sábado, junho 04, 2011

«Gostas mesmo de farturas?»


A rua estava cheia de gente, uns a dançar, outros a apreciar o espectáculo, de pé ou sentados nas esplanadas improvisadas que enchiam a rua Capitão Leitão, perfumada com o cheiro da sardinha assada.


O hall do velho cinema da Incrível com a feira do livro, estava quase às moscas.

De vez enquanto lá entrava alguém, mais para ver que para comprar.

Foi o que aconteceu com aquela mãe e aquele filho, que devia ter oito, nove anos e ficou logo agarrado a um pequeno livro, de apenas um euro.

A mãe leu-lhe a cartilha num tom audível, «se levares o livro não te compro uma fartura, agora escolhe.» O miúdo ficou indeciso e sem dizer nada acabou por largar o livro e sair com a mãe.

Menos de um minuto depois ele voltou a entrar. Decidido pegou no livro e estendeu-me a mão com um euro. Antes de receber o dinheiro perguntei-lhe se gostava mesmo de farturas, disse-me que sim, meio pesaroso, provavelmente a pensar no sabor do frito doce. Como era noite de festa disse-lhe que podia levar o livro e ficar com a moeda para comprar a tal fartura.

Agradeceu-me e saiu dali com um sorriso de orelha a orelha.

Contra todas as previsões, parece que ainda há crianças que gostam de livros de papel...

O óleo é de Jan McDonald.

sexta-feira, junho 03, 2011

«Vinde a mim, pobrezinhos.»


Nunca esperei ver o partido mais conservador do nosso panorama político, o albergue natural das classes mais privilegiadas, "transvestir-se" no partido dos "pobrezinhos", hasteando em todos os comícios, a bandeira do Estado Social..


Mesmo sabendo que Portas é na actualidade o político mais hábil e mais experiente a lidar com o povo (a par de Jerónimo de Sousa, mas sem a genuinidade deste, claro...). Além de ser o rei dos abraços, beijinhos e apertos de mãos, não se esquiva a beber um copo de tinto ou a comer uma sardinha assada, mesmo que deteste os seus sabores e cheiros, falando sempre ao jeito dos seus contendores.

Mas estranho estranho, é ouvir gente que se diz de esquerda, dizer que vai votar no líder do CDS.

Há qualquer coisa que me está a escapar, de certeza.


Ou então sou eu que continuo com "memória de elefante" e não esqueço os submarinos, os sobreiros e as resmas de assessores "independentes" que vegetavam à sua volta, muitos dos quais andam por aqui na blogosfera...

A ilustração é do Rui, ainda dos tempos do "O Jornal"...

quarta-feira, junho 01, 2011

Um Dia Cheio de Nada


Apesar do dia ter sido cheio de pequenos nadas, ainda me sobrou algum tempo para brincar com os meus filhotes, tal como ontem e anteontem.

O óleo é de Shira Sela.

segunda-feira, maio 30, 2011

O Homem de Quatro Vidas

A vida dele parece um mistério.

Na mercearia, no café ou no cais, todos são capazes de lhe oferecer uma "vida", quase sempre perigosa e com um futuro pintado de escuro.

Veste-se sempre de uma forma desarrumada, como se a roupa tivesse alergia ao ferro de engomar. O curioso é que não cheira nada mal, até usa perfumes caros. Um contra senso, igual a tantos outros, capazes de encher os bolsos e a boca da vizinhança.

Dizem que fala quase uma dúzia de línguas, o que lhe dá uma aura que tanto pode ser de espião como de um traficante de qualquer coisa, que escapa à lei. A coisa piorou quando o viram falar com um fulano de turbante, quase que foram obrigados a ofereceram-lhe outra actividade: terrorista a soldo dos mouros.

Mais desconcertante só mesmo o homem de idade que quando se cruza com ele, tira o chapéu e o trata por doutor. Responde-lhe com um sorriso, sem se esquecer de dizer que não dá consultas na rua.

Os homens olham-no de lado, desconfiados do seu jeito para lidar com as mulheres e pintam-no como alguém próximo da família dos "gigolos". As mulheres de todas as idades, que ainda são capazes de sonhar com um "amor bandido", sorriem-lhe com gulodice quando passa e lhes oferece um bom dia ou boa tarde feliz.

A vida dele parece um mistério, apenas porque ninguém imagina que um dentista se vista de uma forma tão desarrumada...

A fotografia é de Jean Dieuzaide.

domingo, maio 29, 2011

Não há Bela sem Senão


Embora continue a escrever à maneira antiga (mais por preguiça que por outra coisa...), nunca me manifestei contra o novo acordo ortográfico, porque sempre pensei que era uma boa ideia simplificar algumas palavras do nosso Português.


Como acontece em todos os acordos, não é perfeito. Há várias palavras que me parecem infelizes, provavelmente não se devia ter ido tão longe, mas não há bela sem senão.

Não fiquei parado no nosso cantinho europeu, lembrei-me dos milhões de pessoas que falam português no Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Pensei que era bom continuarmos a ser uma língua universal.

E também me lembro que quando andava na escola primária fazia-me confusão dizer espetáculo e escrever espectáculo, tal como exatamente e exactamente. São muitos os exemplos. Claro que também há palavras que nos soam estranhas, fato é uma delas, e até o direto que aparece nas reportagens televisivas.

E se pensam de forma contrária, não tenham qualquer problema em deixar a vossa opinião.

O óleo é de Jurgen Geier.

sábado, maio 28, 2011

Virtudes Públicas, Vícios Privados

O poder, entre outras coisas, vai fazendo com que as pessoas percam a vergonha e pensem que tudo lhes é permitido.

É por isso que uma boa maior parte dos nossos autarcas, apegados ao poder (alguns desde 1976...), não passam de caciques, abertos a todo o tipo de negócios. Entre outras coisas fingem que é a coisa mais normal do mundo oferecerem empregos de chefia e gestão para os filhos, sobrinhos, ou até para as tias, mesmo que não possuam qualquer tipo de habilitações ou competência para os cargos, tal como fazer "negociatas" obscuras (quase sempre danosas para o erário público) com os mesmos. Com os ministros, secretários de estado e gestores públicos, as coisas não se passam de forma diferente.

Isto explica muito bem o estado a que o nosso país chegou, depois de se ter alimentado todo este "polvo" durante décadas.

E também faz com que se perceba que o administrador das Estradas de Portugal, dois meses depois de deixar a empresa, aceite ir trabalhar para uma empresa (Opway) accionista da Ascendi, que controla várias concessões de de auto-estradas e afins.

Claro que Almerindo Marques segue o exemplo de sumidades como Ferreira do Amaral ou Jorge Coelho.

Já que estes senhores não têm vergonha na cara, não é possível criar uma lei que os proíba de exercerem funções de gestão em empresas privadas, depois de exercerem cargos públicos de chefia nas mesmas áreas?

O Manuel António Pina explica muito bem a situação no "JN", transcrita na "Vida Breve", e agora por mim, com a devida vénia.

Como muito bem desenhou o Rui (em 1995, para a "Visão"), o "Sol" continua a brilhar para a gente do costume, pouco preocupada se as "nuvens estão cada vez mais negras" para a maior parte dos portugueses ...

sexta-feira, maio 27, 2011

«Posso entrar na vossa Revolução?»


Quando ouviram o velho, de boina basca na cabeça, camisa branca, calças de ganga e ténis, que se aproximara, perguntar: «posso entrar na vossa revolução?», pensaram que se tratava de uma brincadeira, de alguém já sem o tino todo.


Foi por isso que o olharam de alto a baixo, antes de lhe oferecerem um sim, mesmo sabendo que a vida estava bera para todos, especialmente para os jovens e para os idosos, uns desempregados e outros com reformas miseráveis.

O velho distribuiu-lhes um sorriso aberto e sem pedir licença sentou-se ao lado deles. E por ali ficou a assistir às conversas e a entrar na "revolução".

Cinco minutos foi tempo mais que suficiente para oferecer os melhores fascículos da sua vida, que já ultrapassara as oitenta primaveras, aos jovens ávidos de histórias libertárias.

Até pediu um cigarro emprestado, ele que deixara de fumar há mais de trinta anos. Olhou o céu azul e sorriu de felicidade. Há muito tempo que não se sentia assim, vivo e respeitado.

Percebeu que os jovens que cheiravam a operários, baptizados de mal educados e desordeiros por muito boa gente, escutavam-no e respeitavam-no mais que os seus filhos. Tratavam-no não como um velho mas como um companheiro com mais anos de vida.

Foi por isso que decidiu passar a noite por ali, com participação mais que garantida nas assembleias populares.

Pegou no telemóvel e ligou à filha. Disse que não ia dormir a casa, ficava em casa de amigos...

O óleo é de Francis Picabia.

quinta-feira, maio 26, 2011

Uma Tartaruga em Cima do Poste


Recebi um e-mail, daqueles que apetece partilhar por aqui. Pela graça, pela pertinência e pela actualidade. Ai vai:


«Enquanto suturava um ferimento na mão de um velho “almeida”, cortada por um caco de vidro indevidamente colocado no lixo, o médico e o paciente começaram a conversar sobre o país, o governo e, fatalmente, sobre o Sócrates.
O velhinho disse:
- Bom, o senhor sabe... o Sócrates é como uma tartaruga em cima do poste...
Sem saber o que o paciente quis dizer, o médico perguntou qual o significado da expressão "uma tartaruga em cima do poste". E o "almeida" respondeu:
- É quando o senhor vai indo por uma estradinha, vê um poste e tem lá em cima uma tartaruga a tentar se equilibrar, isso é uma tartaruga num poste.
Perante a cara de interrogação do médico, o velhinho acrescentou:
- Você não entende como ela chegou lá; você não acredita que ela esteja lá; você sabe que ela não subiu lá sozinha; você sabe que ela não deveria nem poderia lá estar; Você sabe que ela não vai fazer absolutamente nada enquanto estiver lá; Você não entende porque a colocaram lá.
O médico sorriu antes do "almeida" concluir:
- Então tudo o que temos de fazer é ajudá-la a descer de lá, e providenciar para que nunca mais suba, pois lá em cima não é o lugar dela, definitivamente.»

quarta-feira, maio 25, 2011

A Madrugada Também Chorou Naquele Dia Triste

Há muitos dias que não conseguia dormir mais que duas três horas por noite. Quem se cruzava com ela sentia que também estava a desaparecer, a deixar-se levar pela doença incurável do homem que amava.

Apesar da dor e mágoa, a vida obrigava-a a fingir que o mundo do outro lado da janela, continuava a sorrir todos os dias. Era por isso que todas as manhãs se colocava ao espelho, cobria as olheiras e dava alguma cor à sua palidez.

Antes de entrar no quarto ensaiava o seu melhor sorriso, tentando distribuir esperança onde já quase só voavam corvos.

Assim que os primeiros raios de luz apareceram naquela manhã, cresceu a vontade de partir daquele corpo e alma em sofrimento. Começou a ter dificuldade em respirar e tossiu várias vezes, ela levantou-se e quando entrou no quarto apenas teve tempo de receber o último sorriso do seu homem. Abraçou-o, levantou-o, abanou-o, mas não havia nada a fazer, chegara a sua hora...

Chorou copiosamente e quando se chegou à janela, reparou que também caíam fios de água lá fora, no romper da aurora.

Num abrir e fechar de olhos, passaram dez anos. Sobreviveu mas não esqueceu. Ainda chora, tal como a madrugada, em alguns começos de dia.

Não vai, nem quer, esquecer o único homem que amou e continua a amar. Sorri quando sente a sua presença de uma forma mais forte, em gestos simples, como um virar da cama, o colocar os talheres na mesa ou o escolher um livro para ler...

O óleo é de Pier Toffletti.

segunda-feira, maio 23, 2011

«Tu gostas mesmo de mulheres?»


Ainda hoje sorri quando se recorda da pergunta que lhe fizeram, por se escusar a ser ordinário para as mulheres que passavam na rua.


Sabia que gostar de mulheres não era sinónimo de dizer «comia-te toda» ou «dava-te três sem tirar fora», entre muitas outras palavras impublicáveis.

Não percebia aquele prazer (que felizmente só se deve manter em algumas obras de construção civil...), muito menos o do Alberto, que era capaz de dizer as coisas mais asquerosas aos ouvidos das mulheres, que se cruzavam com eles nos passeios das ruas lisboetas.

Era o tempo das mulheres sérias que fingiam não ter ouvidos. Se este "prazer" se mantivesse nos nossos dias, de certeza que haveria muita lambada distribuída, pois a mulher de hoje, séria ou não, tem o ouvido bem apurado.

Nunca foi capaz de ser ordinário para uma mulher. Quando gostava de uma mulher olhava-a com gulodice, mas sem palavras. Ninguém é perfeito.

O óleo é de Sally Storche.

sábado, maio 21, 2011

A Juventude Espanhola está na Rua


As praças espanholas estão cheias de jovens, que protestam contra o desemprego, a desigualdade social e um futuro sem perspectivas.


Foi por isso que deixei este comentário à Momo:

«Muitas vezes, mesmo sem se pegarem em armas, apenas com a solidariedade e companheirismo, fazem-se verdadeiras revoluções.
É preciso derrotar este capitalismo, cada vez mais selvagem, que está a dar cabo da vida de todos nós.»

Mas não creio que os protestos que se avizinham sejam todos pacíficos. Sei que a violência vai aumentar na nossa sociedade. Só não consigo entender que os "ladrões" continuem a preferir assaltar "velhinhos", em vez de assaltar banqueiros ou empresários milionários...

Escolhi esta escultura de Elise Seigel, porque o pior que podemos fazer é ficar sentados a aplaudir o que vem ai.

sexta-feira, maio 20, 2011

A Exposição nas Esplanadas


Normalmente não vou para a esplanada do meu café habitual, por duas razões, por não existirem mesas vagas e por os meus amigos de tertúlia preferirem quase sempre o interior do café, especialmente agora que está mais calmo e silencioso.


Uma das virtudes das esplanadas é estarmos mais perto do "mundo". É também por isso que que algumas se prestam mais à "exposição" e à "vida mundana", até por estarem localizadas em lugares demasiado centrais.

O curioso é verificar que se algumas pessoas fogem delas a sete pés, outras quase que se atropelam para ficarem nas suas mesas mais vistosas.

É quase como gostar do palco ou preferir um lugar nos bastidores...

O óleo é de Francisco Motto Portillo.