segunda-feira, abril 30, 2007

Conversas de Abril (III)


Uma das coisas mais bonitas da nossa Revolução foi a grande lição de democracia e civismo, dada por todos aqueles que foram vitimas da PIDE. Não vimos ninguém aos tiros, a vingar a vida do pai, da mãe, do filho, da filha, do irmão, da irmã, do avô, da tia ou do tio.
Todos acreditaram na possibilidade de se fazer justiça pelos canais legais, através dos tribunais. Muitos ficaram desiludidos, por assistirem à impunidade de muitos dos carniceiros, que os torturaram de todas as formas possíveis, algumas das quais, nem nos passam pela cabeça. A maior parte passou apenas meia dúzia de meses na prisão, depois voltaram a ser cidadãos livres, como se fosse possível apagar o seu passado vergonhoso, com uma borracha...
Mais grave foi assistirem, quase duas décadas depois, à condecoração de dois inspectores da PIDE ou DGS, pelo governo do professor Cavaco Silva.
Estas palavras são dedicadas, inteiramente, aos resistentes antifascistas, quase todos do PCP, que cumpriram dezenas de anos nos presídios do regime, sem baixarem os braços na luta pela liberdade e pelo sonho da construção de uma sociedade mais justa.
Eles nunca desistiram de sonhar nem de lutar, nem mesmo quando começaram a ser empurrados pelos oportunistas de verbo fácil, que apareceram, apostados em agarrar as cadeiras confortáveis do poder.

Quando penso em homens como Alberto de Araújo, Bento Gonçalves, Alex Dinis, Militão Ribeiro, Dias Coelho, Soeiro Pereira Gomes, Pedro Matos Filipe, Mário Castelhano, Jacinto Vilaça, Joaquim Montes, entre tantos outros, que deram a vida pela Liberdade, esqueço tantas histórias e sinto-me, profundamente, comunista...

A ilustração que acompanha este texto foi pintada por Rogério Ribeiro, para o livro "Até Amanhã Camaradas", romance de Manuel Tiago (Álvaro Cunhal).

Conversas de Abril (II)


Numa mesa de café, um amigo socialista, farto das conversas à volta dos diplomas e da licenciatura de Sócrates, perguntou aos presentes, o que aconteceria, se aparecesse nos jornais, que o deputado "fulano tal" do PSD (disse o nome e tudo...) tinha sido bufo da PIDE e que agora era um predominante democrata?...
Provavelmente ninguém levava isso a sério, nem mesmo o "24 Horas". Não iria passar de uma difamação, de uma beliscadura ao bom do nome do senhor.
Esta lembrança foi logo aproveitada pelo Rogério, para recordar um almadense (mais uma vez com nome...), que até ao dia 25 de Abril era um nacionalista convicto, com avença da PIDE como informador e que logo no dia 26 tornou-se um fervoroso comunista, daqueles que até sabem a letra toda do "Avante Camarada".
O senhor continuou a fazer a sua vida próxima de algumas colectividades, quase da mesma forma, passando de "bufo" a "controleiro", sem qualquer revolução.
Na mesa houve unanimidade num ponto: «os extremos acabam sempre por se tocar.»
Todos nós sabíamos que nos tempos de Liberdade, a disciplina, a autoridade, o controle, e até algum secretismo, só se encontravam no PCP.
Talvez o homenzinho, falho de carácter, nem estivesse assim tão errado. Como já estava habituado a fazer relatórios, fazia-os na mesma, embora com outro destinatário.
Quando eu perguntei se nunca ninguém o tinha denunciado, veio a resposta do costume: «As pessoas que sabem, inclusive comunistas, que foram prejudicados por ele, fingem que é mentira, os outros, mais ingénuos, acham impossível um "comunista a sério", ter passado pela PIDE.»

quinta-feira, abril 26, 2007

As Árvores da Minha Terra


As árvores da minha terra são os sobreiros, não os raquíticos sobreiros do Alentejo que até os naturais apoucam, chamando-lhes chaparros, mas árvores fortes, altas, imponentes que três homens, ou até mais, teriam dificuldade de abarcar. Conheço um a um cada sobreiro dos Pereiros e sei o ruído que o vento faz na sua copa no Inverno, quando criava o ambiente fantástico para as histórias da minha avó Rosalina.
Duram vidas e vidas, os sobreiros da minha terra, e o do Vale Frechoso já era adulto no tempo do meu avô.
Pelo solstício de Inverno, mandava a tradição que os rapazes cortassem furtivamente uma grande árvore para acenderem uma fogueira enorme no adro da igreja e para esse auto de fé o meu avô recomendava sempre o sobreiro do Vale Frechoso que ficava na extrema da sua propriedade e lhe ensombrava a horta e prometia-lhes vinho à discrição para aquela noite de festa.
Este foi um dos raros sobreiros mal amados dos Pereiros, mas já então era tão corpulento que se tornou impossível abatê-lo o que o salvou de uma morte certa.
A última árvore sacrificada nesta celebração, um sobreiro, ou uma oliveira, já lá vão setenta anos, desencadeou uma forte repressão por parte das autoridades concelhias que chegaram tarde para evitar o abate, mas ameaçaram prender todos os homens, se a queimassem.
Passou o Natal, estava a chegar o Ano Novo e aquele monte de lenha ali estava no meio do adro á espera de destino! E aquela festa que sempre fora dos homens e principalmente dos rapazes, foi então feita pelas mulheres que, sorrateiramente, lhe deitaram o fogo, com a coragem que àqueles faltou.
Terá sido o último ano em que se celebrou, pelo fogo, o prenúncio do crescer dos dias e o sobreiro do Vale Frechoso lá continuou majestoso, espalhando os seus ramos e a sua sombra num raio de muitos metros, parece que não passa um ano por ele, como se diz aos velhos, quando os revemos.
Que a sorte e o deus das árvores proteja os sobreiros dos Pereiros contra as pragas que estão a matar os chaparritos do Alentejo que, embora feios, magrizelas, raquíticos, têm, como os nossos, o direito de viver e de ser felizes.

Mais um texto de Joaquim Nascimento...

quarta-feira, abril 25, 2007

Abril Sem Idade


Abril é um poema sem idade
Que invade o sonho dos poetas
E lhes lembra a Praça da Liberdade
Que encontraram de portas abertas

Fizeram da praça uma canção
Que percorreram de mãos dadas
Com o povo e as forças armadas
Dando vivas à Revolução

Saudaram os capitães-coragem
Erguendo um cravo encarnado
E gritaram de punho fechado
- Já chega de malandragem!

Apesar dos anos passados
Continuam na Praça da Liberdade
E exclamam encantados,
Abril é um poema sem idade!

Este poema foi escrito por mim para uma colectânea de poetas de Almada, da SCALA, publicada pela Junta de Freguesia da Charneca de Caparica em 2001, nas comemorações da Revolução, com o título "Abril Depois de Abril".
Escolhi o belo cartaz da autoria da pintora Vieira da Silva, para ilustrar o poema.

terça-feira, abril 24, 2007

A Madrugada Esperada



Não estejas assustado
Esta guerra é diferente das outras.

Acredita em mim,
Desta vez vale mesmo a pena
Entrarmos neste combate.

Porquê?
Oh rapaz, nós vamos libertar o país.
Já pensaste nisso? Não?
Então pensa,
Amanhã podes ser um herói,
Vivo ou morto, tanto faz!

Não me olhes com essa cara,
Esta estrada tem um só sentido.


É isso mesmo que estás a pensar
Já não podemos voltar atrás
Estão todos à nossa espera...
Quando é que partimos?

No começo da madrugada.
Sinto que vai ser uma hora boa...
Estamos cada vez mais perto do sonho.
A Revolução chama-nos em Lisboa.
Esta fotografia é do golpe militar de 28 de Maio de 1926, quase quarenta e oito anos antes de Abril. Simboliza a longa espera.
O poema é meu...

segunda-feira, abril 23, 2007

Um Livro à Minha Escolha


Li a "Engrenagem" de Soeiro Pereira Gomes com apenas catorze anos.
Foi um livro e tanto, ao ponto de me acender uma luz na consciência...
Descobri, pela primeira vez, a forma como o capitalismo se movimentava no mundo, destruindo quase tudo à sua volta... através das mil promessas que fazia, quase sempre falsas, na transformação do mundo. Neste caso particular relatava a passagem de alguns agricultores em operários e a resistência do Zé Lérias...
O livro não é uma obra prima, mas nunca mais esqueci a mensagem de Soeiro Pereira Gomes.

sábado, abril 21, 2007

Vozes de Abril


A participação da sociedade civil na Revolução de Abril, quase que não tem rosto, tem sim bonitas vozes, como as de Zeca Afonso, com a sua "Grândola Vila Morena" - que continua a ser o Hino da Liberdade - e de Paulo de Carvalho, com o seu "E Depois do Adeus", canções utilizadas como senhas do Golpe Militar, difundidas na rádio portuguesa de uma forma decisiva.
Claro que as vozes que ficaram para a história do dia 25 não se ficam por aqui. Há ainda a de Luís Filipe Costa, que leu o primeiro comunicado do MFA na rádio, a de Francisco Sousa Tavares, que falou de megafone, para a multidão que encheu o Largo do Carmo e pedia a capitulação de Marcello Caetano e companhia, para acalmar os ânimos...
Mais importantes ainda, foram as vozes anónimas do povo que saiu a rua e gritou em uni sono, vivas à liberdade e aos militares que estavam apostados em acabar com 48 anos de ditadura fascista. E Acabaram!

sexta-feira, abril 20, 2007

Cravos de Abril (IV)


Vasco Gonçalves teve a particularidade de ser o único oficial superior que aderiu à preparação do movimento militar da qual resultou o 25 de Abril. Por esse facto acabou por ser bastante importante e respeitado no seio do MFA.
Durante o célebre e agitado “Verão Quente”, chefiou quatro governos provisórios. Ficou conotado com o PCP desde essa altura, por ter permitido os avanços que todos conhecemos, que culminaram com o 25 de Novembro, em 1975
Apesar de já não estar entre nós, o Companheiro Vasco ainda é recordado por muito boa gente pelas medidas que tomou em benefício dos menos favorecidos da sociedade portuguesa de então, enquanto primeiro-ministro.
A imagem que guardo de Vasco Gonçalves, que tive a oportunidade de conhecer pessoalmente, é a de uma pessoa extremamente humana, generosa e solidária.
A foto que acompanha o texto é mais uma vez de Alfredo Cunha.

quinta-feira, abril 19, 2007

Conversas de Abril (I)


Sei que a Revolução de Abril quase que deixou de ser tema de conversa nos nossos dias, em casa, no trabalho e nos cafés. As únicas pessoas que ainda falam, do antes e depois, de mil novecentos e setenta e quatro, são os investigadores, os saudosistas (de ambas as "barricadas"), e alguns jovens, curiosos com as histórias revolucionárias do regresso da liberdade. Estes últimos costumam ficar desiludidos quando descobrem que a Revolução foi de cravos e não de sangue. Têm dificuldade em vislumbrar uma revolução sem mortos e feridos, de ambos os lados, provavelmente influenciados pelos filmes repletos de heróis mortos e pelos telejornais demasiado violentos.
Já era crescido quando tive consciência de que um dos factores que mais contribuiram para o sucesso do 25 de Abril, foi o secretismo com que foi preparada toda a operação militar.
O facto de não haver civis envolvidos, ajudou, e muito, a que fosse possível manter em segredo toda a planificação do golpe. A disciplina e os códigos de honra militares fizeram com que não transparecesse quase nada para o exterior. Os "Capitães" dizeram apenas o indispensável a alguns antifascistas, para que fosse possível formar alguma rectaguarda, de apoio popular, caso fosse necessário.
Foi por essa razão que Eduardo foi completamente apanhado de surpresa, na Foz do Arelho, enquanto vagueava pela praia, sem saber muito bem o que fazer da vida...
A Revolução acabou por vir mesmo a calhar para ele, embora admitisse que era um, entre muitos (quase a totalidade da população portuguesa...), que apesar de fazer a oposição possível ao marcelismo, não sabia que se estava a preparar um golpe democrático nos quarteis. O 16 de Março também ajudara muito boa gente a baixar os braços, muito pela forma como foi "vendido" nos jornais "censurados".
Claro que no dia 26 de Abril apareceram milhares de revolucionários, em quase tudo o que era sitio, a dizerem que afinal sabiam o que se estava a passar... só que tinham permanecido em silêncio...

A foto que ilustra o texto foi tirada no dia 25 de Abril por Júlio Diniz, fotógrafo almadense.

segunda-feira, abril 16, 2007

Cravos de Abril (III)


Ernesto Melo Antunes foi um dos homens mais importantes, antes, durante e depois de Abril.
A sua cara fechada e a discrição esconderam um homem de grande carácter, determinação e coragem.

Para muitos estudiosos Melo Antunes foi o elemento mais politico do MFA, não sendo por isso de admirar que tenha sido o principal mentor do seu programa.

Foi várias vezes ministro dos governos constitucionais, tendo participado em alguns aspectos decisivos da nossa sociedade, como a descolonização, que acabou por se revelar um autêntico fracasso, com todos sabemos.

Perante o avanço da esquerda, Melo Antunes elaborou o "Documento dos Nove", juntamente com outros militares moderados, que não se reviam no trajecto da Revolução. Este documento acabou por ser um factor determinante para a realização do 25 de Novembro de 1975, o golpe militar que voltou a colocar Portugal, no caminho da democracia.

Infelizmente é mais um Capitão de Abril, que já não está entre nós. A simplicidade e discrição de Ernesto Melo Antunes fizeram com que nunca lhe fosse reconhecido o seu real valor, como elemento fundamental da Revolução dos Cravos.

domingo, abril 15, 2007

Férias Forçadas em Abril


Quando voltava a casa Eduardo descobriu um movimento estranho à volta do prédio onde moravam, na Ajuda. Sem dar nas vistas continuou a caminhar e virou na próxima esquina. Andou perto de uma hora com a discrição possível. Já em Alcântara entrou num café, onde bebeu uma água e descansou um pouco, ainda sem saber muito bem o que fazer. Sabia que não podia voltar a casa. O aviso que lhe fizeram, da última vez que tinha sido interrogado, que da próxima vez que o vissem por ali não regressava a casa, soava na sua cabeça como se fosse quase um disco riscado.
Telefonou a um amigo de confiança, para que descansasse a companheira, de que continuava em liberdade. Depois apanhou o comboio para as Caldas. Apesar de estar a um passo da aldeia onde nasceu, não disse nada a ninguém da família, para não os colocar em risco. Refugiou-se na casa de um casal amigo, na Foz do Arelho.
Foi nesta localidade que soube da Revolução, dez dias depois, pela rádio, que esteve ligada dia e noite... com o evoluir da situação, acreditou que era desta, que se acabava, de vez, com a ditadura.
No dia 26 de Abril regressou a casa, felicíssimo, logo no primeiro comboio da manhã...

Só soube desta história, seis anos depois, quando fui convidado para jantar na casa do Eduardo e da Isabel, no dia 15 de Abril de 1981.

quinta-feira, abril 12, 2007

Cravos de Abril (II)


Otelo Saraiva de Carvalho foi o verdadeiro homem da Revolução de Abril. Além de ter sido o seu principal estratega, é o Capitão de Abril que melhor simboliza todo aquele espírito revolucionário que se viveu em 1974 e 1975.
Foi também um dos homens com mais poder durante esta época, especialmente no "Verão Quente", pelo menos aparentemente. Poder que nunca utilizou para benefício próprio, fiel aos princípios revolucionários do MFA. Recusou cargos e promoções, inclusive a promoção a general de quatro estrelas, proposta por Spinola.
Por ter estado sempre presente, nos bons e mais momentos, continua a ser uma das figuras mais amadas e odiadas da Revolução.
Há mesmo quem o olhe como um homem cheio de contradições. Não acredito muito nisso.
Era um sonhador, acreditava no poder popular, por isso é que sempre revelou uma grande simpatia pelos partidos mais pequenos, de esquerda, ao ponto de ter enfrentado o PCP, que nunca lhe perdoou a afronta....
Esteve preso por duas vezes. Logo após o 25 de Novembro de 1975 e em 1985, acusado de ter feito parte das "FP 25 de Abril". Não acredito que tivesse culpa nas acções terroristas deste grupo. A única responsabilidade que lhe reconheço, foi ter confiado e feito amizade com as pessoas erradas. Pagou por isso, esteve preso cinco anos.
Quase trinta e três anos depois da Revolução, continuo a olhar para Otelo como o verdadeiro revolucionário de Abril, bem intencionado e muito ingénuo, ao ponto de acreditar na vitória do "Poder Popular"...
A fotografia de Otelo é de Alfredo Cunha.

quarta-feira, abril 11, 2007

Albufeira


Em Albufeira, se conhecer as ruas estreitas sobre a falésia, pode espreitar o mar e livrar-se do barulho das ruas, do excesso de alguns prédios que lhe tapam a vista e até dos turistas que se atropelam, coitados, por falta de espaço vital. Percorra, então, o que resta da Vila antiga debruçada sobre o mar, olhe a última casa de açoteia e chaminé rendilhada, sente-se num banco ali à mão e contemple o azul até à linha do horizonte, céu e mar, olhe o peneco e a praia e descubra que praia é uma razoável extensão de areia dourada e fina, e não um amontoado de corpos queimando ao sol.
Albufeira está a lidar mal com o seu crescimento que reproduz, inexoravelmente, o modelo de todo o turismo algarvio, onde agora introduziram o golf.
O programa Polis, na vila antiga, tenta corrigir alguns aspectos mais negativos - eles dizem impactos, talvez de tiros - mas o que é mais visível neste esforço inglório feito de poeira e desconforto é a incapacidade de conter os automóveis fora do seu perímetro, a iluminação de boite, o piso de supermercado e, principalmente, o crescimento excessivo das esplanadas em frente dos restaurantes, quando se esperaria que todo este espaço fosse devolvido livre aos cidadãos. E nas suas costas continuam a plantar prédios, modificando o perfil das colinas, ocultando encostas, barrando linhas de água!
Nestes restaurantes-esplanada onde até o pobre frango da Guia teria vergonha de ser apresentado, nunca vai encontrar uns carapauzinhos fritos, como os que a Edite faz e põe na mesa acompanhados de salada fresca que perfuma com com orégãos e de um arroz de tomate malandrinho.
Se for à praça do peixe, ainda os compra, quase a saltar. Regresse a casa, aprenda a amanhá-los, salgue-os com a dose certa de sal grosso, espere que o tomem, passe-os por farinha e frite-os então em óleo bem quente o que, não sendo simples, cabe dentro dos seus dotes culinários e vai ocupar-lhe boa parte da manhã.
Em Albufeira, deve espreitar o mar e, se apurar o ouvido, ainda pode escutar as horas certas batidas pelo relógio da torre, horas laicas pois sino e torre são da Câmara.
Eu costumo contá-las pelos dedos, para não me enganar.
Mais um texto de Joaquim Nascimento, frequentador assíduo de um dos bancos cá do Largo.

terça-feira, abril 10, 2007

Cravos de Abril (I)


Salgueiro Maia é o militar que melhor simboliza a Revolução de Abril, por ter mantido a nobreza tão rara nos grandes combatentes, de assim que saem vitoriosos, arrumam a trouxa e voltam para o seu mundo de sempre. Deixam o terreno pantanoso da política, disponível para os muitos oportunistas de verbo fácil, que quase se atropelam no meio da “lama”, preparados para tudo, apenas com um único objectivo em mente, a conquista do poder.
Foi também o primeiro Capitão a ser vencido pela “muerte”, talvez para continuar a ser recordado como o militar que conquistou Lisboa e encheu o Largo do Carmo de emoção, à espera da “bandeira branca” do Marcello e dos colegas de governo, que se esconderam no interior do quartel da GNR.
Se há alguém, entre os Capitães de Abril que merece um Cravo Vermelho, ele chama-se Salgueiro Maia.

A foto que acompanha o texto é da autoria de Alfredo Cunha.

quarta-feira, abril 04, 2007

O Monopólio das Palavras


Nunca esqueci as palavras de alguém que me é querido, quando me contou a história da sua passagem meteórica por um partido político. Por ser uma figura respeitada na cidade onde vivia, quase que foi empurrado para dentro de uma organização política, ainda nos tempos revoltosos. Aceitou o desafio, sem saber muito bem ao que ia.
Como não era burro, depressa percebeu que a democracia invocada nos discursos, um pouco por todo o lado, não passava de uma teoria para se espalhar pelos outros. Um dia, já cansado de ouvir sempre a mesma voz, que iniciava, mediava e terminava as sessões do partido, pediu a palavra.
Dirigiu-se ao camarada que tinha o “Monopólio das Palavras” e disse-lhe, olhos nos olhos, que a democracia não era feita a uma só voz. Quando o questionou, porque razão não havia espaço para mais vozes e opiniões nas reuniões, ouviu a desculpa, meio envergonhada, de que ninguém pedia a palavra e ele ia falando...
Antes de sair pela porta fora, para não mais entrar na sede, daquele ou doutro partido, ainda lhe deu um recado final, «Se gosta assim tanto de se ouvir e de ser o único a tomar decisões, devia ter escolhido um partido totalitário e não um partido socialista. Dessa forma não se enganava a si nem aos outros.»
Escusado será falar das histórias que inventaram, pouco tempo depois, para explicar esta saída pouco airosa, de um partido que continua a afirmar-se democrático.
Talvez esta história explique um pouco, porque razão, o nosso país, quase trinta e três anos depois da Revolução dos Cravos, continue tão afastado dos desígnios de Abril.
Lembrei-me deste episódio, por duas vezes, em meia dúzia de dias. O mais curioso foi isso acontecer em duas tertúlias, que deviam funcionar de uma forma distante dos monólogos. Senti-me incomodado por ver que há pessoas que aparecem nestes encontros apenas para se exibirem, como se estivessem num palco. Gostam tanto de se ouvir, que nem percebem (ou fingem não perceber...) que a sua ânsia de falar, além de roçar o ridículo, rouba espaço e tempo aos outros.

Esta litografia colorida é da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro, publicada na "A Paródia", de 16 de Maio de 1900, num hino a todos os papagaios parlamentares. O desenho é de tal forma feliz que continua a fazer juz a todas estas "aves falantes" que nos rodeiam.

quarta-feira, março 28, 2007

A Páscoa na Aldeia


Volto de novo à terra, Doiro acima de comboio, a carreira à minha espera no largo da estação, para me levar até ao planalto, a fiel carreira da Meda que, às dezasseis e trinta, me deixará nos Pereiros.
À chegada será Primavera clara ou quase e eu seria capaz de reconhece-la em qualquer parte do Mundo, pelo perfume das amendoeiras em flor, pelo chilrear dos pássaros, pelo zumbido das abelhas, pela cheiro a terra lavrada, pela simbiose perfeita entre estes cheiros, sons e cores.
Do forno comunitário já sobe o cheiro do pão e, na mesa, a minha mãe tem prontos todos os seus mimos, bola de carne, folar, biscoitos, com que vou matar saudades e fome, logo ao subir da escada.
- Um beijo à avó, minha filha. Olhe como a sua neta está linda, minha mãe !
Amanhã cedo vou à missa como todos os meus conterrâneos, vestirei uma opa vermelha para pegar no pálio na procissão e, com voz afinada, cantarei
aleluia, aleluia,
respondendo às invocações do Abade Celestino, no salmo em que anuncia à Mãe a ressurreição do Filho, afinal o mais sublime desejo de qualquer mãe que há três dias tenha perdido o seu.
À tarde sairá o compasso que vou receber em nossa casa, na companhia de quem quiser entrar para partilhar alegrias, trocar mimos, comungar afectos!
Os sinos repicarão toda a tarde e eu, pelo jeito de tocar, vou identificar quem toca e prestarei homenagem a quem consegue transformar em sinfonia duas notas repetidas,
dlim dlão, dlim, dlão.
Vem daí, João, homem de Deus. Como pediste, as mimosas que conhecemos por acácias, estarão em flor, terás na mesa uma bola de azeite e uma regueifa fresquinha, e, se prometeres que vais, vou rogar a música de Custóias para dar brilho à nossa Páscoa!
Mais um texto de Joaquim Nascimento sobre as nossas tradições ancestrais.

terça-feira, março 27, 2007

O Dia do Teatro


O Teatro quase que se confunde com o nosso país.
Há mesmo quem diga que já nasceu em crise.
Os actores e os encenadores andam sempre a lutar contra esta crise. É por isso que quase mendigam espectadores e subsídios, para sobreviverem e para sentirem que a "Arte de Talma", que escolheram como profissão, vale a pena...
Podia falar de Almada, que em Julho, grita, alto e a bom som, que é a Capital do Teatro.
Não o faço porque não me apetece falar de desigualdades e privilégios de uma única companhia, perante dezenas...

Porque hoje é dia de festa para todos os amantes do teatro, prefiro evocar o genial MÁRIO VIEGAS, um nome grande do teatro em qualquer parte do Mundo.
Talvez continue a fazer teatro no Paraíso...


segunda-feira, março 26, 2007

O Pai do Jazz no Nosso País


Luís Villas-Boas (1924 -1999) foi o principal divulgador do Jazz no nosso país.

Não é por acaso que o Luís surge aqui no "Largo", se ainda estivesse entre nós, fazia hoje oitenta e três anos. Os amigos não o esqueceram, é por isso que promovem uma homenagem no Teatro São Luíz em Lisboa, com o lançamento do livro "O Jazz Segundo Villas-Boas", da autoria de João Moreira dos Santos.
A descoberta desta música afro-americana que animava os bairros negros dos Estados Unidos, ainda nos anos quarenta, foi "amor à primeira vista" e fez com que fundasse o Hot Clube de Portugal, do qual também foi o seu grande impulsionador, durante décadas.
Actualmente o Hot Clube continua a ser a principal escola de jazz do nosso país - escola que tem como patrono Luís Villas-Boas - e por onde passaram as nossas grandes figuras nacionais deste género musical, desde Maria João, Mário Laginha a Carlos Martins e Laurent Filipe.
É por isso que o Hot Clube de Portugal também se vai associar à homenagem, tal como dezenas de grandes figuras da música portuguesa, do jazz e de outras "freguesias" musicais, que oferecem a sua música, pela noite dentro, ao homem que colocou Cascais no mapa dos grandes festivais de jazz e trouxe a Portugal algumas das suas maiores figuras mundiais.

sexta-feira, março 23, 2007

O Homem-Mar da Clarisse


Clarisse é um nome bonito e pouco vulgar.
Só conheço uma Clarisse, faz teatro, cinema e televisão. Infelizmente usa um outro nome, como acontece com tanta gente do mundo do espectáculo.
Nunca percebi porque não quis ficar Clarisse. Quando lhe perguntei, desculpou-se. Disse que quando estudava no conservatório um professor-actor referencial, achava que Clarisse era um nome demasiado grande e pouco familiar. E ela deixou-se ir na conversa, da sapiência parda...
Numa das últimas vezes que estivémos juntos fiquei com um pequeno texto que ela escreveu, numa mesa de café. Era um texto curioso em que ela falava do género de homem que gostava.
Vou partilhá-lo com vocês, sem a Clarisse saber. Faço isto porque sei que ela, quando descobrir, vai gostar de se ler...
«Não gosto de homens bonitos, representam tudo o que detesto. Normalmente são demasiado vaidosos, convencidos, egocêntricos, e pior, homossexuais!
Nunca pensei casar com um homem que perde mais tempo que uma mulher a cuidar do corpo (e conheço tantos, por esses camarins fora...).
O que me atrai num homem é o seu lado mais masculino, meio selvagem, bravio, quase em estado natural, como o mar.
Não sei se é pela minha profissão, mas não suporto um homem de sobrancelhas arranjadas e com o corpo sem um único pelo.
Sei que se fosse uma simples empregada de balcão, não sonharia com homens num estado mais primitivo, mas como não sou, posso dar-me ao luxo de gostar de um selvagem qualquer, desde que goste de viver sem espelhos, apenas como é...»
Clarisse aparece-me, de vez em quanto, pela casa dentro. Quando a olho lembro-me sempre que ela detesta aqueles homens bonitos com quem contracena, todos arranjadinhos, cheios de cremes e maneirismos, que ainda por cima lhe fazem concorrência, na conquista de faunos...
Desta vez escolhi "A Marcha" de Júlio Pomar, pintado em 1946, para ilustrar este texto. Nesta época Júlio era um jovem pintor cheio de ideais....

quarta-feira, março 21, 2007

Dinis Machado, um Poeta de Lisboa


Dinis Machado tem sido um “faz tudo” no mundo das letras...
Mas a história vai reservar-lhe um lugar especial como romancista, pois Dinis escreveu uma das histórias mais extraordinárias sobre a vida nos bairros de Lisboa, com o “O Que Diz Molero”.
Não nos vemos há mais de meia dúzia de anos, mas durante algum tempo encontrávamo-nos no primeiro andar da Rua Ancheta, na Bertrand, onde falávamos de livros, jornais e das nossas vidas...
Uma vez ele explicou-me a razão de não ter escrito outros romances. Não quis fazer o mais fácil, continuar a escrever “o mesmo livro”, como fazem tantos escritores de nomeada...
De tanto fugir de Molero, Dinis Machado não deu qualquer hipótese a nenhuma das personagens lisboetas, de voltarem a encherem as páginas de um livro, de aventuras tão especiais...
Hoje, além de ser o começo da Primavera e o Dia Mundial da Poesia, é também o dia de aniversário do Dinis Machado e uma boa oportunidade para voltar a dar um abraço a este amigo, na apresentação da edição ilustrada de “O Que Diz Molero”, no Tivoli.

sábado, março 17, 2007

A Minha Escola


A minha escola foi a escola da D. Guilhermina, embora tivesse tido outra professora na primeira classe, a D. Deolinda, de quem recordo , para além da dificuldade das primeiras letras, o ademane de sacudir a sua longa cabeleira, num gesto vedado às mulheres da minha terra que habitualmente tapavam a cabeça com um lenço.
A minha escola funcionava todos os dias, de manhã e de tarde, de segunda a domingo, o primeiro que chegava ia pedir a chave à Senhora, e lá dentro tinha o som de muitas vozes a entoar a tabuada, três vezes um três, três vezes dois seis..., os rios e os seus afluentes, Sabor, Tua, Corgo Tâmega e Sousa... ou as linhas do caminho de ferro, com as suas estações e apeadeiros, pois nesse tempo saber era decorar e a minha escola não ia ficar atrás de qualquer outra.
Nos intervalos, principalmente ao meio-dia, ouvia-se a algazarra das nossas brincadeiras na rua em frente, os esconderilhos, o arco, o pião, o fito, a macaca, a cabra-cega, a bola de trapos pois o recreio da minha escola era toda a aldeia e brincar um acto da mais pura imaginação.
Tinha todas as classes na mesma sala, a minha escola, com a vantagem de ser para ambos os sexos, contrariando a política do “estado novo”, circunstância que me permite recordar, com especial ternura, as raparigas do meu tempo, a Leonor, a Teresa, a Almerinda, a Piedade, a Isabel, a Virgínia, a Adelaide, a Deolinda e outras cujo nome se esfumou na minha memória, embora guarde de cada uma o sorriso breve do seu rosto.
E guardo o cheiro dos livros, só agora me dando conta que não eram os livros, mas o Livro, o Livro da Primeira Classe, o Livro da Segunda Classe, o Livro de Leitura da Terceira Classe.
Há uns anos consegui comprá-los num alfarrabista e, imediatamente, reconheci todas as suas figuras e voltei a saber de cor todas as lições, como se fora ontem e eu me estivesse a preparar para ser chamado dali a pouco. Mas o cheiro a tinta fresca tinha-se perdido definitivamente!
Apesar da sua elevada frequência, a minha escola era um posto escolar e as professoras regentes, eufemismo para lhes pagarem menos pela transmissão do mais básico dos saberes, ler, escrever e contar, primeira, segunda, terceira classe, que a quarta classe, nos Pereiros, era quase curso superior .
Aqui fica, como se fosse uma redacção, esta memória breve da minha escola. Dedico-a à D. Guilhermina, a quem quero expressar o meu reconhecimento por me ter ensinado a escrevê-la. Acredito que, se a lesse com os seus óculos de lentes grossas, iria dar-me uma boa classificação, principalmente depois de eu a passar a limpo, numa folha de papel Almaço, com a minha caneta de aparo de molhar e a caligrafia certa, elegante, desenhada como a Senhora me ensinou.

Mais um texto de Joaquim Nascimento. Infelizmente não consegui arranjar uma capa dos livros da primária de que o Joaquim fala (nem mesmo no "google"...), pelo que escolhi a bonita escola primária da Foz do Arelho, do Grandela, um bom exemplo arquitectónico das escolas primárias da Primeira República.

sexta-feira, março 16, 2007

O 16 de Março de 1974


A tentativa de golpe de estado de 16 de Março de 1974, protagonizada pelo Regimento de Infantaria 5 de Caldas da Rainha, ainda não está completamente explicada...
O que foi que falhou? Para uns nada, para outros tudo.
Será que a antecipação do golpe foi propositada, para apalpar o pulso à velha e caduca ditadura?
Talvez sim, talvez não...
De qualquer forma o 16 de Março tornou a Revolução irreversível...
Felizmente Abril estava à porta...

terça-feira, março 13, 2007

Uma Carta Especial


No começo do ano recebi uma herança inesperada, oferecida pelo filho de um amigo de longa data, que faleceu no começo de Outubro, do ano passado. Francisco deixara-me um pequeno "tesouro" dentro de uma caixa de madeira, muito parecida com a que a minha mãe tinha, para guardar os utensilios de costura.
Abri a caixa e descobri dezenas de fotografias, postais ilustrados escritos de vários países e também algumas cartas, de várias precedências...
A mais antiga, e também mais comovente, foi escrita por uma menina judia, que viveu durante a Segunda Guerra Mundial na casa dos pais do Francisco e que tinha perdido os pais e o irmão pouco tempo depois da sua separação... embora só lhe contassem o que acontecera no fim da guerra, quando tinha 16 anos...
A carta estava escrita em alemão e datada de 13 de Março de 1941. A primeira vez que li a sua tradução, feita pelo meu primo, vieram-me as lágrimas aos olhos. Isto aconteceu por conhecer a história desta menina, que tinha um nome tão universal, Marie, e que continuou, alguns anos, à espera que os pais e o irmão chegassem a Lisboa...
Na carta falava de Lisboa, encantada. Dizia que era uma cidade bonita e sossegada, onde se podia passear e brincar à vontade. Impressionada com a largueza do Tejo, dizia que costumavam passear aos domingos e que iam sempre espreitar o rio.
Acrescentava que já falava português de uma forma aceitável e que tinha muitos amigos portugueses, tão diferentes dos alemães.
Acabava a carta expressando as suas muitas saudades, com alguma esperança de que Karl, o seu único irmão, mais velho que ela quatro anos não tivesse sido obrigado a lutar, naquela Guerra sem sentido.
Sei que as lágrimas que escorreram pelo meu rosto, eram sobretudo de revolta, pelo assassínio de tantos inocentes...
O pior de tudo é saber que sessenta e alguns anos depois, não aprendemos nada.
No Iraque, na Palestina e em vários países africanos, o massacre continua...

domingo, março 11, 2007

O Estigma de se Nascer em Março...



Sempre ouvi dizer que o mês de Março era o mês dos Burros, especialmente na casa dos meus avós maternos.

Mas este dito esteve longe de se ficar pelos campos. Nos meus tempos da escola primária, os nascidos em Março eram referenciados, como possuidores de grandes orelhas e inteligência digna destes animais, apesar destes, não terem muito de burros...

Hoje moro na Freguesia de Cacilhas, onde graças à tradição das "burricadas" (passeios de burro pelas principais artérias do Concelho de Almada), também se tentou colar o rótulo de "asno" aos cacilhenses.

O que é certo, segundo a história local, é que eram os cacilhenses que conseguiam levar os lisboetas à certa, fazendo-os rebolar no chão, com os seus fatos domingueiros, por cima dos "presentes" dos animais, que escoceavam de alegria com o espectáculo dado pelos visitantes...

A fotografia que ilustra este texto é da autoria de Jean Dieuzaide.

quinta-feira, março 08, 2007

O Dia da Mulher


Quando estamos entre homens, é normal ouvirmos a frase batida: «Para quê um dia da mulher? Elas não são iguais a nós? Aliás, cada vez têm a mania que são mais espertas e inteligentes que nós. »
Claro que na prática as coisas não são nada assim.
Infelizmente, quase trinta e três anos depois da Revolução de Abril, esta história dos direitos iguais entre homens e mulheres, continua a ser quase uma ficção.
Somos uma sociedade onde não se perdeu o hábito de fingir que está tudo bem, mesmo quando sabemos que o vizinho do segundo andar gosta de se encharcar em álcool e, vá-se lá saber porquê, deixa a mulher marcada a negro, tal como tantos cobardes, que escondem as frustrações e os complexos, dentro das quatro paredes, com a distribuição de porrada pela mulher e pelos filhos...
Se fossemos realmente todos iguais, nos direitos e deveres, podíamos apagar o Dia Internacional da Mulher do calendário...
Mas enquanto isso não passar de uma frase batida, beijem e abracem as mulheres que amam com ternura e ofereçam-lhe flores, sempre que vos apetecer, sem estarem à espera do dia 8 de Março...
A Ingrid Bergman, nesta foto que escolhi, está como sempre foi, linda...

quarta-feira, março 07, 2007

RTP Faz Cinquenta Anos


Hoje a RTP comemora cinquenta anos do início das emissões regulares do primeiro canal (e durante anos, único...) da televisão portuguesa.

Claro que há outras datas anteriores na história da televisão, que não devem ser esquecidas. A 15 de Dezembro de 1955 foi assinada em Lisboa a escritura da RTP - Rádiotelevisão Portuguesa SARL, por iniciativa do governo, dando início a uma grande aventura, que culminou com a primeira emissão pública, na Feira Popular de então, que se situava no Parque de Santa Gertrudes, onde hoje está a Fundação Calouste Gulbenkian, na noite de 4 de Setembro de 1956.

Foi nesse começo de noite, a partir das 21.00 horas, que o povo de Lisboa, que ocorreu ao parque de diversões, assistiu pela primeira vez a uma transmissão televisiva, naquela que ainda é considerada uma das maiores invenções do mundo. Estas emissões experimentais decorreram durante todo o mês de Setembro e foram visitadas por milhares de portugueses.

Finalmente, a 7 de Março de 1957, a RTP passou a visitar, ao fim da tarde, os muitos lugares públicos - cafés e restaurantes que aproveitaram os sinais de modernidade para cativar clientes - e os poucos lares portugueses, que tiveram capacidade financeira para adquirir estes aparelhos, completamente revolucionários no campo da imagem, especialmente para uma sociedade tão fechada ao exterior, como era a nossa...

A imagem que acompanha este texto, é a primeira mira técnica da RTP.

segunda-feira, março 05, 2007

A Feira de Santa Luzia


Este ano irei outra vez à feira da Santa Luzia e vou querer que esteja tanto frio como no meu tempo de miúdo e, se tiver sorte, talvez haja neve no Monte-Airoso que lhe fica em frente, de onde soprará um vento cortante que há-de afilar-me o nariz e engaranhar-me as mãos.
Ao fundo, continuará a correr o rio Torto, o que só acontece neste tempo de Inverno e, quem prestar atenção, vai ouvir o seu ruído surdo nos açudes que o aprisionam e nas margens que o apertam.
Irei pelo caminho velho para beber água na fontela do Vale Vinhoto, onde descansarei um pouco para recuperar forças antes de subir a ladeira que vai levar-me à capelinha da santa, logo a seguir.
Podia ir de carro, pela estrada nacional 222, mas não, quero ir a pé, pelo caminho antigo, para me reencontrar com cada uma da suas fragas, com cada uma das suas árvores, com cada um dos seus acidentes. Já não vou encontrar ninguém na faina agrícola para lhe dar os bons dias - bom dia senhor Ernesto, então não vai à festa ?! - e, embora sozinho, hei-de regressar pelo mesmo caminho, de cabeça toldada, como bom romeiro que se preza, sem outro risco que o de cair de mim abaixo, um tombo curto, pois a mão de Deus há-de amparar-me para que se cumpra o adágio: ao menino e ao borracho ...
Vou comer marrã, muita marrã, frita na sua própria gordura, a sertã de ferro num fogo vivo de estevas e de carrascos, vou comer marrã com trigo da Póvoa, amassado em quartos, com a sua poupinha ao meio, que vou partir em pedaços convenientes com a navalha de pé de pau bem afiada, como confirmei quando a passei pela unha.
E vou beber vinho tinto, tanto quanto me apetecer, o vinho tinto dos Pereiros, esperto, ladino e jovem, à temperatura certa para se beber, este vinho que se provou no S. Martinho e que se apagará com o calor do Verão.
O trigo e a marrã vão confortar-me o estômago, o odor farto do rechinar da carne vai ficar-me no olfacto e, seja milagre da Santa, seja do vinho novo, colar-se-á nos meus olhos um brilho novo que quero conservar, até poder regressar.
Oxalá que haja laranjas, tão azedas como as que comprei há 50 anos com os 2$50 que a minha avó me deu, e não haverá nada melhor para cortar a gordura da marrã que estas laranjas do Douro que só na Páscoa estariam maduras se não tivessem caído com a ventania de Dezembro.
- Será que o dinheiro chega, minha avó ?
É que ainda quero comprar um pífaro de barro, de cores garridas e de três notas que se tocam com uma mão só, que com a outra quero tocar um bombo garrido onde desenharam pares alegres, num vira minhoto e foguetes a estralejar.
- Será que o dinheiro chega, minha avó ?
Não posso deixar de comprar o registo da Santinha, a Milagrosa Santa Luzia que se venera na sua capela de Pereiros, no dia 11 de Dezembro, para que ela nos dê vista e claridade até no céu entrarmos, com lá estará escrito e eu rogarei. Vou dobrá-lo ao comprido, em três partes iguais e vou enfiá-lo na fita na fita do chapéu, com o rosto da santa voltado para fora, e este será o sinal certo de que fui romeiro mais uma vez.
- Será que o dinheiro chega, minha avó ?

Mais um bonito texto de Joaquim Nascimento...

domingo, março 04, 2007

O País Onde a Culpa Morre Solteira...


Continuamos a ser o país onde a culpa morre solteira. Os potenciais culpados fingem-se sempre inocentes... e tentam esconder os erros debaixo da peneira, ao mesmo tempo que culpam as inevitabilidades da vida...
Como normalmente também são ricos e poderosos, acabam por ter a vida facilitada porque podem contratar os melhores advogados da “praça”, quase sempre especialistas em “driblar” o Estado.
É por essas e por outras que todos nós sabemos que a justiça portuguesa não é para todos...
Seis anos depois da Tragédia de Entre-os-Rios, continua no ar o sentimento de injustiça e de revolta no seio dos familiares das vítimas.
E se nos lembrarmos que o ministro Jorge Coelho pediu a demissão e disse nessa altura que a culpa não podia morrer solteira...
Podemos falar das vitimas, dos familiares, das várias aldeias que circundam a ponte, ainda povoadas de fantasmas, mas o que continua bem visível, é o desleixo e o abandono a que estão votados milhares de bens públicos, de Norte a Sul. Como já vem sendo hábito, ninguém aprendeu com a queda da Ponte de Castelo de Paiva.
Enquanto a culpa morrer solteira, os responsáveis vão continuar a fechar os olhos e a furtar-se às suas responsabilidades e o povo continuará a sentir na pele, que a justiça não é para todos...

sexta-feira, março 02, 2007

A Nossa Falta de Imaginação e de Gosto...


Há coisas incríveis, que só se passam neste país...

Descobri que a nova novela da SIC, "Vingança" tem um argumento fantasioso, que não passa de uma imitação barata do romance sobre o Conde de Montecristo, de Alexandre Dumas.

Por mais estudos que façam (não sei com que bases cientifícas...) a exaltarem o nacionalismo do povo português e o seu orgulho pela nossa história, não tenho qualquer dúvida de que não gostamos muito de nós, nem tão pouco valorizamos o que é nosso.

Só num país sem amor próprio é que colam uma história de Alexandre Dumas a um argumento de segunda e ignoram todas as histórias romanceadas de escritores com a qualidade de um Camilo Castelo Branco, um Eça de Queirós, um Júlio Dinis, um Ramalho de Ortigão, um Fialho de Almeida, um Aquilino Ribeiro, um Alves Redol ou um Miguel Torga.

Claro que estou farto de saber que na televisão portuguesa há muita falta de imaginação (em qualquer canal), sem falar na falta de gosto...

terça-feira, fevereiro 27, 2007

A Cartilha de Salazar



Numa altura em que anda por aí tanta gente apostada em transformar um assassino (sim, o mandante de qualquer assassínio também é autor material do crime) numa pessoa de bem, acho por bem transcrever apenas uma pergunta e uma resposta da "Cartilha da União Nacional", cuja 2ª edição de 1935, encontrei num alfarrabista.

É, sem qualquer dúvida uma obra muito educativa e explica logo na primeira página, que foi aprovada pelo Doutor Oliveira Salazar.

Como devem calcular, trata-se de um ataque à democracia...

«Que relação existe entre essa liberdade abstracta da Democracia e a igualdade e fraternidade da sua divisa?

Praticamente a maior contradição, porque, como já atrás mostrámos, o desencadear das ambições individuais, determina o esmagamento do fraco pelo forte e a luta de todos contra todos.

Há, porventura, igualdade e fraternidade num regime que se apoia numa associação secreta, a Maçonaria, que, sob o seu aspecto mais inocente, o da beneficência e auxilio mútuo, vive exclusivamente para privilegiar, muitas vezes contra o direito, a moral e a justiça, uma ínfima minoria, à custa do restante da Nação?
Há porventura, liberdade quando, em caso de eleições, um partido manda os seus sequazes agredir a tiro, â bomba e à cacetada os seus adversários, destruir as urnas e praticar todos os desmandos para vencer, como sucedia em Portugal antes do 28 de Maio?
Certamente que não.»

Foi com tratados destes, publicados para educar as massas ignorantes, que Portugal esteve 48 anos subjugado a um regime, do qual só encontro razões para me envergonhar.

sábado, fevereiro 24, 2007

O Barbeiro das Avenidas Novas


O senhor Araújo foi um barbeiro bem sucedido, pela tenacidade, pela competência e pela parcimónia, qualidades que trouxe da sua Beira natal e praticou até ao último dia.
Começou como empregado numa barbearia popular de Alfama, onde aperfeiçoou os conhecimentos rudimentares da arte que aprendera na aldeia e não tardou muito que se tornasse proprietário do estabelecimento.
Ali, foram seus clientes os fragateiros, os estivadores, os bufarinheiros e outra gente da beira-rio, mundo estreito para si, até que se mudou para as avenidas novas - bom dia senhor doutor, boa tarde senhor engenheiro - três cadeiras, manicura, engraxador e tabuleta.
Alfama foi também o meu bairro na segunda metade dos anos sessenta, mas só nas avenidas novas o conheci e durante mais de trinta anos lhe confiei o meu cabelo, retinto e forte, nos primeiros tempos, encanecido e ralo, por último.
Barbeiro à antiga - cabeleireiro de homens que é lá isso, meu amigo?! - olhava com desconfiança para as novas tecnologias da profissão que aceitava a contragosto depois de testadas pelo seu empregado de sempre, o senhor António, mas se fosse ele a mandar, a tesoura continuaria a ser a extensão natural do seu braço, com o som ritmado e sonolento de sempre, e as lâminas descartáveis – um desperdício, meu amigo, nada que chegue a uma navalha bem afiada! - escusavam de ter aparecido.
Mas não pensem que esta barbearia era obsoleta ou retrógrada, pois o senhor Araújo era um homem de brios e não aceitaria ficar atrás dos outros, nem permitiria que nas bancadas do seu estabelecimento faltasse qualquer dos instrumentos modernos da profissão.
O senhor Araújo tinha uma farta cabeleira branca, impecavelmente penteada, o que acentuava a elegância do seu porte e, por si só, o recomendava a qualquer cliente.
Quando lhe perguntei o segredo - que champô, que creme, que loção - intimamente desejoso de vir a ter uma cabeleira parecida:
- Sabão, meu amigo !
- De seda, senhor Araújo?
- De seda?! Azul, meu amigo, azul!.
Aqui há anos, já perto dos 80, o senhor Araújo teve apalavrado o trespasse do seu estabelecimento, tendo finalmente admitido que era tempo de descansar e de regressar à terra, onde tinha uma mansão que só abria uma vez por ano, na semana do padroeiro, que o seu estabelecimento patrocinava.
À medida que se aproximava o dia da escritura, o senhor Araújo começou a andar nervoso, ficou mesmo doente e, sem olhar ao prejuízo, devolveu em dobro o sinal que tinha recebido.
- Pensando melhor, o que é que eu ia fazer com o dinheiro, meu amigo?
O senhor Araújo cortou-me o cabelo pouco antes de eu ir de férias - assim curtinho, parece mais cheio e dá menos trabalho – e quando voltei passado um mês, encontrei uma cadeira vazia:
- Não me digam que o senhor Araújo sempre foi de férias ?!
Mas não, o senhor Araújo não tinha ido de férias, o senhor Araújo deixara-nos definitivamente num dos domingos anteriores, ia a caminho de casa ao volante do seu velho Taunus, depois de ter passado pela barbearia, para ver se tudo estava em ordem.
Faleceu
in itinere, diria um dos seus clientes versado em leis e, se o conhecesse bem, descontar-lhe-ia o facto de ser dia de descanso semanal.
Com a receita do sabão azul, o senhor Araújo augurou-me um cabelo farto até ao fim dos meus dias. Já o desonerei desta promessa, mas às vezes me apeteçe-me cobrá-la do seu genro, agora que finalmente é ele o patrão e o meu cabelo vai ficando cada vez mais ralo:
- Então, senhor Carlos, já não se cumprem as promessas?
O senhor Araújo quis ser cremado e dispôs que suas cinzas fossem espalhadas na serra mãe, a Gardunha, onde nasceu, granjeou a terra e guardou o gado, era ainda criança e muito dura a vida.
Foi um sábio, o senhor Araújo, na sua Arte, na sua Vida e na sua morte!


Mais um excelente texto de Joaquim Nascimento, que desta vez tem dedicatória: «Para a minha filha que me deu o mote.» A fotografia do Marechal no barbeiro é de Eduardo Gageiro.

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Quadras Para Todos os Gostos



De caciques e de bujos
Mandei fazer um sacrário
Para pôr no travesseiro
Dum cura reaccionário


quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Aparece Sempre Zeca...


Zeca, fico satisfeito por nunca te afastares muito da aparelhagem cá de casa, por continuares a cantar de roda e a encantar, ao mesmo tempo que nos fazes reflectir...
Às vezes parece mentira, que já te fizeste à estrada do mundo, há vinte anos...
Porque, felizmente a tua voz incómoda, continua por cá, com a marca da independência contra todos os impérios sociais, fascistas, falsamente democratas ou comunistas.

Como eu te compreendi, quando disseste que eras o teu próprio Comité Central, que gostavas de pensar pela tua própria cabeça, que não precisavas de ordens ou sujestões de "patriarcas" ou "cardeais"...

Infelizmente, em vinte anos, quase nada mudou Zeca, neste canto.

Eles continuam a querer comer tudo e a não deixar nada...

É por isso que precisamos de te ouvir mais vezes, para ganharmos coragem, para inventarmos outra revolução, para descobrirmos outro país...

É por isso que eu digo: «Zeca, aparece sempre!»

terça-feira, fevereiro 20, 2007

Lisboa dos Anos Oitenta (Conclusão)


Acabei o meu último texto sobre Lisboa, a falar da dispersão humana do centro da cidade, sem falar da principal tragédia, que transfigurou completamente a baixa lisboeta no final da década de oitenta.

Foi propositado. E como focou muito bem a Sininho, no seu comentário, o que mudou realmente o movimento e a vida na Baixa Lisboeta, foi o incêndio, que deflagrou no coração do Chiado, no Verão de 1988.

Recordo-me bem desse dia, porque estava a algumas centenas de quilómetros de distância. Estava acampado no Gerês com amigos. Quando ouvimos a notícia na rádio, ficámos de tal maneira chocados, que fomos à procura de um lugar com televisão, para vermos a verdadeira dimensão da tragédia, no jornal da tarde.

E foi mesmo uma verdadeira tragédia, porque além de toda a destruição provocada pelo incêndio, durante anos, as "ruínas do Chiado", não passaram disso mesmo...

A canção dos UHF, «Olha como é, a Rua do Carmo!», que homenageia as mulheres bonitas que subiam o Chiado, presas às montras, gingando as ancas... recorda memórias, que ainda não voltaram, completamente, àquela rua...

O único acontecimento equivalente a esta tragédia, foram todas as peripécias à volta do túnel do metro na Praça do Comércio, que deslocaram da Baixa milhares de pessoas que vinham da Margem Sul e tiveram de arranjar novas alternativas (metro do Cais Sodré e comboio da Ponte...), em relação aos transportes utilizados no seu dia a dia.

Mais uma vez, o coração da Baixa, viu-se privado de milhares de visitantes, diariamente...

O problema do túnel subsiste nos nossos dias, em mais uma obra digna de Santa Engrácia (e existem tantas, à boa maneira portuguesa...).

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Lisboa dos Anos Oitenta (II)


Graças a dois amigos especiais, o Tozé e o Henrique, lisboetas de gema, percorri várias Lisboas, muitas vezes a passo, porque a cidade dos primeiros anos da década de oitenta era muito mais aberta e descontraída, praticamente sem focos de criminalidade violenta. A única coisa que tínhamos de ter cuidado, era com os muitos carteiristas que apareciam e desapareciam nas carruagens do metro e nos autocarros, nas horas de ponta.
Nessa época víamos muito cinema, nas salas grandes - ainda existia o Condes, o São Jorge e o Eden, que davam vida à Avenida da Liberdade – e nos pequenos estúdios espalhados pela cidade, como o Apolo 70, o Londres, o Castil ou o Nimas.
Também nos aventurávamos na noite (quase sempre às quintas), muito mais curta que nos nossos dias. Às quatro da manhã fechavam quase todos os bares e discotecas. Os únicos locais que permaneciam abertos estavam ligados a uma Lisboa mais marginal, onde acabam a noite prostitutas, proxenetas, homossexuais e gente da vida artística, que também conheci, muito superficialmente.
Voltando à Avenida da Liberdade, as esplanadas enchiam-se de gente de todas as idades, da Primavera até ao Outono.
Era uma cidade mais viva, mas também mais viciosa...
Próximo do Elevador da Glória passeavam prostitutas, sempre com o mesmo convite: «Queres vir para o quarto querido?», e claro com outras promessas, que de certeza, ficavam por cumprir... Os homossexuais também apareciam em todas as esquinas, com perseguições e olhares matadores, que tinham tanto de cómico como de ridículo.
Com o aparecimento do HIV, as prostitutas e os homossexuais quase que desapareceram das ruas da baixa.
Os outros lisboetas? Devem ter começado a dispersar, lentamente, frequentando outros lugares, primeiro as “Amoreiras”, depois o “Colombo” e mais tarde o “El Corte Inglês”...
Este texto está ilustrado com um óleo de Botelho sobre Lisboa, os "Restauradores".

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Um Tinto à Minha Mesa


O vinho nosso de cada dia está este ano pior, não sei se por ter sido um ano de má colheita nas terras de onde vem, se por qualquer erro humano que sempre pode acontecer a quem pratica esta alquimia de fazer das uvas vinho, falível como qualquer arte, muito longe de ciência exacta, onde se obtém o mesmo resultado quando se repetem as premissas.
Era um tinto do Baixo Corgo, ainda na Região que o Senhor Marquês mandou demarcar e que já me tinha pregado um susto aqui há três anos, quando resolveu ocultar-se durante algum tempo. Reapareceu pouco depois com roupagem nova, talvez mais janota, e eu que cheguei a temer o pior, mal voltei a vê-lo precipitei-me para ele, mas fiquei tranquilo quando o abri e provei, por ter verificado que mantinha intactas todas as qualidades que me levaram a escolhê-lo, ficando demonstrado, também aqui, que o hábito se não faz o monge também o não desfaz.
Além disso, manteve o preço, numa relação muito virtuosa com a qualidade e com o prazer que me proporcionava e continuou a sentar-se à minha mesa, como era de toda a justiça. Recomendei-o frequentemente aos meus amigos, mas quero crer que não tive nisso muito sucesso, talvez pelo excesso dos adjectivos que usava na sua promoção que fazia duvidar que tantas qualidades coubessem num preço tão modesto.
Este ano foi diferente. Em Outubro começou a rarear, pouco depois esgotou-se nas três grande superfícies onde me habituara a comprá-lo. Que lhe terá acontecido, perguntava eu para comigo e aos empregados que por ali andavam, sem receber resposta mais elucidativa do que o óbvia e burocrático: está esgotado !
Com renovada esperança e a serenidade de um Buda com muitos anos de chá, esperei pela nova colheita mas já com a convicção de que o meu vinho, quando voltasse, iria manter todas as qualidades que tinham determinado a minha preferência e, pelos vistos, a de muitos outros consumidores.
Infelizmente não foi assim e aquele vinho que já considerava meu, como se lhe tivesse granjeado a vinha, pisado as uvas e envasilhado o mosto, chegou ronceiramente pelo Natal, mais baço aos meus olhos o ruby da sua cor, menos redondo ao meu palato um novo e arrevesado gosto, já não salta quando o sirvo, já não cheira às uvas maduras das muitas castas que se juntavam para o fazer e o gosto bom a frutos vermelhos que antes o distinguia, abandonou-o fortemente. Agora está mais pesado, perdeu o melhor da sua juventude e não ganhou nenhuma qualidade de um vinho velho.
Nem sequer é relevante que esteja mais barato um euro, pois quebrou-se a relação virtuosa, essa divina proporção, que manteve durante tanto tempo.
Mesmo assim, mantenho ainda alguma esperança de que num melhor ano de uvas ele volte a ser quem era pois quero atribuir esta expontânea redução de preço à honestidade do seu produtor que reconheceu, antes que alguém lho dissesse, que este ano o seu vinho valia menos.
Vou esperar pela próxima vindima. Vou mesmo rezar aos santos protectores das uvas que as faça boas, doces, sumarentas e cheirosas para voltar a ter o meu vinho tinto da Região que o Senhor Marquês mandou demarcar, de novo jovem, fresco, leve, com aroma a frutos vermelhos, de sabor fresco e equilibrado, parecido com o vinho da minha terra - as mesmas castas, o mesmo chão, a mesma sabedoria - que na minha memória todos os anos se faz e se consome antes de fazer um ano, antes que o calor o tolde e o envinagre.
Oxalá, para aquecer a alma, a um preço justo!

Mais um texto da autoria de Joaquim Nascimento, colaborador do "Largo da Memória", ilustrado pelo famoso óleo, "O Almoço dos Remadores", de Renoir.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Lisboa dos Anos Oitenta (I)


Lisboa há vinte cinco anos atrás era uma cidade tão diferente...
Houve transformações extremamente positivas. A maior talvez tenha sido o fim dos vários bairros de lata que cercavam a Capital em quase todas as direcções, e que eram um flagelo social.
O Município pode ter falhado em muitos aspectos – e falhou... -, mas pelo menos, pode se orgulhar de ter conseguiu oferecer melhores condições de vida e mais dignidade, a milhares de pessoas, que viviam nestes “guetos” quase como animais, sem as condições mínimas de habitabilidade.
Embora só tenha conhecido esta realidade de relance - quando passava por perto, de comboio, autocarro ou automóvel – arrepiava-me saber que havia milhares de crianças que cresciam sem um tecto decente, muitas vezes em condições de promiscuidade, que as acabavam por marcar para o resto das suas vidas...
A fotografia que ilustra este pequeno texto faz parte do Album de Eduardo Gageiro, "Lisboa no Cais da Memória", e retrata o Bairro Chinês da Marvila, em 1968.

terça-feira, fevereiro 13, 2007

O General Sem Medo


Humberto Delgado, o “General sem Medo”, foi assassinado, há exactamente, quarenta e dois anos, pela PIDE, juntamente com a sua secretária Arajaryr Campos.
Após ter decidido enfrentar o poder salazarista, com a sua candidatura à Presidência da República, em 1958, pela oposição democrática, o general passou a ter a cabeça a prémio.
Estas eleições acabaram por marcar a viragem do país, trazendo milhares de portugueses para as ruas, durante a campanha eleitoral, que se manifestaram contra Salazar, que ficou enfurecido, desde que Humberto Delgado teve a coragem de dizer em público, o que lhe faria se ganhasse as eleições: «Óbviamente demito-o», na célebre conferência de imprensa do Café “Chave de Ouro”.
Salazar tremeu pela primeira vez e viu-se obrigado a preparar, previamente, a fraude eleitoral, que proporcionaria a vitória de Américo Tomás, candidato do regime.
Humberto Delgado, após a divulgação dos resultados, fez sentir a sua indignação, acusando o governo de Salazar de fraude eleitoral. Indignação que se espalhou de Norte a Sul, com centenas de manifestações. O general só escapou ao cárcere, porque se refugiou na Embaixada Brasileira, onde pediu exílio político.
A partir desta altura Humberto Delgado andou permanentemente em cruzada contra a ditadura, percorrendo vários continentes, em busca de apoio. Envolveu-se em várias tentativas de golpes de estado, até que foi assassinado, de uma forma cobarde e animalesca, ao ter sido atraído a uma armadilha, montada por agentes da PIDE disfarçados de democratas, em Vilanueva del Fresno, Espanha, no dia 13 de Fevereiro de 1965.

Este texto está ilustrado com a fotografia da manifestação de apoio a Humberto Delgado, no Porto, que inundou as ruas da cidade, com centenas de milhares de pessoas.

domingo, fevereiro 11, 2007

Primeiros Tempos em Lisboa


Os meus primeiros tempos de Lisboa não foram fáceis. Acho que nunca são, para quase ninguém...
Quem chega da província sente um choque grande porque descobre pessoas diferentes, e sobretudo, um novo ritmo de vida. É como se de repente as horas passassem a ter menos minutos, porque tudo se passa mais rapidamente.
O facto de Lisboa ser uma cidade de gente solitária, apesar dos milhões que vivem à sua volta, faz com que também seja mais difícil fazer amigos que noutra cidade qualquer...
Tinha acabado de fazer dezoito anos, uma idade complicada, em que já não somos adolescentes, mas também ainda não somos adultos, na plenitude, apesar de já podermos votar...
Estas primeiras dificuldades foram ultrapassadas, por ter sido acolhido como um filho, pelos primos Zé e Elisete... que também passaram a viver uma experiência nova, já que não tinham filhos, e também por ter continuado a fazer atletismo, no Belenenses, onde aí sim, foi possível fazer novos amigos. Não fosse o desporto uma grande "escola de virtudes"...
Fui trabalhar como aprendiz de offset, nas artes gráficas da então EPNC (Empresa Pública Notícias e Capital), à qual estavam associados o “Diário de Notícias” e “A Capital”.
Foi aqui que tive o primeiro contacto com os “pintas” da Capital, que se julgam sempre mais espertos que quem chega de fora (e realmente esperteza é coisa que não lhes falta, embora seja quase sempre uma forma de se defenderem...) e estão sempre prontos a esticar a perna, para nos verem no chão.
Caí algumas vezes, mas levantei-me sempre pelo próprio pé, sem parar de os olhar de frente...
De uma forma quase inconsciente estava a defender-me, com a melhor arma que temos, o carácter...
Outra coisa curiosa, foi ter ido viver para a Cruz Quebrada, onde aprendi a olhar para o Tejo, Rio que nunca mais se afastou de mim...
Este texto está ilustrado com o belo óleo de Botelho, "Lisboa e o Tejo".

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

As Baleias e os Açores


Não deixa de ser curioso, que as baleias continuem a ser um elemento fulcral na economia do Arquipélago dos Açores, especialmente nas proximidades das ilhas do Faial, São Jorge e Pico.

Antes era a aventura da pesca, agora são as viagens turísticas de bote, para se observar a dança e os mergulhos da Rainha dos Mares.

Claro que a pesca era muito diferente, transmitia outra adrenalina e outros perigos aos açoreanos...
Assim que soava o alarme de «baleia à vista», corriam todos na direcção do cais, apenas com o saco de farnel (às vezes a pescaria durava horas e horas...), para prepararem os botes e os remos, assim como o pano de mastro, usado para aproveitarem o vento quando soprava de feição e fazerem-se ao mar.
Era um ritual único...

O alarme continua a ser o mesmo, «baleia à vista», mas hoje há mais observatórios e rádios para transmitir a localização dos cetáceos, sem perdas de tempo, porque os turistas estão à espera...

A fotografia que acompanha este texto é da década de cinquenta, tirada por um autor desconhecido.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Os Pêssegos da Avó Maria

Quando chegar o Verão havemos de voltar ao rio, de manhã cedinho, para comermos pêssegos maduros, ainda húmidos do orvalho da manhã, ou então escolheremos o fim da tarde para regarmos a horta, só para sentirmos o cheiro da terra molhada.
Os pêssegos do rio são os melhores pêssegos do Mundo e para o confirmar basta tactear-lhes a pele, de seguida abri-los com cuidado para que não se perca uma gota sequer do seu suco e só depois trincá-los, para apreciarmos em toda a plenitude o seu cheiro e o seu sabor.
Lindos por fora na sua pele rosada que qualquer mulher gostaria de imitar - pele de pêssego com se diz de uma pele jovem - lindos por dentro no carmim da sua concha, cujo negativo o caroço imprimiu, os pêssegos do rio foram criados para saciar bocas gulosas, mais do que estômagos famintos, e foram estes pêssegos que eu procurei sempre de cada vez que comi pêssegos ao longo da minha vida, mas raramente os terei voltado a encontrar.
Os pêssegos melhores do Mundo são os pêssegos do rio Torto, mas posso garantir que, dentre eles, os melhores são os pêssegos da avó Maria, no rio do Gato, um trecho do mesmo rio, que o rio da minha terra é um rio de muitos nomes, à medida que passa por nós ou nós por ele, nas curvas do seu destino.
Parecidos com os pêssegos da Avó Maria só as maçãs do José Francisco que ele trazia do Oeste, para oferecer à Fernanda, a nossa e não a outra, nem enormes, nem pintadas, mas que, na modéstia do seu tamanho, enchiam logo todo o espaço á sua volta com o gosto antigo da maçãs de cheiro.
Vamos então ao rio apanhar pêssegos, enquanto o orvalho da manhã os conserva frescos, e assim os teremos no mais vivo da sua cor, no mais intenso do seu perfume, no mais requintado do seu sabor!
Vamos a pé, pelo caminho velho, à ida pelos seus atalhos, pois é a descer e todos os santos ajudam, à vinda, mais devagar, por cada uma das suas curvas que ainda havemos de reconhecer, apesar de o mato ter feito um enorme esforço para apagá-las.
Quando chegarmos, uma ligeira brisa há-de agitar a folha espessa dos salgueiros, um marantéu que é o mais lindo de todos pássaros, há-de cantar num dos seus ramos mais altos, enquanto debica a primeira refeição do dia e o feno das margens há-de cheirar à roupa lavada que, na véspera, ali esteve a corar. Se tivermos sorte, esquadras de libelinhas hão-de voar ao rés-da-água e com elas vamos espreitar o fundo do rio, de calhaus rolados e água pura.
No próximo Verão havemos de voltar ao rio, para nos emocionarmos com a sorte dos pessegueiros que já ninguém cultiva e para lamentarmos que tenha desaparecido das vargens o cheiro fecundo da terra regada.
No próximo verão, uma última vez !


Este bonito texto da autoria de Joaquim Nascimento está ilustrado com a "Ponte Rústica de Colares", óleo da autoria de Alfredo Keil.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Um Desenho Que Vale Por Mil Palavras...





Este excelente desenho do Rui, cartoonista da revista "Visão", apesar de ter sido publicado a 29 de Janeiro de 2004, continua tão actual...
Como podem observar, vale bem mil palavras (claro, as hipócritas, espalhadas pelos, cada vez mais imaginativos, defensores do não...).

sábado, fevereiro 03, 2007

O Pescador da Barca Bela


«[...] Quando via alguém mais idoso, agarrado a uma rede, recordava-se sempre de um velho lobo do mar da Nazaré que originara uma crónica sobre esse extraordinário pescador cheio de rugas e cabelos brancos que o enchia de orgulho.
De tempos a tempos lia o recorte de jornal com a sua assinatura. Era como se voltasse por breves instantes ao convívio com aquele homem cujas emoções à flor da pele se confundiam com as ondas do mar: Chamam-lhe velho e já não o deixam ir ao mar... mas Valdemar continua a sentir a mesma vontade de partir, ao desafio, pelo interior das ondas do Atlântico que continuam a bater próximo do seu coração.
Ele não consegue esconder o desgosto de ficar em terra, enquanto os outros se aventuram pelo mar fora. Sente que remendar redes não é digno como final de vida, de quem desde os treze anos começou a ir para o mar, desafiando os muitos demónios que se banhavam nas águas da Nazaré.
Na vila todos o conhecem por “Leão do Mar”, uma alcunha com mais de cinquenta anos, fruto das muitas aventuras vividas ao longo dos seus setenta e um anos, curtidos pelo sal e sol da vida, algumas das quais se transformaram em lendas!...
Valdemar foi um dos poucos pescadores da sua geração que aprendeu a nadar, ao ponto de ser requisitado no Verão, durante décadas, como nadador salvador da bonita praia da Nazaré.
Salvou centenas de pessoas da morte certa na época balnear, sem esquecer alguns amigos de profissão, corajosos, que desafiavam o mar, sem sequer se conseguirem manter à tona de água.
Ele nunca aceitou de bom grado que grande parte dos seus companheiros não soubessem nadar, agarrados à desculpa de que em caso de naufrágio, o sofrimento seria menor, esquecidos das ínfimas possibilidades que teriam de sobreviver a qualquer contratempo caso se deslocassem dentro de água. Foi por isso que ensinou muitos pescadores, menos dados à teimosia a nadar.
Mas não é só por isso que todos os respeitam, e lhe perguntam coisas sobre o mar. O velho Valdemar é uma verdadeira enciclopédia marinha, conhece quase todas as espécies de peixes, sabe os seus círculos de vida, onde se deslocam para desovar, e quais são as épocas em que se encontram mais saborosos, preparados para servirem de pescado.
Lutou anos a fio pela construção de um Porto de Abrigo, de mão dada com os companheiros de pescaria, fartos de enfrentar as ondas violentas do mar da vila, e de ter de deixar os barcos ancorados na Baía de São Martinho do Porto.
Orgulha-se de, actualmente, a vida dos pescadores da Nazaré estar mais facilitada. Com o porto de abrigo já podem entrar no mar sem levarem banhos das ondas violentas, que em dias de fúria conseguiam virar os barcos na zona de rebentação, e lançar o pânico na vila.
Valdemar acaricia os seus cabelos brancos, sem perder de vista o mar, enquanto percorre o passeio à beira do mar.
Continua a acreditar que tem um lugar guardado no cemitério do oceano, e espera, pacientemente, por uma oportunidade para cumprir o seu destino. Quer ir ter com o pai, o tio, o irmão e uma mão cheia de amigos, nem que seja no seu velho barco a remos.
Nuno não sabia o que era feito de Valdemar - há mais de três anos que não visitava a vila da Nazaré -, mas continuava a sentir que o velho lobo do mar seria sempre o seu “Pescador da Barca Bela”, onde quer que estivesse. [...]
Texto extraído do livro de contos, "Um Café com Sabor Diferente", de Luís Alves Milheiro e ilustrado com o óleo, "Concertando a Rede", de João Vaz.