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terça-feira, maio 12, 2020

Máscaras, Liberdade e Repressão...


Não é preciso ser um "ás" em futurologia, para perceber, que mais semana menos semana, seremos todos obrigados a andar de máscara na rua.

Isso irá acontecer por três razões; já existem máscaras no mercado suficientes para o país inteiro;  cada vez vai haver mais gente na rua (e maior perigo de contágio); continuam a existir pessoas (de todas as idades) que demonstram gostar mais de "repressão" que de "liberdade". Ou seja, só cumprem algumas regras elementares do civismo, se forem "obrigadas"...

Será bom se eu estiver errado. 

Provavelmente não haveria necessidade de "ir tão longe", se respeitássemos mais o espaço dos outros, mas...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sábado, maio 09, 2020

"O Único Homem que Sorria"


«A cidade já não estava tão deserta, via-se gente em quase todas as ruas, umas com máscaras outras não. A distanciação era uma marca deste tempo. Percebia-se que as pessoas que circulavam em grupo eram famílias ou grupos de amigos, estrangeiros, que deveriam viver em comunidade.
Eu continuava a circular sem máscara (estava no bolso, com o pequenito frasquito com álcool...), mas guardando mais que a distância recomendada, dos outros.
Quando passei próximo da florista reparei que um homem com quem me cruzei, olhava de uma forma fixa para mim. Estava de máscara, e coisa estranha, percebi que me sorria.
Alguns metros mais à frente consegui colar um rosto aquele "mascarado". Era o Artur "Mãos Limpas", que trabalhou na secretaria de um jornal para o qual colaborei. Nesse tempo (há uns bons vinte anos...) ele tinha características únicas. Além de passar a vida na casa de banho a lavar as mãos, mantinha alguma distância dos outros, sempre que podia, penso que fazia isso sobretudo por uma questão de "higiene mental". E tinha sempre no bolso, um pequeno frasco de álcool, uma grande ajuda para quem se sentia "obrigado" a viver num mundo repleto de "nódoas", entre outras imundices.
Talvez aquele seu sorriso fosse de quase vitória. Talvez me quisesse dizer, que agora todos tinham de fazer o que ele sempre fizera. Finalmente acreditavam nas pragas de "vírus" que vivem a nosso lado. Nunca deve ter pensado é que seria a China a transformá-lo numa "pessoa normal". 
E logo ele, que nunca entrou em nenhuma dessas lojas de bugigangas baratas de usar e deitar fora...» 

Microconto escrito ontem, no começo da noite, apenas porque sim... e claro, o Artur "Mãos Limpas" não passa de uma personagem...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

sexta-feira, maio 08, 2020

«Nem todo o acto criativo é solitário»


Quando Ela me disse que «Nem todo o acto criativo é solitário», estava a pensar sobretudo no seu teatro, em como tudo aquilo funciona, quase sempre no colectivo. 

E tinha razão. Há uma grande diferença entre escrever ou pintar e ensaiar, teatro ou música.

Sei que se estivesse uma terceira pessoa à conversa connosco, era capaz de dizer que eram coisas diferentes, que as peças de teatro ou de música, estão ser interpretadas, que o processo criativo já tinha decorrido antes. Sim, mas mesmo estando em estados diferentes, a interpretação não é um espaço fechado, continua a existir lugar para a criação, para a mudança, para a melhoria. E por isso mesmo, não deixam de ser espaços criativos.

Muitas vezes escrevemos a pensar num determinado acontecimento e quase que esquecemos todas as outras coisas que circulam à nossa volta...

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)

quinta-feira, maio 07, 2020

O Acto de Criar e o "Cu do Mundo"


Continuo a pensar que uma boa parte do acto criativo não se dá bem com uma vida demasiado certa e faustosa.

As dificuldades (que não precisam de ser extremas, ao ponto de não se ter comida no frigorífico ou uns trocos para beber uma bica ou comprar um maço de cigarros, para quem precisa de um pouco de fumo na vida...) fazem parte do dia a dia do "artista".

Ele gosta das "margens", precisa de se revoltar com o que vê, mas também com o que vive.

E Portugal continua a ser um país cheio de oportunidades, capaz de nos oferecer de "mão beijada", demasiadas personagens e situações absurdas, que além de terem o condão de nos chatear, também nos inspiram, mesmo que isso aconteça da pior maneira.

Há sempre um conto, uma canção, um filme ou uma peça de teatro, com um "filho da puta" e com uma "injustiça", na parte que não fica visível...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

segunda-feira, maio 04, 2020

Jesus e os "Vendilhões do Templo"


A Igreja Católica, por breves espaços, quis ser uma "empresa", imitando as que, quando as contas do mês ficam a negativo a primeira coisa que fazem, é dispensar trabalhadores e bater à porta do Estado, tentando tapar com a "peneira" os meses e meses, com lucros chorudos, que para não reverterem para o tal Estado (que agora sabe bem...), são "investidos" em iates, apartamentos de luxo ou carros topo de gama.

Mas as coisas são o que são. O culto religioso é cada vez mais um negócio, seja ele católico, protestante, evangélico ou outra coisa qualquer. 

E o profético Jesus da Nazaré, nem nestas alturas é exaltado ou recordado (nem um milagre lhe pedem, tornou-se mais fácil bater à porta do "Costa"...), muito menos usado como exemplo - pelo seu desapego aos valores materiais - pelos "vendilhões do templo"...

(Fotografia de Luís Eme - Fátima)

sábado, maio 02, 2020

Quem Nasceu como Cigarra nunca Será Formiga


Começa a ser normal repetir-me por aqui no "Largo", por duas ou três razões. Escrevo mais sobre o "universo cultural", por ser o meio a que pertenço (mesmo que muitas vezes esteja com um pé dentro e outro fora...). 

Por os problemas sociais se repetirem sempre que há uma crise, agudizando e tornando ainda mais visíveis as diferenças de estatuto social (mesmo dentro da mesma profissão, por exemplo, há actores e actrizes - as "prima-donas" das telenovelas -, que nunca sentiram na pele nenhuma crise...). Por algumas pessoas nunca aprenderem, que o amanhã está logo a seguir ao hoje... Sim, eu também tenho amigos assim, em que a diferença entre ganhar mil e cinco mil euros num mês, está nos restaurantes que frequentam, ou no fim de semana que desfrutaram em Londres ou Paris... mas depois, no final do mês, a conta volta a estar como sempre, igual a zeros.

Este desequilibro é provocado pela atracção natural de quase todos nós, por uma vida deliciosamente incerta, sem essas coisas dos trabalhinhos das nove às cinco. Ou seja, a liberdade é muito boa, mas sempre teve coisas do caraças... 

Quem nasceu como "cigarra" nunca será "formiga". E ponto final.

(Fotografia de Luís Eme - Arealva)

sexta-feira, maio 01, 2020

Festejar Maio à Beira Tejo


Hoje esteve um dia demasiado bonito para se ficar fechado em casa.


As duas margens do Tejo devem ter sido escolhidas por muitas pessoas, para passear, ou para ficar por ali, a apanhar um solinho e esquecer a "nuvem" que veio da China...

Fotografias de Luís Eme - Fonte da Pipa)

quinta-feira, abril 30, 2020

Partir e Chegar de Cacilheiro...


Hoje fui à Lisboa, de cacilheiro.

Na viagem para a Capital correu tudo normalmente, como não havia muita gente, foi fácil "manter a distância"...

No regresso a Cacilhas as coisas foram mais complicadas. Assim que o sinal de abertura do portão soou as pessoas deixaram de se preocupar com as distâncias, só faltou correrem para serem os primeiros a entrar no barco, como se estivéssemos a viver tempos normais.


Por imaginar que à saída seria igual, fui dos últimos a sair do cacilheiro (mas não resisti à tentação de tirar uma fotografia de uma das janelas do "primeiro andar" - as fotografias publicadas são da tarde de hoje...).

Em situações como esta, não há qualquer dúvida, tem de ser mesmo obrigatório, o uso de máscaras em transportes públicos (apenas um terço dos passageiros usavam máscara...).

Também estranhei que não houvesse qualquer controle nas entradas de passageiros (os últimos a entrar acabaram por sentar próximo de mais, de quem já estava sentado...).

(Fotografias de Luís Eme - Lisboa e Cacilhas)

quarta-feira, abril 29, 2020

Vou Esperar Sentado pelo "Mundo Novo"...


Embora o carro cá de casa também esteja "confinado", tem circulado, pelo menos uma vez por semana , para o que não nos é possível fazer a pé.

Mais de um mês depois já estava a entrar na reserva e lá fui a uma bomba... que descobri ter ganho um "pedinte oficial". Aproximou-se de mim, mais do que devia, quando estava a preparar-me para abastecer o depósito e disse-lhe para se afastar, para ter juízo e respeitar os outros neste tempo estranho. Afastou-se ligeiramente e pediu-me a moeda que eu não tinha (pois é, há muito tempo que não uso "dinheiro vivo"...) e deve ter ficado a pensar que não lhe dei nada por má vontade, enquanto se afastava.

Quando regressava ao carro fiquei a pensar que deveria ter pago o gasóleo com uma nota, para ficar com uma moeda para dar ao rapaz, quase imundo, que não devia ter mais de trinta anos. 

Embora não sirva de desculpa, esta "doença" faz com que sejamos ainda mais rápidos e distantes em quase tudo o que fazemos, roubando-nos o tal bocadinho de "humanidade", que devíamos ter. Embora alguns sonhadores mentirosos finjam acreditar que quando tudo isto acabar, vamos ter "um mundo novo"...

Quando comecei a conduzir lembrei-me dos meus  amigos e companheiros dos almoços de segunda-feira, da "tertúlia do bacalhau com grão". Dos seus  sorrisos, da partilha de  histórias giras e de anedotas, mas também dos quase gritos de indignação - libertados maioritariamente pelo Viriato - contra este capitalismo selvagem (o Carlos é o único que tolera o capitalismo, provavelmente pelo seu passado empresarial...), que vai criando vários "bancos alimentares", aqui e ali, como suporte da desigualdade com que se vai alimentando, dia após dia.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

domingo, abril 26, 2020

"Abril Floria" (com malas à porta)


O mês de Abril simboliza muitas coisa bonitas, que ultrapassam as boas memórias revolucionárias, graças à Primavera, que ano após ano, nos carrega de esperança e de vida...

Por ser domingo, decidi colocar aqui mais um poema da tal exposição abrilenta, que têm "inundado" os meus blogues, com cravos e poesia. 

Embora este meu poema de "despedida" seja diferente, seja mais reflexivo...

Abril Floria

Fazias as malas
enquanto la fora ABRIL FLORIA.
Sabias que não havia
lugar para ti neste país
onde se continua a fingir
que se vive em democracia...

Utilizei o meu filho como modelo e também o título de uma peça, que estava então no Teatro Azul de Almada ("Turismo Infinito", 2014), desgostoso por o meu país ser governado por um primeiro-ministro que aconselhava os nossos jovens a emigrar... porque cá não havia espaço para eles.

Não é só triste. Economicamente também é um desastre, porque muitos destes jovens, formados superiormente, já não voltam...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


terça-feira, abril 21, 2020

Andava às Voltas com Jornais e Revistas Antigos, quando me Apareceu um Grande Cronista...


Passo os dias a remexer revistas e jornais antigos (sim, que o jornal com um dia já passou do prazo... dantes servia logo para embrulhar coisas, agora menos). Guardo algumas páginas - mais do que devia -, transcrevo algumas frases, e o resto, vai para a reciclagem.

Hoje parei os olhos na revista "Ler", de Junho de 2014, e fiquei a reler a entrevista de Ferreira Fernandes, que há meia-dúzia de dias deixou de ser director do "Diário de Notícias" (segundo consta, por não aceitar a passagem da redacção para "lay-off").

Gostei de saber o porquê desta coisa das notícias e das crónicas, na primeira pessoa. «Sou jornalista por três razões: porque nasci para isso, porque tirei o curso da vida que me permitiu ver muito e porque nunca estudei jornalismo e li sempre jornais.»

É um grande cronista. Uma coisa que não se aprende em nenhuma escola. E nem precisa de escrever sempre contra alguém, como faz o barbudo careca do "Governo Sombra" e como fazia o sempre pouco Pulido e pouco Valente...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

quarta-feira, abril 15, 2020

Não Basta "Publicitar" a Solidariedade...


Espero que os responsáveis pelos canais de televisão, que se mostram sempre muito expeditos a divulgar e a participar em acções de solidariedade telefónicas, estejam atentos aos dramas humanos que os envolvem. 

É importante que não se "esqueçam" também de praticar a solidariedade para  com os muitos trabalhadores precários que lhes prestam serviço (mesmo que as suas contratações sejam feitas por produtoras independentes - muitas vezes com um único vínculo: o chamado "31 de boca"...).

Mesmo sabendo que isso não é muito bom para o "espectáculo", gostava que se lembrassem-se de todos aqueles, que ao deixarem de trabalhar, deixaram de receber  ordenado (desde técnicos a actores)...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

domingo, abril 12, 2020

Um Olhar Pascal


A Páscoa é diferente do Natal, não é tanto da família, mas é muito de reencontros e de viagens...

Se os espanhóis adoram vir até ao nosso lado (de Norte a Sul, era costume encontrarem-se em todo o lado, o que lhes dava direito a algumas "piadas" nossas...), nós também gostamos de ir aqui e ali.

Claro que falo muito por mim, por esta quadra ser sempre aproveitada para fazer "mini-férias" no interior, para fazer coisas diferentes...

Estou convencido que no próximo ano as coisas já terão voltado à normalidade. Ouviremos a "língua apressada" (e ruidosa) dos "nuestros hermanos", por tudo o que é sitio, e poderemos voltar a alguns lugares que nos fazem felizes...

(Fotografia de Luís Eme - Idanha-a-Velha)

quinta-feira, abril 09, 2020

Uma Páscoa sem Andorinhas, Oliveiras e Procissão...


Há praticamente duas décadas que íamos passar a Páscoa à Beira Baixa. Tornou-se mais que uma tradição...

Se a razão "maior" era abrir a casa de família, que por lá está fechada o ano inteiro, as "menores" não lhe ficavam atrás. Sim, acordar com o chilrear das imensas aves de pequeno porte, que animavam os campos, com destaque para as andorinhas que todos os anos faziam ninho na varanda do primeiro andar; espreitar à janela e ficar encantado, porque a única coisa que se vêem são campos floridos cheios de oliveiras, que se perdem no horizonte; ou entrar dentro da noite com um céu completamente estrelado, são coisas inesquecíveis para quem vive na cidade...

E depois, na sexta-feira santa, ainda tínhamos a "procissão cantada", que costumávamos apanhar a meio caminho, onde era possível ver a "Verónica", a subir um banco e a estender o pano com o rosto de Cristo, num grito quase cantado. Procissão que dava a volta pela Aldeia e era digna de se ver...

Este ano a nossa Páscoa, será diferente, assim como a de milhões de pessoas, por esse mundo fora...

(Fotografia de Luís Eme - Alcafozes)

quarta-feira, abril 08, 2020

Uma Primavera Diferente


A Primavera continua a ser estação do ano mais bonita, e mais agradável, para se passear por aí (eu sei que não se deve...), e se for pelos campos, melhor.

Neste ano de 2020, em que Abril tem feito jus ao ditado das "águas mil", continuam a crescer flores em todos os recantos, mesmo que esta seja uma Primavera diferente...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

segunda-feira, abril 06, 2020

O "Covid", os Jornais e os Livros...


Neste momento de grande indefinição social, já se percebeu que há mudanças que vieram para ficar. O "tele-trabalho" será uma delas. Não tenho dúvidas que irá aumentar, em todos os sectores da sociedade, porque irá permitir reduções de despesas nas contas de "quem mais ordena".

Mas há dois sectores que me são queridos, que não voltarão a ser os mesmos. Falo do jornalismo e da literatura. A quebra das vendas nas bancas e da publicidade na imprensa irá acabar quase com a sua venda "em papel", a curto prazo.

O comunicado assinado por duas dezenas de directores de jornais e revistas sobre o aumento da "pirataria" (distribuição por e-mail, de forma gratuita - em pdf - para a rede "infinita" de amigos de jornais e revistas...), é o primeiro sinal do "medo" que impera num sector essencial, que tenta informar-nos segundo as regras  e de forma isenta, combatendo o "reino da mentira" nas redes sociais. Mas é também o alerta para um crime.

Só há uma maneira de ajudarmos, é assinarmos alguns deste órgãos de comunicação social - e até há boas promoções. Eu fiz mais duas assinaturas digitais (já era assinante de um semanário), de dois diários, um desportivo e outro generalista.

Já em relação aos livros, ainda não fiz nenhuma compra (não me faltam livros cá em casa para ler...), mas vou fazer, esta semana.

Estas são apenas duas das muitas maneiras que existem, de ajudar a nossa economia e quem trabalha (e tem de continuar a viver...).

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

domingo, abril 05, 2020

Acordar e Pensar...


Embora não seja tempo para fazer balanços, do que quer que seja, hoje acordei a pensar em toda esta alteração de rotinas no nosso dia-a-dia.

E fiquei com algumas certezas, comuns a todos: estamos a ficar, diariamente, mais "velhos", mais "cansados", e sobretudo, mais "frágeis"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

sábado, abril 04, 2020

O "vale tudo" de ontem e o "vale nada" de hoje...


Nunca pensei que o "el dourado" dos novos senhorios de Lisboa e do Porto, que trataram de correr com os moradores - quase sempre gente de idade - das casas que habitavam há décadas, para depois as transformarem em "hostels", tivesse uma "vida rica" tão curta.

Não será nada estranho, que num destes dias, apareçam por aí de mão estendida para o Estado, a ver se "cai" algum subsídio... Porque, o "vale tudo", com que encheram os dias e os bolsos, agora, não "vale nada"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

quarta-feira, abril 01, 2020

Parece Mentira (mas não é)...


Se no começo do ano alguém dissesse que iríamos começar o mês de Abril (que promete ser de águas mil...), fechados em casa, a ver o tempo passar - por aqui não passa tão lento quanto isso, continuo a deixar sempre coisas para fazer amanhã... -, a sentir no corpo e na alma, os efeitos de uma "clausura" inédita e estranha, para evitar o caos, ou pelo menos fazer com que ele apareça mais tarde e com efeitos menos nefastos.... diria que se tratava de ficção. Sim, da matéria com que se começam a "desenhar" os livros e os filmes...

Apesar de me sentir "prisioneiro", penso que estamos a fazer a coisa certa.

Talvez seja esta a única vantagem de não se ter uma economia forte, na hora de de "fazerem contas", não se torna tão difícil pensar mais nas pessoas que no dinheiro...

(Fotografia de Luís Eme - Monte da Caparica)

segunda-feira, março 30, 2020

O Mestre, os Filmes e os Livros


Hoje estive a consultar algumas revistas antigas e acabei por ler algumas apreciações de Manuel de Oliveira (nestes anos sessenta do século passado ainda não era Manoel...), sobre o cinema desse tempo, e também de alguns jovens realizadores (Fernando Lopes, Paulo Rocha e António-Pedro Vasconcelos).

Gostei da sua serenidade e abertura (mesmo depois dos seus 100 anos de vida, continuava igual...) e também de sentir o quanto era respeitado e admirado pelos cineastas do chamado "cinema novo". Era praticamente a única figura que era tida como referência do pobre cinema português de então.

Embora não seja um apreciador do seu cinema (fez muitas vezes o mesmo filme...), demasiado poético e teatral, ficou para a história como alguém que fez sempre os filmes que quis fazer, e não os que queriam que fizesse.

Quando ele disse: «É necessário que haja um cinema individual, ainda que exista outro que o não seja. O que é necessário é que haja um cinema meramente artístico e outro espectacular. Não se combatem, completam-se», estava cheio de razão.

E era um cavalheiro. Adaptou vários livros de Agustina para o cinema, que ela não gostou e disse-o publicamente (de forma desagradável)... mas ele nunca lhe respondeu. Aliás, respondeu, quando disse numa entrevista: «Há uma diferença muito grande entre o que é cinema e o que é um livro. A transposição de um livro para o cinema é uma coisa extraordinariamente difícil e nunca há correspondência.» Ela, provavelmente, fingiu que não percebeu...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)