pela marca dramática que nos invadiu e que nos deixa cabisbaixos, com o ar que devemos alguma coisa a alguém.

Mas foi bom, há muito tempo que uma hora não tinha tão poucos minutos...

O óleo é de Charles Levier.

terça-feira, maio 07, 2013

«Não conheces Nova Iorque?»


Ela apanhou-me a meio de uma conversa e exclamou: «tu não conheces Nova Iorque?». Quem a ouvisse pensava que a cidade que gosta de fazer festas no céu, ficava logo ali, depois da esquina ou no outro lado do rio...

Eu sorri e disse-lhe que não, que ainda não conhecia Nova Iorque. Acrescentei que estava apenas à espera de uma "aberta".

Ela devolveu-me o sorriso e depois confidenciou-me: «lembrei-me de uma coisa estranhíssima, em hora de ponta, as pessoas andavam muito mais depressa que os carros, os passeios largos das avenidas pareciam auto-estradas.»

Sem deixar que eu a interrompesse contou-me mais uma coisa de Nova Iorque: «A única coisa que não gostei muito foi de olhar para cima. dava por mim a pensar na possibilidade daquele "cimento" todo me cair em cima.»

Continuámos a sorrir com cumplicidade e brindámos ao Tejo e a Lisboa que nos abraçavam, como se pudéssemos apanhar uma barca e desembarcar daí a nada na cidade maior das américas.

O óleo é de Jean Fredenucci.

segunda-feira, maio 06, 2013

A Moda e o Requinte do "Karaoke"...


Nunca fui uma "ave nocturna", mas então hoje, contam-se pelos dedos de uma mão as vezes que saio à noite para qualquer bar. A desculpa de não ter quem fique com os filhotes, é isso mesmo, uma desculpa.

Foi por isso que uma noite destas percebi que a moda do "karaoke" veio para ficar e continua a ser uma grande animadora de plateias.

As figuras deprimentes que vemos fazer nas audições do programa "Ídolos" são facilmente transportadas para alguns cafés e bares, onde alguns "artistas", pensam (ou querem pensar...) que as palmas e as gargalhadas que suscitam, se devem ao seu "jeito para a coisa" e não ao merecimento de um comentário do género, «não cantas um c...».

Descobri também que existem diferenças nos gostos musicais da clientela. Se estivermos num lugar onde os frequentadores se levam mais a sério, em vez  de cantarem Tony Carreira ou Quim Barreiros, oferecem-nos Sinatra, em grande estilo, pensam eles, claro...

O óleo é de Guy Lerat.

domingo, maio 05, 2013

Para Sempre


Para SemprePor que Deus permite 
que as mães vão-se embora? 
Mãe não tem limite, 
é tempo sem hora, 
luz que não apaga 
quando sopra o vento 
e chuva desaba, 
veludo escondido 
na pele enrugada, 
água pura, ar puro, 
puro pensamento. 
Morrer acontece 
com o que é breve e passa 
sem deixar vestígio. 
Mãe, na sua graça, 
é eternidade. 
Por que Deus se lembra 
— mistério profundo — 
de tirá-la um dia? 
Fosse eu Rei do Mundo, 
baixava uma lei: 
Mãe não morre nunca, 
mãe ficará sempre 
junto de seu filho 
e ele, velho embora, 
será pequenino 
feito grão de milho. 

Carlos Drummond de Andrade, in 'Lição de Coisas'
O óleo é de Jesus de Perceval.

sábado, maio 04, 2013

«Dê-me também dois maços de meias.»


Uma mulher pediu licença para entrar e disse logo ao que vinha, poisando no chão o saco que trazia à sacola. Devia rondar os quarenta e mostrou as meias que andava a vender pelas ruas e nos cafés onde a deixavam entrar, como foi o caso.

Vi nos seus olhos uma sinceridade que normalmente não se encontra nos vendedores disto e daquilo, talvez por ser genuinamente portuguesa, não ter qualquer traço de Bucareste ou Magrebe.

As mulheres quiseram ver a mercadoria e a conversa puxou ao desabafo sofrido, «perdi quase tudo, até a casa me levaram», mas sem lágrimas da mulher que se tentava afirmar pela coragem e não pelo desespero, «mas temos de fazer pela vida, todos os dias, mau mau é roubar, de resto...»

E eu ali sem saber o que fazer, até me deu vontade de fumar um cigarro, mesmo sem nunca ter sido fumador, para deitar a raiva misturada com o fumo, pelo "enterro" que estão a fazer ao nosso país.

Em vez do cigarro que não tinha, acrescentei: «dê-me também dois maços de meias.»

O óleo é de Sammy Charnine.

sexta-feira, maio 03, 2013

Esconder a Nudez com o Olhar


Às vezes, quando estou quase distraído, tento entrar pelos olhos das pessoas dentro. Sem pedir licença, claro.

Foi o que fiz hoje enquanto esperava na caixa do supermercado.

A menina que estava ali a despachar a freguesia sentiu a minha intromissão e tentou esconder tudo o que eu queria ver, dentro do seu olhar.

Pela forma como me olhou senti que era uma daquelas mulheres que tentam esconder a sua nudez com mantas, toalhas, lençóis, etc...

O óleo é de Mara Light.

quinta-feira, maio 02, 2013

Um Passeio de Bicicleta na Rua Vazia


A rua estava vazia e ela saiu de casa sem qualquer peça de roupa, pegou na bicicleta e foi dar uma volta ao que os homens costumavam chamar, "o bilhar grande".

Naquela tarde o Porto jogava na Antas e se ganhasse era campeão, um forte motivo para todo aquele povo organizar uma excursão e ir ao futebol, com um farnel do caraças.

Estava tão feliz a passear nuinha, em cima da bicicleta  que o ligeiro desconforto que sentiu no selim nos primeiros minutos, acabou por se tornar agradável.

Por muito que se esforçasse nunca iria perceber qual era a graça de correr atrás de uma bola, como se o mundo acabasse no momento seguinte, nem tão pouco a vontade quase irracional de vencer, de qualquer maneira, a qualquer preço...

O óleo é de Joop Moesman.

quarta-feira, maio 01, 2013

Quero Outro Maio


Neste quadro de Ileana Cerato:

há um cravo 
plantado no deserto
que escolhi para ilustrar
esta passagem de Abril a Maio

na cidade:

há pessoas na rua, livres,
há pessoas nas lojas, presas,
há pessoas sem eira nem beira,
porque que não as deixam trabalhar 
e pertencerem ao primeiro de Maio.

no país:

há uma coligação que espalha o medo, 
com mentiras, fantasmas e papões.
Está tão fora de prazo 
que cheira mal e governa pior.

como eu tenho saudades de Maio.